No dia 3 de janeiro, os Estados Unidos realizaram um ataque militar na Venezuela e anunciaram a captura do presidente do país. Fiquei imaginando a situação hipotética de uma empresa com negócios na Venezuela e como seria a sua reação.
Em primeiro lugar, seria de se esperar que essa empresa já tivesse feito algum tipo de lançamento considerando a situação do país. Antes do dia de hoje, qualquer empresa que fizesse negócios com a Venezuela já conhecia o elevado risco envolvido. Se a contabilidade fosse adequadamente conservadora — ou, nos termos do IASB, prudente —, os ativos e passivos já estariam refletindo a situação do país fronteiriço.
Mas, para tornar a análise mais interessante, suponha que isso não tenha sido feito. Se a empresa for de capital aberto, deveria divulgar um fato relevante, uma vez que o evento pode influenciar a análise dos resultados. Seria provável, contudo, aguardar um pouco antes de efetuar lançamentos contábeis. Caso a empresa não seja de capital aberto, um comunicado — no estilo de um fato relevante — dirigido aos principais fornecedores, clientes e investidores, inclusive financiadores, poderia ser importante.
Nesse texto, deveriam ser indicados os riscos para os negócios com a Venezuela e os potenciais efeitos sobre as operações, inclusive quanto à continuidade. É natural esperar frases tranquilizadoras, do tipo: “a administração está acompanhando o desenrolar dos acontecimentos”.
Constatados efeitos sobre as operações, a empresa deveria reconhecer perdas no ativo, com o lançamento de uma despesa na demonstração do resultado e a contrapartida de redução do ativo. Existindo valores a receber ou valores a pagar, o evento pode provocar uma desvalorização da moeda ou até mesmo uma valorização, dependendo de como o mercado irá reagir. Nesse último caso, o mais adequado é aguardar um pouco mais, a fim de verificar se de fato haverá uma movimentação relevante na taxa de câmbio.
Além disso, se a empresa tiver contratos com entidades venezuelanas — empresas ou clientes —, estes podem ser suspensos ou rescindidos, com impacto sobre provisões e baixas. Finalmente, caso o evento demande da empresa a realização de despesas adicionais, como a necessidade de realocar pessoal ou alterar a logística, haverá o reconhecimento correspondente de despesas.
Como estamos no início do ano e muitas empresas encerram o exercício em 31 de dezembro, trata-se de um evento subsequente, que deveria constar nas notas explicativas.
Imagem: site do Estadão no momento da publicação do post.

Nenhum comentário:
Postar um comentário