Um texto da
Forbes A mudança climática figurou por muito tempo nos registros de risco corporativo como uma preocupação futura. Em 2026, esse enquadramento já não se sustenta. Pontos cegos climáticos passam, cada vez mais, a se materializar como passivos mensuráveis no balanço. Eles já estão remodelando valores de ativos, afetando a cobertura de seguros e gerando impactos de longo prazo na estabilidade financeira.
Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), riscos físicos do clima, como calor extremo, enchentes e tempestades, já provocam perdas econômicas diretas em diversos setores, sobretudo onde infraestrutura e cadeias de suprimentos foram concebidas para um clima mais estável. Esses impactos ocorrem em escala suficiente para afetar resultados, investimentos em capital e a qualidade de crédito das empresas.
Os mercados de seguros oferecem um dos sinais mais claros. De acordo com a S&P Global, seguradoras elevaram prêmios, reduziram coberturas ou se retiraram totalmente de regiões de alto risco diante do aumento das perdas relacionadas ao clima. Segundo a Munich Re, 2025 deixou claro como a mudança climática está ampliando riscos humanos, ambientais e financeiros no mundo.
Desastres naturais globais causaram cerca de US$ 224 bilhões em perdas, com US$ 108 bilhões cobertos por seguros, novamente acima do patamar de US$ 100 bilhões em perdas seguradas, mesmo com perdas totais abaixo da média dos últimos dez anos. As fatalidades chegaram a 17.200, número significativamente maior que em 2024.
As perdas foram dominadas por incêndios florestais, enchentes e tempestades severas, especialmente na América do Norte, enquanto o furacão Melissa devastou áreas da Jamaica e de outras partes do Caribe. Ásia-Pacífico e África apresentaram menor penetração de seguros, deixando a maior parte das perdas sem cobertura.
Cientistas citados pela Munich Re observam que 2025 esteve entre os anos mais quentes já registrados, reforçando que extremos impulsionados pelo clima estão se tornando mais severos e frequentes. Quando o seguro recua, os riscos retornam a famílias, empresas e governos, muitas vezes recaindo diretamente sobre os balanços.
Onde pontos cegos climáticos viram exposição financeira
Pontos cegos climáticos costumam surgir quando as empresas subestimam
a exposição física, confiam demais em parâmetros históricos ou não
submetem ativos e cadeias de suprimentos a testes de estresse frente a
cenários futuros.
Essas lacunas geralmente ficam fora dos modelos financeiros
tradicionais, o que faz com que os riscos permaneçam sem preço até
emergirem de forma abrupta como custos operacionais mais altos, baixas
contábeis de ativos ou perda de receita. Instalações expostas a
inundações que nunca foram redesenhadas, operações sensíveis ao calor
que perdem produtividade ou redes logísticas dependentes de regiões
vulneráveis ao clima podem converter riscos ambientais ignorados em
pressão financeira imediata.
Uma vez revelados, esses pontos cegos passam rapidamente de notas
explicativas a linhas do demonstrativo, reduzindo valores de ativos,
elevando exigências de capital e enfraquecendo balanços de maneira
difícil e cara de reverter.
Como as empresas estão fechando pontos cegos climáticos
Empresas que conseguem fechar pontos cegos climáticos estão migrando
de uma gestão reativa de riscos para decisões orientadas ao futuro. Em
vez de depender de padrões climáticos históricos, elas submetem ativos,
cadeias de suprimentos e planos de capital a testes de estresse com base
em condições futuras, permitindo que vulnerabilidades apareçam antes
que as perdas ocorram.
Essa abordagem ajuda a evitar baixas súbitas de ativos, lacunas de
seguro e interrupções operacionais que, de outra forma, atingiriam o
balanço sem aviso. Na prática, isso envolve redesenhar infraestrutura
para patamares mais altos de calor e inundação, diversificar
fornecedores para fora de regiões expostas ao clima e alinhar
investimentos de capital a trajetórias de transição críveis.
Quando o risco climático é incorporado à governança, à
estratégia e ao planejamento financeiro, a incerteza se torna
administrável. As evidências indicam, de forma crescente, que
empresas que antecipam impactos climáticos protegem melhor o valor de
seus ativos, estabilizam fluxos de caixa e evitam surpresas onerosas que
transformam riscos ignorados em passivos financeiros.
A
avaliação de ativos é outro ponto de pressão. Desastres relacionados ao
clima podem reduzir o PIB nacional em economias altamente expostas,
enquanto choques repetidos corroem o valor da infraestrutura e o espaço
fiscal.
Para as empresas, isso se traduz em baixas de ativos, redução da vida
útil e aumento dos custos de manutenção e adaptação, sobretudo nos
setores de energia, imobiliário, transporte e agricultura. A postergação
de ações para reduzir emissões eleva a probabilidade de mudanças
abruptas de política no futuro, aumentando o risco de ativos encalhados
em setores dependentes de combustíveis fósseis. Infraestruturas
intensivas em carbono construídas hoje podem enfrentar baixas aceleradas
à medida que regulações se endurecem e mercados mudam.
De forma crítica, empresas que não identificam nem divulgam riscos
materiais associados à mudança climática enfrentarão escrutínio
crescente de investidores, credores e reguladores. Pontos cegos
climáticos sinalizam, cada vez mais, falhas de governança, não
incerteza.
Organizações que não integram o risco climático à estratégia, ao
planejamento de capital e às divulgações estão despreparadas e
precificando mal o risco. Ignorar a realidade climática deixou de ser
neutro. É uma decisão de balanço, e os mercados começam a penalizá-la.
É interessante que os reguladores evitaram levar para o balanço a questão climática, mas a mesma está chegando sob a forma de passivo - como o texto enfatiza, mas também sob a forma de baixa de ativo. Mas ao contrário dos reguladores, que parecem desejar que todas as empresas reconheçam a questão climática, o foco aqui é efeito direto.