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17 março 2026

Paradoxo Grossman-Stiglitz para IA

Um dos resultados mais interessantes da teoria econômica é o Paradoxo de Grossman-Stiglitz.

Você já ouviu falar da Hipótese dos Mercados Eficientes (EMH) — a ideia de que os preços dos ativos financeiros já incorporam toda a informação disponível sobre o valor desses ativos? Pois bem, em 1980, Sanford Grossman e Joseph Stiglitz mostraram por que a EMH não pode estar totalmente correta. A ideia é bastante simples: obter informação exige esforço. Quem vai se dar ao trabalho de buscar informações sobre quanto ações, títulos ou imóveis realmente valem, se não puder ganhar dinheiro negociando com base nessas informações? E, se ninguém se esforça para obter informação, como ela poderia ser incorporada aos preços em primeiro lugar? Grossman e Stiglitz concluíram que os mercados financeiros devem ser, ao menos em algum grau, ineficientes.

Agora, Daron Acemoglu, Dingwen Kong e Asuman Ozdaglar propuseram um problema semelhante para a inteligência artificial. Em geral, não sou muito fã dos trabalhos de Acemoglu sobre IA, mas acho que este toca em um ponto importante e fundamental.

Acemoglu e coautores escrevem que, se a IA generativa colocasse toda a informação do mundo ao alcance imediato das pessoas, então elas não teriam incentivo para sair e aprender coisas novas — o que, por sua vez, impediria descobertas acidentais que ampliam a base total de conhecimento da sociedade:

Estudamos como a IA generativa, e em particular a IA agêntica, molda os incentivos ao aprendizado humano e a evolução de longo prazo do ecossistema de informação da sociedade… O aprendizado apresenta economias de escopo: o esforço humano, custoso, produz conjuntamente um sinal privado sobre o próprio contexto e um “sinal fino” público que se acumula no estoque de conhecimento geral da comunidade, gerando uma externalidade de aprendizado. A IA agêntica fornece recomendações que substituem o esforço humano… Embora a IA agêntica possa melhorar a qualidade das decisões no curto prazo, ela também pode corroer os incentivos ao aprendizado que sustentam o conhecimento coletivo no longo prazo… A economia pode, assim, convergir para um estado estacionário de colapso do conhecimento, no qual o conhecimento geral desaparece, apesar da existência de aconselhamento personalizado de alta qualidade.

Basicamente, Acemoglu e coautores sugerem que a humanidade, como um todo, aprende coisas novas quando indivíduos tentam “reinventar a roda” — isto é, descobrir por conta própria em vez de simplesmente consultar a informação pronta. Isso consome bastante esforço, mas também contribui para ampliar o estoque geral de conhecimento.

A ideia aqui é que a IA torna todo mundo realmente preguiçoso — em vez de tentar escrever um código do zero, provar um teorema matemático do zero ou descobrir algo por conta própria, você simplesmente pede para a IA fazer tudo por você. Assim, todos acabam obtendo as respostas corretas para perguntas cujas respostas já são conhecidas, e, com isso, não acrescentam nada de novo. É o Paradoxo de Grossman-Stiglitz, mas aplicado a tudo.

Na verdade, já é possível perceber indícios disso acontecendo. O tráfego de sites está em queda, à medida que as pessoas passam a consumir respostas geradas por IA em vez de acessar páginas da web. Publicações de tecnologia, por exemplo, estão perdendo rapidamente seu público leitor:

E usar IA para programar faz com que as habilidades dos programadores se atrofiem.

Minha primeira observação aqui é que isso também se aplica não apenas à IA, mas à própria internet. Sim, as pessoas podem pedir a um LLM que lhes ensine matemática ou que escreva algum código para elas. Mas também podiam recorrer ao Math Exchange e ao Stack Exchange, mesmo antes da existência dos LLMs. E o mesmo problema surge — se todo o conhecimento do mundo está ao alcance das suas mãos, não há razão para gastar tempo reinventando a roda. Mas, como Neal Stephenson já escreveu em 2011, isso pode levar à falta de novidade, já que todos passam apenas a copiar o que já foi feito.

E isso me leva ao meu segundo ponto: e se a IA também puder produzir novo conhecimento? Afinal, a IA é propensa a alucinações — isto é, erros aleatórios. Se agentes estiverem por aí testando coisas erradas de forma aleatória, ocasionalmente podem descobrir algo novo. Se houver uma maneira de incorporar essas descobertas acidentais ao corpo geral de conhecimento da IA, talvez ela possa expandir o estoque total de conhecimento, em vez de reduzi-lo. Tudo o que seria necessário é deixar de depender dos humanos como o único repositório de conhecimento de longo prazo. Como fazer isso, naturalmente, eu não sei.

Da excelente Noahpinion newsletter. 

O artigo citado é  AI, Human Cognition and Knowledge Collapse
Daron Acemoglu, Dingwen Kong & Asuman Ozdaglar 

Paul Ehrlich was bad

Da newsletter Noah Opinion 


Paul Ehrlich, autor de The Population Bomb e um incansável defensor do controle populacional, morreu. Uma regra geral do comentário público costuma ser a de que não se deve falar mal dos mortos. Por outro lado, e se os mortos tiverem tido ideias realmente, realmente ruins?

Todos conhecemos a história de por que Ehrlich estava errado. Ele previu que o mundo ficaria sem alimentos, provocando fomes catastróficas na década de 1970. Com base nessas previsões, defendeu medidas como cortar a ajuda alimentar emergencial à Índia, argumentando que salvar pessoas da fome hoje apenas significaria haver mais pessoas para morrer de fome no futuro. No entanto, novas técnicas agrícolas conhecidas como Revolução Verde produziram calorias suficientes para alimentar todo o mundo, com ampla sobra. The Population Bomb foi publicado em 1968; naquela altura, as grandes fomes já eram, em grande medida, coisa do passado.

E as taxas de fecundidade caíram sem a necessidade dos controles populacionais draconianos e distópicos que Ehrlich defendia constantemente. O principal país que deu ouvidos a Ehrlich foi a China, e sua Política do Filho Único acabou se mostrando bastante desnecessária para reduzir a fecundidade — além de ser totalitária, cruel e distópica.


O que muitas pessoas não sabem sobre Ehrlich é o quanto ele continuou promovendo suas ideias de forma persistente e descartando seus críticos com arrogância, mesmo depois de ficar claro que estava completamente errado. Um homem que apoiou políticas pesadelo a serviço de uma teoria falha simplesmente nunca confrontou esse fracasso monumental, e continuou a se autopromover e a defender seus antigos erros.

E, de fato, as más ideias de Ehrlich sobreviveram e até prosperaram, na forma do movimento do “decrescimento”, popular no Reino Unido e em partes da Europa. Os defensores do decrescimento hoje propõem empobrecer a classe média dos países desenvolvidos, em vez de deixar a Índia passar fome ou prender pessoas por terem filhos demais — o que, suponho, é um avanço. Ainda assim, a ideia baseia-se fundamentalmente nas mesmas falácias antigas que Ehrlich nunca deixou de promover — a de que a humanidade ultrapassou seus limites e precisa ser reduzida à força.

 

 

YouTube é a maior empresa de mídia do mundo


O ano de 2025 marcou um ponto de virada no entretenimento — o se tornou a maior empresa de mídia do mundo. De acordo com dados divulgados pela empresa controladora Alphabet, a plataforma registrou US$ 62 bilhões (R$ 320,50 bilhões) em receita em 2025. O resultado reforça a trajetória de expansão, pois já em 2024, a receita do YouTube havia ultrapassado US$ 50 bilhões (R$ 258,46 bilhões).

Com o desempenho, a consultoria financeira MoffettNathanson avaliou que o YouTube superou o negócio de mídia da . A divisão gerou US$ 60,9 bilhões (R$ 314,81 bilhões) em receita no ano passado, considerando apenas as operações de mídia e excluindo o setor de experiências, que inclui parques e produtos.

A própria MoffettNathanson já havia se referido à plataforma como o “novo rei de toda a mídia”, destacando seu alcance global e seu modelo híbrido de distribuição e produção de conteúdo.

Segundo as estimativas da consultoria, o YouTube pode estar atualmente avaliado entre US$ 500 bilhões e US$ 560 bilhões (R$ 2,5 trilhões e 2,8 trilhões) —  patamar superior ao de qualquer concorrente tradicional do setor. O mais próximo seria a Netflix, que possui um valor de mercado de US$ 409 bilhões (R$ 2,1 trilhões).

Fonte: aqui

Vi em algum lugar que o Youtube é também o "canal" mais assistido do mundo, superando a Netflix e as televisões tradicionais.  

Rir é o melhor remédio

 

Gosto de pagar minhas contas.

16 março 2026

Custo Assimétrico - 2

Publicamos uma análise sobre o custo assimétrico no conflito com o Irã em 2026. A guerra moderna enfrenta um grave problema contábil: um lado utiliza drones descartáveis de baixo custo e fácil produção, enquanto o outro recorre a sistemas de defesa que custam milhões por unidade.

Blake Oliver define esse cenário como uma 'margem operacional negativa'. Se o custo de defender é exponencialmente superior ao de atacar, o modelo de negócios do conflito torna-se insustentável. Sob a ótica do MacroBusiness, trata-se de uma guerra de exaustão econômica — embora eu prefira classificá-la como uma exaustão contábil. Além disso, o Irã tem conseguido interromper rotas comerciais estratégicas, o que gera inflação global e pressão política sobre seus adversários, sugerindo, segundo eles, uma vitória iraniana.

Em contrapartida, o Brookings Institution questiona quem realmente está vencendo. Embora os Estados Unidos e Israel tenham obtido êxitos operacionais, como a eliminação de lideranças, tais feitos não garantem, por si só, uma vitória estratégica. 

Mercado de previsão para diversificar carteiras

Tenho escrito muito sobre o mercado de previsão nas últimas postagens (aqui e aqui, por exemplo). Agora, um texto de Paul Kedrosky traz uma visão diferente sobre o tema. O foco são as apostas no Oscar e, segundo a informação apresentada, antes da cerimônia 100 milhões de dólares foram negociados em contratos. Somente na categoria de melhor filme o volume de apostas chegou a 30 milhões. É pouco, mas está crescendo.

Os apostadores usam dicas, como premiações anteriores e conversas de bastidores, para fazer seus lances.


O gráfico mostra as apostas para melhor ator, em que o então favorito Chalamet perdeu o favoritismo para Jordan quase na véspera da entrega do prêmio. Considerando que as votações foram encerradas no início do mês, o mercado fez uma correção bem rápida da projeção.

Mas o aspecto talvez mais importante do texto é que esses mercados estão atraindo a atenção de investidores por causa de uma palavra mágica: correlação. Tradicionalmente, quem investe em ações sabe que uma ação da empresa Alfa provavelmente terá correlação com a da empresa Beta. Desde que não seja uma correlação perfeita — algo muito raro na prática —, essa relação pode ajudar a reduzir o risco de uma carteira.

Correlação mais baixa é cada vez mais difícil de encontrar pelos investidores, em razão, entre outras coisas, da globalização dos mercados. Alguns investidores gostam de ter aplicações com correlação reduzida ou até negativa.

É aí que entra o mercado de apostas: trata-se de um investimento pouco correlacionado com ativos tradicionais.

Título sem risco tem risco


Nos modelos financeiros, o ativo livre de risco é algo abstrato. No processo de implementação desses modelos, como no CAPM, usa-se o título do governo como representação do ativo sem risco. Basicamente, ele estaria imune às crises, como guerras, depressão e desastres naturais.

Obviamente que esse porto seguro não existe, tratando-se de uma simplificação para fins de implementação prática dos modelos. Quando existem crises extremas, como uma guerra, os problemas dos títulos públicos aparecem e, com eles, o não cumprimento das obrigações, a inflação elevada ou simplesmente o default, ou seja, o não pagamento da dívida.

Existindo crise e o governo não tendo acesso a um mercado de crédito, o jeito é não efetuar o pagamento das dívidas. Entretanto, a crença trazida pelos modelos tende a subestimar os riscos existentes nesses títulos.

A figura mostra alguns desses momentos para o Reino Unido, entre 1729 e 2023.