Quando os mercados de apostas, como Kalshi e Polymarket, apareceram, parecia uma oportunidade de implantar a sabedoria das multidões para centenas de decisões de interesse comum. Quero saber quem deve ganhar o título de xadrez? É só olhar as apostas. O favorito para as próximas eleições? Basta digitar para ter a informação.
Em razão disso, uma recente medida tomada pelo governo de proibir esses mercados no Brasil parece uma censura sem razão. Se hoje você digitar Kalshi.com, aparece:
A lição foi destacada em um livro de James Surowiecki, A Sabedoria das Multidões. Mas, como o autor destaca, para que isso funcione — ou seja, para que o mercado de apostas seja um bom preditor de eventos futuros —, são necessárias algumas condições. Uma delas é que as pessoas possam apostar sem medo de represália. Outra, que os apostadores não influenciem as decisões de outros, garantindo a liberdade de expressão do pensamento.
Um dos problemas dos mercados atuais de apostas parece ser o mesmo que ocorre na bolsa de valores: alguns poucos apostadores, qualificados e bem informados, dominam o mercado. Um estudo da London Business School e de Yale (via aqui) chegou à conclusão de que 3,14% dos usuários são os ganhadores do mercado de previsão. Como a Polymarket tem 700 mil apostadores ativos, isso representa 21 mil ganhadores informados.
O número acima foi obtido investigando bilhões de dólares em apostas, e somente esse percentual apresentou um resultado superior à aleatoriedade. Ou seja, são gurus da previsão ou possuem informações privilegiadas.
Uma pesquisa como essa pode questionar os sites de apostas como um local de encontro da sabedoria das multidões. Mas é importante lembrar que mesmo aqueles que possuem informação privilegiada, quando apostam, tornam pública, de alguma forma, essa informação. Não é um motivo para proibir os sites ou não aceitar as informações transmitidas ali.

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