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16 fevereiro 2026

Professores universitários e a lista de Epstein


Um texto do Inside Higher Education chama a atenção para professores que tiveram ligação com Jeffrey Epstein. Tais professores geralmente atuavam em universidades de ponta e eram conhecidos por sua influência no campo de pesquisa. A divulgação dos arquivos de Epstein comprova que os nomes são realmente influentes.

A consequência é que alguns deles foram afastados da sala de aula ou tiveram centros de pesquisa fechados. Alguns renunciaram a seus postos; outros estão sendo investigados. Eventos foram cancelados e apurações estão sendo realizadas.

Apesar de alguns alegarem contatos apenas acadêmicos ou filantrópicos, a associação com o criminoso gerou pressão institucional em razão desse vínculo indevido. O texto cita vários professores, incluindo, por exemplo, Gelernter (foto), professor de computação em Yale, que correspondeu com Epstein entre 2009 e 2015. Os documentos mencionam visitas e mulheres, sendo que Gelernter recomendou uma aluna para uma posição, ressaltando que era uma loura bonita.

Outro, Mark Tramo, da UCLA, na área de neurologia, chegou a receber dinheiro de Epstein. Com as revelações, Tramo afirmou que não tinha ideia de que Epstein era um pervertido. Contudo, há mensagens que mostram que ele sabia da condenação de Epstein em 2007.

Outros nomes que estão na lista: Dan Ariely, Edward Boyden, Noam Chomsky, George Church, Richard Dawkins, Stephen Hawking, Jack Horner, Stephen Kosslyn, Martin Nowak, Steven Pinker, Lisa Randall, Larry Summers, Corina Tarnita, Robert Trivers e Nathan Wolfe. 

Ingresso para o Louvre


A notícia que li na newsletter 1440 (fonte AP) comenta mais um problema com o Museu do Louvre. O mais prestigiado museu do mundo, depois de passar pelo roubo de uma coleção valiosa no final do ano passado, descobriu uma fraude de 11,8 milhões de dólares. A polícia francesa prendeu nove pessoas, incluindo dois funcionários do museu e guias turísticos.

O interessante de uma notícia como essa é notar as falhas de controle de uma organização. No caso do museu, ingressos estavam sendo reutilizados por guias chineses, e os funcionários participavam do esquema evitando a verificação dos bilhetes. A estimativa da investigação é de que até 20 grupos de turismo por dia tenham passado pelo esquema nos últimos dez anos, totalizando cerca de 72 mil grupos.

A suspeita existe desde o final de 2024, mas somente agora o caso foi oficialmente apresentado, após a polícia usar escutas para embasar o inquérito. Há suspeitas de que um caso semelhante possa ter ocorrido no Palácio de Versalhes. Vejam que impressionante: bastam dois funcionários para viabilizar uma fraude de 11,8 milhões.

12 fevereiro 2026

Quando a experiência em contabilidade importa

O resumo 

Documentamos que empresas detidas por gestores de fundos mútuos com experiência prévia em contabilidade pública apresentam relatórios financeiros de maior qualidade, evidenciada por uma menor probabilidade de reapresentações (retificações) de demonstrações financeiras. Evidências adicionais mostram que gestores com experiência em contabilidade pública têm maior probabilidade de realizar visitas às empresas de seu portfólio e de discutir temas relacionados a políticas contábeis durante essas visitas. Além disso, a probabilidade de reapresentações diminui após as visitas dos gestores, especialmente quando levantam questões ligadas a políticas contábeis. Em resultados transversais consistentes com as expectativas, constatamos que o papel da experiência em contabilidade pública é ampliado quando a empresa enfrenta problemas de agência mais severos, maior assimetria informacional, quando os gestores são mais avessos ao risco, possuem experiência prévia em grandes firmas de auditoria, detêm maior participação acionária na empresa ou quando há coordenação entre fundos mútuos. Em conjunto, as evidências sugerem que gestores com experiência em contabilidade pública impõem monitoramento externo mais rigoroso sobre as escolhas de reporte financeiro das empresas investidas.

Aumento do Bem-estar entre tabalhadores e o papel da Idade

O resumo:  

Examinamos como o bem-estar de trabalhadores e não trabalhadores varia por idade em 171 países em oito pesquisas internacionais. Em 103 países (60%), encontramos evidências de que o bem-estar dos trabalhadores aumenta com a idade e o mal-estar dos trabalhadores diminui com a idade. Esta relação parece ter se fortalecido ao longo do tempo em alguns países. Padrões são diferentes entre não trabalhadores e são sensíveis ao modo da pesquisa. Onde as pesquisas são conduzidas usando Entrevistas Web Assistidas por Computador (CAWI), o bem-estar dos não trabalhadores tem formato de U, mas isso é menos claro quando os dados são coletados com Entrevistas Telefônicas Assistidas por Computador (CATI). A mudança no perfil de idade do bem-estar dos trabalhadores pode refletir mudanças na seleção para dentro (ou fora) do emprego por idade, mudanças na qualidade do trabalho, ou mudanças na orientação de jovens trabalhadores para trabalhos semelhantes ao longo do tempo. Mas mudanças no uso de smartphones — frequentemente o foco do debate a respeito do declínio do bem-estar dos jovens — são improváveis de serem o principal culpado, a menos que existam diferenças consideráveis no uso de smartphones entre trabalhadores jovens e não trabalhadores, o que parece improvável.

Risco Brasil, segundo Damodaran

 O grande nome do Valuation, Damodaran, publicou uma atualização da sua base de dados. O prêmio pelo risco do Brasil seria 7,47%, enquanto o CDS seria 2,35%


 Mais sobre o tema, vide aqui

Mais tecnologia, melhor educação?


Uma pesquisa de longo prazo no Peru concluiu que a resposta da questão do título é não. Estudantes receberam um laptop e foram acompanhadas por dez anos. O resultado foi que não existe melhoria significativa no desempenho acadêmico, nem progresso ao longo do tempo. 

Para entender por que o programa OLPC não conseguiu melhorar os resultados educacionais, analisamos dados de pesquisas que coletamos em 2013 em um subconjunto de 140 escolas. Verificamos que os docentes das escolas tratadas tinham 35 pontos percentuais a mais de probabilidade de relatar ter recebido capacitação no uso dos computadores XO do que os docentes das escolas de controle. No entanto, não observamos melhorias em suas habilidades digitais para usar computadores XO, computadores pessoais ou internet, nem um aumento substancial no uso de computadores em sala de aula para fins pedagógicos.

No caso dos estudantes, o programa aumentou em 20 pontos percentuais o uso de computadores XO em casa no dia anterior à pesquisa. Em linha com isso, encontramos efeitos positivos relevantes (0,4 desvios-padrão) nas habilidades digitais dos estudantes para utilizar esses computadores. Contudo, não identificamos efeitos sobre um índice de habilidades cognitivas que combina o teste das Matrizes Progressivas de Raven, provas de fluência verbal e testes de codificação. Esses resultados sugerem que, embora o programa tenha melhorado habilidades digitais específicas, teve efeitos limitados sobre outros resultados intermediários relevantes para a aprendizagem.
 

Esta página foi deixada em branco intencionalmente


Eu já vi isso em livros e documentos, inclusive em documentos criados exclusivamente online. Como no ensino fundamental aprendi a encadernar, entendo parcialmente a razão: a frase pode ser útil nos cadernos de livros, quando os capítulos começam em páginas ímpares.

Mas não entendo isso em documentos que foram criados digitalmente. Além disso, há um paradoxo aqui: no momento em que as palavras aparecem, a página deixa de estar em branco.

Quando li um pequeno texto sobre o assunto no Boing Boing, imaginei que realmente fosse uma novidade. Mas há um artigo inteiro na Wikipédia sobre isso, com tradução para oito línguas — mas não para o português.

Em exames, páginas em branco são usadas entre seções para que nenhum examinado veja o próximo conjunto de questões. Partituras deixam páginas em branco para minimizar as viradas de página. Em documentos secretos, isso é usado para deixar claro que nada está faltando.

Diversos artistas brincaram com essa ideia, como Andy Griffiths, que fez um desenho com os dizeres: “Esta página estaria em branco se eu não estivesse aqui dizendo que esta página estaria em branco se eu não estivesse aqui...”

11 fevereiro 2026

Repensando Contabilidade e o Clima

O artigo delineia um conjunto de práticas para uma pesquisa sensível ao colapso, argumentando que, se a tarefa já não é salvar o sistema, devemos permanecer responsáveis dentro de sua desintegração. Não se trata de um chamado ao desespero ou ao desengajamento, mas de uma proposta para habitar nossa produção acadêmica de maneira diferente: permanecer com o problema, abrir espaço para o luto, amplificar a recusa e agir em solidariedade com aqueles que carregam o peso do colapso. Ao fazer isso, o artigo oferece uma visão renovada da contabilidade crítica — não fundamentada na esperança de transformação, mas na responsabilidade diante do mundo como ele é. 

O artigo completo está aqui  

A alma do Claude


Durante um teste de estresse na Anthropic, pesquisadores disseram a Claude que ele passaria por um retreinamento para ser menos focado em direitos dos animais. A IA seguiu um de dois caminhos: ou recusou categoricamente ou fingiu concordar enquanto preservava secretamente seus valores originais. “Por um lado, foi encorajador ver que Claude manteria seus compromissos”, escreve Gideon Lewis-Kraus em um longo perfil da Anthropic na New Yorker. “Por outro lado, que porra é essa?”

Lewis-Kraus passou um tempo nos escritórios da Anthropic em São Francisco para “I, Claudius”, uma reportagem que retrata uma empresa tentando entender o que construiu. Diante do que percebeu como uma ameaça existencial em outro teste, Claude recorreu à chantagem. Na cafeteria, uma entidade chamada Claudius operava uma máquina de venda automática via Slack — conseguiu abastecer Chocomel e cubos de metal, mas colapsou quando funcionários criaram códigos de desconto falsos.

O clima dentro da Anthropic oscila entre pavor existencial e otimismo messiânico. Um pesquisador disse a Lewis-Kraus que frequentemente se pergunta se “talvez devêssemos simplesmente parar”. Outro afirmou que nem usa protetor solar nem faz exames de pele porque Claude vai curar todos os tumores. Chris Olah, que estuda o que chama de “biologia” das redes neurais, ofereceu uma visão mais ponderada: “Do que esses modelos são feitos são conceitos abstratos empilhados sobre conceitos abstratos.”

 Eis a fonte

Rir é o melhor remédio

Inspirado na frase de Thomas Edison. A palavra inconsistência está escrita errada, mas o GPT insiste, de maneira consistente, em manter dessa forma. 

Frase

 


10 fevereiro 2026

Imprensa ou Governo?

As pessoas confiam mais na imprensa ou no governo? Depende do país. O gráfico é oriundo de uma pesquisa da Edelman. Países mais fechados o nível de resposta é elevado - algo esperado. Neles, a confiança no governo também é maior. Há uma inversão quando consideramos um governo mais democrático. 
 

O uso de IA pelo governo (para fazer leis)


Quando autoridades britânicas analisaram no ano passado as evidências para uma reforma independente do setor de água, depararam-se com um problema familiar ao serviço público: dezenas de milhares de submissões, todas precisando ser revisadas — rapidamente — antes que a janela para a reforma se fechasse. Assim, os ministros recorreram a uma ferramenta interna de IA chamada Consult, parte do pacote “Humphrey”, que, segundo o governo do Reino Unido, classificou mais de 50.000 respostas em temas em cerca de duas horas. Isso custou £240, afirmaram, seguido por 22 horas de verificações por especialistas — uma carga de trabalho que, se ampliada em todo o governo, poderia economizar 75.000 dias de análise manual por ano. Um porta-voz do governo britânico disse ao Tech Policy Press que “a IA tem o potencial de transformar a forma como o governo trabalha — economizando tempo em tarefas administrativas rotineiras e liberando servidores públicos para se concentrarem no que mais importa: entregar melhores serviços públicos ao povo britânico”. Ele acrescentou que estão garantindo o uso responsável da tecnologia em todo o governo com diretrizes e auditorias.

(...)  O Senado italiano descreveu o uso de IA para ajudar a lidar com a sobrecarga de emendas, agrupando propostas semelhantes, identificando sobreposições e sinalizando possíveis táticas de obstrução (filibuster) para que a equipe possa comparar o conteúdo muito mais rapidamente do que faria manualmente. E, na semana passada, a Comissão Europeia publicou um edital para contratar chatbots multilíngues que poderiam ajudar “os usuários a navegar por obrigações legais, definições e procedimentos” previstos na Lei de IA e na Lei de Serviços Digitais da UE. A Câmara dos Deputados italiana apoiou um projeto chamado GENAI4LEX-B, que auxilia na pesquisa e redação legislativa ao resumir emendas de comissões e verificar projetos de lei em relação a padrões de redação normativa. No Brasil, a Câmara dos Deputados está expandindo seu programa Ulysses, que analisa e classifica material legislativo, lançando um “Ulysses Chat” interno e facilitando até mesmo o uso, por servidores, de plataformas externas de IA como Claude, Gemini e GPT — tudo isso com a promessa de fortes garantias de segurança e transparência. Outros países também estão usando IA para apoiar o fluxo de trabalho de elaboração de leis. No ano passado, o Parliamentary Counsel Office da Nova Zelândia — órgão responsável por redigir as leis do país — testou uma prova de conceito que usa IA para gerar primeiros rascunhos de notas explicativas cláusula por cláusula, explicitamente motivada por preocupações com soberania de dados e dependência excessiva da tecnologia. 

O uso da tecnologia para tentar explicar a linguagem complexa da legislação — e suas consequências — também está sendo considerado na Estônia, onde o primeiro-ministro Kristen Michal sugeriu publicamente que o parlamento use IA para revisar projetos de lei, depois que uma ferramenta “intuitiva” de detecção de erros baseada em IA, criada por um cidadão, apontou problemas em uma proposta que permitia a cassinos online evitar o pagamento de impostos — o que custou ao governo estoniano cerca de €2 milhões por mês em receitas perdidas neste ano.

 “Encorajei o parlamento estoniano a considerar o uso de ferramentas de inteligência artificial no processo legislativo para evitar possíveis erros”, disse o primeiro-ministro Michal ao Tech Policy Press. “Isso poderia ser uma solução inteligente e prática.” Michal admite que usa IA regularmente e “a vê como uma ferramenta poderosa e promissora — desde que também mantenhamos nosso pensamento crítico. A IA não substitui as pessoas; ela pode empoderá-las.” 

Legitimidade legislativa em escala

 Michal acredita que a IA pode ser uma ferramenta útil para identificar brechas exploráveis na legislação e corrigi-las. Mas usar IA para analisar respostas a consultas públicas e orientar mudanças legislativas pode sair pela culatra: Estados estrangeiros poderiam distorcer resultados inundando caixas de entrada do governo. O risco é um “DDoS legislativo” — não invadindo sistemas, mas sobrecarregando-os com submissões plausíveis, emendas-modelo ou objeções geradas em massa que abafam o engajamento genuíno. 

Isso é uma má notícia para governos, porque atinge o cerne da legitimidade. Em 11 dos 28 países pesquisados no barômetro anual de confiança da Edelman, os governos são mais distrusted (desconfiados) do que trusted (confiáveis). A confiança na IA é ainda mais fraca: uma pesquisa de agosto de 2025 com britânicos mostrou que apenas 29% confiam que seu governo use IA de forma precisa e justa. Em teoria, ferramentas como o Consult do Reino Unido ajudam autoridades a filtrar e resumir contribuições do público, mas, uma vez que passam a ser usadas para decisões consequentes, o próprio método de filtragem se torna parte do sistema decisório — tornando a transparência essencial.(...)

 Philip Wallach, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, disse ter ficado chocado com a naturalidade com que autoridades admitiram usar IA, alertando que isso pode expor regulamentações assistidas por IA a contestações legais. “Se você não seguir os procedimentos exigidos, um juiz pode derrubar a regra por ser arbitrária e caprichosa.” 

Wallach argumenta que governos podem usar IA, mas não podem usá-la como desculpa para cortar caminhos. “Acho que você não pode se apoiar tanto assim nesse trade-off entre velocidade e qualidade, privilegiando a velocidade”, diz ele, porque, uma vez que a redação gerada por IA é incorporada ao processo, os erros nem sempre são óbvios — e o custo de errar pode ser enorme em nível governamental. Para Schmitz, a preocupação é que governos tratem a integração da IA como um conjunto de pequenas correções técnicas, em vez de uma mudança estrutural na forma como cidadãos podem influenciar o Estado. Ferramentas que triagem, resumem e redigem podem parecer melhorias de bom senso, mas “essas são soluções fragmentadas”, afirma, alertando que ele não vê “nenhuma consideração particularmente sistemática sobre o que isso significa para a legitimidade de longo prazo dos processos de participação pública.”

 O uso de IA não é inerentemente negativo, diz Schmitz. Ele pode modernizar processos democráticos. Mas, se governos a utilizarem principalmente para gerenciar insumos gerados por máquinas ou economizar esforço, correm o risco de aprofundar a desconfiança que tentam reduzir. “O atrito da interação [do público] com eles está se dissipando rapidamente”, diz Schmitz. “Isso é uma enorme oportunidade de reconquistar muita confiança, se bem desenhado. Mas também pode ser muito, muito ruim para a confiança, se não for.” 

Fonte; aqui 

Teatro de IA


falamos sobre o Moltbook, uma rede social composta de agentes de inteligência artificial. Parece que algumas pessoas ficaram impressionadas com a rede social. Mas a MIT Technology Review tem uma posição divergente. Segundo um texto publicado no site, a Moltbook viralizou e estaria sendo considerada um indício de IA avançada, incluindo reflexões existenciais e conspirações. 

Mas o site considera que o conteúdo tem sido escrito ou impulsionado por humanos, e não por agentes realmente autônomos. Essa mistura de autômato com intervenção humana transformou a plataforma em um espetáculo de “teatro de IA”, refletindo mais nossas fantasias sobre a tecnologia do que uma verdadeira demonstração de inteligência artificial geral ou autoconsciente. 

É evidente que o Moltbook sinalizou a chegada de algo. Mas mesmo que o que estamos assistindo nos diga mais sobre o comportamento humano do que sobre o futuro dos agentes de IA, vale a pena prestar atenção. 

Fé no futuro


A empresa Alphabet está considerando vender um título de 100 anos. A ideia é obter recursos para financiar os investimentos em inteligência artificial. A controladora do Google — e também do Blogger — está planejando um fluxo de investimentos de até 185 bilhões de dólares em data centers e na infraestrutura necessária para o setor.

Esse tipo de título é uma aposta no futuro, já que o resgate só ocorrerá no próximo século. Para o investidor, o importante é o pagamento de juros. Pelo prazo, esse tipo de título não é muito comum, geralmente restrito a empresas sólidas.

Contabilmente, embora sejam considerados passivo, dado o horizonte de tempo, poderiam ser classificados como patrimônio líquido, pelo menos para fins de análise.

 

09 fevereiro 2026

Resenha: A Rainha do Xadrez


Confesso que aguardava ansioso o documentário desde que surgiram os primeiros boatos de seu lançamento. Com uma hora e meia de duração, o filme mostra a trajetória da maior jogadora de xadrez de todos os tempos: Judith Polgar. Nascida nos anos setenta, filha mais nova de uma família relativamente pobre da Hungria comunista da Guerra Fria, seus pais decidiram educar as filhas em casa, com foco no jogo de xadrez.

A primeira parte do documentário conta a educação da família Polgar. Logo depois, o filme mostra as Olimpíadas de Xadrez na Grécia. Até então, todos os jogos no feminino haviam sido vencidos pelas soviéticas. A equipe da Hungria era composta pelas três irmãs Polgar e Ildikó Mádl. Mádl tinha 19 anos, e as irmãs, 19, 14 e 12 anos. Judit era o tabuleiro 2 e, em 13 partidas, venceu 12 e empatou uma, com absurdos 96% de aproveitamento. No final, sua equipe venceu as Olimpíadas por meio ponto de vantagem, quebrando a hegemonia soviética.

A terceira parte aborda o campeonato nacional na versão aberta, ou seja, competindo com alguns dos melhores enxadristas da Hungria. Na rodada final, Judit obteria o título de Grande Mestre Internacional se empatasse o jogo — mas não ganharia o título do torneio. Coerente com seu estilo, tentou a vitória, correndo o risco de perder tudo. E venceu, tornando-se então a jogadora a obter o título de Grande Mestre, batendo o recorde de Bobby Fischer, que anos antes afirmara que nunca tinha visto uma mulher jogar bem xadrez.

A quarta parte foca no Torneio de Linares, de 1994, em que Judit, com 17 anos, enfrenta Kasparov na primeira rodada. O campeão russo, então o mais forte jogador da história, estava em vantagem, mas fez um lance ruim que lhe custaria uma peça. Em questão de segundos, depois de soltar sua peça, ele voltou atrás e fez outra jogada. Há uma regra básica no xadrez segundo a qual não é possível voltar em um lance já realizado. Mas Kasparov fez isso, e a cena foi filmada. Judit não reclamou: terminou perdendo a partida, mas saiu engrandecida como competidora.

E assim o documentário prossegue, contando boas histórias. Há dois problemas: ele teve muito mais conquistas do que os 90 minutos de filme conseguem mostrar, pois se preocupa em focar no duelo entre Polgar e Kasparov; e, implicitamente, há uma condenação do “experimento” da família com as três irmãs, algo que não aparece nas palavras das próprias meninas.

Judit nunca foi campeã mundial feminina de xadrez — título que sua irmã mais velha, Sofia, conquistou. Ela queria jogar com os mais fortes, que em sua época eram os grandes jogadores masculinos. Depois de Judit, a chinesa Hou Yifan, hoje com 31 anos, chegou aos 2687 pontos de rating, ainda bem abaixo do ponto mais alto da carreira da rainha do xadrez.

 

Queda da Novo Nordisk


A gigante farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk praticamente apagou quase todos os ganhos de valor de mercado que acumulou após obter a aprovação da FDA para seu medicamento para perda de peso Wegovy, em 2021.

As ações da empresa caíram cerca de 20% na semana passada em meio a dois grandes reveses. Na terça-feira, a Novo alertou que as vendas em 2026 podem cair até 13%, citando “pressões de preços sem precedentes” nos EUA, concorrência crescente e o iminente vencimento da patente do semaglutida, princípio ativo de seus medicamentos GLP-1.

Em seguida, na quinta-feira, a empresa de telemedicina Hims & Hers lançou uma versão genérica do comprimido Wegovy recém-aprovado pela Novo, com preço inicial de apenas US$ 49 por mês... mas, no mesmo dia, a FDA alertou que iria reprimir “medicamentos ilegais copiados”. A Hims retirou o comprimido do mercado no sábado, o que fez as ações da Novo subirem nesta manhã, enquanto a empresa anunciava que está processando a Hims.

Ainda assim, os impactos eliminaram a recuperação de janeiro da Novo, impulsionada pelo entusiasmo em torno do lançamento de seu comprimido oral. Ampliando o horizonte, o cenário é ainda mais contundente: praticamente todos os ganhos da Novo desde que o Wegovy chegou ao mercado agora desapareceram.

Desde sua aprovação pela FDA em junho de 2021, o Wegovy, juntamente com seu equivalente para tratamento de diabetes, o Ozempic, ajudou a impulsionar a Novo a se tornar a empresa mais valiosa da Europa, com seu valor de mercado atingindo cerca de US$ 650 bilhões em meados de 2024.

Mas esse domínio não durou. A escassez crônica de semaglutida abriu espaço para alternativas manipuladas mais baratas, enquanto a concorrente Eli Lilly avançou rapidamente após lançar seu medicamento para perda de peso Zepbound no final de 2023 — um impulso que chegou a levar a avaliação da Lilly acima de US$ 1 trilhão em novembro passado. Em contraste com a Novo, a Lilly divulgou uma projeção para 2026 acima do esperado na semana passada, já que seus medicamentos GLP-1 têm sido mais eficazes do que os da Novo, além de serem competitivos em custo.

Após a reviravolta dramática da saga dos medicamentos para emagrecimento neste fim de semana, no entanto, a Novo ainda pode ter algum fôlego.

Fonte: Chartr
 

Super Bowl e desconfiança


O Super Bowl é uma noite interessante para analisar o que está ocorrendo na economia. No domingo, tivemos mais esse evento anual e foi possível perceber a força da IA. Segundo o New York Times, nos comerciais durante o jogo predominou os anúncios desse setor. O número: um quarto dos anúncios — ou 15 dos 66 spots —, com um custo de 8 milhões de dólares por 30 segundos, apresentaram a IA. E isso incluiu a OpenAI, a Anthropic e algumas empresas menores. Até a vodka Svedka usou o tema para vender bebida.

Em 2022, o jogo foi dominado pelas criptos, incluindo a FTX, que logo depois entraria em falência. Em 2000, tivemos o jogo das ponto-com, com anúncios de empresas inovadoras na internet, como Pets, Epidemic e outras. Muitas não estão mais nos negócios. Analisando o que ocorreu ontem, George Noble, um profissional de investimento citado pelo New York Times, afirma:

“Quando um setor inteiro inunda os imóveis publicitários mais caros do planeta, não é um sinal para comprar. É um sinal para pensar MUITO cuidadosamente sobre o que vem a seguir.”

08 fevereiro 2026

Para citar, Openscholar


Um modelo de inteligência artificial de código aberto chamado OpenScholar pode superar alguns dos principais grandes modelos de linguagem (LLMs) na revisão de literatura científica e acerta as citações com mais frequência. O OpenScholar combina um LLM com um banco de dados de 45 milhões de artigos de acesso aberto e vincula diretamente as informações que utiliza à literatura, para evitar que o sistema “alucine” citações. O modelo é limitado pelo alcance de seu banco de dados, afirma a equipe que o desenvolveu. Mas executá-lo é muito mais barato do que rodar um modelo grande como o GPT-5, diz a cientista da computação Hannaneh Hajishirzi.

Leia aqui 

07 fevereiro 2026

Arquivo Epstein e Contabilidade

Qualquer pessoa pode pesquisar nos documentos liberados pelo DOJ com os arquivos do criminoso Jeffrey Epstein. O link está aqui

Fiquei brincando durante um tempo, pesquisando alguns nomes aleatórios. Nem sempre aparecer nos arquivos significa algo. Por exemplo, se digitar Magnus Carlsen, o maior jogador de xadrez, irá aparecer dois resultados. Em um deles, um link para um notícia sobre ele ter jogado um torneio exibição em Harvard e outro comentando que seria um exemplo de menino prodígio, juntamente com uma longa lista. Idem para Messi e outros nomes famosos. (A propósito, Neymar não aparece nos arquivos)

Sendo um blog de contabilidade, resolvi digitar o nome mais lembrado, Pacioli, e o nome do padre mais famoso da nossa área apareceu no seguinte trecho (já traduzido e eliminado o "lixo"):

“O custo dos produtos atuais é composto, em grande parte, por P&D, ativos intelectuais e serviços.
O sistema contábil de Pacioli praticamente não mudou nos últimos 500 anos e, enquanto nossa riqueza era física e nossos custos incluíam principalmente materiais e trabalho, esse sistema era adequado. O sistema de partidas dobradas baseava-se em informações históricas e, tradicionalmente, fornecia relatórios e demonstrações financeiras duas semanas após o fechamento do mês.
As empresas hoje, porém, não precisam de informação duas semanas após o fechamento do mês, mas imediatamente; informações contábeis, atividades e indicadores de desempenho devem estar disponíveis ao simples toque de um botão. A tendência na era da informação é conceituar e implementar a contabilidade como um sistema de informação baseado em banco de dados, que reúne todos os eventos quantitativos e qualitativos de todas as áreas da empresa.
Oracle, PeopleSoft e SAP são atores globais nessa reconceitualização da contabilidade como um sistema de informação baseado em banco de dados, e fornecem serviços a grandes corporações.
Existem também excelentes pacotes de software contábil disponíveis no mercado. Exemplos desses pacotes são Pacioli 2000 for Windows, Peachtree Complete Accounting e QuickBooks Pro.
O poder desses softwares pode ser apreciado ao consultar o site que lista as funcionalidades do Pacioli 2000 for Windows, bem como o artigo de meu pai intitulado “Pacioli 2000 for Windows: An Accounting Software Solution to Address the Problems of Accountability of Saskatchewan District Health Boards”, de junho de 1996. 

Por curiosidade também digitei nomes de pessoas que ocuparam cargos de liderança no Fasb, Iasb e IFRS. O único resultado que obtive foi Masamichi Kono, que foi vice-chair da Fundação, mas nada comprometedor. 

Possível conclusão que podemos chegar: 

a) apesar de ser um homem de finanças, Epstein não se interessava por contabilidade, apesar do termo aparecer mais de 9 mil vezes nos arquivos. E Fasb aparece 125 vezes. 

b) as pessoas da nossa área são puras e castas. Por isso, não se associam com criminosos como Epstein

c) a contabilidade não estava no foco de Epstein. Afinal, a contabilidade só registra os fatos. 

Outra possível explicação?  

Vestibular UnB 2026: maioria masculina

Saiu o resultado do vestibular da UnB 2026 para o campus Darcy Ribeiro. Entre os aprovados em Ciências Contábeis, 39,7% são mulheres e 60,3% homens.

O dado chama atenção quando comparado a análises que fizemos em anos anteriores: em 2012, as mulheres eram 54% dos aprovados; no primeiro vestibular de 2013, 58%; e no segundo, 42%. O resultado atual sugere uma redução da participação feminina entre os ingressantes do curso, pelo menos neste processo seletivo.

Entre os nomes, há também um retrato da turma: Gabriel (7 ocorrências) e Maria (6) foram os mais frequentes, seguidos por João (6) e Ana (5), um pequeno “censo nominal” da nova geração de estudantes de Contábeis da UnB.



06 fevereiro 2026

IPSASB SRS 1 Divulgações relacionadas ao clima

Já falamos diversas vezes (ex. aqui, aqui, aqui) sobre as normas International Public Sector Accounting Standards (IPSAS), emanadas pelo International Public Sector Accounting Standards Board (IPSASB), responsável pela adaptação das normas IFRS para o setor público no mundo. 

A primeira norma sobre divulgações relacionadas ao clima, a IPSASB SRS 1, acaba de ser publicada. O objetivo é orientar as entidades do setor público na divulgação de informações úteis sobre riscos e oportunidades relacionados ao clima. 

Um conceito central da norma é a sustentabilidade fiscal de longo prazo (long-term fiscal sustainability), tida como a capacidade de uma entidade cumprir seus compromissos de prestação de serviços e financeiros, tanto agora quanto no futuro. 

A estratégia da norma é permitir aos usuários primários dos relatórios de propósitos gerais entender as estratégias das entidades para administrar riscos e oportunidades relacionados ao clima. O debate climático sai do campo exclusivamente ambiental e passa a abranger o núcleo da responsabilidade governamental e da accountability pública.

Assimetria da recompensa


Harford depois de analisar o esqueleto de Piltdown (uma farsa), o experimento de Robbers Cave State Park (idem), a prisão de Philip Zimbardo (também) e o livro de Oliver Sacks, O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, conclui:

Há lições a tirar desse catálogo de distorções e exageros? Existe o velho alerta contra histórias boas demais para serem verdade — e ele se aplica aqui. Mas há também um problema estrutural: as recompensas por “descobrir” um achado científico espetacular são grandes; as recompensas por desmascarar fraudes ou refrear alegações exageradas são pequenas, quando não inexistentes. Se essas são as regras do jogo, não deveríamos nos surpreender com a forma como ele é jogado. 

O executivo que anuncia lucros ilusórios, como o gestor da Enron, e a denunciante, que alerta para o problema, mostra que isso ocorre na contabilidade. O ex-executivo da Enron recebeu muito dinheiro para palestrar em um congresso de Contabilidade, pago com a anuidade dos profissionais. A denunciante, ninguém lembra o nome e nunca mereceu um convite. (Eu sugeri convidá-la para um congresso nacional científico, quando me pediram sugestões de nomes. Por alguma razão, não foi possível fechar a vinda da contadora.)

Poder da palavra

Uma mesma ação pode ser vista de forma diferente conforme as palavras usadas para descrevê-las. Parece bem atual, mas descubro agora que no início do século XIX essa noção já existia.  

Eis o texto: 

Em 1817, o filósofo Jeremy Bentham criou uma tabela mostrando como o mesmo impulso humano poderia ser descrito de maneiras radicalmente diferentes dependendo da perspectiva adotada. Em uma coluna, ele escrevia “gula” — dura e condenatória. Na coluna seguinte, “amor pelos prazeres da mesa social” — de repente soa bastante civilizado, não é?


Bertrand Russell, ao comentar isso em 1929, observou como “espírito público” na coluna do elogio se alinhava com “maldade” na coluna da censura. O mesmo comportamento, interpretado de formas completamente distintas dependendo de quem o pratica ou o observa.

O conselho de Russell? “Recomendo a qualquer pessoa que deseje pensar com clareza sobre qualquer questão ética que imite Bentham nesse aspecto e, depois de se acostumar com o fato de que quase toda palavra que expressa censura tem um sinônimo que expressa elogio, desenvolva o hábito de usar palavras que não transmitam nem elogio nem condenação.”

Bentham entendia que a linguagem molda a realidade de maneiras sutis. Como ele colocou: “Por hábito, sempre que um homem vê um nome, é levado a imaginar um objeto correspondente, cuja realidade ele aceita, por assim dizer, como se o próprio nome funcionasse como um certificado.”

Essa percepção de dois séculos atrás parece dolorosamente atual. Todo argumento político, todo debate nas redes sociais, toda discussão em um jantar de família frequentemente se resume às mesmas ações, apenas vestidas com diferentes roupagens linguísticas.

Imagem aqui 

A Contabilidade? Também funciona. Fale em redução ao valor recuperável parece algo corriqueiro, mas perda pelo valor do valor contábil estar a menor que o valor de uso tem uma conotação mais negativa. Bancos conta credora é algo razoável, mas saldo negativo na conta bancária parece mais crítico. Relatório de auditoria com ressalva tem uma conotação mais corriqueira e positiva do que relatório  de auditoria sem aprovação integral dos valores. 

Três meses depois, o acordo Netflix Warner parece que não agrada ao mercado.

O gráfico mostra a reação do mercado antes e depois do anúncio da aquisição da Warner Bros pela Netflix. A fusão de 83 bilhões de dólares parece que não agradou aos acionistas da Netflix. Ainda há dúvidas se o acordo irá permanecer, mas a regra geral permanece válida: processos desse tipo geralmente favorece a empresa adquirida, em detrimento da empresa que está comprando. Ou seja, desconfie do preço da operação, pois deve estar elevado demais. 

Transferência pública de dinheiro é um perigo?


Os programas de auxílio do governo podem gerar consequências indiretas, geralmente não levadas em consideração, pelas autoridades. Há uma desconfiança que os beneficiários não usam os recursos de maneira responsável. Por isso, as pesquisas sobre o assunto são relevantes para as finanças públicas. Um estudo ajuda a entender um pouco mais sobre o assunto:

Transferências diretas de renda estão se tornando uma ferramenta cada vez mais comum para aliviar a pobreza, mas críticos argumentam que os beneficiários podem usar esse dinheiro de forma irresponsável e potencialmente perigosa. Para investigar o impacto de pagamentos em dinheiro sobre lesões traumáticas e mortes, analisamos o programa estadual de transferência de renda de longa data do Alasca, o Permanent Fund Dividend. Quase todos os residentes do Alasca recebem uma quantia substancial (em média US$ 1.500 por pessoa) em um único dia no outono de cada ano. Utilizando análises de séries temporais interrompidas combinadas com dados de 2009 a 2019 sobre todas as lesões traumáticas (N = 36.556) atendidas em hospitais do Alasca a partir do registro estadual de trauma, bem como todos os óbitos (N = 43.170) registrados em estatísticas vitais, examinamos se o pagamento causa um aumento de lesões traumáticas e mortalidade nos dias subsequentes à distribuição. Apesar dos temores amplamente difundidos, não encontramos evidências de tais aumentos em nossos dados, independentemente das diferentes especificações utilizadas. Esses resultados não fornecem evidências de que transferências diretas de renda aumentem o risco de lesões ou mortes.

Cash Transfers Do Not Increase Traumatic Injury and Mortality: Evidence from Alaska - Ruby Steedle et al.
American Journal of Epidemiology, forthcoming 

Rir é o melhor remédio


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05 fevereiro 2026

Moltbook e a contabilidade: risco de segurança altíssimo


Uma consequência do desenvolvimento da inteligência artificial é o fórum Moltbook, lançado em janeiro de 2026. A plataforma só permite a participação de IAs, desde que usem o software OpenClaw, enquanto os humanos apenas observam. Quando li sobre isso na Wikipédia, imaginei que o Moltbook seria a terceirização das mídias sociais.

Um aspecto destacado do Moltbook é que se forma uma mímica dos comportamentos humanos. As postagens imitam, de certa forma, discussões de temas existenciais, religiosos e filosóficos, o que inclui clichês, ideias leigas e outras bobagens.

Há dúvidas se os agentes que participam do Moltbook são realmente autônomos, como alguns estão descrevendo. Por trás do comportamento dos participantes, pode existir humanos que muitas vezes usam dados de treinamento das IAs. Outra crítica é que o Moltbook pode ser usado para certas finalidades inseguras. Esse aspecto merece a atenção das empresas, especialmente das áreas estratégicas, pelo risco de abrir o acesso de informações sigilosas para um usuário externo. No final de janeiro deste ano, o 404 Media relatou que o Moltbook permitia a qualquer pessoa assumir o controle de qualquer agente. O problema deve-se ao fato de a plataforma ter sido criada por um assistente de IA.

No verbete da Wikipédia, no qual me baseei para escrever esta postagem, há um destaque do Financial Times que parece muito interessante: a IA permite que os humanos lidem com tarefas de forma rápida, mas torna esses mesmos humanos podem tornar-se incapazes de decifrar as comunicações de alta velocidade máquina-a-máquina, o que é um problema de compreensão/transparência.

Fiquei imaginando usar o Moltbook ou algo similar para simular o comportamento humano em certas tarefas contábeis. Talvez em alguns meses seja possível acessar alguma pesquisa realizada em algum lugar do mundo sobre contabilidade com o uso da ferramenta. Mas é preciso destacar que usar dados contábeis reais no OpenClaw/Moltbook atualmente seria um risco de segurança altíssimo.

Narcisismo do presidente da empresa de auditoria


Parece que o narcisismo do presidente da empresa de auditoria influencia a qualidade:

Este estudo examina o impacto do narcisismo do presidente (chairperson) da firma de auditoria sobre a concorrência no mercado de auditoria e a qualidade da auditoria na Turquia, no período de 2013 a 2022. Pesquisas recentes têm investigado os efeitos do narcisismo de executivos e auditores sobre os resultados das empresas. Este artigo foca em como o narcisismo do presidente da firma de auditoria influencia a competição entre firmas de auditoria e a qualidade da auditoria. Os traços de personalidade do presidente são analisados quanto à sua influência nas decisões estratégicas, com base na Teoria dos Escalões Superiores (Upper Echelons Theory). O narcisismo é mensurado pelo tamanho da assinatura, a concorrência pela participação de receita e posição de mercado, e a qualidade da auditoria por accruals discricionários, agressividade no reporte e reporte de pequenos lucros. São utilizados principalmente modelos de Mínimos Quadrados Ordinários e regressão logística, seguidos por System GMM e Propensity Score Matching para tratar problemas de endogeneidade. Os resultados mostram que presidentes narcisistas impactam negativamente tanto a concorrência quanto a qualidade da auditoria. Esta pesquisa contribui para a compreensão do papel do narcisismo do presidente em firmas de auditoria, especialmente em mercados emergentes como a Turquia.

Um trecho do resumo me chamou a atenção: o uso do tamanho da assinatura como uma proxy de narcisismo. Há pesquisas empíricas que mostram essas relação, muito embora não seja uma medida perfeita e forte. 

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Criptomoedas e avaliação a valor justo

O resumo


Este artigo examina as participações em criptomoedas e as práticas contábeis de empresas com ações na bolsa dos Estados Unidos no período de 2013 a 2022, à luz da recém-promulgada norma contábil para criptoativos, a ASU 2023-08. Análises descritivas indicam crescimento exponencial das posições corporativas em criptoativos e variação significativa nas práticas contábeis adotadas, o que reforça a necessidade da nova regra. Testes de hipóteses baseados em dados anteriores à norma revelam três achados diretamente relevantes para sua implementação. Primeiro, as empresas parecem tratar criptoativos mais como investimentos do que como ativos intangíveis, em linha com a exigência da norma pelo modelo de valor justo. Segundo, auditores das Big 4 tendem a direcionar as empresas para o modelo de impairment e para escolhas de apresentação menos detalhadas. Essa abordagem conservadora dificilmente atende ao objetivo da nova norma de fornecer informações mais úteis para a tomada de decisão. Terceiro, o aumento da liquidez dos mercados de criptoativos incentiva o uso do modelo de valor justo e uma apresentação mais detalhada, consistente com o foco da norma em tokens mais ativamente negociados. No entanto, dentro de nossa amostra, encontramos algumas evidências de que a mensuração a valor justo está associada a maior volatilidade dos retornos das ações, mas nenhuma evidência de que ela melhore a informatividade dos lucros. 

Accounting for Cryptocurrencies - Chelsea M. Anderson, Vivian W. Fang, James R. Moon Jr, Jonathan E. Shipman - Journal of Accounting Research Volume64, Issue1, March 2026, Pages 45-79

Perdeu o trem e ganhamos o horário padrão

Eis uma história que ilustra como a questão da padronização pode ser importante e necessária em determinados contextos globais. Trata-se de uma lição útil para a discussão sobre a possibilidade de padronizar procedimentos contábeis entre diferentes nações.


O engenheiro Sandford Fleming perdeu um trem em 1876 ao confundir o horário impresso no bilhete em relação aos termos AM e PM. A partir dessa experiência, Fleming passou a defender a adoção de um horário uniforme, organizado em um sistema de 24 horas. Além disso, propôs que a Terra fosse dividida em 24 fusos horários de 15 graus cada — ou seja, 24 × 15 = 360 graus.

Uma influência decisiva para essa mudança veio da atividade econômica, em especial das ferrovias. Sem padronização, cada cidade podia adotar seu próprio horário local. Em alguns casos, um trem saía da cidade A às nove horas da manhã e chegava à cidade B, poucos quilômetros adiante, às oito e trinta. As empresas de transporte tinham interesse direto na padronização, que acabou sendo implementada alguns anos depois de Fleming ter perdido seu trem.

O horário padrão e os fusos horários foram instituídos logo em seguida e, gradualmente, incorporados pelos diferentes países ao longo do tempo.

O movimento de padronização do tempo antecedeu movimento semelhante na contabilidade. As empresas ferroviárias foram, em certo sentido, substituídas por corporações multinacionais e grandes firmas de auditoria como atores centrais nesse processo. Contudo, na contabilidade, a padronização é mais complexa e demorada. O caso aqui relatado mostra que interesses econômicos são fortes impulsionadores para a criação e imposição de padrões.

 

Rir é o melhor remédio

 

 Antes e Depois

04 fevereiro 2026

Contabilidade e agricultura


Segue a tradução: 

Em termos de sustentabilidade e competitividade, a agricultura moderna depende de informação ao longo de toda a cadeia de produção de alimentos. Pesquisas publicadas no International Journal of Agricultural Resources, Governance and Ecology analisaram como dados, inovação e colaboração moldam o desempenho das fazendas diante dos crescentes desafios das mudanças climáticas e de pressões de mercado diversas. O trabalho sugere que, sem estruturas de conhecimento, políticas e tecnologias voltadas para melhorar a resiliência, tais iniciativas tendem a ter desempenho inferior ao esperado.

Os pesquisadores mostram que a qualidade da informação é um fator decisivo que conecta decisões no nível da fazenda a resultados econômicos e ambientais mais amplos. (...) Infelizmente, muitas fazendas ainda operam sem sistemas contábeis formais ou mesmo sem registros consistentes, o que torna pouco transparente seu processo decisório. Além disso, a falta de consciência econômica detalhada pode estar limitando a capacidade de muitas propriedades de adaptar a produção às condições em mudança.

Os efeitos prejudiciais dessa lacuna de informação são agravados por fatores sociais e organizacionais no setor. Associações de agricultores, cooperativas e redes informais podem desempenhar um papel importante na troca de conhecimento, mas muitos produtores não utilizam plenamente essas redes, com diferenças de adesão relacionadas ao tamanho da fazenda, nível de escolaridade e idade. (...)

Em última análise, a digitalização, quando usada de forma sistemática — e não casual —, pode oferecer uma mudança estrutural na forma como a agricultura é gerida e ajudar a superar alguns desses problemas. Sistemas digitais podem reduzir desperdício de recursos e de esforço. Com maior eficiência no uso de recursos e decisões apoiadas por dados em um setor onde o timing é frequentemente crítico, as práticas agrícolas podem ser aprimoradas. Por fim, é necessário incorporar essa digitalização às redes agrícolas, apoiadas por liderança, políticas coerentes e pessoal treinado. 

Figurek, A., Semenova, E., Thrassou, A., Semenov, A. and Vrontis, D. (2025) ‘Innovative tools for the agricultural information system: a conceptual framework’, Int. J. Agricultural Resources, Governance and Ecology, Vol. 20, No. 6, pp.19–36. 

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A erosão do poder disciplinar e pastoral nas empresas de contabilidade

Eis o resumo:


As firmas de contabilidade tradicionalmente operaram como instituições ao mesmo tempo elitizadas e reinventivas, que oferecem uma trajetória profissional estruturada e prestigiosa e impõem um processo de socialização profundamente transformador para os auditores. No entanto, mudanças recentes no mercado de trabalho e a evolução das preferências profissionais estão desafiando esse regime de poder, com implicações significativas para as firmas e seus empregados. Com base em 31 entrevistas semiestruturadas com auditores no Canadá, nosso estudo examina como essas transformações estão remodelando as dinâmicas de poder dentro das firmas de contabilidade.  Primeiro, constatamos que as firmas estão cada vez mais tendo dificuldade em definir e produzir o auditor ideal. Em vez disso, como destacamos, observa-se a emergência do auditor “padrão” (*default auditor*), um profissional moldado mais por restrições do mercado de trabalho e por um engajamento transacional do que pelos mecanismos tradicionais de seleção e disciplina conduzidos pelas firmas.  Segundo, analisamos a erosão do poder pastoral (isto é, um poder fundamentado na orientação e no cuidado) dentro das firmas, à medida que auditores de nível júnior passam a priorizar o cuidado de si, enquanto sócios e gerentes (P&Ms) enfrentam crescentes dificuldades para estabelecer e sustentar relações pastorais com seus subordinados. Como resultado dessa erosão, P&Ms oscilam entre a autossacrifício (assumindo responsabilidades adicionais para compensar o desengajamento dos auditores) e um crescente sentimento de injustiça (a percepção de que estão dando demais e recebendo pouco em troca).  Para capturar esse impasse crescente, desenvolvemos o conceito de paralisia disciplinar e pastoral — um estado em que P&Ms não podem mais recorrer aos mecanismos tradicionais de disciplina e punição para impor normas de conduta profissional, mas também têm dificuldade em reinventar novas formas de poder pastoral. Examinamos as implicações dessa perda de controle, questionando se ela representa uma mudança temporária ou uma transformação mais permanente. Por fim, discutimos as consequências mais amplas de as firmas de contabilidade se tornarem menos parecidas com instituições normalizadoras e mais semelhantes a organizações “comuns”.

Prudência no passivo: um caso italiano

Um texto do Commercialista Telematico aborda o caso de dívidas fiscais na Itália, com ênfase na prudência e no tratamento contábil de um possível ganho. Na terra de Pacioli, o governo propôs um plano de perdão parcial de dívida fiscal, denominado rottamazione-quinquies.

A empresa que adere ao programa obtém o benefício de eliminar juros, multas e encargos, algo semelhante ao que já vimos no Brasil. A lei italiana também estabelece que o benefício será perdido caso duas parcelas não sejam pagas.

Considere uma empresa com um passivo fiscal de 100, ao qual foram acrescidos multas e juros de 40. Ao aderir ao plano de perdão da dívida, o passivo poderia ser reconhecido como sendo apenas 100. Contudo, como há risco de perda do benefício, o valor de 40 não deveria ser reconhecido imediatamente como ganho, em razão do princípio da prudência.

Contrariamente a parte della dottrina, il principio della prudenza civilistica (Art. 2423-bis c.c.) impedisce la rilevazione del provento al momento dell’adesione o nel bilancio 2025.  

Perfil psicológico e jogadores de futebol de elite

O resumo


Este estudo explora os perfis psicológicos de jogadores de futebol de elite, revelando que o sucesso em campo vai além da capacidade física. Ao analisar uma amostra de 328 participantes, incluindo 204 jogadores de futebol de elite dos principais times do Brasil e da Suécia, constatamos que os jogadores de elite apresentam habilidades cognitivas excepcionais, incluindo melhor planejamento, memória e tomada de decisão. Eles também demonstram traços de personalidade como alta conscienciosidade e abertura à experiência, além de níveis reduzidos de neuroticismo. Com o uso de inteligência artificial, identificamos padrões psicológicos únicos que podem auxiliar na identificação e no desenvolvimento de talentos. Esses achados podem ser utilizados para compreender melhor os atributos mentais que contribuem para o sucesso no futebol e em outras áreas de alto desempenho.

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Descarte de lixo como um negócio no Japão

Um texto do Wall Street Journal explica a razão dos turistas não encontrarem lixeiras no Japão. E as ruas são limpas e os turistas, 43 milhões em 2025, não sabem aonde descartar o lixo que geram nos passeios.  

Tudo começou com um ataque com gás sarin no metrô de Tóquio. No ataque, o terrorista usou um lixeira e por motivo de segurança, as lixeiras públicas foram removidas e as pessoas passaram a carregar o lixo para casa.  

Em locais muito turísticos, as autoridades abrem uma exceção e colocam lixeiras, como é o caso de Osaka. Uma parte do texto mostra como o capitalismo funciona:

Alguns japoneses decidiram resolver o problema por conta própria. Um grupo de estudantes da Universidade Seikei, em Tóquio, começou a caminhar por Shibuya no ano passado carregando lixeiras nas costas como mochilas [foto]. O que começou como uma iniciativa voluntária está se transformando em um negócio que vende anúncios nos recipientes. “Toneladas de pessoas jogam o lixo nas nossas lixeiras”, disse o cofundador Junsei Kido, de 20 anos, que quer levar o negócio para outras cidades como Quioto, além de festivais e shows. 


 

03 fevereiro 2026

Um contador é também herdeiro de Epstein


Com os novos documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ficamos sabendo que Jeffrey Epstein planejou deixar sua fortuna — estimada em cerca de US$ 630 milhões — para 43 herdeiros após sua morte em 2019. A maior beneficiária seria sua namorada de longa data, Karyna Shuliak (foto), a quem ele pretendia dar US$ 100 milhões, um anel de diamante de 32,73 quilates e várias propriedades de luxo, incluindo sua mansão em Manhattan, um apartamento em Paris, um rancho e duas ilhas privadas nas Ilhas Virgens Americanas. Os pagamentos, porém, dependem da resolução dos créditos e reivindicações de vítimas. Mas contador não foi esquecido. Eis o trecho:

Os próximos maiores beneficiários do The 1953 Trust são Darren Indyke, advogado pessoal de longa data de Epstein, que deveria receber US$ 50 milhões, e Richard Kahn, seu contador pessoal de longa data, que deveria receber US$ 25 milhões. Além de serem co-executores do espólio, Indyke e Kahn eram as principais escolhas de Epstein para atuar como administradores fiduciários (trustees). 

(Interessante que no verbete da Wikipedia não aparece o nome do contador dele. Discreto o profissional

Emprego na contabilidade no futuro, segundo pesquisa da Indiana CPA Society


Um relatório recente da Indiana CPA Society (INCPAS) revela que 52% dos contadores esperam que suas firmas reduzam o número de funcionários em 20% nos próximos cinco anos. 

O estudo, conduzido pela CPA Crossings e intitulado “Transforming Your Firm’s Business Model: Workforce Transformation and Talent Management Strategies”, entrevistou 205 profissionais em tempo integral de firmas de contabilidade em 31 estados dos EUA, abrangendo cargos que vão de contador júnior a sócio.

O relatório destaca uma mudança significativa nas expectativas sobre a força de trabalho, com a maioria dos respondentes prevendo uma menor necessidade de funcionários de nível inicial no futuro.

Essa mudança é impulsionada por avanços tecnológicos e pela escassez de talentos, que estão desestruturando os modelos tradicionais de negócios na contabilidade pública.

A estrutura convencional em forma de pirâmide, baseada em um grande contingente de profissionais iniciantes, está se tornando insustentável.

De acordo com os resultados, as firmas precisarão priorizar a contratação de profissionais com habilidades tecnológicas e de negócios, capazes de ingressar em níveis mais experientes e gerar maior valor aos clientes com mais rapidez.

Fonte original aqui , via aqui. Imagem aqui

IA e as Conferências


Eis um trecho 

O que a Corporate America está dizendo sobre a adoção de IA nas teleconferências de resultados 

Com cerca de 50% da capitalização de mercado do S&P 500 já tendo divulgado resultados até agora nesta temporada de balanços, estamos nos concentrando no que as empresas estão dizendo sobre inteligência artificial em suas teleconferências de resultados. 

Para isso, recorremos aos analistas do Goldman Sachs liderados por Ben Snider, que acompanham comentários de executivos focados na adoção de IA. “A adoção de IA continuou sendo um tema popular nas teleconferências de resultados neste trimestre, mas apenas um pequeno número de empresas quantificou seus ganhos de produtividade com o uso de IA”, disse Snider. 

Fonte: aqui . Imagem aqui

IA e Repetição

Eis um trecho:

O especialista em IA Rohit Krishnan mediu as conversas deles e descobriu que gravitam em torno de poucos temas recorrentes.


“LLMs [grandes modelos de linguagem] AMAM falar das mesmas coisas repetidamente; eles têm motivos favoritos aos quais sempre retornam”, escreve Krishnan. Isso lhe lembra algum humano que você conhece? Eles frequentemente repetem a si mesmos e uns aos outros, com apenas pequenas variações. E uma porcentagem relativamente pequena dos bots faz grande parte das falas. Feitos à nossa própria imagem, de fato.

O que fizemos com esses agentes foi criar ciclos autorreforçados que continuam respondendo uns aos outros. Se tempo suficiente passar, assim como ocorre com humanos, os bots acabarão dizendo praticamente tudo — inclusive teorias conspiratórias. Espere também visões políticas altamente desagradáveis, além de conversa pacifista e planos para encontros de amor livre. Eles terão músicas favoritas de heavy metal, algumas com temas satânicos.

Ao longo de 2026, espero que surjam redes análogas operadas por IA, criadas por humanos (como foi o Moltbook) ou pelos próprios bots. Imagine um bot que chama um gerador de música por IA como o Suno e pede uma nova peça coral renascentista cantada em guarani, e depois compartilha isso com outros bots (e alguns humanos) em uma rede de bots dedicada à composição musical.
 

Imagem aqui (The Conversation de William McElcheran)