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19 janeiro 2026

IA e comércio


Duas notícias que revelam como dois gigantes da tecnologia desejam monetizar seus produtos. A primeira é que o Google oficializou sua entrada definitiva no comércio transacional digital com o lançamento do Universal Commerce Protocol (UCP), um protocolo que transforma motores de busca em interfaces capazes de executar compras com o auxílio de agentes de inteligência artificial. Isso marca o fim da era das palavras-chave e o começo da “intermediação por agentes de IA”, em que a tecnologia reduz a fricção entre intenção e posse, permitindo que a IA não apenas sugira, mas execute transações de forma segura e personalizada. Com isso, o Google consolida seu papel como infraestrutura central do consumo global, expandindo sua influência para além da publicidade e das buscas. 


Já a OpenAI está lançando um sistema de anúncios contextuais no ChatGPT, integrando publicidade diretamente nas interações do usuário com o modelo. Diferente de anúncios tradicionais com base em dados pessoais, o novo sistema prioriza contexto da conversa e intenção explícita, exibindo anúncios relevantes sem depender de rastreamento extensivo fora da plataforma. Isso deve permitir que empresas promovam produtos e serviços de forma mais alinhada às necessidades do usuário no momento em que ele faz perguntas ou solicita recomendações, criando uma experiência menos intrusiva. 

Em breve,  IA premium, sem uso de dados pessoais para fins comerciais? 

18 janeiro 2026

Auditoria de IA de fronteira


Eis o resumo

A IA de fronteira está se tornando uma infraestrutura social crítica, mas agentes externos carecem de meios confiáveis para avaliar se as alegações de segurança e proteção feitas pelos principais desenvolvedores são precisas e se suas práticas atendem aos padrões relevantes. Em comparação com outros sistemas sociais e tecnológicos dos quais dependemos diariamente — como produtos de consumo, demonstrações financeiras corporativas e cadeias de suprimento de alimentos — a IA está sujeita a um grau menor de escrutínio independente em várias dimensões. A ambiguidade quanto à confiabilidade dos sistemas de IA pode desestimular sua adoção em contextos nos quais a tecnologia seria benéfica e, ao mesmo tempo, torná-la mais provável em situações em que é perigosa. A transparência pública, por si só, não é suficiente para preencher essa lacuna: muitos detalhes relevantes para segurança e proteção são legitimamente confidenciais e exigem interpretação especializada. Definimos a auditoria de IA de fronteira como a verificação rigorosa, por terceiros, das alegações de segurança e proteção feitas por desenvolvedores de IA de fronteira, bem como a avaliação de seus sistemas e práticas em relação a padrões pertinentes, com base em acesso profundo e seguro a informações não públicas. Para tornar o rigor inteligível e comparável, introduzimos os Níveis de Garantia em IA (AI Assurance Levels – AAL-1 a AAL-4), que variam de auditorias de sistemas com duração limitada no tempo até processos contínuos de verificação resistentes a enganos. 

17 janeiro 2026

Anthropic Economic Index

Sendo coerente, o resumo foi feito por uma IA, no caso o GPT:

O mais recente relatório do Anthropic Economic Index apresenta uma nova forma de analisar o impacto econômico da inteligência artificial ao introduzir medidas básicas chamadas “economic primitives”. Essas métricas capturam cinco dimensões fundamentais de uso da IA: complexidade das tarefas, habilidades humanas e de IA envolvidas, propósito do uso (trabalho, educação, pessoal), nível de autonomia concedido à IA, e sucesso da tarefa concluída. Os dados são derivados de milhões de interações reais com o modelo Claude, oferecendo uma visão detalhada de como diferentes tipos de conversas refletem efeitos econômicos potenciais. O relatório revisita padrões de uso observados em edições anteriores, destacando que o uso de IA permanece concentrado em certas tarefas, especialmente programação, e que a adoção global ainda é desigual. Ao fornecer estes primitives e os conjuntos de dados correspondentes, a Anthropic cria uma base mais rica para pesquisadores explorarem como a IA está sendo incorporada na economia e como isso pode moldar produtividade e mercados ao longo do tempo. 

Mas veja que a IA não mostra a melhor parte do texto. Destaco o seguinte trecho:

O uso do Claude se diversifica com maior adoção e renda
Embora o uso mais comum do Claude seja para trabalho, o uso em atividades educacionais é mais elevado em países com menor PIB per capita [1], enquanto países mais ricos apresentam as maiores taxas de uso pessoal. Isso é consistente com uma narrativa simples de curva de adoção: em países menos desenvolvidos, os primeiros adotantes tendem a ser usuários técnicos, com aplicações específicas de alto valor, ou utilizam o Claude para educação; já em mercados mais maduros, o uso se diversifica para finalidades mais casuais e pessoais.

Claude tem bom desempenho na maioria das tarefas, mas menos nas mais complexas
Constatamos que o Claude, em geral, é bem-sucedido nas tarefas que recebe, e que o nível educacional de suas respostas tende a corresponder ao nível do input do usuário. No entanto, o Claude enfrenta dificuldades em tarefas mais complexas: à medida que aumenta o tempo que um humano levaria para realizá-las, a taxa de sucesso do Claude diminui [2], de forma semelhante aos principais testes que medem as tarefas mais longas que IAs conseguem executar de maneira confiável.

A exposição das ocupações à IA muda quando se consideram as taxas de sucesso
Também utilizamos a métrica de taxa de sucesso para compreender melhor a exposição das ocupações à IA, calculando a parcela de cada ocupação que o Claude consegue desempenhar ao ponderar a cobertura das tarefas tanto pelas taxas de sucesso quanto pela importância de cada tarefa dentro do trabalho. Em algumas ocupações, como digitadores de dados e arquitetos de banco de dados, o Claude demonstra proficiência em grandes porções das atividades.

Claude é usado em tarefas de maior qualificação do que as da economia em geral
As tarefas observadas no uso do Claude tendem a exigir mais educação do que aquelas predominantes na economia como um todo. Se assumirmos que tarefas assistidas por IA passam a representar uma parcela menor das responsabilidades dos trabalhadores [3], sua remoção deixaria para trás atividades menos qualificadas. Contudo, esse deslocamento simples de tarefas não afeta os trabalhadores de escritório de maneira uniforme: em algumas ocupações, elimina as tarefas mais intensivas em habilidades; em outras, as menos qualificadas.

 [1] É interessante isso e motivo de preocupação dos educadores brasileiros. 

[2] Parece razoável e isso mostra um limite da IA 

[3] Em um dos trechos do relatório, a empresa destaca que o Brasil usa muito a IA em situações de trabalho, conforme o gráfico a seguir


 

Experimento, Irã e Contabilidade

Uma dos métodos científicos importantes na ciência moderna é o chamado experimento natural. Algo ocorreu no mundo exterior e os pesquisadores estudam o impacto do fato sobre algum aspecto. 

Um texto da Exame  me levou a pensar em uma interessante pesquisa na nossa área. O governo do Irã, diante dos protestos que está ocorrendo por lá, desligaram os serviços de internet e telefonia. A medida visa bloquear a rede, que estava sendo usada para troca de informações e organização dos protestos. 

Pense em um contador do Irã que tem o seu trabalho limitado pela ausência da rede de comunicação. Temos aqui pesquisas interessantes sobre o impacto da falta de meios sobre o trabalho do profissional.  

Recentemente postamos sobre a questão do Irã e a Contabilidade pública. Leia aqui

Microplástico: talvez uma boa notícia


Nos últimos meses, surgiram diversas pesquisas sobre a presença de microplásticos no corpo humano, incluindo na corrente sanguínea, em órgãos e no cérebro. Essas partículas também vêm sendo identificadas em regiões remotas do planeta, o que tem contribuído para um certo alarmismo.

Esse clima de preocupação vem sendo questionado por outras pesquisas, que lançam dúvidas sobre os métodos adotados em alguns desses artigos. Um exemplo é um estudo publicado em fevereiro de 2025, que apontava a presença de plásticos a partir de autópsias de cadáveres de pessoas falecidas entre 1997 e 2024. Em novembro, porém, o trabalho foi contestado devido a limitações nos controles de contaminação e à ausência de etapas adequadas de validação.

Um pesquisador da Alemanha chegou a estimar que mais da metade dos artigos publicados sobre o tema é questionável. A medição desse material em tecidos humanos pode gerar resultados semelhantes aos produzidos por gorduras naturalmente presentes no corpo. Isso significa que não há garantia de que o microplástico esteja, de fato, presente nos tecidos analisados. Esse é apenas um dos problemas apontados, mas há outros aspectos metodológicos relevantes nas críticas que começam a emergir agora.

Isso não é uma falha ou fruto de uma teoria da conspiração ou de uma corrente ideológica, mas um embate metodológico que mostra como a ciência avança: por meio da crítica, da revisão e do aprimoramento contínuo do conhecimento. 

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Escrita, contabilidade e números


Quanto mais estudamos o passado, mais nos deparamos com grandes incertezas. Sendo este um blog de contabilidade, estar atento às “novidades” oriundas das descobertas arqueológicas pode ser algo relevante.

Um dos temas mais interessantes nessa área de pesquisa é a investigação sobre os primórdios dos sistemas numéricos. Estamos falando de milhares de anos, e tudo indica que o controle do patrimônio e a arrecadação de tributos sobre a riqueza tenham desempenhado um papel central. Até mesmo o fato de a numeração ter precedido a escrita — algo que hoje nos parece razoável — é um indício de que tarefas contábeis podem ter contribuído para a forma como as principais civilizações passaram a se comunicar.

Uma descoberta recente lança uma questão ainda mais intrigante: talvez a noção de números seja muito mais antiga do que se imaginava. Uma cerâmica datada de cerca de 8 mil anos apresenta flores organizadas em uma sequência geométrica no que se refere ao número de pétalas. Em outras palavras, talvez os números não estivessem representados por uma notação formal, mas o conhecimento matemático já estivesse presente no desenho.

Pesquisadores de Jerusalém publicaram suas conclusões em um periódico de pré-história, argumentando que alguns desenhos em cerâmicas da Mesopotâmia, com motivos florais, indicam que o ser humano já possuía certo domínio matemático. Os padrões geométricos mostram flores com quatro, oito, dezesseis, trinta e dois ou sessenta e quatro pétalas — algo que um aluno do ensino médio reconheceria como uma progressão geométrica.

Isso leva os pesquisadores a sugerirem que os halafianos já possuíam um entendimento desenvolvido para dividir a terra ou seus frutos em partes iguais. Trata-se de um conhecimento que antecede a matemática de base 60, adotada apenas mais de 1.500 anos depois. 

Y. Garfinkel and S. Krulwich. The earliest vegetal motifs in prehistoric art: painted Halafian pottery of Mesopotamia and prehistoric mathematical thinking. Journal of World Prehistory. Published online December 5, 2025. doi: 10.1007/s10963-025-09200-9

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16 janeiro 2026

Wikipedia faz acordo ... 2

Depois de postar sobre o acordo da Wikipedia com as empresas de tecnologia, encontrei o gráfico a seguir, na newsletter do Chartr. No caso, o texto comenta sobre os 25 anos da enciclopédia, completados no dia 15 de janeiro. 

Nos últimos meses há uma redução no uso da enciclopédia, apesar do uso intenso por parte das empresas de IA. O que está ocorrendo com a Wikipedia também ocorre com Stack Overflow.