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31 março 2026

Fundação IFRS e doações brasileiras

Eis o volume de doações oriundos do Brasil. Não é pequena demais? Qual o sentido da falta de apoio do Conselho Federal de Contabilidade?
 

Fundação IFRS: Salários em questão

A gestão de uma entidade sem fins lucrativos que dita as regras do capitalismo global exige um equilíbrio delicado entre austeridade e a necessidade de atrair talentos de primeira linha. Nas demonstrações financeiras de 2025, um ponto que merece ser considerado é o custo da cúpula diretiva em um momento de cortes operacionais.

Em 2025, a remuneração dos líderes da Fundação permaneceu em patamares elevados. O Chair do IASB (Andreas Barckow) e o Chair do ISSB (Emmanuel Faber) receberam, cada um, aproximadamente £610.500 anuais. Somando-se a eles os Vice-Chairs (cerca de £523.500 cada) e os membros dos Boards em tempo integral (£485.400), o gasto total com da direção atingiu £12,3 milhões. É bom lembrar que a receita foi de 51 milhões. 

Para o mercado de executivos de alto padrão em Londres ou Nova York, esses valores podem parecer competitivos. Entretanto, para uma fundação que sobrevive de doações e que reduziu seu quadro de funcionários de 369 para 321 pessoas em um ano para transformar um déficit em superávit, esses salários representam uma parcela rígida e significativa dos custos totais de remuneração.

A escolha de sedes reflete diretamente na pressão salarial. Ao manter sua base principal em Londres, uma das cidades mais caras do mundo, a Fundação IFRS se obriga a pagar salários inflacionados pelo custo de vida local. O contraste com o seu equivalente americano, o FASB, é notável: sediado em Norwalk, Connecticut, o órgão dos EUA opera em uma cidade menor, com custos operacionais e de vida inferiores aos de um centro financeiro global.

Além do custo fixo em Londres, o ISSB trouxe uma nova complexidade financeira: o compromisso de manter escritórios em locais como Frankfurt, Montreal, Pequim e Tóquio. Embora essa presença global seja politicamente necessária, ela cria uma estrutura cara.

O relatório confirma que a Fundação pretende manter a disciplina de custos, e há discussões sobre a otimização do tamanho dos Boards para o futuro, visando maior agilidade. Contudo, enquanto a cúpula mantiver salários de padrão corporativo e uma estrutura geográfica tão ampla, o desafio será provar aos doadores que cada libra investida está indo para a produção técnica, e não apenas para sustentar uma máquina administrativa pesada.

Fundação IFRS: Fit mesmo?

A publicação das demonstrações financeiras de 2025 da Fundação IFRS traz, à primeira vista, números que inspiram confiança. O superávit de £1,5 milhão e a robusta posição de caixa de £43,6 milhões parece indicar uma instituição financeiramente saudável. Mais do que isso: o relatório foi produzido sob o pressuposto da continuidade operacional (going concern), endossado sem ressalvas pelo parecer dos auditores independentes. O tom da gestão é de otimismo, celebrando as conquistas.

Contudo, o otimismo de curto prazo não deve ocultar os desafios de médio e longo prazo. Recentemente, autoridades reguladoras nos EUA insinuaram que a questão financeira da Fundação — e especificamente do seu braço de sustentabilidade, o ISSB — exige atenção.

É preciso contextualizar aqui: o ISSB nasceu sob um modelo de seed funding (financiamento semente), garantido por doadores e jurisdições para os primeiros anos de operação. Esse financiamento está chegando ao fim. Embora o relatório destaque a conquista de novas promessas, sendo "prudente", como gosta de escrever a Fundação, podemos afirmar que isso não garante o futuro do projeto ISSB.

O ISSB precisa provar que pode ser sustentável quanto o IASB. Até agora, o conselho oriundo da COP entregou duas normas principais (IFRS S1 e S2). Embora o relatório aponte trabalhos em andamento, a produção normativa — que gera receita por meio de licenciamento de dados e publicações — ainda é tímida se comparada ao IASB.

A "vibe" da sustentabilidade, que impulsionou o mercado há poucos anos, enfrenta hoje resistência. Isso expõe uma vulnerabilidade que sempre esteve presente no orçamento da Fundação: a alta concentração de doadores. Enquanto a Europa continua sendo o aliado de peso, parceiros como China e Japão mantêm uma amizade cordial, porém cautelosa, e os EUA preservam uma distância respeitosa que impede uma adesão financeira em larga escala. Os outros países, como o Brasil, são, sem qualquer pudor, "caronas" do esforço realizado pela Fundação.

Há o problema da rigidez das despesas. Apesar dos cortes recentes que reduziram o quadro para 321 funcionários, a Fundação quase dobrou de tamanho nos últimos anos para acomodar a nova estrutura e em diferentes lugares. Grande parte dessas despesas é fixa, composta por salários de alto nível da cúpula e especialistas técnicos.

Sem um novo aliado de peso ou uma adesão global massiva que transforme o ISSB em uma máquina de receita recorrente, a Fundação IFRS terá que equilibrar uma estrutura de custos pesada com um financiamento que ainda depende da boa vontade de poucos. A continuidade imediata está garantida; a sustentabilidade do modelo, no entanto, permanece em questão.

Fundação IFRS e os números de 2025

A Fundação IFRS publicou hoje suas demonstrações financeiras referentes ao exercício de 2025, revelando um cenário de recuperação e ajustes estratégicos. Vamos para os números contábeis nessa postagem. O relatório anual, intitulado "Fit for the Future" (Preparada para o Futuro), mostra como a instituição lidou para tentar garantir a viabilidade de seus dois conselhos emissores de normas: o IASB e o ISSB.

O balanço apresenta que a Fundação registrou um superávit de £1,5 milhão, recuperando-se do déficit de £1,7 milhão do ano anterior. A receita total cresceu para £51,3 milhões, impulsionada por um aumento nas contribuições jurisdicionais e receitas de publicações.

Um dos pontos mais sólidos da Fundação é a posição de liquidez. A geração de caixa operacional foi positiva, permitindo que a Fundação encerrasse o ano com £43,6 milhões em caixa e equivalentes (versus £35,5 milhões do exercício anterior). Além disso, a estrutura de capital permanece conservadora, operando com recursos próprios.

O relatório traz um ponto interessante, ao contemplar números separados do Iasb e do Issb. O Iasb é o pilar de estabilidade, com receitas consolidadas provenientes de contribuições voluntárias de longo prazo e licenciamento de dados. O conselho de sustentabilidade ainda vive uma fase de transição, apesar de ter alguns números mais significativos que seu irmão mais velho. 

30 março 2026

Contador de Epstein não viu nada de impróprio


O depoimento de Richard Kahn, antigo contabilista e gestor de confiança de Jeffrey Epstein, revela a complexa estrutura financeira que sustentava as atividades do falecido financista. Kahn, que atuou como co-executor do espólio, afirmou em tribunal nunca ter presenciado qualquer atividade imprópria ou ilegal durante os anos em que geriu as contas e as empresas de Epstein.

É bom lembrar que o criminoso Epstein deixou, no seu testamento, parte do dinheiro para Kahn.  

IFRS 16, IA e Iasb


 Eis o texto do excelente Iasplus

Este relato detalha uma iniciativa pioneira do IASB (International Accounting Standards Board): o uso de Inteligência Artificial (IA) para analisar as práticas de divulgação contábil de 753 empresas sobre arrendamentos (IFRS 16) em 2024.

O resumo destaca os seguintes pontos:

Metodologia e Abordagem

A equipe técnica treinou a IA para examinar as demonstrações financeiras consolidadas, incluindo a tradução automática para o inglês de relatórios publicados em outros idiomas. O objetivo foi medir a prevalência de certas informações e avaliar a qualidade das divulgações dos arrendatários.

Design e Validação

Houve uma fase piloto com 50 entidades para refinar os prompts (comandos). A equipe realizou verificação manual de uma amostra dos resultados e exigiu que a IA fornecesse referências diretas (excertos e números de páginas) para garantir a rastreabilidade dos dados.

Limitações Identificadas

O IASB foi transparente sobre os desafios da ferramenta:

  • Formatação e Terminologia: A IA é sensível a variações de estilo e termos sinônimos, o que pode gerar falsos negativos ou positivos.

  • Confiabilidade: Perguntas "fechadas" (Sim/Não) mostraram-se muito mais eficazes do que análises abertas.

  • Margem de Erro: Devido ao volume de dados, não foi possível validar 100% das respostas, portanto os resultados são indicativos, não determinativos.

Conclusão

Apesar das limitações, a IA permitiu processar uma quantidade massiva de dados em tempo recorde, fornecendo insights valiosos que seriam inviáveis através de uma revisão puramente humana.


Parabéns pela divulgação do método. Nem sempre uma organização possui uma evidência clara que está usando a IA para fazer o trabalho mais eficiente. Mas creio que no relatório divulgado poderia ter um link para os arquivos com os resultados. O público externo poderia verificar cada caso e ajudar na qualidade do trabalho. 

Novas minutas GRI

A Global Reporting Initiative (GRI) publicou minutas de exposição (exposure drafts - EDs) para as normas GRI com o objetivo de fortalecer o relato e a gestão da poluição. As EDs estão abertas para comentários até 8 de junho de 2026.

As seguintes minutas de exposição foram publicadas:

ED Poluição do Ar: Nesta minuta, a GRI propõe uma nova norma sobre poluição do ar que, em comparação com as normas existentes, inclui requisitos de divulgação mais amplos e profundos sobre:

  • A gestão dos impactos da poluição do ar;

  • Metas de redução de emissões de poluentes atmosféricos e o progresso em direção a essas metas;

  • A extensão das emissões de poluentes atmosféricos; e

  • Incidentes relacionados a emissões de poluentes atmosféricos.

ED Poluição do Solo: Nesta minuta, a GRI propõe uma nova norma sobre poluição do solo que inclui divulgações sobre a gestão dos impactos da poluição do solo, a extensão dos poluentes liberados no solo e incidentes relacionados à poluição do solo.

ED Incidentes Críticos: Nesta minuta, a GRI propõe uma nova norma sobre incidentes críticos que, em comparação com as normas atuais, amplia o escopo de "vazamentos significativos" para todos os incidentes críticos e traz novas divulgações sobre:

  • Informações sobre prevenção, preparação e resposta a incidentes críticos, bem como os planos estabelecidos;

  • Incidentes críticos registrados; e

  • O tipo e a quantidade de vazamentos, incluindo o material derramado.

 Para aqueles que acham que sustentabilidade começar e termina no ISSB. Fonte: Iasplus

Tesouro holandês sofre ataque cibernético

Eis um trecho 

O Ministério das Finanças da Holanda informou os membros do Parlamento, em uma carta nesta segunda-feira, sobre um "acesso não autorizado" a vários de seus sistemas bancários, incluindo o portal digital de gestão bancária do Tesouro.

"Devido à investigação forense em andamento e por razões de segurança, diversos sistemas foram temporariamente retirados do ar, incluindo o portal digital de gestão bancária do Tesouro", escreveu o Ministro das Finanças, Eelco Heinen, na carta.

Heinen alertou que o ciberataque resultou em "cerca de 1.600 instituições públicas que mantêm seus fundos no Ministério das Finanças" estando "atualmente impossibilitadas de visualizar digitalmente o saldo de suas contas no Tesouro".

Ele continuou: "Os participantes da gestão bancária do Tesouro incluem, entre outros, ministérios, agências, entidades jurídicas com atribuições estatutárias, instituições de ensino, fundos sociais e governos descentralizados".

"Também não é possível, temporariamente, que os participantes solicitem empréstimos, depósitos ou facilidades de crédito através do portal, alterem o limite intradiário ou gerem relatórios", alertou Heinen. (...)

IA no setor público: uma reflexão necessária

Um texto do Tech Policy Press discute o uso de inteligência artificial por parte do governo. Como em algumas situações, a IA está tomando decisão e estruturando a forma como o governo exerce sua autoridade, os problemas são importantes. Em diversos casos, não há um supervisão adequada ou um mecanismo de recurso para as pessoas que são afetadas. 

O caso dos Correios no Reino Unido é um alerta sobre a confiança cega em sistemas de controle financeiro. Ao implementar o software Horizon (da Fujitsu), a agência ignorou bugs que apontavam faltas de caixa inexistentes. Relatórios contábeis falhos foram usados como prova para punir e prender funcionários inocentes. A tragédia só foi interrompida quando a escala dos erros evidenciou a baixíssima qualidade tecnológica e a falta de mecanismos de controle e governança da própria agência.ue 

Esse é o primeiro ponto: a dificuldade de auditar decisões tomadas por sistemas que impacto os usuários dos serviços. O segundo aspecto é que a legislação atual não acompanha a velocidade do serviço. E nada garante que a IA irá decidir de forma justa, ou simplesmente irá reproduzir os vícios e erros das decisões passadas. 


Se uma pessoa revisa os resultados, aprova recomendações ou retém a autoridade para intervir, presume-se que a responsabilidade permanece humana. Esse modelo fazia sentido quando sistemas automatizados apoiavam decisões isoladas. Mas os sistemas de IA contemporâneos podem aprender com dados, atualizar modelos internos e otimizar múltiplas variáveis sem instrução humana explícita em cada etapa. Sistemas agentes vão além, executando processos contínuos e estabelecendo objetivos intermediários. Eles estruturam como o julgamento é exercido, em vez de meramente informar escolhas. Nesse ambiente, é cada vez mais inadequado assumir que a revisão na ponta final possa sustentar uma responsabilidade pública significativa.

Essa mudança não é mais teórica. Governos estaduais e locais já estão utilizando sistemas que moldam decisões ao longo do tempo e entre domínios. (...)

29 março 2026

Origens da Escola de Comércio de São Paulo


Eis o resumo:

O artigo examina as relações institucionais entre a Faculdade de Direito de São Paulo (FDSP) e a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) entre 1902 e 1932, duas instituições de destaque localizadas no Largo de São Francisco, em São Paulo. A pesquisa é relevante em função da importância histórica de ambas as entidades para o desenvolvimento local, regional e nacional, especialmente no início do século XX, período caracterizado pelo crescimento da produção cafeeira e pela transformação econômica, política e social de São Paulo. O objetivo central do estudo é reconstituir as conexões institucionais entre FDSP e FECAP, com ênfase nas interações entre seus professores, funcionários e alunos. Para isso, realizamos uma análise documental baseada em fontes primárias, como arquivos e periódicos da época, além de fontes secundárias, como obras comemorativas e bibliografia especializada. Como resultado, apontamos que após três décadas de funcionamento, as relações consolidaram-se não apenas pela proximidade geográfica, mas também pelo crescente vínculo entre as duas instituições. 

AS RELAÇÕES ENTRE A FACULDADE DE DIREITO DE SÃO PAULO E A FUNDAÇÃO ESCOLA DE COMÉRCIO ÁLVARES PENTEADO (1902-1932) -
ARIEL ENGEL PESSO

É importante que o curso da Fecap foi um dos pioneiros. O texto que a criação da Escola de Comércio, em 1902, estava voltada para negócios do setor cafeeiro, enquanto a Faculdade de Direito formava para o Estado. 


Vários professores da Faculdade de Direito participaram a criação da Escola de Comércio. Existia até uma proximidade física dos prédios, além de disciplinas iguais para ambos os cursos. Para completar, mesmos professores trabalharam em ambas instituições. 

Frase

 

Fonte: Estado de S Paulo, 29 de março de 2026

GPS de aplicativo de corrida revelou a posição de um porta-aviões francês


Vários exércitos do mundo proíbem que militares que estejam em bases secretas ou em missões utilizem aplicativos de saúde com GPS ativado. A razão é que os dados podem revelar a localização do militar.

Parece uma norma que deveria ser amplamente divulgada, mas não na Marinha Francesa. Um oficial francês registrou uma corrida no meio do Mediterrâneo. Ele estava no porta-aviões Charles de Gaulle, a 100 km da costa da Turquia, com seu GPS ativado. 

Nem sempre evidenciação é algo desejável.  

28 março 2026

Reino Unido e novas normas


Quando ocorreu o Brexit, a saída dos britânicos da Comunidade Europeia, o fato provocou um dilema sobre a adoção de normas internacionais: antes, a decisão da Comunidade era adotada imediatamente; agora, tornou-se necessário adotar um procedimento para que isso ocorresse.

E, logo depois, alguns escândalos contábeis, como Carillion, pioraram a situação. O tema chegou ao Legislativo e iniciou-se um caminho longo para mudar o processo de regulação contábil. Isso contemplava, inclusive, a possibilidade de quebrar o oligopólio das empresas de auditoria.

As promessas de mudanças ficaram em banho-maria e parece que nada irá acontecer de novo nos próximos anos. Enquanto isso, a estrutura antiga continua a trabalhar. A entidade-chave no processo, o Financial Reporting Council, acabou de alterar normas contábeis, numeradas como FRS 102 e 105, com mudanças para um futuro próximo.

As normas estão baseadas nas normas internacionais, divulgadas pelo International Accounting Standards Board, assim como ocorre em outros países. As mudanças irão contemplar o reconhecimento de receita, os arrendamentos, o valor justo e outros tópicos — todos assuntos tratados recentemente pelo normatizador, que, por coincidência, tem sede administrativa em Londres.

Inspirado aqui 

Terceirizando a decisão para uma IA

(...) Conforme detalhado em um novo artigo, o pesquisador de pós-doutorado da Universidade da Pensilvânia Steven Shaw e o professor de marketing Gideon Nave descobriram que, em uma série de experimentos, os usuários tendiam a aceitar as respostas do ChatGPT sem questionamento, mesmo quando estavam incorretas.

Ao longo de uma série de experimentos, os participantes foram solicitados a responder a uma variedade de perguntas baseadas em raciocínio e conhecimento. Apesar de o uso do ChatGPT ser opcional, mais de 50 por cento deles optaram por utilizar o chatbot para responder às perguntas.

Os pesquisadores estavam testando uma teoria central: se os usuários estariam dispostos a acreditar no que a IA lhes dizia independentemente da precisão, no que denominaram uma “rendição cognitiva”, que efetivamente sobrepunha sua intuição e seu processo de deliberação.

No experimento mais marcante, envolvendo 359 participantes, os participantes seguiram o conselho correto da IA em 92,7 por cento das vezes — e, ainda assim, em expressivos 79,8 por cento das vezes quando a IA forneceu a resposta errada.

“Embora as taxas de sobreposição tenham sido substancialmente mais altas nos testes com IA falha do que nos testes com IA precisa, os participantes seguiram recomendações incorretas da IA em aproximadamente quatro de cada cinco interações com o chatbot”, escreveram os pesquisadores.


A pesquisa aponta para uma mudança muito mais ampla na forma como percebemos o mundo ao nosso redor e em como estamos permitindo que a IA influencie a maneira como tomamos decisões.

“Nós sentimos que a capacidade de realmente terceirizar o pensamento ainda não havia sido propriamente estudada. É uma ideia, de certa forma, profunda”, disse Shaw durante uma participação em um podcast da UPenn no mês passado. “Eu diria que é um pouco provocativa, no artigo, a ideia de que, com essas ferramentas de IA disponíveis, elas estão tão enraizadas em nossas vidas cotidianas e nos processos de decisão que agora temos a opção ou a capacidade de terceirizar o próprio pensamento.”

Os resultados sugerem que os usuários estão dispostos a abrir mão de sua própria agência quando a IA lhes apresenta direções falsas, porém plausíveis.
“Observamos que, mesmo quando a rendição cognitiva é ativada, as pessoas adotam essas respostas e ficam mais confiantes nelas”, explicou Shaw durante o episódio do podcast.

Os experimentos também sugerem que podemos estar perdendo nossa capacidade de nos engajar criticamente com a informação, algo que pesquisas anteriores também já haviam identificado.

“A capacidade de pensar criticamente, a capacidade de verificar o que a IA está fornecendo, tornou-se cada vez mais importante ao longo do tempo”, disse Nave. “Isso é uma espécie de músculo que temos, e esperamos não perdê-lo com o tempo.”

Fonte: aqui 

Data center e Aumento na Temperatura


Um novo preprint de pesquisadores de Cambridge, NTU e NUS utiliza medições por satélite das temperaturas próximas a locais de hyperscalers de IA em todo o mundo e encontra um efeito consistente e acentuado: dentro de um mês após a entrada em operação de um data center, as temperaturas da superfície terrestre na área ao redor aumentam, em média, 2°C — e permanecem nesse nível. A variação entre as instalações vai de 0,3°C a 9,1°C. O efeito de ilha de calor se estende por até 10 km a partir da instalação e permanece acima de 1°C até uma distância de 4,5 km.

Fonte; aqui

27 março 2026

Executivos dizem mais Inteligência Artificial do que Lucro

Que IA é o tema do momento, todos sabemos. O gráfico é mais uma comprovação disso. Conforme informação da Bloomberg, nas apresentações dos resultados, a tecnologia com duas letras, de inteligência artificial, tem sido hoje mais pronunciada que "lucro". 

BTS e a continuidade

Eis a notícia do newsletter 1440: 

A banda de K-pop BTS voltou aos palcos no último fim de semana para seu primeiro show em quase três anos e meio. O concerto gratuito, realizado na Gwanghwamun Square, em Seul, reuniu dezenas de milhares de participantes e foi transmitido ao vivo pela Netflix.


O BTS (sigla para “Bangtan Sonyeondan”, que significa “Escoteiros à Prova de Balas” em coreano) estreou em 2013 e desde então se tornou a banda mais bem-sucedida da Coreia do Sul. O grupo é o primeiro desde os The Beatles a ter três álbuns alcançando o primeiro lugar nos EUA em um único ano (2018–19). O BTS também detém o recorde de maior número de visualizações de um videoclipe no YouTube em 24 horas (108,2 milhões de visualizações) com o sucesso “Butter”, de 2021.

A banda estava em hiato desde 2022, enquanto seus integrantes cumpriam o serviço militar obrigatório, com períodos entre 18 e 21 meses. Agora, eles lançaram seu quinto álbum de estúdio e iniciaram uma turnê mundial com 82 datas, que analistas estimam poder arrecadar pelo menos US$ 1,9 bilhão, aproximando-se do recorde de US$ 2,2 bilhões da turnê The Eras Tour, de Taylor Swift. 

Há alguns anos, uma aluna da graduação discutiu o caso do BTS na minha disciplina. Apesar de não se tratar de um caso de descontinuidade — já que não houve liquidação nem venda substancial de ativos —, ocorreu uma suspensão planejada das atividades do grupo musical. Durante os últimos meses, a empresa dona do grupo teve queda de receita, com alguma entrada residual proveniente de obras anteriores. Com o retorno, observa-se uma forte reativação dos fluxos de caixa futuros.

No passado, algo semelhante ocorreu com Elvis Presley, que precisou servir no exército, na Alemanha, enquanto o famoso Colonel Tom Parker gerenciava sua carreira mesmo diante dessa limitação.

Imagem aqui 

Regra dos 20 anos do vestuário

As tendências de vestuário vêm e vão, mas, em alguns casos, não ficam longe por muito tempo. Durante décadas, tanto a indústria da moda quanto seus entusiastas referiram-se à chamada "regra dos 20 anos", que sugere que a sociedade tende a ver certos estilos retornarem em intervalos semirregulares. No entanto, sem dados concretos para sustentar a afirmação, essa "regra" permaneceu por muito tempo como apenas uma hipótese.

Isso está mudando graças a uma análise recente de matemáticos da Northwestern University. Após examinarem quase 160 anos de vestuário feminino, uma equipe de pesquisa interdisciplinar confirmou que as tendências de moda frequentemente ressurgem a cada 20 anos, aproximadamente.(...)

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores primeiro compilaram um conjunto de dados de cerca de 37.000 peças de roupa, combinando o Arquivo de Moldes Comerciais da Universidade de Rhode Island com gerações de imagens de coleções de desfiles que remontam a 1869. 

Eles então decomporam as roupas com base em características específicas, incluindo:
 Bainha (comprimento da saia)
 Posicionamento da cintura
 Decote

Ao avaliar cada exemplo em termos numéricos e mensuráveis, eles construíram um novo modelo matemático para analisar a tensão entre designs de moda inéditos e aqueles mais reconhecíveis. Segundo Zajdela e seus colegas, as evidências mostram claramente que a indústria da moda recicla rotineiramente certos temas e designs a cada duas décadas.

A Oscilação entre o Novo e o Tradicional
Basicamente, a indústria da moda flutua constantemente entre a originalidade e a tradição. Quando um estilo de roupa se torna popular demais, os designers começam a alterar suas novas peças apenas o suficiente para se destacarem, mantendo-se desejáveis para os potenciais usuários.

"Com o tempo, esse impulso constante de ser diferente do passado recente faz com que os estilos oscilem de um lado para o outro. O sistema quer intrinsecamente oscilar, e vemos esses ciclos nos dados", explicou Daniel Abrams, matemático aplicado e coautor do estudo.

O exemplo mais óbvio desse padrão é a bainha. Por mais de um século, a moda das saias oscilou entre estilos curtos e longos:
1.  Anos 1920: Vestidos flapper com bainhas curtas eram a sensação.
2.  Anos 1940 e 50: Deram lugar a designs mais longos.
3.  Anos 1960: A tendência retornou para opções ainda mais curtas, como a minissaia.

O Fim da Regra?
Apesar do suporte matemático, a regra dos 20 anos pode não durar muito mais tempo. A partir da década de 1980, a dicotomia saia curta/longa começou a se desfazer, pois ambas as opções permaneceram populares simultaneamente.

"No passado, havia duas opções — vestidos curtos e vestidos longos. Nos anos mais recentes, há mais opções: vestidos muito curtos, vestidos longos até o chão e vestidos midi", disse Zajdela. "Há um aumento na variância ao longo do tempo e menos conformidade."

Apenas o tempo dirá se a regra dos 20 anos continuará em vigor. Até lá, provavelmente é melhor guardar aquela peça de roupa antiga por mais um tempinho. Não é bom apenas para o seu guarda-roupa — é bom para o meio ambiente. 


fonte: aqui 

Uma regra como essa, tão simplória, é de grande valia para o gestor de estoque de uma empresa de varejo ou uma indústria de roupas. Há muita moda que induz o administrador a investir pesadamente e que depois termina no lançamento de uma baixa contábil. 

Trimestral ou semestral?


O debate promovido pela SEC sobre a possibilidade de mudar a periodicidade das informações contábeis para as empresas de capital aberto é, também, o debate entre evidenciação e burocracia.

Há muito existe a reclamação de que a divulgação trimestral é onerosa e desvia o foco da gestão. Lembro-me das primeiras palavras do livro Relevance Lost (que fez muito sucesso há décadas), de autoria de Kaplan e Johnson. Quando Trump foi presidente em seu primeiro mandato, ele solicitou que a SEC analisasse a questão.

A newsletter DealBook, do New York Times, discutiu o tema no dia 18 de março. Conforme já destacamos anteriormente, os relatórios semestrais não seriam uma inovação dos Estados Unidos, já que diversos países, incluindo a Grã-Bretanha, adotam esse período. Todos sabemos que o Brasil, adepto do "efeito demonstração" e da inércia, mantém o relatório trimestral, e não há discussões locais sobre o assunto.

Aparentemente, o relatório trimestral não impede escândalos corporativos. Observando o que ocorre em outros países, é possível imaginar que a adoção do modelo semestral não impedirá que algumas empresas continuem divulgando dados trimestralmente — prevalecendo, aqui, o princípio da evidenciação plena.

Imagem aqui 

26 março 2026

Condenação da Meta e Youtube em caso de vício em mídia social

Em um julgamento que ocorreu na Califórnia, um júri deliberou que a Meta e o Google prejudicaram a saúde de uma jovem com produtos viciantes que, como consequência, trouxeram problemas de saúde mental. O julgamento começou em fevereiro e apenas a deliberação levou uma semana. As empresas deverão pagar 3 milhões de dólares, sendo 70% desse valor de responsabilidade da Meta.


Uma das acusações recai sobre o recurso de rolagem infinita e as recomendações algorítmicas, que teriam causado ansiedade e depressão. Este é apenas um dos casos de processos existentes na justiça dos Estados Unidos. Antes do julgamento, o TikTok e o Snap chegaram a um acordo com a parte demandante.

Segundo um texto do Estadão, o argumento central é que o design das plataformas de mídias sociais pode ser considerado um "produto defeituoso", de responsabilidade das empresas. O texto destaca que, embora haja semelhanças com os processos judiciais contra as empresas de cigarro no passado, isso não significa que a decisão dos jurados representará uma mudança imediata no entendimento da justiça sobre o assunto. Em outras palavras: talvez seja cedo para considerar que qualquer pessoa que acione a justiça pedindo indenização vá vencer.

Lembro aqui que existe hoje um mecanismo na justiça federal dos Estados Unidos que "protege" as empresas de grandes falhas, "perdoando-as" através de acordos. Esse tipo de mecanismo pode ser usado, mais adiante, para blindar as grandes corporações tecnológicas. Trata-se do DPA — sigla para Deferred Prosecution Agreement (Acordo de Persecução Diferida ou Acordo de Acusação Diferida).

Em termos contábeis, eu diria que ainda é muito cedo para lançar provisões reconhecendo perdas futuras nesses processos judiciais, uma vez que o caminho na justiça é longo e, nem sempre, justo.

25 março 2026

IA e mercado de livros


Com a difusão dos Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) entre 2022 e 2025, os lançamentos de novos livros triplicaram, levantando um questionamento sobre o impacto da IA na qualidade das obras. Desenvolvemos uma medida de uso baseada em avaliações que é comparável entre diferentes safras (vintages) de lançamentos e descobrimos que as safras do período de influxo da IA apresentam uma qualidade média inferior. No entanto, os 1.000 principais lançamentos mensais por categoria — embora não os 100 principais — apresentam uma qualidade superior à de antes; e esse efeito é maior em categorias com crescimento mais rápido de novos títulos. Autores que ingressaram no mercado desde o influxo dos LLMs produzem predominantemente trabalhos de baixa qualidade; por outro lado, a produção de alta qualidade dos autores que já haviam ingressado antes da era dos LLMs aumentou. Uma calibração de modelo logit aninhado (nested logit) mostra que a produção de livros aprimorada por LLMs poderia, em estado estacionário, elevar o excedente (surplus) que os consumidores derivam dos mercados de livros entre um quarto e metade do valor atual.

AI and the Quantity and Quality of Creative Products: Have LLMs Boosted Creation of Valuable Books? - Imke Reimers, Joel Waldfogel 

Imagem: Bíblia de Gutemberg, verbete Book Wikipedia 

Uma contabilidade existencial: (Re)centralizando a natureza


Eis o trecho final

Com o perdão de Heidegger: a essência da contabilidade para a natureza não é um relatório (account). Ou, pelo menos, uma pré-condição para recentralizar a natureza na pesquisa contábil é revelar a relação entre a consciência humana e a natureza na qual tais relatórios emergem. Ao rastrear a marginalização da natureza até as condições sob as quais ela é ocultada ou revelada, Marcuse e Heidegger oferecem diagnósticos pessimistas das patologias da era moderna, mas também, de forma mais otimista, destacam o potencial inimitável dos seres humanos de habitar o mundo de uma nova maneira.

A abordagem existencial que proponho busca recentralizar a natureza no pensamento acadêmico contábil, articulando ideais tanto críticos quanto construtivos. O principal argumento crítico afirma que a contabilidade é, ao mesmo tempo, mais e menos cúmplice da degradação ambiental do que sugere a literatura fundamental anterior. Como tecnologia moderna par excellence, a contabilidade é cúmplice de modos de ser no mundo que inscrevem lógicas humanas ou, mais sutilmente, prejudicam a atenção aos processos naturais. Ao mesmo tempo, essa perspectiva existencial implica que os modos tecnológicos de ser no mundo são mais profundos do que as práticas contábeis; portanto, reformar apenas as práticas contábeis é insuficiente para enfrentar as crises ecológicas contemporâneas.

De forma mais construtiva, proponho um papel essencial para a pesquisa em contabilidade crítica: lutar por espaço para que outros modos de ser no mundo surjam, circunscrevendo as lógicas contábeis. Adaptando a terminologia de Hines (1991), esta abordagem existencial "recusa-se a falar" da natureza apenas na linguagem contábil, para que outras vozes possam ser ouvidas.

 

Queda do Sora

Entre os produtos correlatos fornecidos pela OpenAI, o Sora deveria ser um modelo para gerar clipes de vídeos curtos com base em prompts. Ele também poderia ser usado para estender vídeos curtos existentes. A OpenAI começou a fornecer exemplos de produtos gerados pelo Sora ainda em fevereiro de 2024. No entanto, ontem, a OpenAI — empresa criadora do ChatGPT — anunciou que o aplicativo e a API do Sora seriam desligados.

Para evitar o uso inadequado do Sora, havia uma marca-d'água para prevenir o uso indevido, mas, uma semana após o lançamento da versão 2 do modelo, já existiam programas de terceiros disponíveis para remover essa proteção. Esse não foi o maior dos problemas. Vários vídeos gerados apresentaram personagens protegidos por direitos autorais; um deles, por exemplo, utilizava o estilo do Studio Ghibli, famoso pelo filme Princesa Mononoke. Algumas personalidades falecidas, como Robin Williams, também foram alvo de vídeos falsos (deepfakes).


Diante da tecnologia inicialmente entregue pela OpenAI, a Walt Disney firmou uma associação com a empresa para permitir a criação de vídeos curtos com mais de 200 personagens históricos da marca. Existia a esperança de uma nova era no cinema, movida pela IA, com custos de produção reduzidos. A Disney tinha a pretensão de se tornar uma grande cliente da OpenAI. O anúncio de ontem, contudo, é um sinal de que o Sora ainda está distante de entregar um produto razoável. Naturalmente, os investimentos realizados serão baixados como prejuízo no resultado das demonstrações contábeis das empresas envolvidas.

Imagem criada pelo Gemini, a partir do texto acima.  

IA como investimento


A IA como uma estratégia de investimento financeiro deve levar em consideração não somente a precisão do algoritmo, mas o impacto sobre a eficiência e lucro da organização. Aqui um texto que trata da mensuração do valor da IA e a seguir um trecho: 

Embora a eficiência seja uma fonte importante de valor da IA, ela é apenas parte do cenário. Muitos sistemas de IA bem-sucedidos não substituem primariamente o trabalho humano [...] Em vez disso, eles atualizam fluxos de trabalho existentes, amplificam as capacidades humanas ou possibilitam oportunidades de negócios inteiramente novas. 

24 março 2026

Especialista e previsão

 O resumo

O apoio público a intervenções políticas depende das crenças dos cidadãos sobre os seus efeitos prováveis. Examinamos como os indivíduos formam tais crenças ao estudar suas previsões de resultados experimentais em um cenário relevante para políticas públicas, e por que suas previsões diferem dos referenciais dos especialistas. Obtivemos previsões de 127 economistas profissionais e de uma amostra representativa de 6.200 famílias alemãs sobre um experimento comportamental de larga escala em política educacional (N=3.133). Os não especialistas preveem tanto os resultados médios quanto os efeitos do tratamento com muito menos precisão do que os especialistas. A precisão das previsões melhora com priors calibrados, esforço autorrelatado e o uso de raciocínio estruturado, mas permanece bem abaixo dos níveis dos especialistas. Demonstramos que características de design escaláveis — incluindo o fornecimento de âncoras numéricas bem calibradas e incentivos monetários para aumentar o esforço — melhoram as previsões dos não especialistas, com efeitos de magnitude comparável ao ensino superior ou ao raciocínio estruturado. Nossas descobertas têm implicações importantes para reduzir a 'lacuna de expertise' no discurso público. 

Imagem: Verbete Prediction, Wikipedia

Plágio, ciência ruim e a recusa em reconhecer o problema: o caso da Management Science


Alguns meses atrás, publicamos um post: 'Este artigo na Management Science foi citado mais de 6.000 vezes. Executivos de Wall Street, altos funcionários do governo e até um ex-vice-presidente dos EUA já o referenciaram. Ele possui falhas fatais, e a comunidade acadêmica se recusa a fazer algo a respeito', que tratava de um artigo fatalmente falho, porém muito influente, na Management Science.

O artigo em questão afirmava ter descoberto que 'empresas de alta sustentabilidade superam significativamente suas contrapartes no longo prazo, tanto em termos de mercado de ações quanto de desempenho contábil'. Eu conjecturo que uma das razões para o grande sucesso do artigo foi o fato de ele promover uma mensagem reconfortante que seria popular em todo o espectro político: para a esquerda, é uma evidência a favor da sustentabilidade ambiental e social; para a direita, é um exemplo do sucesso do livre mercado, sugerindo que, se você se preocupa com a sustentabilidade, pode obtê-la sem regulamentação governamental; e, para o centro, é uma mensagem de que o sistema funciona. Ele se encaixa perfeitamente na ideologia presunçosa de base das escolas de negócios de que as empresas prosperam ao fazer o bem.

Discussão de Gelman sobre a dificuldade de inibir casos de plágio. O artigo em questão já foi citado quase 7 mil vezes, segundo o Scholar, e teve uma influência muito expressiva. 

Infelizmente, o método descrito no artigo não é o método que os autores realmente utilizaram. Os autores finalmente reconheceram isso em setembro de 2025, após dois anos de pressão. No entanto, eles se recusaram a enviar uma errata.

Entrei em contato com o periódico, Management Science, mas as políticas deles permitem apenas que os autores solicitem correções. Eles me permitiram enviar um comentário para revisão, já que julgaram que os autores não estavam respondendo, mas isso deve passar por um longo processo de análise.

Também entrei em contato com Escritórios de Integridade em Pesquisa, pois acredito que isso constitua uma violação contínua: os autores estão se recusando conscientemente a corrigir um erro admitido em seu estudo.

  • London Business School (Ioannou) alega que não há violação porque ele não realizou a análise. (Para mim, isso parece irrelevante para a questão de corrigir um erro de relato).

  • Harvard Business School (empregadora de Serafeim) recusou-se a divulgar a existência ou o resultado de qualquer revisão interna.

  • Oxford (onde Eccles está afiliado atualmente) alega que Harvard é responsável pelas ações de Eccles, já que a pesquisa ocorreu quando ele estava na HBS.

  • Entrei em contato com o UK RIO, mas eles dizem que não têm poder de atuação.

     O texto prossegue com citações para Dan Ariely e Freakonomics. E outros. Uma boa leitura

Relatório do FSB


Enquanto aguardamos o relatório anual da Fundação IFRS, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) divulgou o seu de 2025. No texto, o destaque para os trabalhos em promover a resiliência do sistema financeiro global em situação de aumento da dívida soberana, presença da volatilidade dos criptoativos e na presença da intermediação financeira não bancária. 

Noruega muda sua maneira de fazer normas

O jeito viking de fazer normas

A organização norueguesa responsável pela definição de normas, Norsk RegnskapsStiftelse (NRS), lançou uma consulta pública sobre uma proposta de nova estratégia para a elaboração de normas contábeis na instituição. O contexto dessa consulta é o fato de que a NRS foi, pela primeira vez, incluída no orçamento nacional, recebendo uma subvenção de quatro milhões de coroas norueguesas para fortalecer seu trabalho em normas nacionais de contabilidade e escrituração.

Este recurso permite que a NRS retome, de forma mais ativa, o trabalho de normatização. Em 2015, o Ministério das Finanças da Noruega publicou uma minuta de uma nova Lei de Contabilidade e sugeriu a substituição das atuais normas norueguesas por requisitos baseados no IFRS para PMEs. No entanto, em 2017, o governo recuou desse plano ambicioso e, desde então, foram feitas apenas as atualizações mínimas necessárias. Diversas normas existentes precisam urgentemente de atualização, e certas áreas carecem totalmente de regulamentação, incluindo reconhecimento de receita, ativos imobilizados e a distinção entre capital próprio e dívida.

A nova estratégia sugerida agora não foca no IFRS para PMEs, mas sim na busca por possíveis soluções para questões contábeis dentro das IFRS completas. A consulta sugere os três pilares a seguir para a atualização das normas existentes e o desenvolvimento de novos padrões de relatórios financeiros:

  • Garantir a conformidade com os marcos legais e as práticas norueguesas;

  • Avaliar soluções internacionais reconhecidas (IFRS);

  • Equilibrar a necessidade de relatórios financeiros de alta qualidade com os custos de conformidade.

A NRS planeja começar com tarefas que exijam recursos moderados (normas finais com necessidade limitada de atualização), ao mesmo tempo em que lançará pelo menos um novo projeto em 2026.

Imagem: Wikipedia

23 março 2026

Meta anuncia o fim do Metaverso


Devo confessar solenemente minha ignorância: nunca entendi direito para que usar o Metaverso da Meta. O anúncio do encerramento do projeto, que projetava um bilhão de usuários, significou uma queima de 80 bilhões de dólares. 

O número de usuários ficou muito distante da promessa e a parte gráfica sempre foi muito criticada. E muitos rejeitaram ou ignoraram. Os óculos de realidade virtual eram desconfortáveis. 

O que terminou com a experiência foi a IA. Diante desse novo mundo, a Meta decidiu priorizar seus recursos para o desenvolvimento e incorporação da inteligência artificial nos seus produtos. Nem a mudança de nome funcionou

Leia mais aqui, aqui e aqui  

Normas do Setor Público publicadas no Diário Oficial


O Conselho Federal de Contabilidade publicou, na semana passada, no Diário Oficial da União, 31 normas aplicadas ao setor público. Ainda que aprovadas recentemente, diversas delas já passaram por revisões, em consonância com os Handbooks 2024 e 2025 do IPSASB.

Chama atenção, contudo, o intervalo entre aprovação e oficialização: aprovadas entre meados de novembro e dezembro, as normas somente foram publicadas no DOU cerca de três meses depois. Em um ambiente que demanda tempestividade normativa, esse hiato merece reflexão.

Observa-se, ainda, a ausência da Estrutura Conceitual no conjunto divulgado. Considerando que a publicação ocorreu de forma dispersa, seria oportuno que o CFC organizasse uma edição consolidada em PDF, à semelhança do que faz o IPSASB, facilitando o acesso e a aplicação das normas.

O link das normas pode ser encontrado aqui 

IA será CEO da Meta?


Parece loucura, mas a fonte é o The Wall Street Journal (via aqui). O presidente executivo da Meta (leia-se Instagram e Whatsapp), Mark Zuckerberg, estaria construindo uma IA de si próprio, ou seja um clone digital de Zuckerberg, para ajudá-lo no trabalho. 

A IA ajudaria o executivo a obter informações mais rapidamente e tudo leva a crer que ele acredita no projeto a ponto de lhe delegar algumas funções. Recentemente, a empresa Meta reconheceu que a construção do Metaverso foi um grande fracasso e que perdeu 80 bilhões de dólares com o projeto. Podemos então imaginar a IA cometendo erros desse tamanho nas suas decisões. 

Obviamente, a proposta também visa reduzir os 78 mil empregados da empresa. 

Um estudo de 43 anos chega a conclusão que café faz bem para saúde.


Um estudo de 43 anos chegou a conclusão que a dose diária de cafeína tem efeitos comprovados no cérebro. Os pesquisadores do estudo acompanhou 130 mil pessoas e descobriram que as pessoas que consumiam com regularidade doses moderadas de café ou de chá cafeinado tinham um risco 18% menor de desenvolver demência. 

Os adeptos do café obtiveram pontuações melhores em testes cognitivos e informaram que tinham menos queixas de lapsos de memória.  O importante é o consumo constante e moderado, cerca de duas a três xícaras por dia. 

A pesquisa destaca que não há prova de causa e efeito, mas um padrão observado. Há algumas possíveis explicações, incluindo fatores externos. Mas um estudo longitudinal e um grupo tão grande de pessoas tem um grau de confiança bem maior que uma pesquisa realizada com um pequeno grupo, por um período de tempo limitado. Viva o café!

19 março 2026

Custo de Brasília


Qual foi o custo da construção de Brasília? Eis uma estimativa: 

Construir Brasília em um período tão curto foi custoso, embora seja difícil determinar um preço exato, dado que muitas etapas burocráticas foram suprimidas em prol da celeridade, segundo Ronaldo Costa Couto. Mas isso não significa que as pessoas não tenham tentado calcular. O economista Eugênio Gudin calculou que custou aproximadamente 1,5 bilhão de dólares em 1954 — ou cerca de 12,3 por cento do PIB do Brasil — para criar esta capital. Ajustado pela inflação, isso equivale a 16 bilhões de dólares hoje. Outras estimativas são muito maiores. Em 1996, o economista e jornalista Ib Teixeira recalculou o custo, atento ao fato de que a construção em Brasília continuou além da inauguração da cidade em 1960. Ele encontrou um resultado de uma ordem de magnitude diferente: 155 bilhões de dólares na época, ou 316 bilhões de dólares ajustados pela inflação.

Na ausência de condições de moradia adequadas, muitos trabalhadores improvisaram, ocupando ilegalmente áreas fora da cidade e construindo seus abrigos com quaisquer materiais que estivessem disponíveis.

O transporte de materiais de construção foi responsável por grande parte do custo da construção da cidade. Os únicos recursos disponíveis no local eram pedra, areia e tijolos; o restante — como telhas, vergalhões e vidro — teve que ser trazido de outros lugares. No entanto, as rodovias só chegaram ao local em 1960, e a ferrovia mais próxima ia apenas até Anápolis, a cerca de 145 quilômetros de distância. O governo não quis esperar pela conclusão das obras rodoviárias para avançar com a inauguração da cidade, por isso encontrou a solução mais cara possível: o transporte aéreo. Para cobrir essa despesa, a administração Kubitschek começou a imprimir mais dinheiro e a emitir títulos de dívida pública, resultando em um legado de dívidas e inflação que assolou o país nas décadas seguintes.

O custo humano da construção de Brasília também foi alto. Dezenas de milhares de pessoas de outras regiões do país foram enviadas a Brasília para trabalhar. Um censo de 1959 indicou que havia aproximadamente 64.000 pessoas na área, das quais mais de 55.000 vieram de outros lugares e 54,5% eram trabalhadores da construção civil. A maioria desses trabalhadores — conhecidos como candangos — vivia em condições precárias. Os pedreiros dormiam em quartos comunitários sem qualquer privacidade, segundo Gustavo Lins Ribeiro. Eles comiam alimentos estragados que, por vezes, levavam a infecções intestinais.

Alguns não tinham moradia alguma. Na ausência de condições de vida adequadas, muitos trabalhadores improvisaram, ocupando ilegalmente áreas fora da cidade e construindo seus próprios abrigos com quaisquer materiais disponíveis. Um desses assentamentos era chamado de Sacolândia; outro era a Lonalândia. Muitos desses assentamentos perduraram mesmo após a conclusão da construção de Brasília. O maior desses locais era a Vila do IAPI, assim chamada devido ao Hospital do IAPI, em torno do qual se formou, na periferia do canteiro de obras. Em 1971, o governo forçou a evacuação da área e criou Ceilândia, uma cidade inteiramente nova para seus moradores.

Os direitos trabalhistas eram rotineiramente ignorados. A prática da "virada" — exceder os limites de horas extras — era comum. Equipamentos de proteção também eram escassos, e os acidentes de trabalho eram frequentes. Existem poucos registros sobre o número total de mortes e ferimentos durante a construção. Em vez disso, temos informações fragmentadas. Um dos registros disponíveis é do Hospital do IAPI; ele tratou 10.927 acidentes relacionados à construção em 1959, uma média de aproximadamente 30 acidentes por dia. Em 1960, essa média explodiu para 170 acidentes por dia.

Para garantir a segurança pública — e reprimir quaisquer protestos que pudessem surgir em relação às precárias condições de trabalho — o governo destacou a GEB (Guarda Especial de Brasília), forças de segurança pagas pela NOVACAP, para supervisionar a construção. A GEB tornou-se conhecida por sua brutalidade e falta de preparo. Ela participou do chamado Massacre de Pacheco Fernandes, em 8 de fevereiro de 1959, quando trabalhadores da construtora Pacheco Fernandes se revoltaram contra seus chefes devido à comida estragada. Chamada para conter os operários, a GEB usou munição real contra eles. Especialistas concordam com a sequência de eventos até este ponto, mas surgem dúvidas quanto ao número de mortes e ferimentos resultantes da ação. Enquanto a versão oficial afirma 48 feridos e apenas uma morte, testemunhas e sobreviventes dizem que dezenas foram mortos e seus corpos foram levados em caminhões para um local desconhecido.

Equipe e experiência: Ensinamentos de Hollywood


Uma pesquisa usou Hollywood para estudar sucesso e fracasso, através da análise de dados das equipes que participaram dos filmes. A descoberta foi que equipes com membros com histórico de sucesso tendem a produzir filmes lucrativos e equipes com um currículo ruim, produzem filmes menos rentáveis. Fracasso atrai fracasso. 

Uma característica é que equipes de produção são dispensadas após o encerramento das filmagens. Assim, essas equipes não aprendem com o fracasso.  Eis um resumo importante: 

  • Impacto do Sucesso: Cada milhão de dólares adicional de sucesso acumulado no histórico de uma equipe aumenta os lucros do próximo filme em cerca de $126.000. 
  • Impacto do Fracasso: Cada milhão de dólares adicional de fracasso acumulado levou a aproximadamente $448.000 a menos nos lucros.  

Outro ponto importante é que o histórico dos atores e dos diretores não tiveram efeito significativo.  

Muthulingam, S., & Rajaram, K. (2026). The Role of Success and Failure in Fluid Teams: Evidence from the Motion Picture Industry. Management Science. 

Banco Mundial pune PwC na África

O Banco Mundial suspendeu três empresas da rede PwC na África por fraude e conluio. As empresas envolvidas são do Quênia, Ruanda e Maurício, e a punição consiste em um banimento de 21 meses de projetos financiados pelo Banco.


O caso envolveu um projeto energético entre Etiópia e Quênia. As empresas obtiveram informações confidenciais sobre a licitação e as utilizaram para influenciar o resultado. Além disso, deturparam informações sobre especialistas.

As empresas admitiram culpa e firmaram um acordo com o Banco Mundial, comprometendo-se a implementar medidas corretivas. Por isso, a punição foi limitada a 21 meses. Outras instituições devem aplicar sanções semelhantes, como o BID.

 

Internet dos robôs

O gráfico traz muita informação importante sobre a internet dos dias atuais. Em 2018, cerca de 2/3 do tráfego da internet era de humanos e o restante de robôs maliciosos e robôs do bem. A proporão do tráfego oriundo dos seres humanos caiu para 49% em 2024, com crescimento absurdo dos robôs maliciosos. 

Isso tem problema na estatística dos dados e trazem outros distorções mais graves, como o roubo de informações. E como os bots estão mais sofisticados, permitindo reproduzir o comportamento humano, os sistemas tradicionais de segurança não estão conseguindo impedir o avanço. 

18 março 2026

Atenção e Envelopamento


Um artigo da Forbes trata da crescente convergência entre diferentes formatos de mídia nas plataformas digitais. As empresas estão tentando concentrar múltiplos tipos de conteúdo em um único ambiente. Por exemplo, a Spotify está incluindo podcast com vídeo para o usuário. 

Isso é chamado de “envelopamento de plataforma”, onde é usado a análise avançada de dados para compreender os usuários e personalizar conteúdos. A grande conquista é atrair a atenção dos consumidores. 

A estratégia é mais um passo na disputa entre as plataformas pela atenção dos consumidores na televisão — no fim do ano passado, a Netflix ultrapassou o YouTube como plataforma de streaming que mais retém tempo de tela dos usuários, segundo a eMarketer.

Entre os podcasts realocados estão alguns relacionados a esportes, como NFL, F1 e NBA, além de cultura pop e culinária. A vantagem competitiva da Netflix em relação ao YouTube está no fato de que a plataforma não vai veicular anúncios no meio da programação, mesmo para usuários do plano básico. Essa decisão ganha ainda mais força após a notícia de que, agora, o YouTube vai transmitir anúncios de 30 segundos que não poderão ser pulados.

 

Personalizar o empurrão (nudge)


Os nudges comportamentais (ou “empurrões” comportamentais) muito seguem uma lógica de tamanho único. A pesquisa normalmente procura identificar a forma mais impactante de incentivar um determinado comportamento — economizar mais, praticar mais exercícios, vacinar-se — com foco no que poderia funcionar para todos.

Uma pesquisa publicada na revista Organizational Behavior and Human Decision Processes sugere que personalizar os nudges com base no comportamento passado pode ser uma abordagem ainda mais eficaz. Os pesquisadores também encontram evidências de que a riqueza do nudgepor exemplo, um vídeo de dois minutos em vez de uma mensagem de texto breve — pode fazer diferença.

Leia mais aqui 
 
Será possível imaginar o dia em que uma informação contábil será personalizada? Bom, de certa forma isso ocorre, quando o usuário é forte o suficiente para impor sua vontage. O Banco Central faz isso para as instituições financeiras. Mas ele é tão forte e pode ameaçar a entidade com sanções.