Confesso que aguardava ansioso o documentário desde que surgiram os primeiros boatos de seu lançamento. Com uma hora e meia de duração, o filme mostra a trajetória da maior jogadora de xadrez de todos os tempos: Judith Polgar. Nascida nos anos setenta, filha mais nova de uma família relativamente pobre da Hungria comunista da Guerra Fria, seus pais decidiram educar as filhas em casa, com foco no jogo de xadrez.
A primeira parte do documentário conta a educação da família Polgar. Logo depois, o filme mostra as Olimpíadas de Xadrez na Grécia. Até então, todos os jogos no feminino haviam sido vencidos pelas soviéticas. A equipe da Hungria era composta pelas três irmãs Polgar e Ildikó Mádl. Mádl tinha 19 anos, e as irmãs, 19, 14 e 12 anos. Judit era o tabuleiro 2 e, em 13 partidas, venceu 12 e empatou uma, com absurdos 96% de aproveitamento. No final, sua equipe venceu as Olimpíadas por meio ponto de vantagem, quebrando a hegemonia soviética.
A terceira parte aborda o campeonato nacional na versão aberta, ou seja, competindo com alguns dos melhores enxadristas da Hungria. Na rodada final, Judit obteria o título de Grande Mestre Internacional se empatasse o jogo — mas não ganharia o título do torneio. Coerente com seu estilo, tentou a vitória, correndo o risco de perder tudo. E venceu, tornando-se então a jogadora a obter o título de Grande Mestre, batendo o recorde de Bobby Fischer, que anos antes afirmara que nunca tinha visto uma mulher jogar bem xadrez.
A quarta parte foca no Torneio de Linares, de 1994, em que Judit, com 17 anos, enfrenta Kasparov na primeira rodada. O campeão russo, então o mais forte jogador da história, estava em vantagem, mas fez um lance ruim que lhe custaria uma peça. Em questão de segundos, depois de soltar sua peça, ele voltou atrás e fez outra jogada. Há uma regra básica no xadrez segundo a qual não é possível voltar em um lance já realizado. Mas Kasparov fez isso, e a cena foi filmada. Judit não reclamou: terminou perdendo a partida, mas saiu engrandecida como competidora.
E assim o documentário prossegue, contando boas histórias. Há dois problemas: ele teve muito mais conquistas do que os 90 minutos de filme conseguem mostrar, pois se preocupa em focar no duelo entre Polgar e Kasparov; e, implicitamente, há uma condenação do “experimento” da família com as três irmãs, algo que não aparece nas palavras das próprias meninas.
Judit nunca foi campeã mundial feminina de xadrez — título que sua irmã mais velha, Sofia, conquistou. Ela queria jogar com os mais fortes, que em sua época eram os grandes jogadores masculinos. Depois de Judit, a chinesa Hou Yifan, hoje com 31 anos, chegou aos 2687 pontos de rating, ainda bem abaixo do ponto mais alto da carreira da rainha do xadrez.
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