Eis mais uma reflexão de Harford
Um dos experimentos mais famosos da psicologia social ocorreu no início dos anos 1950. Solomon Asch, professor do Swarthmore College, reuniu grupos de jovens para o que lhes disse ser um experimento de “julgamento visual”. Não era nada disso.
O que aconteceu ficou conhecido como o “experimento de conformidade”, mas esse rótulo é enganoso para um estudo frequentemente mal compreendido. Asch conduziu várias variações do experimento, e a lição mais surpreendente e poderosa não é sobre o poder da conformidade, mas sobre o poder do desacordo. A abordagem básica de Asch consistia em mostrar dois cartões a um grupo de cerca de oito pessoas. Um cartão tinha uma única linha: a linha de referência. O outro mostrava três linhas de comprimentos diferentes. A tarefa era simples, de múltipla escolha: identificar qual linha tinha o mesmo comprimento da linha de referência. Isso não era difícil; quando as pessoas faziam essa tarefa sozinhas, quase nunca erravam.
No entanto, Asch não pedia que realizassem a tarefa isoladamente, mas como membros de um grupo. Os participantes eram solicitados, um a um, a dizer sua resposta para o restante do grupo. Isso abria espaço para que os indivíduos fossem guiados não pelos próprios olhos, mas pelas opiniões dos outros. Os grupos repetiam a tarefa 18 vezes, mas Asch tinha um truque. Todos no grupo eram cúmplices trabalhando para ele, exceto um único participante real e desavisado. Esse participante ficava perto do final da fila. Os cúmplices tinham instruções para acertar as duas primeiras perguntas e, em seguida, concordar unanimemente em respostas erradas na maioria das rodadas seguintes. Imagine o choque e a ansiedade do participante ao ver uma pessoa após a outra contradizer a evidência dos próprios olhos. As pessoas sentiam uma pressão real para se conformar, com mais de um terço das respostas coincidindo com a ilusão do grupo, e não com a verdade evidente.
Por quê? Quando questionadas após o experimento, algumas pessoas disseram que haviam mudado de ideia, concluindo que o grupo devia estar certo. Outras afirmaram que não mudaram de opinião, mas mudaram suas respostas, por não quererem atrapalhar o experimento. Ainda outras foram firmemente independentes, dizendo que presumiam que o grupo estivesse certo e elas erradas, mas sentiam o dever de responder conforme viam.
O que mais me fascina no experimento de Asch é o que aconteceu quando um dos cúmplices foi instruído a discordar do grupo e dar a resposta correta. O resultado: o feitiço da conformidade foi quebrado. As pessoas cometeram apenas um quarto dos erros, com a taxa caindo para menos de 10%. A pressão do grupo perdeu grande parte de sua força.
Ainda mais brilhante foi outra variação, em que Asch novamente instruiu um cúmplice a discordar do grupo. Desta vez, porém, ele era um “dissidente extremista”, dando uma resposta ainda mais errada que o consenso da maioria. O resultado? Os participantes, em geral, deram a resposta correta; a taxa de erro permaneceu abaixo de 10%.
Asch demonstrou três coisas. Primeiro, as pessoas podem ir contra a evidência dos próprios olhos quando confrontadas por um grupo unânime. Segundo, a pressão do grupo é muito mais fraca quando ao menos uma pessoa ousa discordar. Terceiro, e mais notável: não importa se o dissidente está errado; o simples ato de discordar rompe a pressão do grupo. As pessoas se sentem livres para dizer o que pensam, não porque o dissidente diga a verdade, mas porque ele mostra que discordar é possível.
Pensei em Solomon Asch ao conhecer um livro de receitas de Julia Child e Jacques Pépin, Julia and Jacques Cooking at Home. Ele reúne pratos clássicos, mas apresenta duas versões diferentes de cada receita — uma de Julia e outra de Jacques. Nas margens, cada um oferece explicações bem-humoradas sobre o que o outro fez “errado”, por que tomou decisões diferentes e quais os efeitos disso no prato final. Como escreve o filósofo C. Thi Nguyen, é “o registro de uma discussão — uma conversa animada entre amigos”.
Isso importa porque, assim como no experimento engenhoso de Asch, mostra que a discordância é possível. Os dois casos parecem muito diferentes — até porque há apenas uma resposta correta no teste visual de Asch, enquanto existem várias formas de preparar um peixe. Ainda assim, a discordância é valiosa em ambos os casos, pois nos dá permissão para pensar por conta própria. Muitos anos atrás, estive envolvido em um processo de planejamento de cenários para a empresa de petróleo Shell. Sempre foi um exercício fascinante, mas hoje percebo que uma de suas forças mais importantes raramente era discutida: sempre havia pelo menos dois cenários, e todos tinham o mesmo status. Era como Cooking at Home aplicado à estratégia corporativa: a premissa fundamental era que existia mais de um futuro plausível, e uma conversa animada sobre essas possibilidades abria espaço para novas formas de pensar.
Charlan Nemeth, psicóloga e autora de No! The Power of Disagreement in a World that Wants to Get Along, alerta contra a dissidência “artificial” — como a tradição católica do “advogado do diabo”, que argumenta contra a canonização de um possível santo. Em teoria, isso parece útil, mas, na prática, há pouco ganho quando a discordância é apenas encenada. Todos sabem que o papel é performático, o que reduz o esforço real de persuasão. Como escreve Nemeth, “encenar papéis não produz os efeitos estimulantes da dissidência autêntica”.
Ainda assim, algumas formas de “artificialidade” são melhores que outras. Nemeth elogia uma firma de investimentos que só toma decisões após considerar argumentos sólidos tanto a favor quanto contra uma posição. O diferencial talvez esteja no fato de que esses argumentos contrários não são um jogo, mas apresentados com seriedade genuína.
Outra prática é o chamado red teaming — atribuir a um grupo a tarefa de criticar profundamente uma ideia antes de sua adoção. Isso pode ser um ritual vazio ou uma prática rigorosa, dependendo da intenção de quem participa.
A dissidência encenada é melhor do que nenhuma, especialmente quando levada a sério. Mas a forma mais valiosa de discordância é a autêntica — mesmo que seja teimosa e corajosa. Não há substituto para pessoas que sentem o dever de dizer o que realmente veem.
Na contabilidade queremos tanto a "comparabilidade" que não admitimos uma segunda abordagem. Esperamos que os reguladores indiquem a alternativa permitida. Há algumas exceções notáveis, como a avaliação dos estoques, mas no geral buscamos a harmonização ou padronização, palavras que exprimem nosso desejo de não ter caminhos alternativos.
Imagem: Diego Rivera
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