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04 janeiro 2026
Um histograma que mostra um problema na ciência moderna
Há cinco anos, escrevi um pequeno artigo sobre o filtro de significância, a maldição do vencedor e a necessidade de “shrinkage” (em coautoria com Eric Cator). O principal objetivo era publicar alguns resultados matemáticos para referência futura. Para tornar o artigo um pouco mais interessante, quisemos acrescentar um exemplo motivador. Encontrei então um trabalho de Barnett e Wren (2019), que coletaram (scraped) mais de um milhão de intervalos de confiança de estimativas de razões a partir do PubMed e os disponibilizaram publicamente. Convertemos esses intervalos de confiança em estatísticas z, construí um histograma e fiquei impressionado com a ausência de estatísticas z entre −2 e 2 (ou seja, resultados não significativos).
(...) muitos memes foram criados.
Para marcar o quinto aniversário do histograma, quis reagir a alguns comentários típicos. Por exemplo, Adriano Aguzzi comentou:
“Não vamos hiperventilar com isso. É da natureza das coisas que resultados negativos raramente sejam informativos e, portanto, raramente sejam publicados. E isso é perfeitamente legítimo.”
É decepcionante — para dizer o mínimo — que muitas pessoas ainda não percebam o problema de distorcer o registro científico ao relatar e publicar seletivamente apenas resultados que atendem ao critério p < 0,05.
Outro comentário típico (Simo110901) foi:
“Não acho que isso seja inerentemente ruim. Parte desse viés certamente vem do viés de publicação, mas uma parcela significativa (esperamos que a maioria) pode decorrer do fato de que pesquisadores costumam ser muito bons em formular hipóteses bem fundamentadas e, portanto, conseguem rejeitar resultados nulos na maioria dos casos.”
Muitos outros comentaristas também acreditam que a ausência de resultados não significativos se deve à capacidade dos pesquisadores de dimensionar seus estudos com precisão, de modo a obter significância estatística com um desvio mínimo para cima. Isso é muito improvável. Na figura abaixo, comparo as estatísticas z de Barnett e Wren (2019) com um conjunto de mais de 20.000 estatísticas z referentes aos desfechos primários de eficácia de ensaios clínicos extraídos da Cochrane Database of Systematic Reviews (CDSR).
O histograma da CDSR (à direita) não apresenta uma lacuna perceptível. Não posso afirmar com certeza a razão disso, mas arriscaria dizer que se deve ao fato de que ensaios clínicos constituem pesquisa séria. Em geral, eles são pré-registrados, no sentido de que possuem um protocolo aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa (Institutional Review Board). Além disso, são caros e demorados, de modo que, mesmo quando os resultados não são significativos, seria um desperdício não publicá-los. Por fim, não publicar seria eticamente problemático em relação aos participantes do estudo.
Outro comentário típico (Daniel Lakens) afirma:
“Isso não é um retrato preciso do quanto a literatura é enviesada. Os autores analisam apenas valores-p presentes nos resumos.”
Barnett e Wren (2019), no entanto, coletaram estatísticas z tanto de resumos quanto de textos completos. Os dados de texto completo estão disponíveis para artigos hospedados no PubMed Central. No total, há 961.862 resumos e 348.809 textos completos. A seguir, apresento as estatísticas z separadamente. As distribuições são notavelmente semelhantes, embora haja uma proporção ligeiramente maior de resultados não significativos nos textos completos.
Qualquer algoritmo automatizado de coleta de dados (scraping) inevitavelmente deixará passar algumas informações. É bastante possível que resultados não significativos que não apareçam no resumo ou no texto principal ainda sejam reportados em tabelas separadas, apêndices ou materiais suplementares. No entanto, duvido que isso explique a enorme lacuna observada. Estou bastante convencido de que as estatísticas z extraídas do PubMed realmente fornecem fortes evidências de viés de publicação contra resultados não significativos na literatura médica. Ainda assim, é importante notar que a sub-representação de estatísticas z entre −2 e 2 provavelmente não se deve apenas ao viés de publicação, mas também ao fato de os autores não reportarem intervalos de confiança para resultados não significativos. Evidentemente, isso tampouco é algo desejável.
Fonte: aqui
Tinha pensado inicialmente em postar somente um trecho do artigo. Mas achei bem interessante e importante e acima tem o texto quase completo. A mensagem é clara: o não resultado também é importante para a ciência.
03 janeiro 2026
Normas IFRS e fluxo de capital na América Latina
Um estudo apresentado por Verônica de Fátima Santana, da Fecap, investiga como a adoção das IFRS afeta o nível, a volatilidade e a sensibilidade aos choques globais de incerteza dos fluxos de capitais na América Latina. Utilizando dados trimestrais de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru entre 1995 e 2018, a autora constrói um índice composto de adoção das IFRS, que captura não apenas a obrigatoriedade, mas também a intensidade e a qualidade do processo de implementação. Os resultados mostram que a adoção das IFRS está associada a maiores fluxos de capitais, especialmente investimento em portfólio e investimento direto, mas também a maior volatilidade, indicando um possível efeito de contágio financeiro. Contudo, a adoção das IFRS reduz a sensibilidade dos fluxos de capitais à incerteza global.
Imagem Gemini
Normas do Iasb ainda são baseadas em princípios
Em um evento sobre normas contábeis, o pesquisador Humayun Kabir, Auckland University of Technology, Nova Zelândia, apresentou uma provocação entitulada How did IFRSs evolve over time? A study of amendments to IFRSs ? O estudo analisa a evolução das International Financial Reporting Standards (IFRS) para verificar se, ao longo do tempo, elas deixaram de ser baseadas em princípios e passaram a adotar um caráter mais orientado por regras. Partindo do compromisso formal da IFRS Foundation com uma abordagem principles-based, o trabalho investiga se esse compromisso se manteve na prática nos últimos anos.
Com base na análise das IFRS vigentes, 214 agenda decisions emitidas entre 2007 e 2022, 62 documentos de emendas e sete post-implementation reviews, o estudo mostra que o IASB tem preservado a abordagem de princípios das normas. As IFRS continuam formulando princípios gerais e oferecendo orientação para sua aplicação, evitando, em muitos casos, respostas prescritivas para situações específicas.
Entretanto, os resultados indicam um aumento significativo no volume e na extensão das normas, em razão da ampliação de guidance, exemplos ilustrativos, exceções e interpretações. Esse crescimento decorre de fatores como ambiguidades nos requisitos, lacunas normativas, diversidade de práticas, convergência com o US GAAP e a complexidade crescente das transações econômicas.
Apesar disso, o IASB e o IFRS Interpretations Committee tendem a limitar a criação de novas regras, recorrendo a emendas apenas quando os benefícios superam os custos. Em outras palavras, as IFRS se tornaram mais extensas e detalhadas, mas permanecem fundamentalmente baseadas em princípios.
Imagem gerada pelo Gemini
Laffer, impostos e Noruega
O conceito econômico é antigo, mas muitas vezes esquecido. A Curva de Laffer sugere que impostos mais altos não significa maior arrecadação, pois os agentes econômicos mudam seu comportamento.
A Noruega traz um exemplo real, quando decidiu impor um imposto sobre grandes fortunas, com a finalidade de arrecadar 146 milhões. O resultado prático foi que pessoas com elevado patrimônio deixaram o país. E ocorreu uma perda estimada de 594 milhões, um efeito contrário ao esperado.
Um dialogo entre Pacioli e Paton
Baseado em Morong pedi para o Gemini elaborar um dialogo entre os dois grandes mestres da contabilidade. É uma boa forma de entender a questão da entidade.
Imagine um encontro atemporal em uma biblioteca clássica. De um lado, Luca Pacioli (1445–1517), vestindo seu hábito de monge franciscano, com sua pena e pergaminhos. Do outro, William A. Paton (1889–1991), o acadêmico americano, de terno e óculos, representando o rigor da contabilidade moderna.
O Diálogo: A Origem vs. A Entidade
Paton: Frei Luca, é uma honra. Seu tratado Summa de Arithmetica é a fundação de tudo o que fazemos. No entanto, preciso confessar que sua visão sobre a confusão entre o patrimônio do mercador e o da empresa me causa calafrios. Na contabilidade moderna, a Entidade é um ser vivo, independente de quem a criou.
Pacioli: (Sorri calmamente) Meu caro mestre Paton, vejo que o futuro trouxe muita complexidade. Em minha Veneza, o mercador é o negócio. Se Francesco compra uma seda fina ou um pedaço de pão para sua mesa, o dinheiro sai da mesma bolsa. Como eu poderia dizer a ele que sua mão direita não pertence à esquerda? Na prática da minha era, separar os bens do dono seria um exercício de fantasia. A conta "Capital" é apenas o registro do que o homem possui.
Paton: Eu compreendo as limitações do seu tempo, Frei. Mas veja, o mundo mudou. Hoje temos o investidor não dono. Imagine uma grande ferrovia ou uma fábrica de automóveis. O investidor coloca seu capital lá, mas ele não "manda" no martelo ou na locomotiva. Se não separarmos o que é da corporação do que é do acionista, o lucro se torna uma ilusão e a gestão se torna impossível. A entidade precisa ter uma alma jurídica própria para que possamos medir sua eficiência real.
Pacioli: Você fala de "eficiência" e "alma jurídica". Para mim, a contabilidade é sobre a confiança e a verdade diante de Deus e dos homens. Se o mercador deve, ele deve por inteiro. Se ele tem lucro, é para sua família e para sua alma. Criar uma barreira artificial entre o homem e sua obra me parece perigoso. Como você garante a responsabilidade se o dono pode se esconder atrás dessa "entidade"?
Paton: Não é sobre se esconder, Frei, é sobre transparência para o mercado de capitais! Sem o Princípio da Entidade, como um banco saberia se está emprestando dinheiro para a empresa crescer ou para o dono comprar uma carruagem luxuosa? Para o investidor moderno, a empresa é um motor de geração de valor. Precisamos saber quanto esse motor produz, independentemente de quantas moedas o dono tem no bolso.
Pacioli: (Ponderando) Entendo. No meu tempo, o comércio era pessoal, baseado no nome e na honra de um único homem. Se hoje as empresas são como grandes navios com mil donos, admito que minha bússola precisaria de novos ajustes. Minhas "partidas dobradas" foram feitas para organizar a mente de um mercador, mas vejo que você as usa para organizar o progresso de uma nação inteira.
Paton: Exatamente. Você nos deu a linguagem, Frei Luca. Eu apenas adicionei a gramática necessária para que essa linguagem pudesse ser lida por milhares de desconhecidos que confiam seu suado dinheiro a empresas que nunca visitaram.









