10 fevereiro 2026
Imprensa ou Governo?
O uso de IA pelo governo (para fazer leis)
Quando autoridades britânicas analisaram no ano passado as evidências para uma reforma independente do setor de água, depararam-se com um problema familiar ao serviço público: dezenas de milhares de submissões, todas precisando ser revisadas — rapidamente — antes que a janela para a reforma se fechasse. Assim, os ministros recorreram a uma ferramenta interna de IA chamada Consult, parte do pacote “Humphrey”, que, segundo o governo do Reino Unido, classificou mais de 50.000 respostas em temas em cerca de duas horas. Isso custou £240, afirmaram, seguido por 22 horas de verificações por especialistas — uma carga de trabalho que, se ampliada em todo o governo, poderia economizar 75.000 dias de análise manual por ano. Um porta-voz do governo britânico disse ao Tech Policy Press que “a IA tem o potencial de transformar a forma como o governo trabalha — economizando tempo em tarefas administrativas rotineiras e liberando servidores públicos para se concentrarem no que mais importa: entregar melhores serviços públicos ao povo britânico”. Ele acrescentou que estão garantindo o uso responsável da tecnologia em todo o governo com diretrizes e auditorias.
(...) O Senado italiano descreveu o uso de IA para ajudar a lidar com a sobrecarga de emendas, agrupando propostas semelhantes, identificando sobreposições e sinalizando possíveis táticas de obstrução (filibuster) para que a equipe possa comparar o conteúdo muito mais rapidamente do que faria manualmente. E, na semana passada, a Comissão Europeia publicou um edital para contratar chatbots multilíngues que poderiam ajudar “os usuários a navegar por obrigações legais, definições e procedimentos” previstos na Lei de IA e na Lei de Serviços Digitais da UE. A Câmara dos Deputados italiana apoiou um projeto chamado GENAI4LEX-B, que auxilia na pesquisa e redação legislativa ao resumir emendas de comissões e verificar projetos de lei em relação a padrões de redação normativa. No Brasil, a Câmara dos Deputados está expandindo seu programa Ulysses, que analisa e classifica material legislativo, lançando um “Ulysses Chat” interno e facilitando até mesmo o uso, por servidores, de plataformas externas de IA como Claude, Gemini e GPT — tudo isso com a promessa de fortes garantias de segurança e transparência. Outros países também estão usando IA para apoiar o fluxo de trabalho de elaboração de leis. No ano passado, o Parliamentary Counsel Office da Nova Zelândia — órgão responsável por redigir as leis do país — testou uma prova de conceito que usa IA para gerar primeiros rascunhos de notas explicativas cláusula por cláusula, explicitamente motivada por preocupações com soberania de dados e dependência excessiva da tecnologia.
O uso da tecnologia para tentar explicar a linguagem complexa da legislação — e suas consequências — também está sendo considerado na Estônia, onde o primeiro-ministro Kristen Michal sugeriu publicamente que o parlamento use IA para revisar projetos de lei, depois que uma ferramenta “intuitiva” de detecção de erros baseada em IA, criada por um cidadão, apontou problemas em uma proposta que permitia a cassinos online evitar o pagamento de impostos — o que custou ao governo estoniano cerca de €2 milhões por mês em receitas perdidas neste ano.
“Encorajei o parlamento estoniano a considerar o uso de ferramentas de inteligência artificial no processo legislativo para evitar possíveis erros”, disse o primeiro-ministro Michal ao Tech Policy Press. “Isso poderia ser uma solução inteligente e prática.” Michal admite que usa IA regularmente e “a vê como uma ferramenta poderosa e promissora — desde que também mantenhamos nosso pensamento crítico. A IA não substitui as pessoas; ela pode empoderá-las.”
Legitimidade legislativa em escala
Michal acredita que a IA pode ser uma ferramenta útil para identificar brechas exploráveis na legislação e corrigi-las. Mas usar IA para analisar respostas a consultas públicas e orientar mudanças legislativas pode sair pela culatra: Estados estrangeiros poderiam distorcer resultados inundando caixas de entrada do governo. O risco é um “DDoS legislativo” — não invadindo sistemas, mas sobrecarregando-os com submissões plausíveis, emendas-modelo ou objeções geradas em massa que abafam o engajamento genuíno.
Isso é uma má notícia para governos, porque atinge o cerne da legitimidade. Em 11 dos 28 países pesquisados no barômetro anual de confiança da Edelman, os governos são mais distrusted (desconfiados) do que trusted (confiáveis). A confiança na IA é ainda mais fraca: uma pesquisa de agosto de 2025 com britânicos mostrou que apenas 29% confiam que seu governo use IA de forma precisa e justa. Em teoria, ferramentas como o Consult do Reino Unido ajudam autoridades a filtrar e resumir contribuições do público, mas, uma vez que passam a ser usadas para decisões consequentes, o próprio método de filtragem se torna parte do sistema decisório — tornando a transparência essencial.(...)
Philip Wallach, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, disse ter ficado chocado com a naturalidade com que autoridades admitiram usar IA, alertando que isso pode expor regulamentações assistidas por IA a contestações legais. “Se você não seguir os procedimentos exigidos, um juiz pode derrubar a regra por ser arbitrária e caprichosa.”
Wallach argumenta que governos podem usar IA, mas não podem usá-la como desculpa para cortar caminhos. “Acho que você não pode se apoiar tanto assim nesse trade-off entre velocidade e qualidade, privilegiando a velocidade”, diz ele, porque, uma vez que a redação gerada por IA é incorporada ao processo, os erros nem sempre são óbvios — e o custo de errar pode ser enorme em nível governamental. Para Schmitz, a preocupação é que governos tratem a integração da IA como um conjunto de pequenas correções técnicas, em vez de uma mudança estrutural na forma como cidadãos podem influenciar o Estado. Ferramentas que triagem, resumem e redigem podem parecer melhorias de bom senso, mas “essas são soluções fragmentadas”, afirma, alertando que ele não vê “nenhuma consideração particularmente sistemática sobre o que isso significa para a legitimidade de longo prazo dos processos de participação pública.”
O uso de IA não é inerentemente negativo, diz Schmitz. Ele pode modernizar processos democráticos. Mas, se governos a utilizarem principalmente para gerenciar insumos gerados por máquinas ou economizar esforço, correm o risco de aprofundar a desconfiança que tentam reduzir. “O atrito da interação [do público] com eles está se dissipando rapidamente”, diz Schmitz. “Isso é uma enorme oportunidade de reconquistar muita confiança, se bem desenhado. Mas também pode ser muito, muito ruim para a confiança, se não for.”
Fonte; aqui
Teatro de IA
Já falamos sobre o Moltbook, uma rede social composta de agentes de inteligência artificial. Parece que algumas pessoas ficaram impressionadas com a rede social. Mas a MIT Technology Review tem uma posição divergente. Segundo um texto publicado no site, a Moltbook viralizou e estaria sendo considerada um indício de IA avançada, incluindo reflexões existenciais e conspirações.
Mas o site considera que o conteúdo tem sido escrito ou impulsionado por humanos, e não por agentes realmente autônomos. Essa mistura de autômato com intervenção humana transformou a plataforma em um espetáculo de “teatro de IA”, refletindo mais nossas fantasias sobre a tecnologia do que uma verdadeira demonstração de inteligência artificial geral ou autoconsciente.
É evidente que o Moltbook sinalizou a chegada de algo. Mas mesmo que o que estamos assistindo nos diga mais sobre o comportamento humano do que sobre o futuro dos agentes de IA, vale a pena prestar atenção.
Fé no futuro
A empresa Alphabet está considerando vender um título de 100 anos. A ideia é obter recursos para financiar os investimentos em inteligência artificial. A controladora do Google — e também do Blogger — está planejando um fluxo de investimentos de até 185 bilhões de dólares em data centers e na infraestrutura necessária para o setor.
Esse tipo de título é uma aposta no futuro, já que o resgate só ocorrerá no próximo século. Para o investidor, o importante é o pagamento de juros. Pelo prazo, esse tipo de título não é muito comum, geralmente restrito a empresas sólidas.
Contabilmente, embora sejam considerados passivo, dado o horizonte de tempo, poderiam ser classificados como patrimônio líquido, pelo menos para fins de análise.
09 fevereiro 2026
Resenha: A Rainha do Xadrez
Confesso que aguardava ansioso o documentário desde que surgiram os primeiros boatos de seu lançamento. Com uma hora e meia de duração, o filme mostra a trajetória da maior jogadora de xadrez de todos os tempos: Judith Polgar. Nascida nos anos setenta, filha mais nova de uma família relativamente pobre da Hungria comunista da Guerra Fria, seus pais decidiram educar as filhas em casa, com foco no jogo de xadrez.
A primeira parte do documentário conta a educação da família Polgar. Logo depois, o filme mostra as Olimpíadas de Xadrez na Grécia. Até então, todos os jogos no feminino haviam sido vencidos pelas soviéticas. A equipe da Hungria era composta pelas três irmãs Polgar e Ildikó Mádl. Mádl tinha 19 anos, e as irmãs, 19, 14 e 12 anos. Judit era o tabuleiro 2 e, em 13 partidas, venceu 12 e empatou uma, com absurdos 96% de aproveitamento. No final, sua equipe venceu as Olimpíadas por meio ponto de vantagem, quebrando a hegemonia soviética.
A terceira parte aborda o campeonato nacional na versão aberta, ou seja, competindo com alguns dos melhores enxadristas da Hungria. Na rodada final, Judit obteria o título de Grande Mestre Internacional se empatasse o jogo — mas não ganharia o título do torneio. Coerente com seu estilo, tentou a vitória, correndo o risco de perder tudo. E venceu, tornando-se então a jogadora a obter o título de Grande Mestre, batendo o recorde de Bobby Fischer, que anos antes afirmara que nunca tinha visto uma mulher jogar bem xadrez.
A quarta parte foca no Torneio de Linares, de 1994, em que Judit, com 17 anos, enfrenta Kasparov na primeira rodada. O campeão russo, então o mais forte jogador da história, estava em vantagem, mas fez um lance ruim que lhe custaria uma peça. Em questão de segundos, depois de soltar sua peça, ele voltou atrás e fez outra jogada. Há uma regra básica no xadrez segundo a qual não é possível voltar em um lance já realizado. Mas Kasparov fez isso, e a cena foi filmada. Judit não reclamou: terminou perdendo a partida, mas saiu engrandecida como competidora.
E assim o documentário prossegue, contando boas histórias. Há dois problemas: ele teve muito mais conquistas do que os 90 minutos de filme conseguem mostrar, pois se preocupa em focar no duelo entre Polgar e Kasparov; e, implicitamente, há uma condenação do “experimento” da família com as três irmãs, algo que não aparece nas palavras das próprias meninas.
Judit nunca foi campeã mundial feminina de xadrez — título que sua irmã mais velha, Sofia, conquistou. Ela queria jogar com os mais fortes, que em sua época eram os grandes jogadores masculinos. Depois de Judit, a chinesa Hou Yifan, hoje com 31 anos, chegou aos 2687 pontos de rating, ainda bem abaixo do ponto mais alto da carreira da rainha do xadrez.
Queda da Novo Nordisk
A gigante farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk praticamente apagou quase todos os ganhos de valor de mercado que acumulou após obter a aprovação da FDA para seu medicamento para perda de peso Wegovy, em 2021.
As ações da empresa caíram cerca de 20% na semana passada em meio a dois grandes reveses. Na terça-feira, a Novo alertou que as vendas em 2026 podem cair até 13%, citando “pressões de preços sem precedentes” nos EUA, concorrência crescente e o iminente vencimento da patente do semaglutida, princípio ativo de seus medicamentos GLP-1.
Em seguida, na quinta-feira, a empresa de telemedicina Hims & Hers lançou uma versão genérica do comprimido Wegovy recém-aprovado pela Novo, com preço inicial de apenas US$ 49 por mês... mas, no mesmo dia, a FDA alertou que iria reprimir “medicamentos ilegais copiados”. A Hims retirou o comprimido do mercado no sábado, o que fez as ações da Novo subirem nesta manhã, enquanto a empresa anunciava que está processando a Hims.
Ainda assim, os impactos eliminaram a recuperação de janeiro da Novo, impulsionada pelo entusiasmo em torno do lançamento de seu comprimido oral. Ampliando o horizonte, o cenário é ainda mais contundente: praticamente todos os ganhos da Novo desde que o Wegovy chegou ao mercado agora desapareceram.
Desde sua aprovação pela FDA em junho de 2021, o Wegovy, juntamente com seu equivalente para tratamento de diabetes, o Ozempic, ajudou a impulsionar a Novo a se tornar a empresa mais valiosa da Europa, com seu valor de mercado atingindo cerca de US$ 650 bilhões em meados de 2024.
Mas esse domínio não durou. A escassez crônica de semaglutida abriu espaço para alternativas manipuladas mais baratas, enquanto a concorrente Eli Lilly avançou rapidamente após lançar seu medicamento para perda de peso Zepbound no final de 2023 — um impulso que chegou a levar a avaliação da Lilly acima de US$ 1 trilhão em novembro passado. Em contraste com a Novo, a Lilly divulgou uma projeção para 2026 acima do esperado na semana passada, já que seus medicamentos GLP-1 têm sido mais eficazes do que os da Novo, além de serem competitivos em custo.
Após a reviravolta dramática da saga dos medicamentos para emagrecimento neste fim de semana, no entanto, a Novo ainda pode ter algum fôlego.
Fonte: Chartr
Super Bowl e desconfiança
O Super Bowl é uma noite interessante para analisar o que está ocorrendo na economia. No domingo, tivemos mais esse evento anual e foi possível perceber a força da IA. Segundo o New York Times, nos comerciais durante o jogo predominou os anúncios desse setor. O número: um quarto dos anúncios — ou 15 dos 66 spots —, com um custo de 8 milhões de dólares por 30 segundos, apresentaram a IA. E isso incluiu a OpenAI, a Anthropic e algumas empresas menores. Até a vodka Svedka usou o tema para vender bebida.
Em 2022, o jogo foi dominado pelas criptos, incluindo a FTX, que logo depois entraria em falência. Em 2000, tivemos o jogo das ponto-com, com anúncios de empresas inovadoras na internet, como Pets, Epidemic e outras. Muitas não estão mais nos negócios. Analisando o que ocorreu ontem, George Noble, um profissional de investimento citado pelo New York Times, afirma:
“Quando um setor inteiro inunda os imóveis publicitários mais caros do planeta, não é um sinal para comprar. É um sinal para pensar MUITO cuidadosamente sobre o que vem a seguir.”



%20-%20IMDb.png)

