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26 fevereiro 2026

Talvez

Coisas ruins acontecem quando você combina a natureza autoafirmadora das crenças com o hábito de consumir grandes quantidades de conteúdo moralmente carregado.

Muitas pessoas fazem da rotina diária consumir enormes volumes de conteúdo altamente partidário sobre “o que está acontecendo” no “mundo”. Os entusiastas desse hobby chamam isso de “manter-se informado” e insistem que não é apenas um hábito pessoal, mas um dever cívico.

Esse conteúdo consiste em novas crenças (“notícias”, em resumo) sobre o que aconteceu hoje ou ontem, apresentadas com um tom autoritário e pouca ambiguidade moral. Identificam vilões claros e implicações igualmente claras. Frequentemente trazem instruções de especialistas selecionados a dedo sobre como pessoas inteligentes deveriam pensar a respeito.

O único filtro do lado do consumidor é se essas novas crenças parecem combinar com as já existentes. Geralmente combinam, porque a maioria dessas crenças anteriores foi adquirida da mesma forma. A moral de cada notícia é: “Você está certo de novo!”

Um efeito colateral crônico desse hobby é o ódio moralmente justificado contra pessoas que não confirmam sua sensação de estar certo outra vez — mesmo quando as questões são reconhecidamente complexas. Como pode aquele sujeito não ter apenas notas verdadeiras, como eu tenho?! Ele acredita em algo que não é verdade! Que pessoa horrível!

Atores políticos, que prosperam com narrativas simples e ódio entre grupos, incentivam esse pior hobby.

Então, o que fazemos, considerando que todos nós carregamos muitas notas falsas — e que todas parecem absolutamente reais?

Além de fazer pausas frequentes e longas do pior hobby de todos, uma defesa poderosa contra o problema do “eu sou a exceção” foi sugerida pelo escritor excêntrico Robert Anton Wilson.

Ele recomendava acrescentar um “talvez” habitual às suas afirmações internas e externas, mesmo quando (ou especialmente quando) você acha que isso não é necessário.

> Essa política é exatamente o que precisamos. Talvez.
> Eu não consigo fazer nada à noite. Talvez.
> Quem acredita em [x] é um idiota. Talvez.
> Não há boa razão para votar nessa pessoa. Talvez.
> Astrologia é pura bobagem. Talvez.

Esse “talvez” indiscriminado não diz quais crenças estão certas. Mas lembra que você não possui apenas crenças verdadeiras — e que as crenças equivocadas sempre parecem corretas.

Isso também torna sua afirmação mais aceitável para a maioria das pessoas — e provavelmente mais verdadeira.

Mais importante ainda, isso enfraquece o ódio e o fanatismo. É difícil imaginar a violência “justificada” se sustentando na presença de qualquer quantidade de “talvez”. 

O texto completo está aqui. Mesmo tendo simpatia pelo texto e pela postura, sinto que como professor os alunos não querem "talvez". Daí o fato de ser um desafio, para muitos, encarar uma pós-graduação, um lugar cheio de talvez, com pouca certeza. E por isso a popularidade dos docentes que ensinam de maneira assertiva e com tanta convicção. 

Já disse muitas vezes que essa é a explicação pela qual um professor que decide fazer uma pós-graduação perde "qualidade" na sua aula, pois perde certeza e ganha o "acho".  

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