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03 janeiro 2026

Contabilidade e a Venezuela


No dia 3 de janeiro, os Estados Unidos realizaram um ataque militar na Venezuela e anunciaram a captura do presidente do país. Fiquei imaginando a situação hipotética de uma empresa com negócios na Venezuela e como seria a sua reação.

Em primeiro lugar, seria de se esperar que essa empresa já tivesse feito algum tipo de lançamento considerando a situação do país. Antes do dia de hoje, qualquer empresa que fizesse negócios com a Venezuela já conhecia o elevado risco envolvido. Se a contabilidade fosse adequadamente conservadora — ou, nos termos do IASB, prudente —, os ativos e passivos já estariam refletindo a situação do país fronteiriço.

Mas, para tornar a análise mais interessante, suponha que isso não tenha sido feito. Se a empresa for de capital aberto, deveria divulgar um fato relevante, uma vez que o evento pode influenciar a análise dos resultados. Seria provável, contudo, aguardar um pouco antes de efetuar lançamentos contábeis. Caso a empresa não seja de capital aberto, um comunicado — no estilo de um fato relevante — dirigido aos principais fornecedores, clientes e investidores, inclusive financiadores, poderia ser importante.

Nesse texto, deveriam ser indicados os riscos para os negócios com a Venezuela e os potenciais efeitos sobre as operações, inclusive quanto à continuidade. É natural esperar frases tranquilizadoras, do tipo: “a administração está acompanhando o desenrolar dos acontecimentos”.

Constatados efeitos sobre as operações, a empresa deveria reconhecer perdas no ativo, com o lançamento de uma despesa na demonstração do resultado e a contrapartida de redução do ativo. Existindo valores a receber ou valores a pagar, o evento pode provocar uma desvalorização da moeda ou até mesmo uma valorização, dependendo de como o mercado irá reagir. Nesse último caso, o mais adequado é aguardar um pouco mais, a fim de verificar se de fato haverá uma movimentação relevante na taxa de câmbio.

Além disso, se a empresa tiver contratos com entidades venezuelanas — empresas ou clientes —, estes podem ser suspensos ou rescindidos, com impacto sobre provisões e baixas. Finalmente, caso o evento demande da empresa a realização de despesas adicionais, como a necessidade de realocar pessoal ou alterar a logística, haverá o reconhecimento correspondente de despesas.

Como estamos no início do ano e muitas empresas encerram o exercício em 31 de dezembro, trata-se de um evento subsequente, que deveria constar nas notas explicativas.

Imagem: site do Estadão no momento da publicação do post.  

02 janeiro 2026

Conhecimento, confiança e consenso

Haverá alguma ligação entre conhecer bem um assunto e ser uma pessoa questionadora? Nos últimos anos parece que cresceu o número que questionam verdades simples, como o fato da Terra não ser plana. Essas pessoas acreditam realmente nessas coisas, mesmo diante de inúmeras constatações. Mas afirmar com convicção que nosso planeta é plano deveria exigir conhecimento e especialização, que muitas vezes faltam as incrédulos. 

Mas parece que pessoas que questionam as verdades provadas pela ciência são menos informadas.  Um artigo (via aqui) fez recentemente uma ligação interessante para investigar se a oposição ao consenso estaria relacionada com o excesso de confiança no próprio conhecimento. 

Os pesquisadores fizeram uma série de perguntas sobre temas que estão consolidados pela ciência. Em uma das questões eles perguntaram se o centro da Terra é muito quente. O entrevistado tinha que dizer sim ou não e, nesse caso, a resposta é sim.  Ao final, os cientistas tinha uma visão clara do grau de conhecimento do entrevistado. Na outra fase da pesquisa, tentou-se medir o grau de confiança nas respostas. E as pessoas com baixa pontuação na primeira parte tendem a expressar mais confiança na segunda parte da pesquisa. 


Ou seja, as pessoas com menor conhecimento objetivo acreditam que sabem mais. Quem respondeu que o centro da Terra não é muito quente acreditava realmente nisso, mesmo não sendo especialista.  Mais do que isso, estão dispostos a apostar nas suas respostas. 

Para essas pessoas, fornecer mais informação não parece funcionar com essas pessoas. E agora chegamos finalmente na contabilidade. Um pressuposto de um regulador contábil (Iasb, Fasb etc) que é podemos ajudar as pessoas fornecendo mais informação. O problema aqui não é a existência ou não da informação, mas a confiança excessiva no conhecimento do próprio usuário. 

Uma alternativa é usar normas sociais e figuras reconhecidas - um influenciador (aqui) seria o caso (?) , aliado a um contexto institucional. 

 

Norma de arrendamento foi mais cara do que previsto


O Financial Accounting Standards Board (FASB), o responsável pela emissão de normas contábeis nos Estados Unidos, concluiu que a implementação da norma de arrendamentos (ASC 842) gerou custos maiores do que o previsto para as empresas. É bom lembrar que a norma de arrendamento foi inicialmente planejada para ser desenvolvida em conjunto com o Iasb, a IFRS 16, no início do século, pelo acordo de Norwalk. 

Ao avaliar o impacto desde sua adoção, o conselho identificou que muitos preparadores enfrentaram desafios significativos com sistemas, processos e estimativas exigidos pela norma, especialmente na coleta e manutenção de dados de arrendamentos e na avaliação de opções de extensão e término de contratos. Esses esforços implicaram custos adicionais de tecnologia, treinamento e consultoria. 

Imagem gerada pelo Gemini 

Muita publicação é bom ou ruim?


Eis uma história comum na ciência atual: 

Durante muitos anos, o prestigiado periódico Philosophy & Public Affairs publicou cerca de 14 artigos revisados por pares por ano. Assim, sua pequena equipe voluntária, formada por acadêmicos renomados, ficou chocada ao descobrir que sua editora, a Wiley, estava exigindo um aumento significativo na produção, chegando, em determinado momento, a demandar 35 novos artigos em apenas 60 dias.

Em vez de comprometer o processo de revisão por pares e acelerar a publicação de trabalhos de baixa qualidade, a então editora-chefe Anna Stilz, da Universidade da Califórnia em Berkeley, liderou uma revolta que culminou na renúncia coletiva de toda a equipe editorial e do conselho da revista.

“A Wiley me disse que, se eu não publicasse mais, não teria um periódico por muito tempo. Essas conversas foram muito hostis”, afirmou Stilz, ao explicar as renúncias em massa. “Eu queria oferecer aos leitores trabalhos de alta qualidade. Nós éramos seletivos.”

O artigo sustenta que esse fenômeno representa uma ameaça à qualidade da pesquisa científica. Não sei se concordo integralmente, pois o crescimento do número de artigos publicados anualmente decorre não apenas dos incentivos à publicação, mas também da maior facilidade do processo, em função dos instrumentos de que dispomos hoje. Sem um computador, realizar uma regressão era um verdadeiro martírio; com ele, a regressão pode ser feita em poucos segundos. É evidente que, em um contexto de economia da atenção, muitas pesquisas acabarão recebendo pouquíssimas citações. Mas isso é necessariamente algo ruim?

O problema central parece residir em práticas como a atuação de periódicos predatórios ou o fatiamento de pesquisas (salami slicing), e não propriamente no aumento do volume de produção científica.

Transferência em dinheiro e transferência em espécie


Eis o resumo de uma pesquisa importante para as políticas públicas: 

Estimamos e comparamos os impactos de transferências em dinheiro e transferências em espécie sobre o consumo de bens de tentação na mesma população e exploramos as implicações normativas desses efeitos. Utilizamos duas décadas de dados da Carolina do Sul sobre benefícios em dinheiro do Supplemental Security Income (SSI) e benefícios em espécie do Supplemental Nutrition Assistance Program (SNAP), vinculados a dados detalhados sobre o uso de serviços de saúde por adultos. Nossa estratégia empírica examina mudanças nos resultados nos dias imediatamente posteriores ao pagamento mensal programado de cada transferência. As visitas a prontos socorros por uso de drogas e álcool aumentam entre 20% e 30% após o recebimento do SSI, mas não reagem ao recebimento do SNAP. O preenchimento de prescrições médicas para novas enfermidades também aumenta após o recebimento do SSI, mas não responde ao SNAP. Motivados por esses resultados de não fungibilidade, desenvolvemos um modelo de um planejador social paternalista que escolhe a combinação entre transferências em dinheiro e SNAP em um programa de transferências com orçamento fixo, quando os consumidores apresentam problemas de autocontrole e podem recorrer à contabilidade mental. Mostramos que a participação ótima do SNAP é estritamente positiva e fracamente crescente à medida que o autocontrole piora. Além disso, na presença de heterogeneidade em autocontrole e contabilidade mental, o planejador pode optar por utilizar o SNAP mesmo quando dispõe de um imposto pigouviano uniforme sobre o bem de tentação. 

Isso é interessante, pois tinha a sensação que transferência em dinheiro promovia flexibilidade na decisão do gasto, sendo mais interessante para fins de políticas públicas. O debate recente do uso do dinheiro do bolsa família poderia incorporar a questão, tomando o devido cuidado de lembrar que benefícios em espécie tem problemas de desvio, corrupção e superfaturamento.  

Expedientes práticos

O resumo: 


O International Accounting Standards Board (IASB) introduziu opções contábeis simplificadas, denominadas “expedientes práticos” (practical expedients), nas Normas Internacionais de Relato Financeiro (IFRS). Esses expedientes permitem que os preparadores se desviem dos princípios das IFRS ao contabilizar determinados eventos econômicos. Documentamos a ocorrência dessas simplificações contábeis nas normas IFRS, bem como a extensão de sua aplicação e divulgação por grandes empresas europeias listadas entre 2018 e 2022. Nossos resultados indicam que as empresas aplicaram e divulgaram os expedientes práticos de forma relativamente consistente ao longo do tempo, embora exista variação substancial entre e dentro de países e setores. Encontramos evidências sistemáticas limitadas de perda de informação decorrente do uso desses expedientes. No entanto, empresas que divulgam explicitamente a não aplicação dos expedientes tendem a apresentar menor relevância informacional do lucro líquido reportado. Evidências de entrevistas indicam que os expedientes práticos facilitam o processo de elaboração das normas IFRS, na medida em que oferecem simplificações que reduzem os custos dos preparadores. Ainda assim, há tensões quanto à possível redução dos benefícios para os usuários (comparabilidade prejudicada, menor compreensibilidade e maior dependência de julgamentos de materialidade). Também há preocupações de que, embora os expedientes práticos tenham apresentado até agora uma relação custo–benefício favorável, uma aplicação mais ampla dessas regras possa desafiar a primazia de um processo normativo baseado em princípios.

 Imagem gerada pelo Gemini

Contabilidade dos Incas do Monte Sierpe


Eis o resumo:

Estendendo-se por 1,5 km e consistindo em aproximadamente 5200 buracos precisamente alinhados, Monte Sierpe, no sul do Peru, é uma construção notável que provavelmente data, no mínimo, do Período Intermediário Tardio (1000–1400 d.C.) e que continuou a ser utilizada pelos incas (1400–1532 d.C.). No entanto, sua função permanece incerta. Neste estudo, os autores apresentam novas análises de imagens de drones e amostras de sedimentos que revelam padrões numéricos em sua disposição, possíveis paralelos com os registros incas em cordões com nós (quipus) e a presença de cultivos agrícolas e plantas silvestres. Em conjunto, esses elementos levam os autores a argumentar que Monte Sierpe funcionava como um sistema indígena local de contabilidade e troca. 

Indigenous accounting and exchange at Monte Sierpe (‘Band of Holes’) in the Pisco Valley, Peru - Jacob Bongers et al. Antiquity, via aqui

A imagem é daqui