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14 abril 2026

Deloitte no espaço


Eu até fui verificar se não era notícia de primeiro de abril:  

Deloitte-2 e Deloitte-3 foram lançados em 29 de março de 2026 a partir da Base da Força Espacial de Vandenberg para ampliar a presença orbital da Deloitte. Os novos satélites transportam cargas úteis projetadas para aumentar a capacidade de coleta de dados espaciais e ajudar a atender às crescentes necessidades dos clientes por dados e insights baseados no espaço.

Atenção no mundo moderno

A capacidade média de atenção humana encolheu em cerca de dois terços entre 2004 e meados da década de 2010, com a queda mais acentuada por volta de 2012. Essa constatação vem da pesquisadora Gloria Mark, da UC Irvine, e serve de base para um artigo de opinião no New York Times escrito por Cal Newport — professor de Ciência da Computação em Georgetown e autor de Deep Work —, no qual ele argumenta que a capacidade cognitiva coletiva está declinando de maneiras que agora podem ser medidas por dados.
A proporção de adultos nos Estados Unidos com dificuldade em leitura básica ou matemática aumentou na última década. Também cresceu o percentual de jovens de 18 anos que relatam dificuldade para pensar ou se concentrar. Uma meta-análise associou plataformas de vídeo curto — como TikTok e Instagram Reels — a pior desempenho cognitivo. Segundo o Work Trend Index 2025 da Microsoft, trabalhadores de escritório são interrompidos a cada 2 minutos. O Financial Times chegou a perguntar se os seres humanos já ultrapassaram o “pico do poder cerebral”.



Newport chama o TikTok de “Doritos digitais” — conteúdo ultraprocessado, projetado para consumo, não para nutrição. Um experimento de 2023 constatou que um smartphone, mesmo parado e sem uso em um cômodo, ainda assim reduzia a capacidade de concentração dos participantes. Um estudo de janeiro encontrou uma “correlação negativa significativa entre o uso frequente de ferramentas de IA e as habilidades de pensamento crítico”, e outro estudo separado verificou que a conectividade cerebral foi “sistematicamente reduzida” quando as pessoas escreviam com ajuda de LLMs.
A recomendação dele é simples: ler algumas dezenas de páginas de um livro por dia e deixar o celular na cozinha durante a noite. As proibições do uso de celulares nas escolas oferecem uma prévia do que acontece quando os padrões mudam: um working paper do NBER constatou melhorias significativas nas notas dos testes após a entrada em vigor dessas proibições, e três quartos de 317 escolas de ensino médio na Holanda relataram maior foco dos estudantes.

Fonte: aqui 

13 abril 2026

Muitos anos depois...

APOLLO 11

20 de julho de 1969

    "Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigante para a humanidade."
    — Neil Armstrong

ARTEMIS II

2 de abril de 2026

    "Eu tenho dois Microsoft Outlooks, e nenhum dos dois está funcionando."
    — Reid Wiseman

Quando a transparência atrapalha


Li um texto sobre o processo de contratação do Duolingo: 

No Duolingo, as entrevistas de emprego começam no momento em que o candidato entra no carro. Luis von Ahn, cofundador bilionário e CEO do aplicativo de aprendizado de idiomas, revelou no podcast The Burnouts, de Phoebe Gates e Sophia Kianni, que a forma como um candidato trata o motorista no trajeto do aeroporto até o escritório pode determinar se ele será contratado ou não — independentemente de quão impressionante seja seu currículo ou de quanto agrade aos entrevistadores durante o processo. 

É óbvio que tudo não se resume ao tratamento ao motorista, mas ao revelar que a empresa leva isso em consideração, não estaria a empresa perdendo o critério para as futuras contratações? 

Moro num país do homicídio

O gráfico acima mostra a causa da morte das pessoas no ano de 2023. Câncer e doença relacionada ao coração prevalecem. O interessante é esse mesmo gráfico para o Brasil:

No mundo, 1,1% dos mortos são decorrentes dos homicídios. Mas no Brasil, 3,6%. É muito elevada a discrepância. Nos países de alta renda a taxa é de 0,37%. Somos o país do crime, infelizmente. 

Monopólio da Ticketmaster em discussão


Em alguns dias haverá a decisão sobre um polêmico caso de monopólio, com impacto indireto no Brasil. A empresa Ticketmaster/Live Nation, responsável pela venda de ingressos de grandes espetáculos no mundo, está sendo julgada. A wikipedia brasileira traz hoje as polêmicas relacionadas com o vazamento de dados de clientes, mas sugiro a consulta ao verbete em língua inglesa, onde a lista de problemas é enorme. 

Fundada em 1976, a empresa cresceu através da aquisição da concorrência, estratégias de preços e exclusividade na venda de ingressos. Recentemente, a empresa chegou a ser multada, com um valor de 3 milhões de dólares. O processo atual começou em maio de 2024. 

É interessante lembrar que um processo judicial de monopólio, no final do século XIX, gerou desdobramentos até na contabilidade da época.  

11 abril 2026

Influenciadores e sua influência


O estudo investiga a capacidade de influenciadores digitais de interferirem na opinião dos usuários das informações contábeis, especialmente no contexto das escolhas contábeis relacionadas ao reconhecimento de ganhos e perdas. Por meio de um experimento com estudantes, os resultados evidenciam que a opinião de influenciadores pode afetar significativamente os julgamentos dos usuários, mesmo quando estes têm acesso às informações contábeis originais.

O original está aqui . Imagem aqui

Uma empresa em transformação

 

A empresa Apple completou 50 anos de idade. Nos primeiros anos, a empresa comercializava computadores e periféricos. Somente depois de uma grande crise é que a empresa diversificou e passou a ganhar dinheiro com outros produtos. Primeiro foi o iPod, depois o iTunes Music Store, sendo que em 2006 mais da metade das receitas era oriunda desse, então, novo negócio. Em 2007 surge o iPhone que, dez anos depois, já respondia por 2/3 dos negócios da empresa. 

Mesmo hoje, a empresa consegue nos celulares boa parte da sua receita, mas há um esforço no sentido de reduzir essa dependência através dos negócios de serviços, que inclui App Store, publicidade, Apple TV+ e outros. 

09 abril 2026

IA e segurança


A empresa Anthropic desenvolveu um sistema capaz de verificar os erros existentes nos softwares atuais. É um problema de segurança: 

A ironia é que a empresa que desenvolveu um modelo de fronteira capaz de infiltrar e minar praticamente qualquer sistema de computador no mundo é a mesma que foi proibida de trabalhar com o governo dos EUA. É como se uma empresa privada tivesse desenvolvido armas nucleares e o governo americano se recusasse a trabalhar com eles por serem "lacradores" demais. Okey dokey.

O segundo artigo sobre riscos de IA é o AI Agent Traps, do Google DeepMind. Eles apontam que agentes de IA na web são vulneráveis a todo tipo de ataque vindo de coisas como textos em HTML nunca lidos por humanos, comandos ocultos em PDFs, comandos codificados nos pixels de imagens usando esteganografia e assim por diante.

Somando tudo isso, temos a combinação preocupante de que IAs muito poderosas são também muito vulneráveis. A IA resolverá os problemas da IA? Eventualmente, o software será tornado seguro, mas coisas estranhas acontecem em corridas armamentistas e a jornada será turbulenta.

 

Máfia, gerenciamento e contadores


O resumo

Investigamos a qualidade do monitoramento de contadores com ligações com a Máfia em seu papel como auditores de empresas "limpas" — aquelas sem vínculos conhecidos com o crime organizado. Utilizando um banco de dados governamental proprietário, identificamos empresas italianas com supostas ligações com a Máfia por meio de seus executivos, diretores ou acionistas. Definimos "contadores suspeitos" como aqueles que atuam como auditores para essas empresas conectadas à Máfia, reconhecendo suas potenciais associações com entidades criminosas. Prevemos e encontramos evidências de que clientes "limpos" (grupo de tratamento) monitorados por contadores suspeitos são mais propensos a se envolver em práticas de gerenciamento de resultados que reduzem o lucro tributável, em comparação com uma amostra de controle de empresas "limpas" monitoradas por contadores sem ligações conhecidas com a Máfia (grupo de controle). Nossos achados sugerem que contadores com vínculos com a Máfia atuam como monitores de baixa qualidade na economia "limpa". 

Do JAR, Monitoring Quality of Mafia-Connected Accountants - Pietro A. Bianchi, Jere R. Francis, Antonio Marra, Nicola Pecchiari. Imagem aqui

"Auditor" do sorteio da Caixa


Lendo aqui sobre os sorteios de loteria: 

Todas as noites, dois auditores independentes acompanham os sorteios presencialmente para conferir se tudo está sendo feito de maneira correta. Os auditores são voluntários que representam o público.

Eles são escolhidos diariamente entre as pessoas que estão na plateia, com prioridade para quem ainda não participou. Por isso, a cada noite há pessoas diferentes desempenhando a função.

Quem deseja ser auditor voluntário não precisa se inscrever previamente: basta estar presente e atender aos seguintes critérios:

  • ser alfabetizado;
  • ser maior de idade;
  • apresentar documento de identificação;
  • apresentar condição física e psíquica adequada para realizar as atribuições;
  • não ser empregado das Loterias CAIXA, da CAIXA ou empresário lotérico.

A complexidade do trabalho do auditor ficou resumida a conferir se as coisas estão ocorrendo de maneira correta. Mas ao ler o texto, em lugar de ficar "tranquilo", o procedimento trouxe preocupação. Será que o auditor voluntário estaria preparado para o papel? Se um profissional é muitas vezes enganado, imagine alguém que é voluntário. 

08 abril 2026

Falácia McNamara


A Falácia de McNamara é a crença em métricas quantitativas fáceis de medir, em detrimento de fatores qualitativos difíceis de mensurar.

Robert McNamara foi presidente da Ford Motor Company e, mais tarde, Secretário de Defesa dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. Era extremamente inteligente e se destacava por lidar com dados e utilizá-los para orientar a estratégia.

Criada pelo cientista social Daniel Yankelovich, a Falácia de McNamara, também chamada de Falácia Quantitativa, envolve:

  • priorizar métricas quantitativas mais fáceis de medir; e

  • desconsiderar métricas qualitativas difíceis de medir como se não fossem importantes.

A falácia pode evoluir da seguinte forma:

  • medir o que pode ser medido;

  • desconsiderar o que não pode ser medido;

  • presumir que o que não pode ser medido não é importante;

  • concluir que o que não pode ser medido não existe.

    Nas palavras de Yankelovich:

    “A falácia é a seguinte: se você se depara com um problema complexo, repleto de elementos intangíveis, decide medir apenas os aspectos do problema que se prestam a uma quantificação fácil, seja porque considera os outros aspectos difíceis de medir, seja porque presume que eles não podem ser muito importantes ou sequer existem.” …

    “Há um passo curto, mas fatal, entre a afirmação ‘Há muitos intangíveis e fatores imponderáveis que não conseguimos colocar em nossos computadores’ e a afirmação ‘Vamos medir o que conseguimos e esquecer os intangíveis.’”

    Yankelovich menciona seu trabalho com a Ford na época de McNamara e relata ter compartilhado pesquisas que incluíam fatores quantitativos e qualitativos. Quando a pesquisa foi analisada, os dados qualitativos sobre os significados que as pessoas atribuíam aos carros pequenos foram descartados, enquanto os dados quantitativos e demográficos, menos significativos, foram mantidos.

    Exemplos da Falácia de McNamara

    Tomei conhecimento dessa falácia pela primeira vez em um artigo de um leitor sobre um dos aspectos mais fáceis de medir em uma bicicleta: seu peso. Mantidas iguais as demais condições, provavelmente preferiríamos uma bicicleta mais leve, mas outros aspectos, como manutenção, confiabilidade e dirigibilidade, também são importantes, embora mais difíceis de medir, relatar e comparar. Como resultado, o peso frequentemente ganha destaque em detrimento dos demais fatores. 

    Outros exemplos podem incluir:

  • Talvez o seu tempo de contratação tenha diminuído, mas como está a adequação das pessoas que você está trazendo?
  • Talvez mais pessoas estejam visitando o seu site, mas elas podem não ser as pessoas certas para o seu serviço.
  • Podemos calcular o PIB de um país, mas o PIB não considera o trabalho humano sem transação monetária — como uma refeição feita em casa — nem o trabalho vital realizado pela natureza, como filtrar a água, sequestrar carbono ou elevar o ânimo das pessoas.
  • Se a comida enlatada lhe fornece todos os nutrientes de que você precisa, o que você perde ao abrir mão das refeições em família?

Um exemplo frequentemente citado da Falácia de McNamara é a abordagem dos militares dos Estados Unidos para medir o progresso na Guerra do Vietnã.

A Falácia de McNamara e a Guerra do Vietnã

Como Secretário de Defesa dos Estados Unidos entre 1961 e 1968, McNamara empregou técnicas semelhantes às que havia utilizado com sucesso em contextos empresariais para avaliar o progresso da guerra no Vietnã.

Se guerras fossem vencidas por infligir danos ao inimigo, então métricas que medissem esses danos deveriam funcionar como bons indicadores indiretos. Em particular, a contagem de corpos passou a ser a principal medida de progresso.

A dependência de métricas puramente quantitativas apresentava deficiências significativas. Nesse contexto, a contagem de mortos do inimigo era mais fácil de quantificar do que seu moral, apoio político ou determinação para se defender. Por causa do interesse nessa medida, muitos oficiais acreditavam também que ela era frequentemente inflada.

Medir as toneladas de explosivos lançados é mais fácil do que medir a redução de capacidade que eles provocaram. Saber o número de tropas que você possui é mais fácil do que medir as capacidades dessas tropas.

De acordo com os números, os Estados Unidos estavam vencendo a guerra, mas não conseguiram superar a resistência do Vietnã do Norte.

Ideias relacionadas à Falácia de McNamara

Uma dependência excessiva de métricas quantitativas rapidamente leva a vários outros problemas correlatos:

Lei de Goodhart

Quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida.

Por exemplo, avaliar o progresso da guerra pelo número de inimigos mortos pode levar ao aumento de mortes apenas para inflar os números.

Lei de Campbell

Quanto mais uma métrica conta para decisões reais, maior a pressão para corrupção, e mais ela distorce a situação que pretende medir.

Por exemplo, se a redução das taxas de criminalidade é importante para os cargos na aplicação da lei, isso cria um incentivo para subnotificar casos ou reclassificar crimes para categorias menos graves.

Efeito do Poste de Luz

Procurar onde é mais fácil olhar, em vez de onde realmente importa. Também conhecido como a busca do bêbado ou procurar debaixo do poste, o Efeito do Poste de Luz recebe esse nome de uma piada dos economistas sobre uma pessoa tateando o chão em busca das chaves do carro sob a luz de um poste. Quando lhe perguntam onde as perdeu, a pessoa responde que foi “ali adiante”, mas que a luz é muito melhor aqui.

Por exemplo, otimizar um produto existente porque ele é conhecido e já apresenta bom desempenho, em vez de trabalhar em um novo produto incerto.

Você obtém aquilo que mede

O instrumento que você usa para medir afeta aquilo que você vê.

“Por exemplo, na escola é fácil medir o treinamento e difícil medir a educação, e, por isso, tende-se a ver, nas provas finais, uma ênfase na parte do treinamento e uma grande negligência da parte da educação.” — Richard Hamming

O Efeito Cobra

Quando uma política implementada produz efeito contrário ao resultado pretendido. O nome vem de uma tentativa britânica de reduzir o número de cobras em Délhi, oferecendo recompensa por cobras mortas. Diante da recompensa lucrativa, as pessoas passaram a criar cobras, aumentando assim sua quantidade.

Por exemplo, o Efeito Streisand é um caso bem documentado de efeito cobra: quando Barbara Streisand tentou suprimir imagens do litoral que incluíam sua casa, a atenção gerada por essa tentativa fez com que milhares de pessoas fossem vê-las, embora de outra forma talvez nunca pensassem nisso.

E todos esses são exemplos da Lei das Consequências Não Intencionais, que decorre da tentativa de regular um sistema complexo com um sistema simples.

Mais ideias relacionadas à Falácia de McNamara

Se as ideias acima não forem suficientes, você também pode encontrar:

  • Na teoria, a prática é igual à teoria, mas na prática não é

  • Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis

  • Confiabilidade versus validade: você pode acertar o alvo, mas errar o ponto

  • Maturidade analítica

  • O que é medido melhora

  • O mapa não é o território (sem esboço!)

Para uma excelente discussão sobre a mensuração de todo tipo de coisa, incluindo riscos agudos (ser atropelado por um ônibus) e riscos crônicos (fumar), recomendo o divertido episódio de podcast: Microlives & The Art of Uncertainty, com Sir David Spiegelhalter.

O artigo sobre o peso das bicicletas é: The McNamara Fallacy and Bikes, de Peter Verdone.

Daniel Yankelovich, que deu nome à Falácia de McNamara, fez questão de frisar que não pretendia desrespeitar “um dos nossos cidadãos mais distintos”, Robert McNamara, “um homem brilhante e dedicado, que aplica ao seu trabalho uma intensidade vital”.

Algumas das complexidades da guerra e de McNamara são abordadas no documentário vencedor do Oscar The Fog of War, uma obra fascinante e, às vezes, desconfortável de assistir.

Fonte: aqui 

07 abril 2026

Auditoria e processo


Tradicionalmente os auditores sempre ficaram isentos de punições por falhas cometidas no seu trabalho. Mas os prejudicados deixaram de acreditar na conversa que o papel do auditor não é descobrir fraude e iniciaram uma longa jornada de solicitar indenizações em processos judiciais.  Agora a conta está começando a chegar e a justiça tem, cada vez menos, confiado no argumento usado pelos profissionais e suas empresas. 

A Deloitte & Touche LLP concordou, em março, em concluir um dos maiores acordos de uma ação coletiva contra auditores em uma década. O pagamento de US$ 34 milhões aos acionistas da Scana encerra uma disputa judicial de seis anos sobre as auditorias da Deloitte relacionadas a um projeto abandonado de usina nuclear na Carolina do Sul.

Isso veio na sequência de um caso em Nova York em que investidores de um hedge fund, que questionaram o trabalho dos auditores, processaram a BDO, hoje conhecida como BDO USA P.C., depois que o fundo entrou em colapso. Os investidores receberam cerca de US$ 9 milhões em indenização por meio de um painel arbitral. Em janeiro, um juiz estadual manteve a decisão, e o caso segue em grau de recurso. 

 Imagem aqui 

IA e Auditoria


Uma orientação do regulador inglês Financial Reporting Council tratou da questão da inteligência artificial na auditoria. De uma forma resumida seria: os auditores são responsáveis pelo que a IA produz. Eis um exemplo de como isto está ocorrendo nos dias atuais:

A equipe de liderança global da EY teve, no fim do mês passado, uma prévia das poderosas ferramentas de IA que estão prestes a ser implementadas em toda a sua área de auditoria. Os tecnólogos da firma apresentaram uma versão reformulada da plataforma de auditoria EY Canvas, com recursos que aceleram drasticamente a avaliação de riscos corporativos usada para planejar uma auditoria, enviam orientações contábeis relevantes à equipe enquanto ela trabalha e pré-preenchem os papéis de trabalho que documentam seu progresso.

A EY afirma que, quando a atualização do Canvas entrar no ar neste mês, o trabalho de auditoria não será apenas mais rápido, mas também mais minucioso, com maior probabilidade de detectar fraude e de garantir a precisão das demonstrações financeiras das quais dependem os mercados de capitais.

Agora é sentar e esperar a primeira falha acontecendo.  

Regras de licenciamento


O resumo traduzido

Estudamos o efeito de exigências educacionais específicas da ocupação, induzidas por licenciamento, sobre a mobilidade ocupacional e os rendimentos dos trabalhadores. Examinamos essa questão no contexto das regras de licenciamento dos Certified Public Accountants (CPAs), explorando a introdução escalonada, entre os estados, de uma mudança no número e na composição das exigências educacionais desses profissionais. Constatamos que um aumento na carga horária obrigatória de créditos específicos em contabilidade leva a mais tempo em empregos contábeis, menor troca de emprego entre ocupações diferentes e redução do prêmio salarial associado ao licenciamento. Análises suplementares indicam que esses efeitos representam uma especialização das habilidades dos trabalhadores, e não uma queda geral no desempenho contábil dos CPAs. Os achados, em conjunto, sugerem que, ao impor exigências curriculares específicas da ocupação, os regimes de licenciamento podem gerar capital humano menos transferível, reduzindo tanto a mobilidade ocupacional quanto o prêmio salarial do licenciamento. 

Occupation-Specific Education Requirements and Occupational Silos: Evidence from CPA Licensing Rules Anthony Le & Parth Shah
University of Chicago Working Paper, January 2026 

06 abril 2026

Custo de oportunidade, crime e Uber


Uma pesquisa realizada na França encontrou um efeito positivo das plataformas de entrega, como a Uber. As empresas que atuam no setor são criticadas por precarizar o trabalho e não conceder certos benefícios sociais aos trabalhadores. No entanto, a descoberta pode influenciar políticas públicas, no sentido de fazer com que o legislador pense duas vezes antes de inibir a atuação dessas empresas.

Analisando a chegada das empresas em certas localidades, os pesquisadores descobriram que há um aumento na procura por trabalho por parte de indivíduos que antes enfrentavam restrições no mercado formal, seja por discriminação ou por falta de qualificação.

Uma consequência não prevista foi a redução no desemprego entre jovens, especialmente imigrantes, a diminuição da dependência de auxílios sociais e, surpreendentemente, a redução na criminalidade. A explicação reside no custo de oportunidade, um conceito que Gary Becker já utilizava para explicar a questão criminal. Quando uma pessoa comete um crime, corre o risco de ser presa e perder sua fonte de sustento. O trabalho de entregador eleva esse custo de oportunidade, inibindo a prática criminosa.

Impacto do uso da IFRS na Índia


O resumo Abacus:

Este estudo investiga se a implementação das International Financial Reporting Standards (IFRS) tem impacto sobre o valor para os acionistas e a participação de investidores institucionais estrangeiros no mercado acionário doméstico da Índia. O estudo explora especificamente o contexto da delimitação regulatória na implementação das IFRS com base em um limiar de patrimônio líquido das empresas e emprega uma abordagem de estudo de eventos, combinada com um desenho de diferença-em-diferenças, para elucidar os efeitos das IFRS. Os resultados revelam uma reação positiva do mercado aos anúncios relacionados às IFRS, levando a um aumento expressivo de 4,26% no preço das ações das empresas obrigadas a adotar esse padrão contábil. Notavelmente, em termos de valor para os acionistas, observa-se um aumento sustentado de longo prazo apenas para as empresas que migraram para as IFRS. Esse incremento reforça a valorização proporcionada pelas IFRS no mercado indiano. Além disso, o estudo também encontra evidências convincentes de um aumento significativo na participação acionária de investidores institucionais estrangeiros em empresas em conformidade com as IFRS após a implementação. De modo geral, o estudo enfatiza a importância dos frameworks IFRS tanto para investidores domésticos quanto estrangeiros e produz implicações relevantes para diversos stakeholders envolvidos no processo de divulgação corporativa, incluindo empresas, órgãos reguladores e normatizadores contábeis.

Saravanan, R. and Firoz, M. (2026), Does IFRS Matter in the Indian Capital Market? A Domestic and Foreign Investor Perspective. Abacus. https://doi.org/10.1111/abac.70036 

Isso parece de acordo com as pesquisas recentes sobre o uso de normas internacionais de contabilidade pelo padrão IFRS quando o país tem uma qualidade contábil inferior aos padrões.  

Rir é o melhor remédio

Todos no mesmo barco


 

05 abril 2026

Apocalipse do Software como um serviço afeta a Microsoft


O termo SaaSpcalypse é a junção de SaaS (sofware as a service) com apocalypse. É um termo muito novo, desse ano ainda, e mostra o medo de que a IA reduza o valor das empresas tradicionais de software por assinatura. 

Antes da IA, as empresas pagavam por ferramentas SaaS para executar certas tarefas. Mas os investidores estão entendendo que a IA consegue fazer esse trabalho, o que irá reduzir preço e margens dos softwares existentes. E uma das empresas que poderia com esse apocalipse seria a Microsoft. E as ações da empresa recentemente sofreram impacto com essa crença, mesmo com o crescimento das receitas. 

Como a Microsoft vende o Copilot, um produto que ainda não compete com outras ferramentas de IA. E a Microsoft deixa de ter produtos vendáveis para seus clientes, que agora estariam usando os concorrentes GPT, Claude e outros. Para compensar, a empresa precisa de grandes gastos em infraestrutura. A responsabilidade do Copilot é manter os clientes na Microsoft. 

Com o mercado ansioso, a queda no preço das ações.

03 abril 2026

Análise custo-benefício de plantar árvore em São Paulo


E se o prefeito da cidade de São Paulo resolvesse plantar 3 milhões de árvores? Há um custo na tarefa e manutenção que pode atingir 5,4 bilhões de dólares, ou cerca de 1.800 dólares por árvore. Só que esse custo seria distribuído ao longo do tempo, tornando o investimento de aproximadamente 245 dólares por residente mais suportável para o contribuinte.  

Plantar árvores significa melhorar as condições de vida, combater as ilhas de calor que causam até 70% da mortalidade em ondas de calor na capital, melhorar a saúde e reduzir mortes. Temos um custo, mas precisamos entender o que significam, em termos numéricos, os benefícios. 

 Há uma métrica chamada Valor de uma Vida Estatística (VSL) para determinar se um investimento tão elevado vale a pena. Para São Paulo, o VSL é estimado em 2,035 milhões de dólares por vida. Considerando um horizonte de 20 anos, isso corresponde a um retorno econômico de 11,4 bilhões de dólares, baseado na estimativa de que 280 vidas seriam salvas anualmente com essa ação. Assim, embora o custo per capita seja relevante, os benefícios totais seriam superiores ao dobro do investimento.  

A lógica originou-se de uma análise comparativa global feita pelo Claude e os detalhes do cálculo para outras cidades do mundo estão documentados.


 

Alucinação de referência

Da Nature


Uma análise exclusiva realizada pela equipe de notícias da Nature sugere que pelo menos dezenas de milhares de publicações de 2025, incluindo jornais e livros, bem como anais de conferências, provavelmente contêm referências que foram “alucinadas” pela inteligência artificial. Vários editores acadêmicos estão explorando o uso de ferramentas de IA para detectar essas referências inválidas após o envio, mas alguns pesquisadores estão preocupados que o problema tenha atingido um ponto de inflexão. Com tantas referências falsas já por aí, os editores agora devem lutar com o problema do que fazer sobre isso.

Mega IPO da Space X terá banco brasileiro


A SpaceX está trabalhando com pelo menos 21 bancos em sua aguardada oferta pública inicial, disseram fontes familiarizadas com o assunto na terça-feira, formando um dos maiores consórcios de subscrição reunidos nos últimos anos.

A listagem, cujo codinome interno é Projeto Apex, deverá estar entre as estreias no mercado de ações mais observadas em Wall Street. Estima-se que a oferta pública, prevista para junho, avalie a empresa de foguetes controlada pelo fundador e presidente-executivo Elon Musk em US$1,75 trilhão.

O Morgan Stanley, o Goldman Sachs, o JPMorgan Chase, o Bank of America e o Citigroup estão atuando como ‘bookrunners’ ativos, ou seja, os principais bancos que administram o negócio, disseram as fontes, pedindo para não serem identificadas porque o processo não é público. Outros 16 bancos assinaram contrato em funções menores, acrescentaram.

Cerca de metade dos nomes dos bancos não haviam sido divulgados anteriormente. O tamanho do sindicato ressalta a escala e a complexidade da oferta planejada.

Os bancos, além dos bookrunners ativos, incluem: Allen & Co, Barclay, BTG Pactual do Brasil, Deutsche Bank, ING Groep, Macquarie, Mizuho, Needham & Co, Raymond James, Royal Bank of Canada, Société Générale, Banco Santander, Stifel, UBS, Wells Fargo e William Blair.

Espera-se que os bancos assumam funções nos canais de investidores institucionais, de alto patrimônio líquido e de varejo, bem como em diferentes regiões geográficas, informou a Reuters anteriormente. O plano está sujeito a mudanças e outros bancos ainda podem ser acrescentados, disseram as fontes.

Fonte aqui, grifo nosso.  

Como as pessoas usam o GPT?

U


m estudo da OpenAI, em parceria com a Duke e Harvard, tenta responder a questão. Abaixo o resumo: 

Apesar da rápida adoção de chatbots baseados em LLM, pouco se sabe sobre como eles são utilizados. Documentamos o crescimento do produto de consumo do ChatGPT desde seu lançamento em novembro de 2022 até julho de 2025, quando já havia sido adotado por cerca de 10% da população adulta mundial. Os primeiros usuários eram desproporcionalmente homens, mas essa diferença de gênero diminuiu significativamente, e observamos taxas de crescimento mais altas em países de menor renda. Utilizando um pipeline automatizado com preservação de privacidade, classificamos padrões de uso em uma amostra representativa de conversas do ChatGPT. Encontramos crescimento constante nas mensagens relacionadas ao trabalho, mas um crescimento ainda mais rápido nas mensagens não relacionadas ao trabalho, que passaram de 53% para mais de 70% do uso total. O uso profissional é mais comum entre usuários com maior escolaridade e em ocupações bem remuneradas. Classificamos as mensagens por tema e identificamos que “Orientação Prática”, “Busca de Informação” e “Escrita” são os três tópicos mais frequentes, somando quase 80% de todas as conversas. A escrita domina as tarefas relacionadas ao trabalho, destacando a capacidade única dos chatbots de gerar conteúdos digitais em comparação aos mecanismos de busca tradicionais. Programação e autoexpressão representam parcelas relativamente pequenas do uso. De modo geral, concluímos que o ChatGPT gera valor econômico por meio do suporte à tomada de decisões, especialmente em atividades intensivas em conhecimento.

A extração do texto a partir da imagem acima e sua tradução foram feitos com o GPT.  

Observe que o estudo foi publicado em setembro de 2025. Mas as conclusões parecem razoáveis.  

02 abril 2026

Óculos e a cola com IA

Eis alguns trechos 


O mercado de óculos com IA na China está crescendo, impulsionado por subsídios governamentais e por gigantes da tecnologia como Xiaomi e Alibaba, que estão integrando modelos de linguagem (LLMs) em óculos do dia a dia. (...)
  

Os óculos escaneiam as questões e exibem as respostas nas lentes. “Em qualquer matéria em que eu possa ir mal”, disse ela, pedindo para usar um pseudônimo para falar livremente. Alguns colegas já alugaram seus óculos para usar em exames.

Óculos inteligentes com IA se tornaram uma indústria multibilionária. Os dispositivos, com preços que variam de US$270 a mais de US$1.000, geralmente vêm equipados com câmeras e recursos de áudio, alimentados por grandes modelos de linguagem. Aqueles com telas conseguem exibir textos ou imagens com efeitos de realidade aumentada. (...)

Grandes exames na China, como o vestibular nacional e concursos públicos, já proibiram explicitamente o uso de óculos inteligentes. Ainda assim, estudantes afirmam que muitos professores não conseguem identificar esses dispositivos durante provas escolares regulares.

BRB adia publicação


Já vimos um roteiro parecido antes. O Banco BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, irá postergar a publicação das demonstrações financeiras do terceiro e do quarto trimestres de 2025. Partindo de um banco estatal, é um fato importante que deixa muito claro o momento difícil.

Segundo o comunicado, é necessária a conclusão dos trabalhos da auditoria forense e a avaliação, pela administração e pelo auditor, dos impactos. Durante anos, a instituição tomou decisões inadequadas e arriscadas, sem que fosse possível notar a existência de uma governança corporativa mínima. A instituição financeira começou a abrir agências fora do Distrito Federal, muitas delas, “coincidentemente”, no estado de origem do ex-governador. Passou também a investir muito dinheiro em um clube de futebol, onde teve prejuízos elevados em razão de valores incobráveis.

E, mais recentemente, fez transações nebulosas com o Master, uma instituição de elevado risco no mercado financeiro. Dois futuros esperam o BRB: ser absorvido por uma instituição federal ou receber aporte do governo do Distrito Federal. Obviamente, os políticos que comandam e comandaram a política local desejam o segundo, mas está difícil encontrar os recursos.

Redes sociais x Chatbots e posição política


As redes sociais recompensam a indignação porque a indignação gera engajamento. Essa tem sido a lógica dos últimos quinze anos, e produziu resultados previsíveis: mais extremismo, mais crença em teorias da conspiração, mais polarização. Isso deu origem, como argumento, a empreendedores da raiva. 

A nova análise de John Burn-Murdoch, do FT, sugere que chatbots de IA fazem o oposto. Ele testou os quatro principais LLMs com base em 61 questões sobre políticas e valores, utilizando usuários simulados ao longo de todo o espectro ideológico. Todos os modelos tenderam a deslocar as respostas em direção ao centro. 

O Grok puxou para o centro-direita; GPT, Gemini e DeepSeek puxaram para o centro-esquerda. Os quatro afastaram as respostas de posições extremas, independentemente do ponto de partida dos usuários. Crenças conspiratórias, que são super-representadas entre usuários de redes sociais, estão praticamente ausentes nas respostas de IA. A razão é estrutural. As empresas de redes sociais lucram com engajamento, atenção e cliques, de modo que conteúdos inflamatórios são amplificados. Já os modelos de IA são treinados com grandes volumes de dados que tendem a privilegiar textos publicados, editados e inteligíveis para especialistas — o que os leva, inevitavelmente, a se aproximarem do consenso dominante, independentemente da intenção de qualquer empresa. 

Há ressalvas. Trata-se de apenas um estudo, os modelos vão mudar, e direcionar as pessoas ao consenso especializado só é claramente positivo quando esse consenso realmente vale a pena. Além disso, nada impede que modelos sejam treinados com conteúdos absurdos e inflamatórios, passando, assim, a produzir mais do mesmo.

Fonte: aqui 

Provisão da EY no Reino Unido sinaliza


Quando uma empresa aumenta os valores provisionados para processos judiciais, está informando ao usuário que espera mais ações judiciais e mais derrotas nesses processos.

Isso aconteceu agora com a EY do Reino Unido. Essa grande empresa de auditoria reservou 188 milhões de libras esterlinas para disputas legais, bem acima dos 44 milhões do ano anterior.

Sua rival KPMG chegou a destinar 179 milhões em 2022, quando foi questionada sobre seu trabalho na empresa Carillion, um grande escândalo contábil na terra do Rei Carlos III.

No caso da EY, o aumento decorre de problemas com a empresa de saúde NMC Health. Não foi feita uma ligação direta entre o caso da NMC e o aumento para 188 milhões, mas tudo leva a crer que exista uma relação. Outro fator é o aumento do risco jurídico das empresas de auditoria. Antigamente, a alegação — hoje considerada absurda — de que uma auditoria não investigava a existência de fraude era aceita, algo que se torna cada vez mais difícil de imaginar nos dias atuais.

Wikipedia somente por humanos


A Wikipedia proibiu o uso de modelos de linguagem LLM para produzir conteúdo para a enciclopedia, mas irá permitir que a IA possa ser usada para a tradução de um artigo completo, mas existindo supervisão humana. 

A medida decorre da confiabilidade das informações, já que as ferramentas de IA podem alucinar ou alterar o conteúdo ou cometer outros erros. E a quantidade de lixo gerado por IA estaria sobrecarregando os editores. 

De certa forma, os gestores da Wikipedia atenderam os editores, que reclamaram quando a organização sinalizou um possível uso de IA.  

01 abril 2026

Clonagem e a necessidade de correção

Eis a notícia


Em 2005, uma dupla de marido e mulher do instituto japonês RIKEN realizou um experimento com um camundongo: cloná-lo, depois clonar o clone, depois clonar esse novo clone — e assim sucessivamente. Teruhiko Wakayama e Sayaka Wakayama mantiveram o experimento por 20 anos — atravessando mudanças de laboratório, o terremoto de 2011 e a pandemia — exigindo 30.947 tentativas de clonagem para produzir 58 gerações sucessivas, conforme resumido pela Metacelsus.

Por um tempo, tudo correu bem. Um relatório intermediário de 2013 mostrou 25 gerações saudáveis, sem queda na eficiência da clonagem ou na saúde dos animais. No entanto, mutações estavam se acumulando silenciosamente. Na geração 57, os camundongos apresentavam mais de 3.400 alterações pontuais no DNA em comparação com o original — uma taxa de mutação 3,1 vezes maior do que na reprodução natural da mesma linhagem. Animais que se reproduzem sexualmente conseguem eliminar mutações prejudiciais por meio da recombinação, quando os cromossomos se reorganizam e cópias defeituosas são descartadas. Clones não possuem esse mecanismo, então cada erro permanece.

Os problemas mais graves foram estruturais. Entre as gerações 25 e 45, um cromossomo X inteiro desapareceu e nunca foi recuperado. Deleções, inversões e translocações cromossômicas se acumularam junto às mutações pontuais. Na geração 58, as células já não conseguiam produzir clones viáveis, e o projeto foi encerrado. Os camundongos nascidos em cada etapa tiveram vidas normais — o processo não gerou animais doentes, mas sim um DNA progressivamente mais frágil, que acabou incapaz de suportar o próprio processo de clonagem. 

Que diabos isso tem relação com a contabilidade? Veja, a natureza é sábia e criou um mecanismo que ajusta as mutações, o que não temos na clonagem. A nossa sobrevivência depende do mecanismo de correção, como governança corporativa, alterações nos sistemas contábeis, entre outras coisas. 

Sistemas que apenas replicam o passado, sem mecanismos de correção e confronto externo, inevitavelmente acumulam distorções até colapsarem. 

O refrescante poder da discordia

Eis mais uma reflexão de Harford


Um dos experimentos mais famosos da psicologia social ocorreu no início dos anos 1950. Solomon Asch, professor do Swarthmore College, reuniu grupos de jovens para o que lhes disse ser um experimento de “julgamento visual”. Não era nada disso.

O que aconteceu ficou conhecido como o “experimento de conformidade”, mas esse rótulo é enganoso para um estudo frequentemente mal compreendido. Asch conduziu várias variações do experimento, e a lição mais surpreendente e poderosa não é sobre o poder da conformidade, mas sobre o poder do desacordo. A abordagem básica de Asch consistia em mostrar dois cartões a um grupo de cerca de oito pessoas. Um cartão tinha uma única linha: a linha de referência. O outro mostrava três linhas de comprimentos diferentes. A tarefa era simples, de múltipla escolha: identificar qual linha tinha o mesmo comprimento da linha de referência. Isso não era difícil; quando as pessoas faziam essa tarefa sozinhas, quase nunca erravam.

No entanto, Asch não pedia que realizassem a tarefa isoladamente, mas como membros de um grupo. Os participantes eram solicitados, um a um, a dizer sua resposta para o restante do grupo. Isso abria espaço para que os indivíduos fossem guiados não pelos próprios olhos, mas pelas opiniões dos outros. Os grupos repetiam a tarefa 18 vezes, mas Asch tinha um truque. Todos no grupo eram cúmplices trabalhando para ele, exceto um único participante real e desavisado. Esse participante ficava perto do final da fila. Os cúmplices tinham instruções para acertar as duas primeiras perguntas e, em seguida, concordar unanimemente em respostas erradas na maioria das rodadas seguintes. Imagine o choque e a ansiedade do participante ao ver uma pessoa após a outra contradizer a evidência dos próprios olhos. As pessoas sentiam uma pressão real para se conformar, com mais de um terço das respostas coincidindo com a ilusão do grupo, e não com a verdade evidente.

Por quê? Quando questionadas após o experimento, algumas pessoas disseram que haviam mudado de ideia, concluindo que o grupo devia estar certo. Outras afirmaram que não mudaram de opinião, mas mudaram suas respostas, por não quererem atrapalhar o experimento. Ainda outras foram firmemente independentes, dizendo que presumiam que o grupo estivesse certo e elas erradas, mas sentiam o dever de responder conforme viam.

O que mais me fascina no experimento de Asch é o que aconteceu quando um dos cúmplices foi instruído a discordar do grupo e dar a resposta correta. O resultado: o feitiço da conformidade foi quebrado. As pessoas cometeram apenas um quarto dos erros, com a taxa caindo para menos de 10%. A pressão do grupo perdeu grande parte de sua força.

Ainda mais brilhante foi outra variação, em que Asch novamente instruiu um cúmplice a discordar do grupo. Desta vez, porém, ele era um “dissidente extremista”, dando uma resposta ainda mais errada que o consenso da maioria. O resultado? Os participantes, em geral, deram a resposta correta; a taxa de erro permaneceu abaixo de 10%.

Asch demonstrou três coisas. Primeiro, as pessoas podem ir contra a evidência dos próprios olhos quando confrontadas por um grupo unânime. Segundo, a pressão do grupo é muito mais fraca quando ao menos uma pessoa ousa discordar. Terceiro, e mais notável: não importa se o dissidente está errado; o simples ato de discordar rompe a pressão do grupo. As pessoas se sentem livres para dizer o que pensam, não porque o dissidente diga a verdade, mas porque ele mostra que discordar é possível.

Pensei em Solomon Asch ao conhecer um livro de receitas de Julia Child e Jacques Pépin, Julia and Jacques Cooking at Home. Ele reúne pratos clássicos, mas apresenta duas versões diferentes de cada receita — uma de Julia e outra de Jacques. Nas margens, cada um oferece explicações bem-humoradas sobre o que o outro fez “errado”, por que tomou decisões diferentes e quais os efeitos disso no prato final. Como escreve o filósofo C. Thi Nguyen, é “o registro de uma discussão — uma conversa animada entre amigos”.

Isso importa porque, assim como no experimento engenhoso de Asch, mostra que a discordância é possível. Os dois casos parecem muito diferentes — até porque há apenas uma resposta correta no teste visual de Asch, enquanto existem várias formas de preparar um peixe. Ainda assim, a discordância é valiosa em ambos os casos, pois nos dá permissão para pensar por conta própria. Muitos anos atrás, estive envolvido em um processo de planejamento de cenários para a empresa de petróleo Shell. Sempre foi um exercício fascinante, mas hoje percebo que uma de suas forças mais importantes raramente era discutida: sempre havia pelo menos dois cenários, e todos tinham o mesmo status. Era como Cooking at Home aplicado à estratégia corporativa: a premissa fundamental era que existia mais de um futuro plausível, e uma conversa animada sobre essas possibilidades abria espaço para novas formas de pensar.

Charlan Nemeth, psicóloga e autora de No! The Power of Disagreement in a World that Wants to Get Along, alerta contra a dissidência “artificial” — como a tradição católica do “advogado do diabo”, que argumenta contra a canonização de um possível santo. Em teoria, isso parece útil, mas, na prática, há pouco ganho quando a discordância é apenas encenada. Todos sabem que o papel é performático, o que reduz o esforço real de persuasão. Como escreve Nemeth, “encenar papéis não produz os efeitos estimulantes da dissidência autêntica”.

Ainda assim, algumas formas de “artificialidade” são melhores que outras. Nemeth elogia uma firma de investimentos que só toma decisões após considerar argumentos sólidos tanto a favor quanto contra uma posição. O diferencial talvez esteja no fato de que esses argumentos contrários não são um jogo, mas apresentados com seriedade genuína.

Outra prática é o chamado red teaming — atribuir a um grupo a tarefa de criticar profundamente uma ideia antes de sua adoção. Isso pode ser um ritual vazio ou uma prática rigorosa, dependendo da intenção de quem participa.

A dissidência encenada é melhor do que nenhuma, especialmente quando levada a sério. Mas a forma mais valiosa de discordância é a autêntica — mesmo que seja teimosa e corajosa. Não há substituto para pessoas que sentem o dever de dizer o que realmente veem.

Na contabilidade queremos tanto a "comparabilidade" que não admitimos uma segunda abordagem. Esperamos que os reguladores indiquem a alternativa permitida. Há algumas exceções notáveis, como a avaliação dos estoques, mas no geral buscamos a harmonização ou padronização, palavras que exprimem nosso desejo de não ter caminhos alternativos.  

Imagem: Diego Rivera 

IFRS 20 e a data de implementação


A EFRAG solicitou ao IASB o adiamento de um ano na vigência da futura IFRS 20 sobre regulação tarifária, de 1º de janeiro de 2029 para 2030, citando dificuldades de preparação por parte das empresas. O IASB havia debatido datas entre 2028 e 2029, equilibrando urgência e qualidade de implementação. Com divisão igual entre os membros, o presidente decidiu por mais prazo, visando garantir adoção adequada e consistente entre jurisdições. 

Recentemente a norma foi discutida em um webcast, mas a solicitação do Efrag tem grande chance de ser aprovada. 

Aprimoramento das normas SASB


Ontem, ao comentar sobre o relatório de 2025 da Fundação IFRS, afirmei que o ISSB fez pouco desde que foi criado. É bem verdade que a entidade está "aprimorando" as normas SASB para ajudar na aplicação da IFRS S1. Anteriormente, nove normas SASB tiveram a minuta divulgada em julho de 2025. E há poucos dias, mais três normas SASB foram disponibilizadas para discussão: ‘Agricultural Products’, ‘Meat, Poultry & Dairy’ e ‘Electric Utilities & Power Generators’. O período para comentários se encerra em 24 de julho de 2026.

Imagem aqui 

Todos modelos são (estão) errados, mas alguns são uteis

 


Uma das citações de um dos meus estatísticos favoritos é a observação do estatístico britânico George Box de que:

“Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis.”

— George Box

O ponto dele, como eu entendo, é simplesmente que qualquer modelo é, por natureza, uma simplificação e uma aproximação da realidade. Ele nunca conseguirá capturar a realidade em sua totalidade.

Isso se aplica à sua fórmula de receitas e despesas esperadas que você arrasta pelas células de uma planilha. E se aplica também aos nossos maiores e extremamente complexos modelos meteorológicos e climáticos, com milhões de variáveis e pontos de dados. Eles nunca podem ser completos. E, embora devamos ter isso em mente ao considerar as limitações de todos os nossos modelos, previsões, estimativas e explicações, isso não impede que eles sejam, muitas vezes, úteis.

Embora seja possível — e muitas pessoas o fazem — argumentar contra a ideia de que modelos são “errados”, eu gosto dessa citação porque ela me lembra de ser humilde e devidamente cético em relação a qualquer modelo que eu leia ou construa. Embora sua precisão varie enormemente, todos são falíveis.

Ela também me lembra que todo modelo tem um propósito — enfatizando certos aspectos da realidade e ignorando outros.

Sobre Mapas

Embora um mapa não seja um modelo no sentido estatístico que George Box provavelmente tinha em mente ao formular essa frase, considero que mapas são um ótimo exemplo de foco seletivo.

No esboço, é possível ver a complexidade caótica do mundo, o mapa tradicional em que edifícios e ruas se tornam marcas no papel, e a simplificação das paradas sequenciais de uma linha de ônibus.

Em outros casos, os mapas podem focar em:

  • Geografia humana: ruas, edifícios, lojas

  • Atrações turísticas

  • Relevo, elevação e características geográficas

  • Cursos d’água e bacias hidrográficas

  • Trânsito e tempos de deslocamento

  • Fronteiras políticas

E muitos outros aspectos. Todos são modelos que representam alguns elementos com mais precisão em detrimento de outros. Como diz o ditado: “O mapa não é o território.”

Outros Exemplos

Alguns outros exemplos de modelos simplificados, mas ainda assim úteis:

  • Clima: imagine tentar condensar toda a complexidade do clima de um dia no Reino Unido em um único ícone. Não é simples. Ainda assim, isso pode ajudar você a decidir se deve levar um guarda-chuva ou adiar um passeio de barco.
  • Projeção de Mercator: útil para navegadores, mas altamente distorcida em altas latitudes.
  • Regra de Naismith: para estimar o tempo de caminhada em montanhas com base na distância e na elevação.
  • Desenho ortográfico de uma casa ou produto: pode destacar aspectos relevantes para a construção — fiação, encanamento, integridade estrutural — enquanto ignora texturas, cores, imperfeições ou custo.
  • Modelo atômico de Bohr: elétrons orbitando como planetas ao redor do núcleo. Imperfeito, mas útil.
  • Distribuições normais: como as observadas na altura das pessoas, raramente são perfeitamente normais, mas ainda assim podem ser aproximações úteis.
  • Curvas de oferta e demanda: aproximam o comportamento de compradores e fornecedores, assumindo racionalidade e disponibilidade de informação.
  • Mapa do metrô de Londres: simplificado em linhas perpendiculares e angulares, facilita a navegação no metrô, mas pode distorcer a percepção das distâncias a pé.

Um modelo é uma ferramenta, e sua utilidade depende do que você está tentando fazer. Se você está traçando rotas em um mapa plano, a projeção de Mercator é extremamente útil. Se quer entender o tamanho da Groenlândia em comparação com outros países, ela pode ser enganosa.

Box defende o uso de modelos econômicos (no sentido de simples), que nos permitam analisar a prática mantendo a consciência de onde eles podem estar significativamente errados.

Não me escapa que eu apresento muitos modelos mais simples do que a realidade no Sketchplanations. Acho que isso acontece porque, quando reconhecemos conscientemente suas imperfeições e limitações, um bom modelo — assim como um bom framework — pode ser extremamente útil. Como disse Larry Keeley: “Construir um bom framework é como cortar cubos a partir da névoa.”

Uma pequena nota: o GPT traduziu "todos modelos estão" mas confesso que fiquei na dúvida se o melhor não seria "são".  O texto original pode ser obtido aqui, no Sketchplanations.

9% do New York Times foram gerados pela IA

Eis um trecho:

A autora da coluna [Modern Love, do New York Times], Kate Gilgan, disse à revista que não havia copiado e colado trechos de um modelo de IA, mas que “utilizou IA como ferramenta”, incluindo chatbots como ChatGPT, Claude e Gemini, para buscar “inspiração, orientação e correção”.

“Usei a IA como um editor colaborativo, e não como um gerador de conteúdo”, insistiu Gilgan.

(...) E a escala pode ser significativa. Controvérsias como a envolvendo a coluna de Gilgan levaram vários pesquisadores de IA a investigar quanto conteúdo gerado por IA já se infiltrou nos jornais americanos.

Utilizando uma ferramenta de detecção de IA da startup Pangram Labs, seus achados, publicados como um estudo preliminar em outubro, são preocupantes. Eles sugerem que 9% dos artigos recém-publicados são parcial ou totalmente gerados por IA, principalmente em veículos menores e locais.
 

É preciso tomar muito cuidado com a estimativa, uma vez que as ferramentas de detecção de uso de IA cometem falhas. Mas o fato da famosa coluna Modern Love ser escrita com ajuda já é uma reconhecimento importante.