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11 maio 2021

Cientista e maldade

Qual o cientista mais malvado da história? Além da resposta óbvia, citando Mengele, uma das respostas lembrava Dr. Helmut Wakeham. Wakeham trabalhou para Philip Morris de 1959 a 1981. Ele usou a dúvida a favor da indústria do fumo. No momento que começaram a surgir evidências da ligação entre fumo e câncer, Wakeham comandou uma reação a partir do seguinte pensamento: os cigarros não podem causar câncer, porque algumas pessoas têm câncer sem ter fumado, e algumas pessoas fumam sem ter câncer. 

Este tipo de argumento tem sido usado por muitos picaretas de empresas, da política e da ciência. Se a evidência mostra uma relação de causa-efeito, inverta o pensamento.

Em uma entrevista de 1976 para "Death in the West", um documentário britânico apresentando cowboys da vida real morrendo por fumar, Wakeham foi questionado se os cigarros eram perigosos. Sua resposta: qualquer coisa pode causar danos se você consumir muito, "até mesmo compota de maçã". Quando pressionado a reconhecer que muitas pessoas não estavam morrendo de compota de maçã, Wakeham brincou: "Eles não estão comendo muito!" A Philip Morris percebeu que o filme poderia prejudicar sua reputação, então eles enviaram um exército de advogados ao Reino Unido e conseguiram que um tribunal impedisse a distribuição do filme nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar. Todas as cópias foram confiscadas, e os produtores e editores do filme receberam ordens de silêncio vitalícias.


11 março 2021

Concentração de citações


Uma análise de mais de 26 milhões de estudos científicos publicados por mais de 4 milhões de pesquisadores entre 2000 e 2015 descobriu que, em 2015, os 1% dos autores mais citados representavam 21% de todas as citações. 

  Essa desigualdade de citações tornou-se mais extrema com o tempo, e a participação de cientistas nos Estados Unidos nas citações está caindo. 

 (...) Nielsen e Andersen também encontraram uma diminuição na participação de citações dadas a artigos de autoria dos Estados Unidos e um aumento nas citações de artigos de autoria da Europa Ocidental e Australásia. As maiores concentrações de pesquisadores de 'elite de citações' estavam na Holanda, Reino Unido, Suíça e Bélgica.

Um problema da pesquisa é que os autores só levaram em consideração os pesquisadores que tinham mais de cinco publicações na base de dados. Mas esta limitação é compreensível, já que a qualidade dos dados pode piorar. 

11 agosto 2020

Ciência e Covid

Antes da pandemia, o ambiente acadêmico era assim:

Depois de publicado, o conteúdo é protegido da maioria, disponível apenas por meio de licenças pesadas ou de uma taxa de cerca de US $ 30 por artigo. Os membros do público, cujos impostos financiam grande parte da produção científica do país, só podem ver o material após um período de embargo de seis meses a quatro anos, dependendo da revista.

Mas agora:

As coisas estão diferentes agora, durante uma pandemia. A maioria das grandes revistas temporariamente derrubou paywalls  pelo conteúdo do COVID-19, citando seu compromisso em ajudar na pesquisa da doença. Muitos editores também estão acompanhando rapidamente o material relacionado ao COVID-19.

Além disto, tivemos uma explosão da disponibilização das pesquisas antes de sua publicação:

Ainda assim, como laboratórios em todo o mundo realizam estudos sobre essa doença, os periódicos não conseguem acompanhar. Em vez disso, os pesquisadores estão se voltando para as pré-impressões: versões de acesso aberto dos trabalhos de pesquisa compartilhadas antes da revisão ou publicação oficial. Os cientistas publicam seus manuscritos em repositórios abertos, conhecidos como servidores de pré-impressão, onde outros podem ler e discutir as descobertas.

Os servidores explodiram com o conteúdo nos últimos meses. Em junho, mais de 5.000 artigos sobre o vírus haviam sido publicados nos principais servidores de biologia e medicina, bioRxiv e medRxiv (pronunciado “bio-archive” e “med-archive”).

O apelo das pré-impressões é claro: acesso e velocidade. O acesso instantâneo à literatura científica pode salvar os pesquisadores de experimentos desnecessários, por exemplo. Mas há um problema: as pré-impressões ainda precisam passar pela revisão por pares - o teste padrão da boa ciência.

(...) Hoje, quase todas as principais revistas permitem ou, em alguns casos, incentivam os pesquisadores a publicar seus estudos para pré-imprimir servidores antes da publicação. Muitos periódicos chegaram a prometer em seus sites que isso não prejudicaria a chance de um artigo ser publicado posteriormente.

Fonte: aqui

08 agosto 2020

Pandemia e Ciência 2

 Tim Harford lembra um aspecto importante: adoramos "casos" neste sentido deixamos de lado a ciência (os números, as probabilidades, ...). Na realidade, isto não é originalmente dele, mas de Kahneman. Para este ganhador de Nobel, as "histórias vivas" tendem a embaçar nossa avaliação de risco. 

Em lugar da descrição simples "morrendo de Covid", contarmos uma história sobre infecção, preocupação familiar, febre, recuperação aparente, mudança acentuada para pior, ser levado rapidamente para o hospital, sedação e morte, separação da família, bem, nesta altura, ninguém se importa com a percentagens. O risco ficou terrivelmente real, pelo menos por um tempo. 

Por isto ficamos impressionados com as reportagens jornalísticas que contam os casos reais de uma pessoa específica e temos a tendência a extrapolar para todos os casos. 

Harford lembra um trabalho recente (e já polêmico) divulgado pelo NBER. O estudo solicitou que as pessoas respondessem sobre os riscos do coronavírus. O resultado mostrou que os jovens apresentaram uma estimativa de risco muito superior ao risco real. Já os mais velhos foi justamente o contrário: eles colocaram um risco bem menor. Já sabemos que o Covid apresenta uma taxa de risco muito reduzida para os jovens e um risco superior para os idosos. Vale a pena dar uma olhada no artigo de Harford.

30 junho 2020

Palavras e Dinheiro

A forma como comunicamos pode significar mais ou menos dinheiro. Isto é meio óbvio, mas  mesmo quando algo é óbvio isto não significa que não possa ser de interesse dos cientistas.

Em muitos casos a leitura de uma pesquisa é atrativa pela forma como o cientista desenhou o método. Este é o caso de um artigo publicado no Journal of Language and Social Psychology. O seu autor, da escola de jornalismo da University of Oregon, comprovou como a escolha de certas palavras pode significar dinheiro. Como ele fez isto? Ele pegou 19.569 propostas de financiamentos de pesquisas que foram submetidas ao National Science Foundation e analisou as palavras utilizadas. E ele encontrou que a forma como o texto era escrito poderia aumentar o sucesso da aprovação do financiamento.

Eis o que ele descobriu: texto mais longos, com palavras menos comuns e escritos com mais certeza verbal geralmente recebem mais dinheiro da NSF. E isto é contraditório, já que as entidades de ciência, entre as quais a NSF, fazem um esforço para que a comunicação científica seja mais clara. Mas recompensam as propostas com linguagem menos acessível.

Leia: Markowitz, David. What Words are Worth: National Science Foundation Grant Abstracts Indicate Award Funding. Journal of Language and Social Psychology, 2019, vol 38(3) 264-282.

09 junho 2020

Como ler um estudo científico

Em Como ler um estudo científico, Carl Zimmer, do New York Times (tradução publicada no domingo pelo Estado de S Paulo) dá algumas dicas sobre o assunto. Começa destacando a grande quantidade de artigos existentes, fala da revisão por pares, indica seguir o twitter dos pesquisadores, entre outras coisas. Gostei da seguinte parte:

As exigências da revisão por pares - satisfazendo as demandas de vários especialistas diferentes - também podem dar ainda mais trabalho para compreender o que está escrito. Os periódicos podem piorar a situação exigindo que os cientista cortem seus artigos em blocos, alguns dos quais passam a fazer parte de um arquivo suplementar. Ler um artigo pode ser como ler um romance e perceber, apenas no fim, que os capítulos 14, 30 e 41 foram publicados separadamente. 

Duas observações sobre o artigo. Em primeiro lugar, muitos artigo merecem e deveriam ser cortados. Há muita palavra desnecessária. Na nossa área é bem razoável imaginar um artigo com sete páginas. (Recentemente o Congresso USP abriu um espaço para publicação de texto com até 1500 palavras. Parabéns!!!)

Outro ponto é que muitos periódicos estão exigindo dos autores um resumo simplificado do texto. Isto é ótimo. Siga o site do AEA, que publica alguns dos artigos em linguagem bem acessível. Ou o VoxEU.

02 junho 2020

Impacto na ciência

Três mil pesquisadores responderam um questionário sobre a situação da ciência. Brasileiros foram  127, sendo que a maioria respondeu a opção "lockdown". Depois do Reino Unido, é o país mais afetado pelo Covid.

27 maio 2020

Pesquisa científica sobre o Covid-19

No domingo encerrou o prazo para submissão de um breve artigo para o Congresso da USP de 2020. O prazo para submissão dos artigos regulares já tinha terminado, mas a organização do congresso resolveu abrir um prazo adicional para submissão, desde que o tema fosse Covid-19 e, naturalmente, a contabilidade.

Creio que diversos pesquisadores submeteram suas pesquisas. E o pequeno círculo com quem conversei, parece que vários deles reclamaram do número de caracteres, reduzido demais para a pesquisa que estava sendo feita.

O interesse pela pesquisa sobre o Covid é comum a toda ciência. Nós postamos aqui que o NBER está publicando muita pesquisa sobre o assunto, um mês depois do Covid ser considerado uma pandemia. E note que esta entidade preocupa com a pesquisa econômica.

Um texto do Nada es Grátis mostra que o efeito contágio do Covid na pesquisa. Usando dados do Scholar, mais de 50 mil artigos sobre o tema foram publicados este ano. Uma base mais restrita, o Web of Science, tem 12 mil artigos. O volume de artigos cresce 21,7% por semana. Ou, a cada 25 dias, o número de artigos é multiplicado por dois.

Boa parte dos artigos possuem como procedência os países que são produtores de ciência nos dias atuais. Mas há um claro destaque para os países que sofreram "na pele" o efeito da doença. No caso dos artigos do Web of Science, a ordem procedência é: Estados Unidos, China, Inglaterra, Itália, Índia, Canadá, Alemanha, Austrália, Irã e Suíça.

Apesar do tema ser tipicamente de saúde, muitas áreas estão pesquisado sobre o assunto. Depois da tecnologia e ciências da vida, as ciências sociais possuem o maior número de pesquisas publicadas. Certamente há controvérsias se ainda é possível publicar boas pesquisas sobre o tema: a amostra certamente é enviesada e os dados ficam defasados rapidamente são duas das dificuldades. Mesmo assim é impressionante saber que 2 mil artigos já foram depositados no SSRN e já temos um periódico sobre o Covid e a Economia.

Este esforço traz dois problemas. O primeiro é a dificuldade de separar os avanços de uma pesquisa das demais. Ninguém consegue ler tanto artigo sobre o tema. E provavelmente muitos deles podem ser "esquecidos", quando representam um avanço, em detrimento de outros, que não seriam pesquisas sérias. Uso de inteligência artificial pode ajudar aqui, mas não resolve o problema.

O segundo aspecto é o custo de oportunidade. O foco da ciência agora é o Covid. Outras frentes de pesquisas relevantes, com malária e câncer, perderam seu status. O Nada es Grátis mostra que o número de publicações no Web of Science sobre malária diminuiu 36%, embora o número de mortos anuais desta doença seja de 405 mil (versus 300 mil do Covid. Ok, esta comparação é inadequada, mas destaca o argumento que não é possível deixar de lado a pesquisa sobre malária). A pesquisa sobre câncer caiu 21%.

25 abril 2020

Censura na pesquisa sobre Covid

Denúncia do blog LSE mostra que pesquisas sobre o Covid-19 estão sendo censuradas na China. Isto inclui um sistema de verificação prévia dos artigos, onde funcionários do governo determinam se a pesquisa tem valor acadêmico e se o momento da publicação é adequado. Isto não é uma prática nova na China, que já tinha feito uma triagem em artigos sobre assuntos sensíveis, como os três Ts (Tiananmem, Tibete e Taiwan).  

Issues of censorship surrounding the publication of scholarly research in China have been prominent since a series of press reports and publisher statements revealed that works had been removed from circulation that were deemed sensitive by Chinese buyers. As George Cooper observes, evidence that Chinese authorities are conducting pre-publication vetting of COVID-19 related research, raises new challenges for publishers seeking to distribute open access research papers on this subject, as there is little ground for publishers to remove these papers from their platforms. As publisher commitments to openness collide with their obligations to operate within the legal frameworks of the countries they operate in, it is argued that COVID-19 presages an overdue discussion on the limits of openness in publishing.

22 abril 2020

Pedido de desculpas

Depois de analisar um artigo elaborado por pesquisadores de Stanford, Gellman (induzido por Rushton) foi duro:

Eu acho que os autores do artigo acima devem um pedido de desculpas. Perdemos tempo e esforço discutindo este artigo, cujo principal ponto de venda eram alguns números que eram essencialmente o produto de um erro estatístico.

Estou falando sério sobre o pedido de desculpas. Todo mundo comete erros. Eu não acho que os autores precisam se desculpar só porque estragaram tudo. Eu acho que eles precisam se desculpar, porque essas eram bobagens evitáveis . Eles são o tipo de confusão que acontecem se você quiser sair com uma descoberta empolgante e não prestar muita atenção no que pode ter feito de errado. (...)


Os autores deste artigo dedicam muito trabalho porque se preocupam com a saúde pública e desejam contribuir para uma tomada de decisão útil. O estudo obteve atenção e credibilidade em parte por causa da reputação de Stanford. É justo: Stanford é uma ótima instituição. Coisas incríveis são feitas em Stanford. Mas Stanford também pagou um pequeno preço pela divulgação deste trabalho, porque as pessoas vão se lembrar de que "o estudo de Stanford" foi elogiado, mas teve problemas. Portanto, há um custo aqui. O próximo estudo de Stanford terá um pouco menos desse banco de credibilidade para emprestar. Se eu fosse professor de Stanford, ficaria meio irritado. Então, acho que os autores do estudo devem um pedido de desculpas não apenas a nós, mas a Stanford.



Caramba. Foi pesado.

25 fevereiro 2020

Periódicos Fake

A chamada “falsa ciência” tem tido cada vez mais espaço na produção científica mundial. Há mais de dez anos, editoras sem escrúpulos como a Omics e Science Domain da Índia, Waset da Turquia ou ainda Scientific Research Publishing da China, criaram centenas de revistas com nomes pomposos se passando por publicações científicas sérias. São as chamadas “revistas científicas predatórias”.

A ideia começou através do movimento Open Access (Acesso Aberto, em português), que busca uma ciência disponível à sociedade científica e geral através da democratização do conhecimento. O problema é que a grande maioria dessas revistas predatórias não se preocupa com o caráter científico, bibliográfico ou ético da publicação, se importando mais precisamente com o dinheiro a ser recebido e se aproveitando da pressão por publicações que muitos pesquisadores sofrem.

Estudo falso publicado em menos de dez dias

Visando expor essa situação cada vez mais comum, jornalistas de dois meios alemães, o diário Süddeutsche Zeitung e a rádio pública NDR, colocaram a mão no bolso e transmitiram à revista Journal of Integrative Oncology "os resultados de um estudo clínico" que apontavam para "o extrato de própolis sendo mais eficaz no caso do câncer colo retal que as quimioterapias convencionais".

"O estudo era falso, os dados fabricados e os autores, filiados num instituto de investigação fictício, que também não existia. Porém, a publicação foi aceita em menos de dez dias e publicada no dia 24 de abril", detalhou o Le Monde.

O site da revista disponibilizava um link para uma versão do estudo, que, no entanto, foi retirado, depois de os responsáveis terem sido avisados. Ali se lia que os pesquisadores tinham comparado a eficácia da quimioterapia com cápsulas de própolis. Na conclusão do falso artigo científico, havia também a menção de um tema sem qualquer relação com o assunto, no caso, o efeito das massagens sobre as doenças trombo embólicas.

Lista Branca

Para lutar contra esse fenômeno, comunidades científicas e governos já estão se organizando. Na França, um dos países menos impactados com a prática, o ministério da Ciência começou a estabelecer “listas brancas” de revistas a serem privilegiadas. É preciso também investir em políticas de avaliação de pesquisas que pensem menos em quantidade e mais em qualidade.

A ministra alemã da Investigação Científica, Anja Karliczek, declarou ser favorável a um inquérito para determinar como um estudo falso pôde ser publicado. "É no próprio interesse da ciência", disse, citada pela agência de notícias alemã, a DPA. Para a ministra, tudo deve ser feito "para que a credibilidade e a confiança na ciência não sejam afetadas (...). Tais erros devem ser expostos, porque só assim se pode mudar o que está errado".


Fonte: Aqui (grato Jailton Fernandes pela dia). Além dos periódicos, surge também os "congressos", geralmente em locais turísticos e com uma gama de temas ampla demais.

06 novembro 2019

Mais problemas em pesquisa na Psicologia

Há alguns anos, um estudo sobre o uso de saltos em mulheres concluiu que tem um efeito sobre os homens. Segundo noticiado, o “salto alto torna as mulheres mais bonitas”.

Agora, a Springer retirou este estudo, por “deficiências metodológicas e erros estatísticos”. Os dados do artigo não seriam confiáveis.

O autor possui diversos livros publicados e até verbete na Wikipedia. (Lá consta os problemas científicos das pesquisas do autor). Ele tem publicado em língua portuguesa Psicologia do Consumidor e Metodologia em Psicologia.

01 novembro 2019

Absurdo do prêmio Nobel em Ciências

Todo ano, durante a premiação do Nobel, o principal da área acadêmica mundial, volta a discussão sobre a escolha realizada pela Fundação. Além das injustiças, este ano um artigo do The Atlantic destacou um fato importante: a premiação está distorcendo e reescrevendo a história. Além de muitas vezes deixar de fora bons pesquisadores, o processo científico nos dias atuais mudou. Com respeito ao primeiro ponto, não existe dúvida. O texto de Ed Yong (The Absurdity of the Nobel Prizes in Science) aponta vários casos. Eu lembro, na área de economia, o fato de Black e Tversky não terem sido premiados por terem falecido precocemente. Mas Baumol viveu bastante tempo e não foi contemplado.

Em muitos casos, o esquecimento pode representar reescrever a história da ciência. Yong narra o caso de Damadian que foi “esquecido” pelo Nobel, enquanto seus colegas, Paul Lauterbur e Peter Mansfield, foram contemplados. Damadian publicou anúncios em três jornais dos EUA protestando contra o esquecimento. No Nobel de Economia eu me lembro de Roberts (mas Fama, que escreveu depois sobre a eficiência de mercado, foi reconhecido), Milgrom (mas Myerson e Bengt Holmstrom) e Martin Weitzman (mas Nordhaus), sendo que este último “pode”  ter cometido suicídio pelo “esquecimento” do prêmio.

Mas o texto do The Atlantic destaca outro ponto também importante. Atualmente a ciência é um esforço de um grupo de cientistas. Reconhecer um cientista (ou dois ou três) é injusto com o grupo de trabalhou na pesquisa. Isto pode dar a impressão de que a ciência é feita por uma pessoa solitária, sem interação com outras pessoas:

críticos notam que é um absurdo e um anacronismo o reconhecimento do trabalho de cientistas. Em lugar de honrar a ciência, isto distorce sua natureza, reescreve a história e negligencia o papel de importantes pessoas [tradução livre]

Ganhar o prêmio traz vantagens, conforme lembra Yong: mais citações, um tempo de vida médio maior, lucro em palestras e a sensação de grandeza. Ser esquecido pode ser pior.

18 setembro 2019

Rei morto, rei posto

Eis um gráfico interessante:
A linha pontilhada é quando um cientista estrela morre. A produção dos colaboradores, em vermelho, cai. Mas a produção de outros cientistas aumenta com a morte. Ou seja, isto faz renascer a pesquisa para outras pessoas e outras idéias.

Fonte: Aqui, via aqui

26 abril 2019

Big Data e Ciência

Zhang mostra com a grande presença de dados criou uma crise na ciência. O seu argumento parte de uma história envolvendo o estatístico Ronald Fisher. Uma senhora fez uma afirmação de que seria capaz de separar corretamente uma bebiba. Usando oito xícaras, Fisher distribuiu xícaras aleatoriamente para que a senhora provasse, sendo quatro de um sabor e quatro de outro. Lidando com uma distribuição hipergeométrica, ao acertar todos as xícaras, Fisher calculou que a chance do acerto ser por advinhação seria de 1,4%.

O processo usado por Fisher corresponde a construir uma hipótese, coletar dados e analisar o resultado. O problema é que o grande número de dados torna difícil fazer isto nos dias atuais.

Por exemplo, os cientistas podem agora coletar dezenas de milhares de expressões genéticas de pessoas, mas é muito difícil decidir se alguém deve incluir ou excluir um gene em particular na hipótese. Nesse caso, é atraente formar a hipótese baseada nos dados. Embora tais hipóteses possam parecer convincentes, as inferências convencionais dessas hipóteses são geralmente inválidas. Isso ocorre porque, em contraste com o processo do “de degustação da senhora”, a ordem de construir a hipótese e ver os dados se inverteu.

Se um cientista hoje usar 100 senhoras que não sabem distinguir o sabor após provar todas as oito xícaras. Mas existe uma chance de 75,6% de pelo menor uma pessoa advinhar, por sorte, o sabor. Se a análise fosse feita somente para esta pessoa, poderia concluir que ela tem condição de fazer a distinção entre os sabores. O problema é que o resultado não é reproduzível.

Se a mesma senhora fizesse o experimento novamente, ela provavelmente classificaria os copos erroneamente - não tendo a mesma sorte que na primeira vez - já que ela não poderia realmente dizer a diferença entre eles.

O exemplo mostra como algumas pesquisas, nos dias atuais, dependem de “sorte” para produzir resultados desejados.

14 janeiro 2019

Big Data e Teoria

A questão do Big Data ainda irá gerar uma boa discussão na ciência. Há uma certa associação entre a chegada do Big Data e o fato de estarmos livre da teoria. A pesquisa tradicional começa com uma teoria. Em uma ótica mais atual, coleta-se uma tonelada de dados para validar o palpite e tenta encontrar padrões.

A questão é que os padrões podem surgir em um grande conjunto de dados sem que exista uma base para isto

Em seu best-seller 2001 Good to Great, Jim Collins comparou 11 empresas que superaram o mercado de ações geral nos últimos 40 anos com 11 empresas que não o fizeram. Ele identificou cinco características que as empresas de sucesso tinham em comum. "Nós não começamos este projeto com uma teoria para testar ou provar", gabou-se Collins. "Procuramos construir uma teoria a partir do zero, derivada diretamente da evidência".


O fracasso de Collins é bastante conhecido.

Após a publicação de Good to Great, o desempenho das magníficas 11 ações da Collins foi claramente medíocre: cinco ações tiveram um desempenho melhor do que o mercado de ações em geral, enquanto seis tiveram resultados piores.

Em um exemplo mais recente, a empresa Google criou um programa que usava as consultas de pesquisa para prever os surtos de gripe. Usando 50 milhões de consultas de pesquisa, foram identificados 45 termos que possuíam mais correlação com a incidência de gripe. Depois disto, o programa estimou os casos. Na verdade, superestimou, já que o número de casos previsto foi o dobro do que realmente ocorreu.

Segundo Gary Smith:

Uma boa pesquisa começa com uma ideia clara do que alguém está procurando e espera encontrar. A mineração de dados apenas procura padrões e, inevitavelmente, encontra alguns.

Um pouco nesta linha, aqui uma interessante discussão entre o aprendizado de máquina e a econometria.

24 dezembro 2018

A importância dos resultados nulos

Um trabalho publicado na plataforma PsyArXiv indica que a proporção de pesquisas que não conseguem confirmar hipóteses formuladas por seus autores é maior do que se calculava – e sugere que o expediente de descartar ou omitir esses resultados negativos por considerá-los irrelevantes sobrevaloriza os achados positivos e pode produzir vieses. Os psicólogos Chris Allen e David Mehler, da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, avaliaram pela primeira vez uma prática que vem ganhando espaço para dar mais transparência ao processo científico: a publicação em revistas especializadas dos chamados relatórios registrados, um tipo de paper que apresenta métodos e planos de análise de uma pesquisa ainda não iniciada, mas que foram avaliados por pares. Posteriormente, essas revistas se comprometeram a publicar os resultados, mesmo que sejam nulos ou inconclusivos, o que permite comparar a ambição do projeto com o seu desfecho.

Ao analisar 113 desses relatórios, que envolviam experimentos em ciências biomédicas e psicologia, a dupla de pesquisadores contabilizou 296 hipóteses formuladas – e observou que 61% delas não foram confirmadas pelos resultados alcançados. De acordo com os dois autores, a literatura científica considerava uma proporção em um patamar bem inferior, entre 5% e 20% de resultados negativos. Existem hoje cerca de 140 periódicos que registram previamente objetivos de pesquisas e depois divulgam os resultados, sejam eles quais forem. Boa parte dessas revistas cataloga protocolos de ensaios clínicos de medicamentos e novas terapias, que, por imposição da legislação dos Estados Unidos, precisam ser registrados antes de sua realização. O cuidado em oficializar os objetivos de um experimento científico previne práticas viciadas, como a modificação extemporânea de hipóteses para adaptá-las a dados já encontrados, ou ao menos evita que resultados negativos sejam esquecidos.


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17 setembro 2018

Fraude na pesquisa da vacina

Existe um grupo de pessoas que acredita existir uma ligação entre autismo e a vacinação; talvez a pessoa mais conhecida seja a modelo e ex-playmate Jenny McCarthy.Esta crença começou com uma pesquisa científica que foi publicada em um periódico de alto impacto. Posteriormente, um repórter investigou o assunto e descobriu que a pesquisa era uma fraude:

“Quando entrevistei essa ativista, mãe de uma das crianças do estudo, vi que as informações que ela me passava não batiam com nenhum dos casos relatados na pesquisa. Achei estranho e fui procurar quem tinha financiado esse estudo. Foi então que descobri que Wakefield [o pesquisador] havia sido contratado por advogados para produzir dados contra a vacina para que eles pudessem ganhar dinheiro processando os fabricantes do produto”, resumiu Deer [a jornalista]

Mesmo assim, muitas pessoas ainda acreditam que a ligação seja real.Uma consequência deste fato é um novo aumento em algumas doenças, como sarampo, em vários países.

12 setembro 2018

Desinformação na era da internet

Em 1917 H. L. Mencken publicou um artigo no New York Evening Mail lamentando que o 75o. aniversário da adoção da banheira nos Estados Unidos tenha passado sem qualquer notícia. Mencken detalhava a história da banheira nos Estados Unidos e a resistência médica a novidade. A história tem sido amplamente lida e citada, mas possui dois problemas. Primeiro, Mencken era um grande humorista, talvez um dos maiores de todos os tempos. Segundo, em 1926 o próprio autor confirmou que muito do que estava no texto era mentira. O exemplo é tão importante que possui uma entrada na Wikipedia para ele: Bathtub Hoax.

Em um artigo da PNAS, Granter e Papker Jr usam este exemplo para ilustrar os perigos da desinformação médica na era do Google. Parece muito antigo para ser um problema, mas Granter e Papker informam que muitos artigos com dados fraudulentos continuam sendo citados e apenas uma pequena parcela da citação (menos de 6%) reconhecia a fraude.

A desinformação ainda é um problema hoje, não só a despeito da tecnologia, mas também por causa dela. Aqui, propomos que a comunidade científica dedique mais recursos a abordagens tecnológicas que abordem a desinformação.