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06 fevereiro 2026

Poder da palavra

Uma mesma ação pode ser vista de forma diferente conforme as palavras usadas para descrevê-las. Parece bem atual, mas descubro agora que no início do século XIX essa noção já existia.  

Eis o texto: 

Em 1817, o filósofo Jeremy Bentham criou uma tabela mostrando como o mesmo impulso humano poderia ser descrito de maneiras radicalmente diferentes dependendo da perspectiva adotada. Em uma coluna, ele escrevia “gula” — dura e condenatória. Na coluna seguinte, “amor pelos prazeres da mesa social” — de repente soa bastante civilizado, não é?


Bertrand Russell, ao comentar isso em 1929, observou como “espírito público” na coluna do elogio se alinhava com “maldade” na coluna da censura. O mesmo comportamento, interpretado de formas completamente distintas dependendo de quem o pratica ou o observa.

O conselho de Russell? “Recomendo a qualquer pessoa que deseje pensar com clareza sobre qualquer questão ética que imite Bentham nesse aspecto e, depois de se acostumar com o fato de que quase toda palavra que expressa censura tem um sinônimo que expressa elogio, desenvolva o hábito de usar palavras que não transmitam nem elogio nem condenação.”

Bentham entendia que a linguagem molda a realidade de maneiras sutis. Como ele colocou: “Por hábito, sempre que um homem vê um nome, é levado a imaginar um objeto correspondente, cuja realidade ele aceita, por assim dizer, como se o próprio nome funcionasse como um certificado.”

Essa percepção de dois séculos atrás parece dolorosamente atual. Todo argumento político, todo debate nas redes sociais, toda discussão em um jantar de família frequentemente se resume às mesmas ações, apenas vestidas com diferentes roupagens linguísticas.

Imagem aqui 

A Contabilidade? Também funciona. Fale em redução ao valor recuperável parece algo corriqueiro, mas perda pelo valor do valor contábil estar a menor que o valor de uso tem uma conotação mais negativa. Bancos conta credora é algo razoável, mas saldo negativo na conta bancária parece mais crítico. Relatório de auditoria com ressalva tem uma conotação mais corriqueira e positiva do que relatório  de auditoria sem aprovação integral dos valores. 

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