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05 janeiro 2026

O exemplo do Uruguai


Em 2008, o professor de física teórica Ramón Méndez Galain foi convidado para o cargo de secretário de energia do Uruguai. Naquele momento, o país vizinho dependia da importação de petróleo, cujos preços estavam elevados. Um texto do Washington Post (via aqui) descreveu a trajetória de Galain. O país passou a depender majoritariamente de fontes renováveis de energia, sendo que 40% são provenientes da energia eólica. Além disso, o Uruguai produz energia solar, hidráulica e de biomassa, que juntas representam quase toda a matriz energética. 

Galain acredita que, se for retirada a vantagem concedida pelo governo ao uso de combustíveis fósseis, a energia renovável pode se tornar competitiva. A transformação do Uruguai fez com que o país utilize energia termelétrica apenas quando as condições climáticas são desfavoráveis, como em períodos de baixo vento ou pouca incidência solar. 

A mudança também foi possível graças ao apoio político e ao uso de ferramentas de simulação, e o resultado foi que o Uruguai reduziu custos, atraiu investimentos significativos e criou milhares de empregos ao longo do processo.

Economia do asteróide


Eis o resumo (via aqui):

Este working paper apresenta a Economia do Asteroide (Asteroid Economics) como um novo arcabouço para compreender respostas, em escala civilizacional, a riscos existenciais. Define-se o Efeito Asteroide (Asteroid Effect) como um paradoxo recorrente no qual, quando ameaças à sobrevivência se tornam salientes, as sociedades parecem acelerar o consumo, projetos de prestígio, exibições rituais ou surtos tecnológicos, em vez de conservar recursos.

O objetivo do artigo é identificar a lacuna nas teorias existentes — como o desconto temporal e a Teoria do Gerenciamento do Terror (Terror Management Theory, TMT) — que explicam elementos do paradoxo, mas negligenciam sua forma sistemática. Além disso, o trabalho busca definir a Economia do Asteroide como um construto distinto e apresentar padrões ilustrativos por meio de exemplos históricos e contemporâneos.

O artigo também propõe delinear uma agenda de pesquisa capaz de testar a saliência, os mecanismos e as implicações do Efeito Asteroide. Nesse sentido, o texto não apresenta evidências finais nem modelos resolvidos. Seu propósito é estabelecer uma base conceitual, convidar ao engajamento crítico e oferecer um ponto de partida para futuras pesquisas empíricas sobre como a comunicação de riscos existenciais molda os resultados comportamentais coletivos.

Imagem aqui

Qual seria o efeito dos momentos com ameaças à sobrevivência sobre a contabilidade das empresas? Mais lançamentos de provisões? despesa de imparidade?

Diella, a ministra da Albânia que é uma IA

Em setembro postamos sobre Diella, uma proposta do governo da Albânia, de usar a inteligência artificial na administração pública. Na ocasião comentamos:

O uso de inteligência artificial na política desperta entusiasmo e desconfiança. Entre os principais desafios está a transparência: quem controla o algoritmo e define seus critérios de decisão? Sem clareza, há risco de reproduzir ou até ampliar vieses já existentes. Outro ponto crítico é a responsabilidade: se uma IA toma uma decisão equivocada, quem responde por suas consequências?


Diella é o nome albanês para sol. O seu uso começou em janeiro de 2025 como um sistema para ajudar as pessoas com os serviços públicos online e na emissão e documentos. Em setembro, o governo tinha autorizado a criação de um ministério virtual de IA e Diella foi nomeada Ministra de Estado para a Inteligência Artificial da Albânia, sendo o primeiro sistema de IA a ocupar um cargo ministerial.  

É preocupante saber que a IA foi desenvolvida em cooperação com a Microsoft. E que levou nove meses, desde a versão inicial, para o chat ocupar o cargo.  Veja alguns pontos interessante que encontrei no verbete da Wikipedia sobre o assunto: 

Em 26 de outubro de 2025, segundo o primeiro-ministro Edi Rama, Diella estaria “grávida e dará à luz 83 filhos”. Trata-se do uso de uma metáfora para indicar que cada ministro do parlamento albanês, do Partido Socialista, receberá seu próprio assistente de IA.

Em 11 de setembro de 2025, Diella foi formalmente nomeada “Ministra de Estado para a Inteligência Artificial”. A nomeação ocorreu após um decreto presidencial que autorizou o primeiro-ministro a supervisionar a criação e o funcionamento de um ministério virtual de IA. Está prevista a transferência gradual das responsabilidades de compras públicas para o sistema, com o objetivo de reduzir a influência política nos processos licitatórios. A nomeação integra um conjunto mais amplo de reformas anticorrupção e medidas destinadas a alinhar a Albânia aos requisitos de adesão à União Europeia. (...)

Em 18 de setembro de 2025, Edi Rama apresentou um vídeo de Diella fazendo um discurso ao parlamento albanês, no qual declarou: “Não estou aqui para substituir pessoas, mas para ajudá-las.” A apresentação provocou protestos de deputados da oposição, que se opuseram ao uso de um sistema de inteligência artificial em uma sessão parlamentar. Gazment Bardhi, líder do grupo parlamentar do Partido Democrata, descreveu a Diella como “uma fantasia propagandística” e “uma fachada virtual para esconder os gigantescos roubos diários deste governo”. A sessão parlamentar, que deveria incluir debate sobre o novo gabinete e o programa de governo, foi encerrada após 25 minutos. Oitenta e dois deputados socialistas votaram a favor, enquanto os deputados da oposição não participaram da votação em protesto contra a apresentação do discurso da Diella. O analista político Andi Bushati classificou a sessão como “sem precedentes”, por ter sido concluída sem o debate habitual entre governo e oposição.

 

 

04 janeiro 2026

Futuro incerto de Neom


Significando "novo futuro", a cidade de Neom foi anunciada em 2017 como um gigantesco projeto que marcaria o reinado do Príncipe bin Salman. Localizada próximo ao Egito, a área planejada teria de 26 mil quilômetros quadrados. A expectativa inicial era que o projeto fosse concluído em 2030, com um custo estimado de US$1,6 trilhão. 

A realidade atual, porém, é que o projeto provavelmente deverá ultrapassar a US$8,8 trilhões, o que equivale a cerca de 25 vezes o orçamento anual do governo saudita. É possível visualizar a proposta da cidade no site neom.com, que inclusive apresenta informações sobre a possibilidade de participação no fundo de investimento do projeto. 

Entretanto, da estrutura originalmente planejada, somente um pequena parte foi efetivamente construída.  Diante dos os problemas enfrentados, o projeto original precisou ser redimensionado. Uma auditoria trouxe à tona uma série de problemas, inclusive manipulação por parte dos gestores. As críticas envolvem desde aspectos ambientais até violações de direitos humanos. 

Há alguns temas interessantes aqui: falácia do custo perdido, os modelos de financiamento de grandes projetos públicos, processos decisórios sem controle e outros mais.  

Mapa: aqui 

Tal pai, tal filho ...


Eis o resumo:

Utilizando um conjunto de dados inédito sobre registros de má conduta de CEOs e diretores finlandeses e de seus pais, investigamos se a má conduta financeira de executivos corporativos está associada a comportamentos semelhantes por parte de seus pais. Controlando por diversos outros fatores relacionados à má conduta financeira de executivos, constatamos que os executivos são significativamente mais propensos a se envolver em má conduta financeira — incluindo infrações contábeis, tributárias e outras de natureza financeira — quando seus pais possuem um histórico de má conduta financeira. Essa associação intergeracional é mais forte quando a má conduta parental é mais grave. Resultados adicionais mostram que crescer em municípios com altos níveis de má conduta e coabitar com cônjuges que praticam má conduta financeira também estão associados a uma maior probabilidade de má conduta executiva, indicando que tais comportamentos podem ser moldados por processos mais amplos de socialização, que vão além da família imediata. Embora as análises não estabeleçam relações causais, o conjunto de evidências apresentado oferece insights relevantes sobre por que alguns executivos corporativos se envolvem em má conduta enquanto outros não. 

 

Rir é o melhor remédio

 

Fonte aqui

Um histograma que mostra um problema na ciência moderna

Há cinco anos, escrevi um pequeno artigo sobre o filtro de significância, a maldição do vencedor e a necessidade de “shrinkage” (em coautoria com Eric Cator). O principal objetivo era publicar alguns resultados matemáticos para referência futura. Para tornar o artigo um pouco mais interessante, quisemos acrescentar um exemplo motivador. Encontrei então um trabalho de Barnett e Wren (2019), que coletaram (scraped) mais de um milhão de intervalos de confiança de estimativas de razões a partir do PubMed e os disponibilizaram publicamente. Convertemos esses intervalos de confiança em estatísticas z, construí um histograma e fiquei impressionado com a ausência de estatísticas z entre −2 e 2 (ou seja, resultados não significativos).

(...) muitos memes foram criados. 


Para marcar o quinto aniversário do histograma, quis reagir a alguns comentários típicos. Por exemplo, Adriano Aguzzi comentou:

“Não vamos hiperventilar com isso. É da natureza das coisas que resultados negativos raramente sejam informativos e, portanto, raramente sejam publicados. E isso é perfeitamente legítimo.”

É decepcionante — para dizer o mínimo — que muitas pessoas ainda não percebam o problema de distorcer o registro científico ao relatar e publicar seletivamente apenas resultados que atendem ao critério p < 0,05.

Outro comentário típico (Simo110901) foi:

“Não acho que isso seja inerentemente ruim. Parte desse viés certamente vem do viés de publicação, mas uma parcela significativa (esperamos que a maioria) pode decorrer do fato de que pesquisadores costumam ser muito bons em formular hipóteses bem fundamentadas e, portanto, conseguem rejeitar resultados nulos na maioria dos casos.”

Muitos outros comentaristas também acreditam que a ausência de resultados não significativos se deve à capacidade dos pesquisadores de dimensionar seus estudos com precisão, de modo a obter significância estatística com um desvio mínimo para cima. Isso é muito improvável. Na figura abaixo, comparo as estatísticas z de Barnett e Wren (2019) com um conjunto de mais de 20.000 estatísticas z referentes aos desfechos primários de eficácia de ensaios clínicos extraídos da Cochrane Database of Systematic Reviews (CDSR).


O histograma da CDSR (à direita) não apresenta uma lacuna perceptível. Não posso afirmar com certeza a razão disso, mas arriscaria dizer que se deve ao fato de que ensaios clínicos constituem pesquisa séria. Em geral, eles são pré-registrados, no sentido de que possuem um protocolo aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa (Institutional Review Board). Além disso, são caros e demorados, de modo que, mesmo quando os resultados não são significativos, seria um desperdício não publicá-los. Por fim, não publicar seria eticamente problemático em relação aos participantes do estudo.

Outro comentário típico (Daniel Lakens) afirma:

“Isso não é um retrato preciso do quanto a literatura é enviesada. Os autores analisam apenas valores-p presentes nos resumos.”

Barnett e Wren (2019), no entanto, coletaram estatísticas z tanto de resumos quanto de textos completos. Os dados de texto completo estão disponíveis para artigos hospedados no PubMed Central. No total, há 961.862 resumos e 348.809 textos completos. A seguir, apresento as estatísticas z separadamente. As distribuições são notavelmente semelhantes, embora haja uma proporção ligeiramente maior de resultados não significativos nos textos completos.

Qualquer algoritmo automatizado de coleta de dados (scraping) inevitavelmente deixará passar algumas informações. É bastante possível que resultados não significativos que não apareçam no resumo ou no texto principal ainda sejam reportados em tabelas separadas, apêndices ou materiais suplementares. No entanto, duvido que isso explique a enorme lacuna observada. Estou bastante convencido de que as estatísticas z extraídas do PubMed realmente fornecem fortes evidências de viés de publicação contra resultados não significativos na literatura médica. Ainda assim, é importante notar que a sub-representação de estatísticas z entre −2 e 2 provavelmente não se deve apenas ao viés de publicação, mas também ao fato de os autores não reportarem intervalos de confiança para resultados não significativos. Evidentemente, isso tampouco é algo desejável.

Fonte: aqui 

Tinha pensado inicialmente em postar somente um trecho do artigo. Mas achei bem interessante e importante e acima tem o texto quase completo. A mensagem é clara: o não resultado também é importante para a ciência.