27 março 2026
Executivos dizem mais Inteligência Artificial do que Lucro
BTS e a continuidade
Eis a notícia do newsletter 1440:
A banda de K-pop BTS voltou aos palcos no último fim de semana para seu primeiro show em quase três anos e meio. O concerto gratuito, realizado na Gwanghwamun Square, em Seul, reuniu dezenas de milhares de participantes e foi transmitido ao vivo pela Netflix.
O BTS (sigla para “Bangtan Sonyeondan”, que significa “Escoteiros à Prova de Balas” em coreano) estreou em 2013 e desde então se tornou a banda mais bem-sucedida da Coreia do Sul. O grupo é o primeiro desde os The Beatles a ter três álbuns alcançando o primeiro lugar nos EUA em um único ano (2018–19). O BTS também detém o recorde de maior número de visualizações de um videoclipe no YouTube em 24 horas (108,2 milhões de visualizações) com o sucesso “Butter”, de 2021.
A banda estava em hiato desde 2022, enquanto seus integrantes cumpriam o serviço militar obrigatório, com períodos entre 18 e 21 meses. Agora, eles lançaram seu quinto álbum de estúdio e iniciaram uma turnê mundial com 82 datas, que analistas estimam poder arrecadar pelo menos US$ 1,9 bilhão, aproximando-se do recorde de US$ 2,2 bilhões da turnê The Eras Tour, de Taylor Swift.
Há alguns anos, uma aluna da graduação discutiu o caso do BTS na minha disciplina. Apesar de não se tratar de um caso de descontinuidade — já que não houve liquidação nem venda substancial de ativos —, ocorreu uma suspensão planejada das atividades do grupo musical. Durante os últimos meses, a empresa dona do grupo teve queda de receita, com alguma entrada residual proveniente de obras anteriores. Com o retorno, observa-se uma forte reativação dos fluxos de caixa futuros.
No passado, algo semelhante ocorreu com Elvis Presley, que precisou servir no exército, na Alemanha, enquanto o famoso Colonel Tom Parker gerenciava sua carreira mesmo diante dessa limitação.
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Regra dos 20 anos do vestuário
As tendências de vestuário vêm e vão, mas, em alguns casos, não ficam longe por muito tempo. Durante décadas, tanto a indústria da moda quanto seus entusiastas referiram-se à chamada "regra dos 20 anos", que sugere que a sociedade tende a ver certos estilos retornarem em intervalos semirregulares. No entanto, sem dados concretos para sustentar a afirmação, essa "regra" permaneceu por muito tempo como apenas uma hipótese.
Isso está mudando graças a uma análise recente de matemáticos da Northwestern University. Após examinarem quase 160 anos de vestuário feminino, uma equipe de pesquisa interdisciplinar confirmou que as tendências de moda frequentemente ressurgem a cada 20 anos, aproximadamente.(...)
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores primeiro compilaram um conjunto de dados de cerca de 37.000 peças de roupa, combinando o Arquivo de Moldes Comerciais da Universidade de Rhode Island com gerações de imagens de coleções de desfiles que remontam a 1869.
Eles então decomporam as roupas com base em características específicas, incluindo:
Bainha (comprimento da saia)
Posicionamento da cintura
Decote
Ao avaliar cada exemplo em termos numéricos e mensuráveis, eles construíram um novo modelo matemático para analisar a tensão entre designs de moda inéditos e aqueles mais reconhecíveis. Segundo Zajdela e seus colegas, as evidências mostram claramente que a indústria da moda recicla rotineiramente certos temas e designs a cada duas décadas.
A Oscilação entre o Novo e o Tradicional
Basicamente, a indústria da moda flutua constantemente entre a originalidade e a tradição. Quando um estilo de roupa se torna popular demais, os designers começam a alterar suas novas peças apenas o suficiente para se destacarem, mantendo-se desejáveis para os potenciais usuários.
"Com o tempo, esse impulso constante de ser diferente do passado recente faz com que os estilos oscilem de um lado para o outro. O sistema quer intrinsecamente oscilar, e vemos esses ciclos nos dados", explicou Daniel Abrams, matemático aplicado e coautor do estudo.
O exemplo mais óbvio desse padrão é a bainha. Por mais de um século, a moda das saias oscilou entre estilos curtos e longos:
1. Anos 1920: Vestidos flapper com bainhas curtas eram a sensação.
2. Anos 1940 e 50: Deram lugar a designs mais longos.
3. Anos 1960: A tendência retornou para opções ainda mais curtas, como a minissaia.
O Fim da Regra?
Apesar do suporte matemático, a regra dos 20 anos pode não durar muito mais tempo. A partir da década de 1980, a dicotomia saia curta/longa começou a se desfazer, pois ambas as opções permaneceram populares simultaneamente.
"No passado, havia duas opções — vestidos curtos e vestidos longos. Nos anos mais recentes, há mais opções: vestidos muito curtos, vestidos longos até o chão e vestidos midi", disse Zajdela. "Há um aumento na variância ao longo do tempo e menos conformidade."
Apenas o tempo dirá se a regra dos 20 anos continuará em vigor. Até lá, provavelmente é melhor guardar aquela peça de roupa antiga por mais um tempinho. Não é bom apenas para o seu guarda-roupa — é bom para o meio ambiente.
fonte: aqui
Uma regra como essa, tão simplória, é de grande valia para o gestor de estoque de uma empresa de varejo ou uma indústria de roupas. Há muita moda que induz o administrador a investir pesadamente e que depois termina no lançamento de uma baixa contábil.
Trimestral ou semestral?
O debate promovido pela SEC sobre a possibilidade de mudar a periodicidade das informações contábeis para as empresas de capital aberto é, também, o debate entre evidenciação e burocracia.
Há muito existe a reclamação de que a divulgação trimestral é onerosa e desvia o foco da gestão. Lembro-me das primeiras palavras do livro Relevance Lost (que fez muito sucesso há décadas), de autoria de Kaplan e Johnson. Quando Trump foi presidente em seu primeiro mandato, ele solicitou que a SEC analisasse a questão.
A newsletter DealBook, do New York Times, discutiu o tema no dia 18 de março. Conforme já destacamos anteriormente, os relatórios semestrais não seriam uma inovação dos Estados Unidos, já que diversos países, incluindo a Grã-Bretanha, adotam esse período. Todos sabemos que o Brasil, adepto do "efeito demonstração" e da inércia, mantém o relatório trimestral, e não há discussões locais sobre o assunto.
Aparentemente, o relatório trimestral não impede escândalos corporativos. Observando o que ocorre em outros países, é possível imaginar que a adoção do modelo semestral não impedirá que algumas empresas continuem divulgando dados trimestralmente — prevalecendo, aqui, o princípio da evidenciação plena.
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26 março 2026
Condenação da Meta e Youtube em caso de vício em mídia social
Em um julgamento que ocorreu na Califórnia, um júri deliberou que a Meta e o Google prejudicaram a saúde de uma jovem com produtos viciantes que, como consequência, trouxeram problemas de saúde mental. O julgamento começou em fevereiro e apenas a deliberação levou uma semana. As empresas deverão pagar 3 milhões de dólares, sendo 70% desse valor de responsabilidade da Meta.
Uma das acusações recai sobre o recurso de rolagem infinita e as recomendações algorítmicas, que teriam causado ansiedade e depressão. Este é apenas um dos casos de processos existentes na justiça dos Estados Unidos. Antes do julgamento, o TikTok e o Snap chegaram a um acordo com a parte demandante.
Segundo um texto do Estadão, o argumento central é que o design das plataformas de mídias sociais pode ser considerado um "produto defeituoso", de responsabilidade das empresas. O texto destaca que, embora haja semelhanças com os processos judiciais contra as empresas de cigarro no passado, isso não significa que a decisão dos jurados representará uma mudança imediata no entendimento da justiça sobre o assunto. Em outras palavras: talvez seja cedo para considerar que qualquer pessoa que acione a justiça pedindo indenização vá vencer.
Lembro aqui que existe hoje um mecanismo na justiça federal dos Estados Unidos que "protege" as empresas de grandes falhas, "perdoando-as" através de acordos. Esse tipo de mecanismo pode ser usado, mais adiante, para blindar as grandes corporações tecnológicas. Trata-se do DPA — sigla para Deferred Prosecution Agreement (Acordo de Persecução Diferida ou Acordo de Acusação Diferida).
Em termos contábeis, eu diria que ainda é muito cedo para lançar provisões reconhecendo perdas futuras nesses processos judiciais, uma vez que o caminho na justiça é longo e, nem sempre, justo.
25 março 2026
IA e mercado de livros
AI and the Quantity and Quality of Creative Products: Have LLMs Boosted Creation of Valuable Books? - Imke Reimers, Joel Waldfogel
Imagem: Bíblia de Gutemberg, verbete Book Wikipedia
Uma contabilidade existencial: (Re)centralizando a natureza
Eis o trecho final
Com o perdão de Heidegger: a essência da contabilidade para a natureza não é um relatório (account). Ou, pelo menos, uma pré-condição para recentralizar a natureza na pesquisa contábil é revelar a relação entre a consciência humana e a natureza na qual tais relatórios emergem. Ao rastrear a marginalização da natureza até as condições sob as quais ela é ocultada ou revelada, Marcuse e Heidegger oferecem diagnósticos pessimistas das patologias da era moderna, mas também, de forma mais otimista, destacam o potencial inimitável dos seres humanos de habitar o mundo de uma nova maneira.
A abordagem existencial que proponho busca recentralizar a natureza no pensamento acadêmico contábil, articulando ideais tanto críticos quanto construtivos. O principal argumento crítico afirma que a contabilidade é, ao mesmo tempo, mais e menos cúmplice da degradação ambiental do que sugere a literatura fundamental anterior. Como tecnologia moderna par excellence, a contabilidade é cúmplice de modos de ser no mundo que inscrevem lógicas humanas ou, mais sutilmente, prejudicam a atenção aos processos naturais. Ao mesmo tempo, essa perspectiva existencial implica que os modos tecnológicos de ser no mundo são mais profundos do que as práticas contábeis; portanto, reformar apenas as práticas contábeis é insuficiente para enfrentar as crises ecológicas contemporâneas.
De forma mais construtiva, proponho um papel essencial para a pesquisa em contabilidade crítica: lutar por espaço para que outros modos de ser no mundo surjam, circunscrevendo as lógicas contábeis. Adaptando a terminologia de Hines (1991), esta abordagem existencial "recusa-se a falar" da natureza apenas na linguagem contábil, para que outras vozes possam ser ouvidas.

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