Eis uma história comum na ciência atual:
Durante muitos anos, o prestigiado periódico Philosophy & Public Affairs publicou cerca de 14 artigos revisados por pares por ano. Assim, sua pequena equipe voluntária, formada por acadêmicos renomados, ficou chocada ao descobrir que sua editora, a Wiley, estava exigindo um aumento significativo na produção, chegando, em determinado momento, a demandar 35 novos artigos em apenas 60 dias.
Em vez de comprometer o processo de revisão por pares e acelerar a publicação de trabalhos de baixa qualidade, a então editora-chefe Anna Stilz, da Universidade da Califórnia em Berkeley, liderou uma revolta que culminou na renúncia coletiva de toda a equipe editorial e do conselho da revista.
“A Wiley me disse que, se eu não publicasse mais, não teria um periódico por muito tempo. Essas conversas foram muito hostis”, afirmou Stilz, ao explicar as renúncias em massa. “Eu queria oferecer aos leitores trabalhos de alta qualidade. Nós éramos seletivos.”
O artigo sustenta que esse fenômeno representa uma ameaça à qualidade da pesquisa científica. Não sei se concordo integralmente, pois o crescimento do número de artigos publicados anualmente decorre não apenas dos incentivos à publicação, mas também da maior facilidade do processo, em função dos instrumentos de que dispomos hoje. Sem um computador, realizar uma regressão era um verdadeiro martírio; com ele, a regressão pode ser feita em poucos segundos. É evidente que, em um contexto de economia da atenção, muitas pesquisas acabarão recebendo pouquíssimas citações. Mas isso é necessariamente algo ruim?
O problema central parece residir em práticas como a atuação de periódicos predatórios ou o fatiamento de pesquisas (salami slicing), e não propriamente no aumento do volume de produção científica.

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