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02 julho 2026

Regressão linear imprópria

A navalha de Ockham afirma que a simplicidade é melhor que a busca da precisão a todo custo. Quanto mais simples, melhor. Um pesquisador, Robyn Dawes, sugeriu um método denominado regressão linear “imprópria”.


A técnica de regressão é amplamente aplicada na ciência e utiliza cálculos para representar uma realidade. Se tenho dois conjuntos de dados, uso uma planilha eletrônica ou um software estatístico, e pode ser feito o cálculo da relação entre as variáveis. A coisa é mais complexa, pois é necessário fazer um conjunto de testes para certificar que as suposições da técnica foram atendidas. Mas Dawes despreza isso e propõe que os pesos sejam escolhidos arbitrariamente.

Tim Harford dá um exemplo bastante didático: em uma conferência, Dawes foi desafiado a construir um modelo para prever se um casal é feliz. Ele propôs uma explicação sem rodar nenhum software, baseada em duas variáveis: se a quantidade de sexo fosse maior que a de brigas, o casal seria feliz; caso contrário, quando as brigas excedessem o sexo, o casal seria infeliz. É algo sensato e talvez não impróprio, pois não depende de um estudo científico. Parece que os dados coletados confirmam a hipótese.

Duas questões podem surgir da proposta. Primeiro, será que o modelo de regressão linear imprópria funciona? Em outras palavras, quando tomo um conjunto de dados, a previsão é próxima de uma previsão realizada por um modelo de regressão? Se o modelo funciona, qual é a razão para funcionar? Admitindo uma resposta afirmativa para a primeira questão, um modelo impróprio não é tão arbitrário assim: afinal, é razoável imaginar que há uma relação entre sexo, brigas e felicidade.

Dawes não foi o primeiro, nem será o último, a estudar regras simples. Essas regras são tão comuns que os cientistas deram um nome para elas: heurísticas.

Finanças pessoais de Trump e os negócios de cripto


Tivemos, recentemente, a divulgação financeira pessoal de Donald Trump, referente a 2025. Ficamos sabendo que o presidente dos Estados Unidos teve ganhos superiores a US$ 1 bilhão com criptoativos. A principal fonte teria sido a licença associada ao token $TRUMP, com cerca de US$ 635 milhões em royalties, além de receitas ligadas à World Liberty Financial, empresa cripto conectada à família Trump. 

Os ganhos ocorreram enquanto o governo Trump influenciava a regulação do setor, o que reacendeu críticas sobre conflitos de interesse. A Casa Branca negou irregularidades e afirmou que os ativos seriam administrados de forma independente. A divulgação também mostra outras receitas relevantes, como propriedades, clubes de golfe, licenciamento de marca e produtos comerciais. 

Taylor Swift Tax


Para aumentar a arrecadação, o estado de Rhode Island, Estados Unidos, criou um imposto sobre "segundas residências". O estado costeiro possui um grande número de praias, ilhas e áreas de veraneio, inclusive uma residência da cantora Taylor Swift. Várias casas são usadas como veraneio. Logo, a nova taxa foi chamada de Imposto Taylor Swift (Taylor Swift Tax). 

A taxa cobra cinco dólares para cada mil dólares do valor avaliado para imóveis com valor acima de um milhão. O problema é que famílias com imóveis herdados poderão ter que vender os ativos. A expectativa de arrecadação é de 24,5 milhões. 

01 julho 2026

IA e Contabilidade, segundo Barckow


Minha preocupação não é que a IA torne as pessoas menos capazes. Minha preocupação é que, se eliminarmos grande parte do trabalho de base, também podemos eliminar as experiências por meio das quais o julgamento é formado e aprimorado. [...] Não creio que a pergunta útil seja se a IA fará diferença. Ela já faz. A questão mais importante é como usar a IA preservando a experiência e o julgamento dos quais depende a elaboração de relatórios financeiros de alta qualidade.

Barckow, presidente da Fundação IFRS, em discurso recente. 

Diretor que gastou dinheiro de adiantamento é condenado


Em dezembro, postamos sobre o caso de um diretor que recebeu uma antecipação da Netflix para desenvolver um projeto. Foram 11 milhões para uma série de ficção científica. A acusação é que Carl Erik Rinsch desviou dinheiro para drogas, investimentos arriscados e bens pessoais de luxo, sem produzir nada para a empresa de streaming. 

Do ponto de vista contábil, os US$ 11 milhões configuram um adiantamento feito pela Netflix, ou seja, um ativo. Contudo, a partir do momento em que ficou claro — conforme exposto no tribunal — que os recursos foram utilizados de forma indevida, a empresa deveria reconhecer a perda por meio de um teste de impairment. Caso o diretor venha a restituir parte do valor, esse montante deverá ser considerado contabilmente. 

Agora, o diretor foi condenado por fraude federal e lavagem de dinheiro. O juiz condenou o diretor a três anos de liberdade condicional supervisionada, ao confisco do valor e uma pequena multa.  

Grau de utilização do GRI


A Global Reporting Initiative (GRI) publicou um relatório que constata que a GRI é a norma de divulgação de sustentabilidade mais utilizada, com empresas que a adotam representando 62% da capitalização de mercado global. O relatório, intitulado " O Estado dos Relatórios de Sustentabilidade: Tendências Globais nas Normas GRI 2025", baseia-se em relatórios publicados por quase 15.000 empresas listadas em 132 jurisdições (todas com receita superior a US$ 250 milhões). A pesquisa enfatiza que, apesar da resistência política à agenda de sustentabilidade em 2025, as práticas de divulgação não estão em retrocesso. A maioria das empresas divulga informações utilizando múltiplas normas e estruturas, enquanto o Sul Global está avançando mais rapidamente do que os mercados maduros da Europa e da América do Norte. Clique aqui para acessar o relatório por meio do comunicado de imprensa no site da GRI.

Fonte Iasplus

No site a informação que o GRI é adotado por 71% das empresas, uma das taxas mais elevadas do mundo. Dentro do relatório, a informação que são 194 empresas. Estranho esse número. 

Rir é o melhor remédio

 


Noruega muda suas normas contábeis

Do IASPlus


Em março de 2026, a organização norueguesa de normalização, Norsk RegnskapsStiftelse (NRS), lançou uma consulta pública sobre uma nova estratégia proposta para a definição de normas na Noruega. A NRS analisou o feedback recebido e definiu a nova estratégia.

A consulta sugeriu os seguintes três pilares para a atualização das normas de relatórios financeiros existentes e o desenvolvimento de novas normas:

  • Garantir a conformidade com os quadros legais e práticos noruegueses;
  • avaliar soluções internacionais reconhecidas (IFRS); e
  • Equilibrar a necessidade de relatórios financeiros de alta qualidade com os custos de conformidade.

Esses aspectos foram incorporados à nova estratégia, que esclarece:

As IFRS servirão como um ponto de referência fundamental para o desenvolvimento de uma norma contábil norueguesa adaptada ao setor empresarial da Noruega. Isso não implica a implementação das normas IFRS, mas sim que é desejável inspirar-se na estrutura das IFRS sempre que apropriado e viável dentro do âmbito da Lei de Contabilidade.

Ou seja, haverá um padrão norueguês. Anteriormente, a norma era baseada na norma de PMEs, o que era bem interessante. 

30 junho 2026

Uso de IA na pesquisa histórica

Os modelos de linguagem de grande escala (LLMs, na sigla em inglês) estão reduzindo as barreiras de entrada para o trabalho com fontes de dados interessantes que antes exigiam fortes habilidades em ciência de dados, como livros-razão manuscritos, textos, imagens ou gravações de áudio. Este guia fornece uma introdução para pesquisadores que estão começando a usar LLMs. Ele apresenta um fluxo de trabalho passo a passo para transformar uma ideia de pesquisa em código e dados funcionais e descreve as quatro principais maneiras de interagir com um LLM: a janela de bate-papo, assistentes integrados ao editor, ferramentas de codificação agentiva e a API. Em seguida, aborda as decisões que um profissional precisa tomar em sequência, começando por avaliar se um LLM é a ferramenta certa e se os dados podem ser enviados para ele, passando por como selecionar modelos, escrever prompts, gerenciar limites de contexto e controlar custos, e finalmente como validar, reproduzir, documentar e corrigir medidas geradas por LLMs em contextos de regressão. Uma revisão de pesquisas recentes mostra como essas ferramentas já extraem, vinculam, harmonizam e classificam dados históricos em grande escala. Quatro exemplos práticos com arquivos de replicação ilustram o uso de LLMs. Eles classificam emoções em pinturas, vinculam registros censitários sem nomes, medem a relevância e o sentimento dos jornais em relação à Lei de Exclusão Chinesa de 1882 e avaliam a expressividade emocional dos discursos de guerra de Franklin D. Roosevelt. O guia também condensa o fluxo de trabalho, as recomendações de melhores práticas e a preparação de pacotes de replicação em tabelas resumidas e listas de verificação para auxiliar economistas aplicados.

Muito interessante e útil. 

A Practitioner's Guide to Using Large Language Models and Generative AI in Economic History - Andreas Ferrara

Sabedoria da multidão ou minoria informada: mercado de previsão


Os mercados de previsão ganharam reputação por sua impressionante precisão, mas o mecanismo por trás dessa precisão permanece surpreendentemente opaco. Em seu artigo de 2026, "Precisão do Mercado de Previsão: Sabedoria da Multidão ou Minoria Informada?",  Roberto Gómez-Cram, Yunhan Guo, Theis Ingerslev Jensen e Howard Kung fazem a primeira análise abrangente do universo de transações da Polymarket e revelam um resultado que derruba as narrativas dominantes. A precisão, demonstram eles, não provém da grande multidão nem de especialistas, mas de uma pequena minoria persistentemente habilidosa — aproximadamente 3% dos traders — que reagem instantaneamente a notícias públicas, corrigem violações de preços e negociam contra os erros comportamentais da multidão. 

O texto prossegue com uma entrevista. Interessante que 3% já foi suficiente para formar um mercado com uma boa precisão.

Infelizmente o governo brasileiro, através da CVM, proibiu o acesso do brasileiro ao mercado de previsão. Idiotice pura. 

Wiki-spy

 A página Wiki Spy parece algo bobo. Um monte de figuras, aleatórias, da Wikipedia. Para fazer esse texto apareceu a figura:


Cliquei na Lady Gaga (parte inferior direita) e uma nova página surgiu:

Cliquei agora na Taylor Swift e 

Parece rede social e rolagem de postagens que fazemos. 


GPT e educação


O número de estudos analisados é pequeno, mas é uma discussão importante: 

 Esta revisão sistemática visa explorar as implicações éticas do uso do ChatGPT no ensino superior, avaliar as percepções das partes interessadas e oferecer recomendações práticas para abordar os dilemas éticos emergentes. O estudo empregou a metodologia de Revisão Sistemática da Literatura (RSL) baseada no PRISMA. Artigos revisados ​​por pares, publicados em inglês entre 2022 e 2025, foram selecionados, e um total de 26 estudos foram identificados, triados e analisados ​​com base em critérios de inclusão e exclusão definidos. A revisão identificou preocupações éticas importantes, incluindo desonestidade acadêmica, segurança de dados, acesso desigual, diminuição do engajamento entre professores e alunos e dependência excessiva da IA. Os resultados indicam percepções divergentes entre alunos, educadores e pesquisadores em relação ao uso ético do ChatGPT, com muitos destacando tanto benefícios quanto riscos. A revisão ressalta a necessidade de marcos regulatórios e políticas éticas em instituições de ensino. Embora o ChatGPT apresente oportunidades para inovação pedagógica, seus desafios éticos devem ser abordados por meio de diretrizes abrangentes, programas de conscientização e políticas de uso responsável. Os resultados apoiam a necessidade de avaliação contínua para garantir que as ferramentas de IA contribuam construtivamente para os resultados educacionais.

Osso de Ishango


Do blog de Pedro Demo:

Trata-se do Osso de Ishango, de 18 mil aC, que hoje está no Real Instituto Belga de Ciências Naturais, em Bruxelas. Foi descoberto em 1950, no lago Eduardo, na fronteira da atual República Democrática do Congo, perto de um século após os colonos europeus se maravilharem com as possibilidades comerciais do até então inexplorado rio Congo. Atravessando a África central, o rio foi e ainda é a espinha dorsal da região, usado há milênios como uma via comercial muito privilegiada. Trata-se de um fêmur de babuíno com uma série de traços entalhados. Não há consenso entre os arqueólogos em relação à finalidade do artefato, mas especula-se que cada traço indique um montante devido por alguém a outra pessoa e que, juntos, sejam o registro de uma transação ou um conjunto de créditos e débitos. Os entalhes poderiam ser registro de que as transações foram pagas, ou liquidadas, ou pendentes (Joseph, 1991). Se o Osso de Ishango foi mesmo uma talha numérica comercial, os traços representam também o primeiro exemplo conhecido de valor, que é um conceito sofisticado. Atribuir valor é exercício de pensamento abstrato, até porque o que M [de McWilliams (2025), no livro Dinheiro] valoriza e o preço que ele está disposto a pagar por algo podem ser bem diferentes daquilo que outrem valoriza e de quanto está disposto a pagar pelo mesmo item. Parece claro que estamos falando de hipóteses de trabalho científicas - estamos supondo que o osso foi entalhado como contabilidade (a pagar, a receber), mas não temos certeza disso. Em si, o entalhe pode ter outros significados ou nenhum, por ter sido, digamos, um passatempo eventual de alguém que entalhou. 

Cabe, então, se perguntar: teriam nossos antepassados africanos buscado resolver a situação desenvolvendo forma preliminar de comércio para a qual precisavam de contabilidade? Se a própria história da humanidade começa na África, não surpreenderia que a história do dinheiro também principie por lá. Para além de meras conjeturas, o que sabemos é que os africanos estavam contando (poderiam estar só entalhando!)... O Osso de Ishango é ferramenta de registro muito antiga, e, se os ancestrais estavam contando para fazer transações, é provável que a moeda-base fossem pessoas. A escravidão foi o pecado original do dinheiro (M:32). No registro tradicional da espécie, ela foi nômade, sedentária, depois nômade de novo, antes de se fixar, por volta de 5 mil aC em comunidades pequenas que se organizariam prevalentemente em torno do dinheiro. Mas a teoria do Osso de Ishango, de um comércio primitivo, insinua que os ancestrais pensaram em dinheiro muito antes disso. As pessoas que entalharam o Osso eram caçadores-coletores no limiar de um novo mundo. No centro de sua sociedade, na Idade da Pedra, estava a tecnologia temida por Zeus: o fogo. 

Não é possível afirmar que seja o primeiro exemplar de uma transação comercial. Há controvérsias quanto a datação do osso. Mas é incrível imaginar que se tenha algo bem mais antigo que as tabuletas da região do oriente médio. 

29 junho 2026

IFRIC

A Fundação IFRS anunciou novos membros do comitê de interpretação. Entre os nomes, José Victor Sousa, que trabalha como executivo na Vale. Conforme o comunicado divulgou, Sousa tem mais de 15 anos de experiência com normas contábeis IFRS e está ajudando a implementar os padrões de sustentabilidade do ISSB. 

A Vale é uma das empresas que foram listadas, pelo CFC, como exemplo de entidade que já estavam fazendo as normas de sustentabilidade da Fundação. 

Transparência Real

Da Bloomberg


Em nome da transparência, o rei Charles III divulgou o valor dos impostos que paga. O problema é que esse pequeno feixe de luz lançado sobre as finanças reais nos diz pouco sobre sua verdadeira renda ou riqueza. Em vez de abrir suas contas a um escrutínio democrático completo, as revelações talvez sirvam apenas para desviar a atenção de um generoso aumento na remuneração do monarca britânico em um momento de aperto econômico nacional.

28 junho 2026

Tecnologia e mercado de capitais

 Aproveitando a implementação gradual das redes de banda larga móvel de terceira geração (3G) em 40 países entre 1999 e 2012, examinamos como o progresso tecnológico afeta os mercados de capitais. Constatamos que a introdução das redes 3G é seguida por uma redução nos spreads de compra e venda e um aumento na transparência dos preços. Esses efeitos são mais pronunciados entre empresas com menor participação institucional, indicando que o acesso à informação por meio de redes de banda larga móvel beneficia desproporcionalmente os investidores individuais. Mostramos ainda que esses efeitos se concentram em países com mercados bem estruturados, caracterizados por informações contábeis transparentes, ampla participação de investidores e forte proteção legal aos investidores. Em conjunto, nossas descobertas sugerem que a conectividade de banda larga móvel reduz as fricções informacionais e melhora a transparência dos preços. Elas também destacam as condições institucionais sob as quais esses benefícios se materializam.

Do resumo de Huh, J. , Y. Kim , S. Li e Y.Wu. 2026. Contemporary Accounting Research 1–33. https://doi.org/10.1111/1911-3846.70062 .



ESG como vantagem competitiva


De um artigo do International Accounting Bulletin

A discussão em torno de ESG está evoluindo, e para melhor. Para algumas organizações, o ESG tem sido visto como uma obrigação regulatória – algo a que reagem, tentam cumprir e nunca adotam completamente. Mas há uma crescente conscientização de que, em vez de um exercício de conformidade ou um "desejável" diferencial para melhorar a reputação, o ESG se tornou um imperativo de negócios – algo vital para o acesso a oportunidades comerciais, capital, talentos e crescimento.

Estudos têm demonstrado consistentemente que organizações que incorporam critérios ESG como componente central de seus planos de crescimento podem alcançar uma vantagem competitiva significativa sobre seus concorrentes. Por exemplo, uma pesquisa publicada no International Journal of Climate Change Strategies and Management constatou que as práticas ESG aumentam a estabilidade financeira e a atratividade no mercado. Isso ocorre porque investidores, clientes e funcionários – tanto atuais quanto potenciais – agora esperam visibilidade e garantia de compromisso com as práticas ESG.

(...)

É aqui que os contabilistas e consultores desempenham um papel crucial. À medida que a conversa passa de "Como cumprimos as normas?" para "Como uma estratégia ESG contribui para o crescimento a longo prazo?", os serviços prestados por contabilistas e consultores também devem evoluir.

Os contabilistas auxiliam os clientes na análise e compreensão dos riscos e oportunidades associados aos critérios ESG. À medida que o foco se desloca da conformidade para a resiliência e o desempenho financeiro, os contabilistas e consultores podem oferecer informações valiosas sobre como os modelos de negócio precisam evoluir, como uma estratégia ESG pode impactar as cadeias de suprimentos e como as operações (tanto em termos de custos quanto de eficiência) podem ser aprimoradas.

Ok, é uma propaganda de um seminário aqui. Mas entendo que é uma posição interessante, pois não é a favor de um critério específico de divulgação ou sobre a obrigação de reportar. Trata-se da importância, ou não, de divulgar. 

Perdendo o controle


Eis o resumo:

As firmas de contabilidade tradicionalmente operaram como instituições ao mesmo tempo elitizadas e reinventivas, que oferecem uma trajetória de carreira estruturada e prestigiosa e impõem aos auditores um processo de socialização profundamente transformador. No entanto, mudanças recentes no mercado de trabalho e a evolução das preferências laborais estão desafiando esse regime de poder, com implicações significativas para as firmas e seus empregados. Com base em 31 entrevistas semiestruturadas com auditores no Canadá, nosso estudo examina como essas mudanças estão reconfigurando as dinâmicas de poder dentro das firmas de contabilidade. Primeiro, constatamos que as firmas enfrentam dificuldades crescentes para definir e produzir o auditor ideal. Em vez disso, como destacamos, elas estão vivenciando o surgimento do auditor padrão, um profissional moldado mais pelas restrições do mercado de trabalho e por um engajamento transacional do que pelos mecanismos tradicionais de seleção e disciplina conduzidos pela firma. Segundo, analisamos a erosão do poder pastoral — isto é, o poder enraizado na orientação e no cuidado — dentro das firmas, à medida que os auditores em início de carreira priorizam o cuidado de si, enquanto sócios e gerentes enfrentam dificuldades crescentes para estabelecer e sustentar relações pastorais com seus subordinados. Como resultado dessa erosão, sócios e gerentes oscilam entre o autossacrifício — isto é, assumir responsabilidades adicionais para compensar o desengajamento dos auditores — e um crescente senso de inequidade — isto é, a sensação de que estão dando demais e recebendo muito pouco em troca. Para captar esse impasse crescente, desenvolvemos o conceito de paralisia disciplinar e pastoral, um estado no qual sócios e gerentes já não podem contar com os mecanismos tradicionais de disciplina e punição para impor normas de conduta profissional, mas também enfrentam dificuldades para reinventar novas formas de poder pastoral. Examinamos as implicações dessa perda de controle, questionando se ela representa uma mudança temporária ou uma transformação mais permanente. Por fim, discutimos as consequências mais amplas de as firmas de contabilidade se tornarem menos semelhantes a instituições normalizadoras e mais semelhantes a organizações “normais”.

Há um comentário interessante do GoingConcern, que destaca dois trechos do artigo. 

27 junho 2026

Futebol, estatística e trabalho humano


O futebol depende cada vez mais de análises de dados avançadas e ferramentas de IA para otimizar as táticas das equipes, as transmissões e a indústria de apostas esportivas.

Uma força de trabalho global de anotadores humanos registra manualmente milhares de ações de correspondência para gerar dados estruturados e treinar algoritmos de visão computacional.

Com o crescente investimento dos EUA, a indústria multibilionária depende muito desses trabalhadores que atuam nos bastidores.

Esse é o resumo. O produto do trabalho é para alimentar o mercado de apostas. Mas é interessante a junção entre IA e trabalho humano. 

26 junho 2026

Rir é o melhor remédio


 Fonte: aqui

Rei britânico está pagando imposto


Eis a notícia:  

O Rei britânico Carlos III revelou esta quinta-feira pela primeira vez quanto pagou de impostos, cerca de 35 milhões de euros desde que chegou ao trono, em 2022, segundo o relatório anual das finanças reais.

Conforme o documento, no ano passado (2024-2025) o monarca pagou 12,9 milhões de libras (15 milhões de euros) em impostos e 11,7 milhões de libras (13,6 milhões de euros) no ano anterior (2023-2024). (...)

Os monarcas britânicos não são obrigados a pagar impostos sobre os rendimentos, imposto sucessório nem imposto sobre mais-valias.

No entanto, desde 1993, a então Rainha Isabel II, que morreu em 2022, e o então Príncipe, agora Rei Carlos III, pagam impostos sobre os rendimentos provenientes do Ducado de Lancaster, composto por propriedades rurais e imóveis em cidades por todo o país, e sobre rendimentos de investimentos pessoais.

É uma novidade um Rei pagar imposto

25 junho 2026

Empréstimo Zumbi e o papel da informação contábil


O importante sobre a Daiei não é como ela faliu, mas por que não faliu muito antes . Caballero, Hoshi e Kashyap escreveram um artigo em 2008 argumentando que empresas "zumbis" como a Daiei prejudicaram a economia japonesa durante a década de 1990 (e, em alguns casos, até mesmo depois dela).

Basicamente, após 1990, a economia japonesa desacelerou e muitas empresas que antes eram lucrativas — especialmente nos setores de construção, varejo e comércio — deixaram de ser. Essas empresas deviam muito dinheiro aos bancos. Se não conseguissem pagar seus empréstimos, os bancos seriam obrigados a reconhecer dívidas incobráveis ​​em seus balanços. Isso lhes causaria problemas com os órgãos reguladores (devido às exigências de capital) e também com o público japonês.

O que os bancos fizeram foi emprestar ainda mais dinheiro às empresas falidas que já lhes deviam muito, a taxas de juros muito baixas. Os novos empréstimos eram usados ​​para pagar os antigos e classificados nos livros contábeis do banco como dívida "boa". Esse processo — conhecido como "evergreening" — impedia que os bancos tivessem que reconhecer seus prejuízos. (...)

A prática de perpetuar contratos manteve à tona diversas empresas — como a Daiei — que tinham modelos de negócios completamente falidos. Teoricamente, essas empresas poderiam ter eventualmente reformulado seus modelos de negócios e se recuperado, ou a economia japonesa poderia ter voltado a prosperar, etc. Na prática, isso nunca aconteceu.

Caballero, Hoshi e Kashyap argumentam que a prática de perpetuar empresas em atividade foi muito prejudicial para a economia japonesa, pois absorveu recursos escassos que empresas melhores poderiam ter utilizado para crescer. Com todos esses empréstimos de baixa qualidade entupindo seus balanços, os bancos japoneses não conseguiam emprestar para empresas mais saudáveis. Enquanto grandes empresas zumbis como a Daiei ainda conseguiam empregar grande parte dos melhores gestores do Japão, jovens startups ambiciosas eram privadas de talentos. Os autores argumentam que manter toda essa mão de obra e capital presos em empresas fadadas ao fracasso contribuiu significativamente para a longa estagnação da produtividade japonesa.

Sobre a história da Daiei, há um verbete na Wikipedia

A política de preservar empresas tradicionais, trocando empréstimos, sem mudança substancial nas empresas, prejudicou a economia como um todo. No texto, de Noé Smith, há uma especulação que algo similar estaria ocorrendo na China. A partir de 2021 ocorreu uma redução nas atividades econômicas chinesas, talvez maior que nas estatísticas oficiais. O número de empresas com lucro também reduziu, mas o volume de empréstimos inadimplentes reduziu, sugerindo que as entidades estão sendo mantidas em funcionamento por meio desse recurso. E há uma estatística, citada por Smith, que os empréstimos não vinculados ao desempenho não estão sendo adequadamente reconhecido no balanço. 

Isso cria uma situação de empréstimo zumbi, onde "os bancos refinanciam empréstimos inadimplentes para empresas não lucrativas e permitem que o status quo continue, em vez de reconhecer as perdas".  

22 junho 2026

Big Four na Índia e incoerência: crescimento acelerado, mas não comparável.


Do Economic Times 

As unidades indianas das quatro maiores firmas de auditoria encerraram o ano fiscal de 2026 como algumas das operações de crescimento mais rápido dentro de suas redes globais, em um momento em que o crescimento permaneceu lento em mercados maduros, o lucrativo mercado do Oriente Médio desacelerou e algumas regiões continuaram a registrar demissões. No ano fiscal de 2026, a PwC reportou uma receita bruta de cerca de 140 bilhões de rúpias, com crescimento de 21%, a Deloitte registrou 145 bilhões de rúpias, com crescimento de 22%. As receitas da KPMG ultrapassaram 100 bilhões de rupias, incluindo royalties, a venda de um ativo único e a receita da KDN, seu centro global de serviços. Já a EY, cujo ano fiscal termina em 30 de junho, ultrapassou 160 bilhões de rupias, segundo dois sócios seniores que falaram sob condição de anonimato.

Comparar as empresas, no entanto, não é simples. As empresas, que operam como parcerias privadas, estão em uma corrida para parecerem maiores e têm adotado cada vez mais diferentes estilos de divulgação de receita. Alguns incluem despesas repassadas aos clientes, GST (Imposto sobre Bens e Serviços), royalties recebidos pela sede global, trabalho terceirizado, trabalho focado na Índia executado por meio de centros de entrega globais e até mesmo venda de ativos, criando uma variação de 10% a 25% nos valores da receita.

Via aqui. Imagem aqui

CFC busca na Fazenda um apoio para o retorno da obrigatoriedade das normas de sustentabilidade.

Eis a notícia do CFC: 


Diante do impasse (1) provocado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ao tornar facultativos os reportes de sustentabilidade das companhias abertas, o presidente do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Joaquim Bezerra, encaminhou (2) na quinta-feira (18) ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, uma proposta técnica que busca destravar o debate regulatório sobre o tema.

A iniciativa é resultado de processo de articulação (3) liderado pelo CFC com as demais entidades integrantes do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS), responsável pela emissão dos pronunciamentos técnicos brasileiros de sustentabilidade alinhados às normas internacionais emitidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB). Instituído em 2022, o Comitê reúne entidades representativas da contabilidade, da academia, da auditoria, da governança corporativa, do mercado de capitais, dos investidores e das próprias companhias abertas.

Na manifestação, o CFC propõe um modelo de convergência gradual assistida. Na prática (4), a medida adia por dois anos a obrigatoriedade dos reportes de sustentabilidade, sem eliminar essa exigência. As companhias abertas continuariam podendo aderir voluntariamente ao modelo em 2026 e 2027 e passariam a seguir a regra de forma obrigatória a partir de 2028. Segundo o Conselho, a solução busca equilibrar o tempo necessário para adaptação das empresas com a necessidade de preservar a comparabilidade das informações e a credibilidade do mercado de capitais brasileiro.

O Conselho Federal de Contabilidade destaca ainda que a medida contribui para assegurar previsibilidade regulatória (5) e a segurança jurídica (6) no ambiente de negócios, além de fortalecer a confiança dos investidores e manter (7) a convergência do Brasil aos padrões internacionais de sustentabilidade.

“Trata-se, em essência, de converter um recuo (8) em adiamento qualificado visando preservar a proporcionalidade pretendida pela autarquia sem sacrificar a comparabilidade, a conectividade com as demonstrações financeiras e o capital reputacional do mercado de capitais brasileiro”, justificou Joaquim Bezerra no ofício.

O documento reafirma a disposição do CFC e do CBPS para colaborar tecnicamente com o Ministério da Fazenda, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e demais órgãos envolvidos na construção de soluções que promovam transparência, desenvolvimento sustentável e geração de valor para o mercado e para a sociedade.

Quando se analisa o documento final, constante do link citado, é possível perceber que é um documento bastante razoável, com chance de ser levado em consideração e alguns bons argumentos. Também é louvável que o CFC tenha evidenciado o movimento e o documento. Meus comentários ao texto da reportagem: 

1. Em vez de "impasse", talvez fosse mais preciso dizer que o documento do CBPS não foi endossado pela CVM, que exerceu sua prerrogativa regulatória ao tornar o reporte facultativo. A palavra impasse sugere que nenhum dos lados cedeu, quando, na verdade, há uma decisão tomada — e cabe à CVM tomá-la.

2. O encaminhamento por ofício, em lugar de uma entrega presencial, pode refletir simplesmente a agenda do Ministro. Não seria razoável extrair desse fato qualquer sinalização mais definitiva.

3. O termo "articulação" merece uma nota: o CBPS é coordenado pelo CFC, e o ofício traz apenas a assinatura do seu presidente. A participação das demais entidades do Comitê na elaboração da proposta não fica explícita no documento.

4. A expressão "na prática" pode criar uma expectativa equivocada de que a proposta já seria adotada. Trata-se, até o momento, de uma sugestão encaminhada ao Ministério.

5. A questão de previsibilidade é genuína: uma norma foi aprovada, amadurecida por anos e depois revertida. Isso cria incerteza para as companhias que já haviam iniciado processos de adaptação.

6. A menção à "segurança jurídica" parece um pouco além do que o caso comporta. Não há propriamente insegurança jurídica — a CVM agiu dentro de suas competências. O ponto mais preciso seria falar em instabilidade regulatória.

7. Vale distinguir: a decisão da CVM não rompe com os padrões técnicos do ISSB — quem reportar continua obrigado a seguir o CBPS/ISSB. O que se perdeu foi a obrigatoriedade universal, não a convergência para quem adere.

8. A palavra "recuo" no ofício é uma escolha retórica que coloca o CFC no papel de guardião da agenda, quando o protagonismo da decisão — em qualquer sentido — é da CVM. É um recurso compreensível em um documento de advocacy, mas o leitor deve ter isso em mente.A grande questão é que não sabemos a razão efetiva para a mudança de posição da CVM. Pode ser uma pressão das próprias empresas de capital aberto, que sabem do custo de produção da informação. 

19 junho 2026

Faz sentido o valor da Anthropic?


Sobre a avaliação da empresa do Claude:

Então, a Anthropologie vai abrir capital ! A empresa está avaliada em quase US$ 1 trilhão, então este será um dos maiores IPOs da história — o único concorrente é a SpaceX, que também deve abrir capital em breve. Será um dos maiores eventos de criação de riqueza da história — os sete fundadores da empresa terão um patrimônio líquido de quase US$ 20 bilhões cada , e os funcionários comuns terão patrimônio líquido na casa dos milhões ou dezenas de milhões. Adeus, minhas chances de comprar uma casa em São Francisco!

Se a Anthropic vale essa avaliação não é o tema deste post, mas acho interessante mencionar. A Anthropic está apresentando um crescimento de receita mais impressionante do que qualquer outra empresa na história, tendo recentemente ultrapassado a OpenAI para uma taxa anualizada de cerca de US$ 45 bilhões. As preocupações de que a empresa não fosse lucrativa foram dissipadas por esse crescimento exponencial — a Anthropic está prestes a obter seu primeiro lucro operacional .

Na verdade, acho que o preço oferecido pela Anthropic é bastante conservador. Um múltiplo de 20 vezes a receita anualizada não é tão caro para uma empresa que cresce 130% por trimestre . Obviamente, esse crescimento vai se estabilizar em breve, mas bastaria pouco mais de um ano desse ritmo para que a Anthropic fosse precificada como uma ação de valor. A cautela na precificação provavelmente reflete o perigo da concorrência, tanto da OpenAI quanto dos modelos chineses de código aberto baratos que estão sempre à espreita dos líderes .

O motivo da ascensão meteórica da Anthropic, é claro, reside no sucesso de seus agentes de programação. Durante anos, a OpenAI lutou para encontrar um mercado para seus chatbots de última geração; todos estavam impressionados com a tecnologia e todos a utilizavam, mas ninguém conseguia descobrir como gerar valor econômico significativo com ela. A Anthropic basicamente resolveu esse problema ao ser a primeira a inventar agentes de programação utilizáveis ​​— IAs que escrevem software por conta própria. O Claude Code, software de agentes da Anthropic, ganhou enorme valor de marca, mesmo que o produto Codex da OpenAI seja competitivo em termos de qualidade.

Isso representava um verdadeiro encaixe produto-mercado. A IA já havia provado seu funcionamento em termos da tecnologia subjacente — provavelmente por volta de 2024, quando os modelos de raciocínio reduziram o problema das alucinações. Agora, ela havia encontrado seu aplicativo matador — o equivalente ao comércio eletrônico e às buscas na internet, ou às planilhas e aos processadores de texto para computadores. De repente, todo mundo no mundo estava “ maximizando tokens ” — tentando usar agentes de codificação o máximo possível.

Noé Smith e a newsletter de 2 de junho. Parece existir uma grande tendência das empresas gastarem dinheiro em Tokens, mas sem ter uma ideia sobre o uso. Ou seja, boa parte do uso de IA não está sendo feito em produtos reais, que serão lançados no mercado. 

Smith lembra que "apenas 18% dos gastos com tokens se traduzem em produtos de programação entregues que chegam a usuários reais". Isso não seria uma ameaça para as receitas da Anthropic? 

O patrimônio oculto de Messina Denaro


O italiano Matteo Messina Denaro nasceu em 1962 e faleceu em 2023. Conhecido como Diabolik, um personagem dos quadrinhos, foi chefe da máfia italiana e fugitivo desde os anos 90. Filho de um mafioso, levava uma vida fora dos padrões tradicionais de valores familiares e conservadores da organização criminosa, mas isso não o impediu de chegar ao topo da organização.

Em 1993, um atentado matou dois procuradores italianos, o que levou a uma campanha do governo italiano para coibir a ação da máfia. A prisão do importante membro Salvatore Riina e a introdução de um regime prisional mais duro fizeram com que a Cosa Nostra, um dos nomes da organização criminosa italiana, começasse uma campanha com ataques a bomba, incluindo na famosa Galeria Uffizi. Em 1999, recebeu a sua primeira sentença de prisão perpétua, à revelia, pela morte de um guarda prisional.

Na clandestinidade, Messina Denaro construiu um grande patrimônio. Alguns dos seus ativos foram apreendidos em 2008 pelas autoridades italianas e estavam avaliados em 700 milhões de euros. Incluíam empresas, prédios, terrenos, entre outros. Mais ativos foram confiscados em 2010, avaliados em 550 milhões de euros. Isso mostra o poder econômico de Messina Denaro. Ainda em 2010, foram apreendidos 1,5 bilhão de um testa de ferro. A estratégia da polícia era reduzir o poder financeiro do mafioso. Ao longo dos anos seguintes, novos ativos foram apreendidos.

Mesmo com todo o cerco, a polícia tinha dificuldade de capturar o mafioso. Somente em 2021 foi divulgado o primeiro vídeo do criminoso, em que ele aparece dentro de um automóvel. Sua prisão ocorreu no início de 2023. Messina Denaro passou 30 anos foragido e foi capturado em uma clínica privada onde recebia tratamento para um câncer. Morreu meses depois. Mesmo com todas as apreensões, os ativos dele estavam estimados em 4 bilhões de euros.

Três anos depois, o governo italiano ainda busca os ativos do mafioso. No final de maio, foram apreendidos 232 milhões de dólares, incluindo 12 quilos de barras de ouro, dinheiro vivo, relógios de luxo e 20 imóveis em nove países. Combater o crime organizado é retirar sua força financeira, que financia políticos corruptos, pressiona pessoas corretas e mina o sistema como um todo.


18 junho 2026

Normas ambientais: SEC recua

Em junho de 2026, a SEC, entidade que monitora o mercado de capitais dos Estados Unidos, propôs revogar integralmente suas regras de divulgação climática adotadas em 2024. Essas normas exigiam relatórios detalhados sobre emissões de gases de efeito estufa e riscos climáticos nas demonstrações financeiras. Quando da aprovação, as normas provocaram polêmica por dois motivos. Primeiro, que a SEC estava fugindo da sua competência. Segundo, que os custos das informações era elevado demais. 

Apesar da aprovação, as normas nunca entraram em vigor e o motivo foram as contestações legais. Se forem revogadas, as empresas continuarão adotando as normas de divulgação de 2010. 

Mudanças na evidenciação da DR nos Estados Unidos


Os Estados Unidos aprovaram, recentemente, uma mudança na norma referente a despesas na demonstração do resultado. A mudança, de final de 2024 e que entra em vigor no final de 2026, não altera o reconhecimento, mensuração ou classificação, mas muda a desagregação de itens de despesas, através das notas explicativas. 

O ponto central das mudanças é a palavra desagregação. Em muitas empresas, alguns grandes itens são divulgados sem muito detalhamento. Um exemplo típico é o custo das vendas, que geralmente é um valor expressivo. Assim, será necessário divulgar as compras de insumos, salários de empregados, depreciação, depleção e amortização. Além do custo das vendas, a desagregação atinge também despesas gerais e administrativas e pesquisa e desenvolvimento. 

As exigências são válidas para empresas com ações negociadas no mercado de capitais. 

Imagem aqui

Contabilidade de Data Center


O Fasb começou uma discussão emergente relacionada com a contabilidade de data center. Segundo a newsletter do Fasb, a discussão, ainda dentro do IAC - o braço responsável por analisar novas questões contábeis, observa

que estruturas complexas envolvendo data centers incluem arrendamentos, garantias, compromissos de fornecimento de energia e transações circulares. Essa complexidade pode obscurecer as obrigações e a exposição ao risco de uma companhia, pois os detalhes aparecem em múltiplas notas explicativas. Além disso, mudanças rápidas na infraestrutura de inteligência artificial podem encurtar ou alterar a vida útil dos ativos e dificultar a previsão da depreciação.

17 junho 2026

Os problemas das empresas de IA


Um texto do Futurism indica que a equação das empresas de IA parece não estar funcionando. Parece existir um início de guerra de preços entre a OpenAI e Anthropic, em razão do aumento dos custos das ferramentas. Mas guerra de preços será muito ruim: a competição é alta, os investimentos não param de crescer e o lucro parece algo distante. 

Em termos de mercado, parece que a dona do Claude está avançando sobre o GPT. E existe uma potencial abertura de capital nos próximos dias. 

Como os gastos internos de desenvolvimento e pesquisa são levados ao resultado - de uma maneira geral - a operação somente será lucrativa quando os recursos monetários começarem a entrar na empresa via receita/recebimento de clientes. Somente tendo fluxo de caixa das operações é que o negócio ficará viável. 

Impact Accounting


Eis o resumo preparado pelo GPT:

O artigo apresenta o Impact Accounting como uma metodologia que busca traduzir impactos sociais e ambientais das empresas em métricas monetárias, tornando-os comparáveis aos indicadores financeiros tradicionais. A ideia central é que a empresa não deve avaliar apenas o valor financeiro criado, mas também os efeitos positivos e negativos de sua atividade sobre sociedade e meio ambiente. Essa mensuração pode ajudar gestores a antecipar riscos, identificar oportunidades e tomar decisões melhores em cenários de incerteza. O texto ressalta que o objetivo não é substituir a contabilidade financeira, mas complementá-la com uma visão mais ampla de criação de valor.

O acesso está restrito aos assinantes. Pareceu interessante, mas com um pequeno cheiro de consultoria. Imagem aqui

Custo Aluno em Nova Gales do Sul


Acho que já vi isso antes... Mas eis um problema contábil na Austrália

Segundo o Gabinete de Auditoria de Nova Gales do Sul , nas universidades de Nova Gales do Sul, “os custos operacionais por aluno, de 37.868 dólares, excederam a receita média por aluno nacional, de 25.213 dólares, representando uma margem de défice de 33%”.

(...) Para chegar a essa conclusão, o Gabinete de Auditoria considerou os custos operacionais totais das universidades em Nova Gales do Sul e simplesmente os dividiu pelo número de alunos. Em outras palavras, atribuíram todas as despesas universitárias aos custos da educação dos alunos.

Isso pode ser aceitável para uma escola primária ou creche. Mas as universidades fazem muito mais do que educar alunos. Em particular, são organizações de pesquisa em larga escala.

As universidades não separam o ensino da pesquisa em seus balanços, mas, felizmente, o Escritório Australiano de Estatísticas divulga os gastos agregados com pesquisa universitária em nível estadual. Portanto, é possível excluir a pesquisa dos números do Tribunal de Contas.

Combinando dados do Audit Office e do ABS, constatou-se que as universidades de Nova Gales do Sul gastaram 13,6 bilhões de dólares em 2024, dos quais 5,2 bilhões foram destinados à pesquisa, restando 8,4 bilhões para todas as outras despesas.

Note que essas despesas “outras” incluem não apenas o ensino, mas também a administração, serviços de consultoria, tecnologia da informação, estacionamento — literalmente tudo o que estiver além dos custos diretamente atribuíveis à pesquisa.

Ao dividir os 8,4 bilhões de dólares destinados a despesas não relacionadas à pesquisa pelo número total de estudantes universitários em Nova Gales do Sul, chega-se a um valor de 27.091 dólares por estudante.

Isso representa um aumento de apenas 9,4% em relação à receita declarada pelo Gabinete de Auditoria, de US$ 24.763 por estudante nacional.

Não está exatamente claro o que o órgão de auditoria classifica como receita proveniente de estudantes nacionais. Consultando as tabelas de finanças do Departamento de Educação para 2024, encontro um valor de US$ 25.179 em receitas universitárias por estudante nacional, o que representa apenas 7,6% a menos do que as universidades estão gastando.

Mas será que as universidades estão realmente perdendo US$ 1.912 por ano para cada aluno nacional que educam?

Bem, não. Essa suposta perda pressupõe que tudo o que as universidades fazem que não seja diretamente financiado para pesquisa seja um custo educacional, o que claramente não é sustentável. O salário do vice-reitor não pode ser atribuído integralmente aos custos do ensino aos alunos. (...)

15 junho 2026

Auditoria com IA para o Pentágono seria solução?


O Pentágono concedeu um contrato de quase US$ 49 milhões para uma plataforma de inteligência artificial projetada para ajudar as agências a se prepararem para as auditorias financeiras anuais, enquanto o departamento trabalha para alcançar uma auditoria sem ressalvas, conforme exigido pelo Congresso, até 2028. O Comando de Contratação do Exército concedeu o contrato na segunda-feira à Groundswell Corp. para sua plataforma Agentic Auditor, de acordo com os documentos do contrato. O contrato está em vigor até 8 de junho de 2031.

Original está aqui via aqui

KPMG retira relatório sobre IA

A notícia


KPMG retirou um relatório global sobre IA depois que vários estudos de caso foram considerados imprecisos e aparentemente gerados por alucinações de IA.

O Financial Times (FT) noticiou que o relatório de outubro, "Redefinindo a excelência na era da IA ​​agente", fez diversas afirmações falsas sobre o uso de IA no UBS, no NHS Greater Manchester, nas Ferrovias Federais Suíças e no Transport for London (TfL).

O grupo de pesquisa GPTZero sinalizou diversas passagens do relatório como alucinações, o que foi verificado pelo Financial Times .

(...)Um porta-voz da KPMG International disse à publicação que a empresa "leva a sério a precisão e a integridade do conteúdo que publica".

Impostos, complexidade e conformidade


Uma pesquisa global da Deloitte sobre o impacto dos impostos nas empresas concluiu:

Os maiores impactos da política tributária são impulsionados pela crescente complexidade e pelos requisitos de conformidade — quase 40% dos entrevistados consideram o aumento da carga de conformidade como seu maior problema.

A digitalização está trazendo benefícios para a administração tributária, com a promessa de ainda mais benefícios no futuro. No entanto, a implementação de novos sistemas traz desafios; por exemplo, em relação à faturação eletrónica, o inquérito revela um declínio no otimismo quanto aos seus benefícios, passando de 59% em 2024 para 36% em 2026.

Os incentivos fiscais estão a abrir cada vez mais novas oportunidades para as empresas, à medida que os governos oferecem mais subsídios e isenções para competir por investimento e talento.    

Frase


Musk tornou-se um trilionário não pelo que fez, mas por causa do que ele promete fazer."

Richard Godwin

O sócio oculto e importante da SpaceX


Todos aplaudindo o sucesso da SpaceX e aqui o papel do governo:

a SpaceX precisou de financiamento inicial da NASA e de um contrato crucial de US$ 1,6 bilhão, enquanto a Tesla se apoiou em um empréstimo federal de US$ 465 milhões, créditos fiscais para veículos elétricos e bilhões provenientes de regras de crédito de emissões que forçaram outras montadoras a comprar sua conformidade. (...)

O apoio governamental chegou quando as empresas estavam fragilizadas, não depois que a situação se tornou inevitável. A SpaceX estava quase sem dinheiro antes da NASA intervir. A Tesla ainda era uma pequena e peculiar empresa de carros elétricos quando o empréstimo do Departamento de Energia ajudou a financiar o Modelo S. Mais tarde, a venda de créditos de emissão de carbono impactou diretamente os lucros da Tesla, enquanto Musk vendia uma espécie de fantasia libertária para pessoas que, de alguma forma, se esqueceram de quem pavimentou a plataforma de lançamento.

14 junho 2026

Iasb sob nova direção: uma canadense estará no comando


A cada cinco anos, a Fundação IFRS escolhe alguém para dirigir o IASB, a entidade que emite normas internacionais de contabilidade. Da sua fundação até agora, foram três presidentes, já que há a possibilidade de recondução ao cargo, o que ocorreu com os dois primeiros presidentes.

O atual, o alemão Andreas Barckow, começou seu mandato em 2021, bem no ápice da pandemia. Seu mandato termina em 30 de junho. Pela tradição, ele seria reconduzido. Mas em 2025, Barckow já tinha anunciado que deixaria o cargo ao final do primeiro mandato. Inexplicavelmente, a Fundação não procurou um substituto ou não conseguiu alguém para a sucessão.

Agora a Fundação anunciou que pretende nomear o sucessor até início de outubro. Entre o fim do mandato de Barckow e essa data, a Fundação conseguiu que Linda Mezon-Hutter, atual vice-presidente do IASB, assuma como presidente interina. Fazendo parte do Iasb desde 2022, Mezon-Hutter anteriormente presidiu o Canadian Accounting Standards Board.

Apesar da carreira como reguladora de Linda estar vinculada ao Canadá, incluindo a adoção das normas IFRS naquele país, sua formação ocorreu nos Estados Unidos. Seria uma boa ideia a nomeação em definitivo de Linda, poupando a Fundação de gastos na transição. 

Orientação ideológica de pesquisa acadêmica em ciências sociais

Este estudo analisa aproximadamente 600.000 resumos de artigos de ciências sociais em inglês, publicados entre 1960 e 2024, para estimar a orientação ideológica de longo prazo da produção de pesquisa disciplinar. Modelos de linguagem abrangentes (LLMs) foram aplicados a cada resumo, utilizando um espectro ideológico fixo dos EUA para 2025, permitindo uma codificação consistente ao longo de seis décadas. Cinco principais conclusões emergiram. Primeiro, cerca de 90% dos artigos de ciências sociais politicamente relevantes tenderam à esquerda entre 1960 e 2024, e a posição política média de cada disciplina de ciências sociais foi de centro-esquerda todos os anos durante o período. Segundo, todas as disciplinas mostraram uma tendência à esquerda entre 1990 e 2024. Terceiro, as disciplinas mais próximas das políticas públicas geralmente mostraram uma moderação limitada à direita entre aproximadamente 1970 e 1990, enquanto as disciplinas mais distantes das políticas públicas não apresentaram essa moderação. Quarto, as disciplinas com maior orientação à esquerda geralmente exibiram maior homogeneidade ideológica. Quinto, o conteúdo sociocultural foi mais consistentemente inclinado à esquerda do que o conteúdo econômico, e essa diferença aumentou ao longo do tempo. Testes de robustez utilizando uma ampla variedade de conjuntos de dados alternativos e metodologias analíticas indicaram que esses resultados provavelmente não eram artefatos de pressupostos idiossincráticos. Metodologicamente, o estudo demonstra a capacidade da classificação de texto baseada em LLM (Long-Learning Methodology) de fornecer uma mensuração ideológica confiável e em larga escala ao longo do tempo, uma tarefa anteriormente impraticável apenas com a codificação humana. Em conjunto, a análise fornece a primeira evidência sistemática e interdisciplinar da orientação política de longo prazo da produção acadêmica em ciências sociais anglófonas, revelando tanto a persistência quanto a intensificação de suas tendências de esquerda, particularmente em domínios socioculturais.

The ideological orientation of academic social science research, 1960–2024. James Manzi. Theory and Society, March 2026

Estudo original está aqui. A origem do resumo está aqui

13 junho 2026

Quem arca com o risco climático?

Resumo (via aqui):


As regulamentações de divulgação de informações climáticas nos EUA focam em empresas de capital aberto, partindo do pressuposto de que essas empresas enfrentam riscos climáticos significativos. Testamos essa premissa comparando como empresas de capital aberto e de capital fechado respondem a desastres climáticos. Utilizando dados em nível de estabelecimento, abrangendo 8,9 milhões de empresas privadas e 13.513 empresas públicas, combinados com sete décadas de declarações federais de desastres, encontramos uma divergência notável. As empresas abertas não apresentam efeitos significativos no desempenho operacional: o crescimento das vendas em estabelecimentos localizados em condados afetados por desastres é estatisticamente indistinguível do crescimento em condados não afetados. Em contraste, as empresas fechadas experimentam quedas significativas e persistentes nas vendas, de 0,7% em média, com efeitos concentrados em empresas geograficamente concentradas e em setores de capital intensivo. A assistência governamental em casos de desastre atenua, mas não elimina, esses efeitos. Atribuímos a diferença entre os setores público e privado à diversificação geográfica: a empresa aberta mediana opera em 46 estados, enquanto 94% das empresas fechadas operam em um único condado. Nossos resultados sugerem uma discrepância entre a política de divulgação e a vulnerabilidade climática: as regulamentações visam empresas que se adaptaram ao risco climático, enquanto excluem as mais afetadas.

Sonakshi Agrawal, Lisa Yao Liu e Shivaram Rajgopal. Artigo de trabalho da Universidade de Columbia, março de 2026. Imagem aqui

Zimbábue está vencendo a inflação

O Zimbábue, frequentemente considerado um caso perdido economicamente devido ao seu histórico de confisco de terras agrícolas e hiperinflação, está vivenciando um crescimento atípico. Os altos preços do metal e de outras commodities levaram a uma grande circulação de dinheiro em sua economia altamente informal. Isso facilitou para as autoridades interromperem a impressão de dinheiro e a interferência nos mercados cambiais; a inflação está em seu nível mais baixo em cerca de 30 anos. O FMI revisou repetidamente para cima as estimativas de crescimento econômico, mais recentemente para pelo menos 7,5% em 2025, quase o dobro da média africana…


O ouro não é a única fonte de crescimento. A atual safra de tabaco será a maior já registrada. Mineradoras de lítio, cromo e platina, muitas delas chinesas, aumentaram a produção. A diáspora do Zimbábue, principalmente na África do Sul, enviou US$ 2,5 bilhões de volta ao país no ano passado. Portanto, a demanda geral está mais alta do que nunca, afirma um banqueiro.

Isso é do The Economist, via aqui. Estou lendo O Otimista Racional, que defende o comércio e um governo fraco como a receita para o sucesso. Parece que confirma a hipótese do autor. 


Sobre os reportes de sustentabilidade voluntários

Eis a notícia

Uma coalizão formada por entidades da contabilidade, academia, auditoria, governança corporativa, mercado de capitais e investidores encaminhou uma carta conjunta à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pedindo a revisão da decisão que tornou voluntários os reportes de sustentabilidade das companhias abertas. Na avaliação das instituições, a mudança pode comprometer a comparabilidade das informações corporativas, reduzir a transparência para investidores e enfraquecer a convergência do Brasil aos padrões internacionais.

O posicionamento foi motivado pela edição da Resolução CVM nº 244, publicada em 29 de maio de 2026. A norma alterou a Resolução CVM nº 193 e transformou em facultativa uma divulgação que passaria a ser obrigatória para as companhias abertas a partir dos exercícios sociais iniciados em 1º de janeiro deste ano.


Realmente ainda não tenho uma posição fechada sobre o tema. Há vários aspectos em jogo. Recentemente, Otto Lobo foi confirmado na presidência da CVM, e alguns comentários que li mencionaram uma possível proximidade com a JBS, empresa que teria interesse direto na norma. Sem afirmar causalidade, é difícil afastar a hipótese de que a Resolução também possa refletir pressões de empresas que seriam afetadas pela obrigatoriedade. Nesse sentido, há um componente político — no sentido da atuação de grupos de interesse — que não deveria ser ignorado na análise da decisão do regulador.

Olhando fatos recentes, vimos diversas normas cuja relação custo-benefício segue controversa serem aprovadas e, mesmo depois da constatação de dificuldades práticas, o emissor permanecer estático, imóvel, sem tomar providências claras no sentido de reduzir os custos para as empresas. Cito aqui a norma da receita, do arrendamento e outras. Ou seja, o movimento de aprovar uma norma parece exigir menos esforço do regulador do que o reconhecimento posterior dos excessos ou dos erros.

Os argumentos usados na nota parecem, em alguns pontos, frágeis. Afirmar que a mudança pode comprometer a comparabilidade pode ser estranho se estivermos falando da comparação temporal: afinal, a norma estaria em vigor apenas a partir deste ano. Mas, se a comparabilidade for geográfica, o argumento também não é plenamente convincente, já que o número de jurisdições que adotaram as normas ainda é pequeno e notamos, em alguns países importantes, um recuo na normatização sobre a questão ambiental.

A discussão sobre a transparência para investidores pareceu interessante pelo fato de algumas entidades representativas dos investidores assinarem a nota. Mas também entendo o argumento contrário: talvez os investidores hoje não leiam essas informações com atenção, talvez o custo de implementação não tenha sido adequadamente verificado, talvez não tenha sido realizado um teste inicial de adoção, entre outros aspectos. Acho que informar pode ser um importante condutor e impulsionador para resolver alguns dos problemas climáticos do mundo, mas acredito que a principal força para enfrentar esse problema será o desenvolvimento tecnológico, como a substituição da energia gerada pelo carvão pela energia solar. Uma revisão histórica poderia ser importante para reforçar esse argumento.

Aqui também é importante listar um contra-argumento no mesmo sentido da nota: só teremos condições de saber se a norma será importante se ela for adotada. Como o assunto é relevante para a sociedade, por que não tentar? Os efeitos negativos da não adoção talvez sejam piores do que os efeitos negativos da adoção, e talvez fosse necessário discutir melhor essa comparação.

Sendo uma nota de entidades, e portanto também uma nota de posicionamento institucional, senti falta de evidências. Talvez seja um cacoete acadêmico, mas o texto me parece carregar muito efeito esperado e pouca demonstração. Há bons argumentos conceituais, especialmente sobre comparabilidade, simetria informacional e conexão com as demonstrações financeiras. Mas há pouca evidência sobre custos de implementação, grau de adesão esperada, demanda efetiva dos investidores e impacto da voluntariedade na qualidade da informação. Tudo bem que é um posicionamento de entidades, mas preocupa o fato de que parte relevante dos signatários está ligada à infraestrutura de preparação, asseguração ou uso profissional dessas informações. O texto provavelmente não passaria como um texto mais acadêmico — e talvez essa frase confirme o que escrevi no início do parágrafo: pode ser um cacoete meu. Não posso, no entanto, deixar de expressar que sinto falta de evidências.

Citar empresas que já fizeram a adesão voluntária talvez não seja suficiente para reforçar o aspecto empírico. As empresas citadas não são empresas típicas e, muitas vezes, carregam seus próprios interesses em fazer a adesão voluntária. A Vale, uma das citadas, foi responsável por dois desastres ambientais e está sob escrutínio público há muitos anos. Se o documento tivesse feito uma rápida pesquisa com um número mais expressivo de empresas, perguntando quantas iriam divulgar mesmo com a norma sendo opcional, talvez tivesse mais força do que os argumentos apresentados.

Talvez a manifestação seja também uma tentativa de argumentar e colocar na mesa de negociação uma posição um pouco mais branda para a CVM: obrigatoriedade para um número menor de empresas, por exemplo, adiamento do início da norma, cronograma escalonado ou foco em alguns setores mais expostos a riscos climáticos e ambientais. 

Minha opinião é fruto de crenças pessoais.