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Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens
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08 maio 2021

Políticos importam com o que você pensa

Pelo menos na Espanha, sim. 

Felizmente, você não precisa mais seguir fisicamente os políticos (ou pedir sua permissão) para saber tudo isso. Os políticos fornecem todos esses dados voluntariamente ao interagir com o público nas redes sociais. Entre 2016 e 2019, coletamos 1,5 milhão de tweets escritos por parlamentares espanhóis e as reações do público a esses tweets. Para descobrir quais tópicos os parlamentares falavam em cada um de seus tweets (ler um por um não era uma opção), usamos inteligência artificial. Para nossa surpresa, o algoritmo de aprendizado de máquina era realmente mais preciso do que os assistentes de pesquisa que contratamos inicialmente. Para quantificar as reações dos cidadãos, usamos o número de "retuítes" e "curtidas" de cada tweet recebido.

Leia mais aqui.

Eis um gráfico interessante:
As questões de gênero são mais importantes para as mulheres que estão na política (vermelho) do que para os homens (verde). 

Pensando nas consequências do feedback dos cidadãos no discurso dos políticos para além das questões de gênero, estamos preocupados que isso possa criar polarização em diferentes dimensões. Por exemplo, um estudo recente dos Estados Unidos mostrou que os políticos conservadores superestimam consistentemente o quão conservadores são os eleitores porque cidadãos muito conservadores são mais ativos no contato com seus representantes (aqui). Além disso, pensando em quem interage com os políticos no Twitter, sabemos que são pessoas com opiniões políticas mais extremas do que o eleitor médio (aqui), o que é potencialmente problemático. Já que os políticos usam a mídia social para moldar sua percepção do eleitorado (aqui), percebem um mundo mais polarizado do que realmente é.

09 fevereiro 2021

Política e Doação

Há um mês, um grupo de pessoas invadiu o Capitólio, em Washington, Estados Unidos. O que aconteceu ali fez com que as empresas fossem mais cautelosas no processo de doação de dinheiro para os políticos. Talvez isto seja somente momentâneo, mas o NYTimes (via newsletter) observa que centenas de grandes empresas pararam suas doações para legisladores, especialmente aqueles que motivaram a invasão. 

A história da relação entre empresa e política nos Estados Unidos é bastante antiga. Em 1907, a Lei Tillman  proibia as contribuições diretas das empresas para os candidatos. Em 1971, uma lei sobre campanha eleitoral, posteriormente emendada em 1974, por conta do Watergate, obrigou a divulgação dos doadores, criou limites de valores para doação e para as despesas. Também exigiu relatórios, que ainda são obrigatórios nos Estados Unidos. Esta lei, denominada de FECA, foi questionada na Suprema Corte, cinco anos depois de ser aprovada. Em 2010, a mesma corte permitiu que empresas pudessem “falar politicamente”, arrecadando fundos 

Mas a invasão do Capitólio cobrou das empresas uma explicação da arrecadação de fundos, especialmente através de um mecanismo chamado PAC. A Microsoft é uma das empresas; a empresa de software anunciou que irá suspender doações para os políticos que apoiaram a invasão. Parece também existir um movimento, por parte de alguns acionistas, para maior divulgação das doações. 

Imagem: aqui

20 novembro 2019

Distração política

Já se desconfiava disto: os políticos fazem anúncios polêmicos de forma estratégica, para evitar o debate e questionamento público. Neste caso, os atos que podem gerar publicidade negativa são realizados - "coincidência" - juntos com outros eventos importantes que provocam a distração do público e da imprensa.

A pesquisa foi realizada nos Estados Unidos, com o presidente Trump. Um resumo pode ser encontrado aqui.

25 abril 2019

Contabilidade e Eleições: Demonstrações de 2018 - Parte 4


  • Usando os dados de algumas demonstrações com exercício findo em 31/12/2018, o blog fez uma seleção de trechos onde alguns dos fatos que ocorreram no ano foram considerados por parte das empresas. 
  • Começamos com as eleições e na parte 1 já demos os parabéns para as empresas que não ignoraram o fato político. 
  • Na segunda parte comentamos como algumas empresas aproveitaram da eleição. 
  • Na parte 3 comentamos que algumas empresas fizeram comentários otimistas e poucas foram pessimistas/realistas. 


Agora vamos destacar as empresas que enfatizaram os efeitos da eleição no desempenho da empresa ou da economia. A Moinho Paulista enfatiza o efeito na economia:

O ano de 2018 foi marcado por eventos extraordinários  como  a  greve  dos caminhoneiros,  importante  desvalorização cambial, grandes aumentos nos preços de trigo e eleições gerais, que afetaram o crescimento da economia brasileira. 

Achei bem interessante a redação da Mills Estruturas:

Outros fatores que contribuíram para os desafios de 2018 eram exógenos à nossa indústria com ano de eleição presidencial, bem como com uma greve de caminhoneiros no meio do percurso. 

A Votorantim o efeito sobre o setor:

O  gradual  processo  de  recuperação  da  economia  nacional,  em  ritmo  abaixo  do  esperado  após  a  greve  dos caminhoneiros  e  as  incertezas  decorrentes  das  eleições,  impactou  as  vendas  de  cimento  no  Brasil

A BB Investimento foi mais “econômica”:

Adicionalmente,  as  incertezas  atreladas  ao  processo  eleitoral  tiveram  impactos  adversos  sobre  o  nível  de  investimentos  e  as  expectativas  das  famílias.

A Alupar foi mais genérica:

No cenário doméstico, o ano foi impactado pela greve dos caminhoneiros e pelas incertezas das eleições presidenciais.

e a Restoque bem específica, comentando sobre seu resultado:

Alinhado  com  esse  resultado,  a  Companhia  obteve  um  lucro  líquido  de  R$  103,5  milhões, apesar do impacto não recorrente de R$ 18,2 milhões de variação cambial ligado ao cenário de maior volatilidade neste ano de eleições. 

A Concessionária Auto Raposo Tavares (e a Invepar, pois os trechos são iguais) tratou do efeito sobre uma variável, o fluxo de veículo:

Ainda de acordo com a ABCR, o desempenho do fluxo de veículos foi prejudicado pelos choques negativos que afetaram a economia no ano de 2018, como a indefinição política causada pelas eleições, a greve dos caminhoneiros e pela conjuntura internacional menos favorável às economias emergentes. 

O Iguatemi já foi “heróico”. Diante dos problemas, que incluiu as eleições, mesmo assim eles foram capazes de entregar bons resultados:

O ano de 2018 foi desafiador. Apesar de uma economia ainda fragilizada que cresceu menos do que se esperava  no  início  do  ano  e  de  alguns  eventos  pontuais  que  trouxeram  bastante  volatilidade  (Copa  do mundo, greve dos caminhoneiros, eleições) fomos capazes de entregar um crescimento de 18% do nosso Lucro Líquido e seguir na trajetória de redução do endividamento da companhia. 

A equação “eleição = incerteza” também foi destacada pela Coelba:

Em 2018, a economia brasileira foi marcada pelo baixo crescimento e por grandes incertezas geradas tanto por eventos internos quanto externos. Externamente, a guerra comercial entre EUA e China e o aumento da taxa de juros americana pelo FED desaceleram a economia mundial. Internamente, a greve dos caminhoneiros e as incertezas sobre as eleições frustraram as expectativas de crescimento. 

E na Telefônica:

O ambiente doméstico em 2018 foi marcado por incertezas políticas em função da eleição presidencial, enquanto o ambiente externo tornou-se gradativamente menos favorável às economias emergentes, com a normalização da política monetária nos países avançados e em meio a tensões comerciais entre EUA e China. 

Algo na mesma linha da Notre Dame (e BCBF Participações, já que os trechos são iguais)

Apesar da instabilidade política gerada pelas eleições em 2018, o Brasil assistiu a uma continuidade no processo de melhoria dos principais indicadores macroeconômicos, todavia longe do potencial de crescimento do país. 

A Slaviero, apesar de fazer um vinculação com as eleições, foi menos simplista:

Ao longo do ano de 2018, o cenário político permaneceu agitado em decorrência do cenário das eleições Presidenciais, Governadores e Congresso Nacional, bem como a continuidade de denúncias envolvendo os poderes executivo, legislativo e algumas companhias e órgãos da administração pública. Esses acontecimentos trouxeram incertezas no cenário econômico prejudicando assim o desenvolvimento do País.

Na mesma linha, a SER faz uma análise onde as eleições é uma parte da equação:

Já no segundo semestre do ano, o setor de ensino superior também apresentou retração de demanda, novamente em função de um desempenho anêmico da economia a partir de junho, dessa vez por conta de eventos como a greve dos caminhoneiros, Copa do Mundo e eleições para presidente da república e governadores dos estados, eventos extemporâneos que acabaram por reduzir a demanda durante o segundo semestre do ano. 

A Estácio foi concisa, mas também no mesmo sentido:

Adicionalmente, outros fatores como a eleição presidencial e a greve dos caminhoneiros contribuiu para restringir o avanço da recuperação econômica.

Ainda na linha “incerteza = eleição”, um trecho da Weg parece indicar que a recuperação lenta foi em decorrência das eleições:

No Brasil, apesar dos juros e da inflação estarem nos níveis mais baixos dos últimos anos, o desempenho econômico foi marcado por uma recuperação lenta, influenciados principalmente pelas incertezas na política com as eleições presidenciais e a paralisação dos caminhoneiros, que afetaram a produção, o consumo e o PIB. 

O Banco Rendimento foi dramático na sua análise:

O ano de 2018 foi marcado por extrema volatilidade. Apesar de ter começado com uma certa estabilidade e prometendo a retomada do crescimento depois de um longo período de recessão, as denúncias de corrupção, a greve dos caminhoneiros e as eleições gerais no segundo semestre praticamente paralisaram a economia nacional.

A Ultrapar faz uma análise um pouco diferente. Parecia que o país estava bem até meados do ano e depois da greve dos caminhoneiros ocorreu redução no crescimento até as eleições.

Esse problema, aliado às incertezas das eleições majoritárias, levou o Brasil a ter um crescimento apenas moderado em 2018. O ano de 2018 foi marcado pela greve dos caminhoneiros, que paralisou o país e impactou diversos setores da economia, reduzindo a intensidade da recuperação da atividade econômica brasileira observada até meados de maio, com reflexos negativos nos índices de confiança dos consumidores e dos empresários, que voltaram a apresentar crescimento após a definição das eleições nacionais.

Para terminar esta postagem, a única empresa que enxergou a polarização dos sentimentos por conta das eleições foi a T4f:

No Brasil, fomos afetados pelos acontecimentos da Greve dos Caminhoneiros, seguido pela Copa do Mundo, e, no último semestre, pela forte polarização das eleições, que concentraram as atenções da mídia e, consequentemente, do nosso público. (...) É importante lembrar que, conforme explicamos anteriormente, em 2018 fomos impactados por uma redução na demanda por ingressos de música ao vivo a partir de junho, que acreditamos ser consequência dos eventos da Greve dos Caminhoneiros (Brasil), seguida pela Copa do Mundo, a crise na Argentina e pela forte polarização das eleições no Brasil.

Contabilidade e Eleições: Demonstrações de 2018 - Parte 3


  • Analisamos as demonstrações contábeis de 2018 e como as empresas trataram as eleições
  • Na postagem anterior, comentamos três casos de empresas que "aproveitaram" das eleições
  • Na primeira postagem informamos que a maioria das empresas ficaram silenciosas sobre o assunto

É interessante notar que encerradas as eleições qual foi a percepção das empresas sobre o novo cenário. Algumas empresas indicaram que as incertezas iriam continuar. Outras, que encerrado o processo teríamos um novo ciclo de otimismo.

Entre os otimistas, algumas entidades onde o governo atua fortemente, como as filiais do BB:

BB Investimento - Passadas  as  eleições,  ocorreu  uma  nítida  recuperação  dos  níveis  de  confiança  de  consumidores  e  empresários,  tendo  em  vista  o  comprometimento do governo eleito com as reformas estruturais necessárias para reequilibrar as contas públicas e, consequentemente, colocar o País de volta numa trajetória de crescimento sustentado. 

BB Seguridade - Tal desempenho é em grande parte justificado pela retração de 7,7% nas contribuições de previdência aberta, segmento que foi impactado pelo ambiente de indefinição que perdurou até as eleições de outubro de 2018 e limitou a captação para produtos de longo prazo, além de um nível de desemprego ainda elevado. 

Brasilprev - Após as eleições, os pronunciamentos do governo eleito aumentaram a percepção de que as reformas, em especial da previdência, poderão ter uma tramitação mais acelerada, buscando a melhoria das condições fiscais do Brasil e boas perspectivas de crescimento econômico sustentado.

Algumas entidades apresentaram uma análise positiva para os próximos dias (após 31/12). Eis o caso da Metalfrio:

Tendo navegado com sucesso através da turbulência de múltiplas eleições presidenciais em muitos dos nossos principais mercados durante 2018, esperamos padrões de demanda mais normalizados nos próximos trimestres. Continuamos atentos aos desafios externos, como a volatilidade cambial e as pressões inflacionárias, que provavelmente continuarão no curto prazo, bem como as tensões comerciais atuais e os desdobramentos macroeconômicos que causam incerteza no mercado.

[Adorei o "tendo navegado"]

O Bancoob faz uma longa análise, mas com um enfoque otimista após a eleição. A entidade chega a usar o termo otimismo:

A inflação seguiu baixa, a taxa de juros nos mínimos históricos, houve recuperação moderada do crédito, as contas externas permaneceram sólidas, a taxa de desemprego apresentou redução modesta e os índices de confiança melhoraram, principalmente após o desfecho do processo eleitoral. (...) Com o término do processo eleitoral houve uma melhora dos indicadores, embora de forma desigual. (...) Em suma, o ano de 2018 foi marcado por maior instabilidade nos mercados e aumento da apreensão entre os agentes econômicos, seja por fatores externos ou internos. A piora do ambiente externo e a tensão pré-eleitoral acentuaram a volatilidade e pressionaram os ativos do país, movimento parcialmente revertido apenas com o desfecho das eleições. Embora persistam dúvidas quanto à governabilidade durante este novo mandato, a visão de continuidade da agenda liberal e do apoio às reformas necessárias – principalmente de cunho fiscal – proporcionou a melhora da confiança da sociedade na parte final do ano. O maior otimismo, seja de consumidores, empresários e investidores, representa um importante ponto de partida para 2019.

A empresa BRMalls acredita que após as eleições haverá expectativas de melhorias estruturais:

O ano de 2018 também se mostrou mais um ano desafiador para o varejo, com eventos atípicos como a greve dos caminhoneiros e a incerteza das eleições, mas terminou com expectativas de melhorias estruturais importantes para os próximos anos. 

O mesmo ocorreu com a Santos Brasil. Sua análise associa o otimismo com a nova equipe econômica anunciada:

Em 2018, o período que antecedeu a eleição presidencial foi marcado por incertezas políticas que impactaram o rumo da economia e, especialmente no nosso negócio, em conjunto com uma maior volatilidade cambial, arrefeceram a movimentação e armazenagem de contêineres então estimadas para os meses de novembro e dezembro. Com o fim das eleições e a divulgação das equipes que formariam os pilares do novo Governo Federal, principalmente a econômica, começou a aflorar um maior otimismo em relação ao futuro da economia doméstica. 

Já a Telefônica deixa implicito que o motivo do otimismo foi o candidato que saiu vitorioso nas urnas:

No ambiente doméstico, o ano foi marcado por dois grandes desafios: a greve dos caminhoneiros, que paralisou diversos segmentos no segundo trimestre e afetou a atividade econômica, e, em seguida, a eleição presidencial, que gerou elevadas incertezas diante de uma disputa polarizada da qual o candidato de viés liberal, Jair Bolsonaro, saiu vitorioso. Isso foi positivo para as perspectivas de continuidade das reformas econômicas ao longo deste novo ciclo presidencial.

Da mesma forma, a EDP faz uma associação entre um otimismo e a vitória de Bolsonaro nas urnas:

No cenário político nacional, as eleições presidenciais, que culminaram com a vitória de Jair Bolsonaro, trouxeram fôlego e expectativas para retomada do crescimento do país. 

A Cielo também indica redução de incerteza após as eleições:

No campo econômico e político, tivemos o início de um processo gradual de retomada do crescimento, com redução dos níveis de incerteza, passadas as eleições presidenciais. 

A Fábrica Carioca de Catalisadores também é otimista, mas associa uma recuperação com o fim do processo político eleitoral:

Em 2018, diante do cenário macroeconômico, no Brasil, a atividade econômica retomou a trajetória de recuperação, embora ainda lenta, mais com a redução dos níveis de incerteza, passadas as eleições presidenciais.

Mas existem exceções. Destaco em particular duas empresas. A TOTVS reconhece a popularidade dos novos governantes, mas vê desafios de um congresso com muitos partidos e coloca o termo nova política entre aspas, como se duvidasse da sua existência. Nós também.

Passadas as eleições, o Brasil entra em uma nova fase política, caracterizada pela renovação no ambiente legislativo, intensa fragmentação partidária e a tentativa de implementação de uma ‘nova política’ pelo Executivo. Embora com alta popularidade, a governabilidade de Jair Bolsonaro pode enfrentar desafios com os mais de 30 partidos no Congresso. 

Outra empresa que está receosa é a Embraport:

As expectativas foram piorando com a economia mostrando um ritmo mais fraco do que o esperado, sobretudo, pela incerteza com o futuro político do país e qual seria a agenda econômica adotada pelo novo Governo. A greve dos caminhoneiros também contribuiu para a piora da previsão de crescimento da economia no ano, que recuou para 1,3%.  (...) Após a vitória de Bolsonaro, chegou a recuar abaixo de R$ 3,70, mas termina o ano ao redor de R$ 3,90 em meio às incertezas com o xadrez político e o cenário externo. 

A Claro apresentou um texto isento. Mas associou economia com baixo crescimento e eleição. Pelo menos até setembro:

O país começou 2018 com a economia em lenta recuperação e expectativas positivas, apesar dos temores por se tratar de ano de eleição presidencial. As expectativas, no entanto, foram piorando devido à incerteza com o futuro político do país e à insegurança de qual seria a agenda econômica de um novo governo. Essa lentidão na recuperação da economia manteve-se ao longo do ano, agravada pela greve de caminhoneiros, que praticamente paralisou o país no primeiro semestre. Só a partir de setembro é que a corrida presidencial começou a demonstrar qual seria a tendência mais provável do desfecho eleitoral. 

Contabilidade e Eleições: Demonstrações de 2018 - Parte 2


  • Pesquisamos as demonstrações contábeis de 2018 para ver como as empresas trataram as eleições
  • Nesta postagem, mostramos três casos de empresas de "aproveitaram" as eleições

Usando os dados de algumas demonstrações com exercício findo em 31/12/2018, o blog fez uma seleção de trechos onde alguns dos fatos que ocorreram no ano foram considerados por parte das empresas. Começamos com as eleições e na parte 1 já demos os parabéns para as empresas que não ignoraram o fato político.

Nesta segunda parte gostaríamos de destacar as empresas que “aproveitaram” as eleições de alguma forma. Este é o caso da Votorantim, da TOTVS e da Burguer.

A Votorantim aproveitou o seu nome, que começa com Voto, e o fato de estar fazendo 100 anos, para criar uma campanha de voto consciente:

Várias ações foram promovidas em 2018 para celebrar os 100 anos da Votorantim. Como o centenário coincidiu  com  um  ano  de  eleições  gerais  para  o  Brasil,  a  Votorantim  decidiu  reforçar  seu  papel  de  empresa  cidadã  e  apoiou  o  voto  consciente,  por  meio  da  plataforma  “Guia  do  Voto”,  que  inclui  um livro sobre o processo eleitoral e as funções de cada cargo eletivo, e ainda um site e aplicativo para fomentar,  de  forma  ideologicamente  neutra  e  apartidária,  a  reflexão  e  a  consciência  dos  eleitores  no processo de escolha dos candidatos. (...) O  ano  de  eleições  gerais  do  Brasil,  marcadas  por  uma  renovação  importante  de  eleitos  e  partidos,  coincidiu com o de nosso centenário. A Votorantim sempre foi muito convicta de seu papel cidadão e  por  isso  promoveu  uma  campanha  publicitária  em  favor  do  voto  consciente.  Aproveitando  o  fato  de  que  “Votorantim”  tem  no  início  do  seu  nome    a  palavra  “voto”,  criamos  o  mote  “Eu  voto”  e  o utilizamos  em  temas  que  são  essenciais  para  o  País,  como  a  educação,  a  natureza  e  as  pessoas.  Além da campanha publicitária, desenvolvemos o “Guia do Voto”, um aplicativo com conteúdo voltado para o exercício da cidadania.

A TOTVS também fez uma campanha sobre o voto:

2018 foi um ano importante para a democracia brasileira, com intensa participação e reflexão social sobre a política e o futuro da nação, com as eleições presidenciais. Neste período, sendo a TOTVS um relevante ator do setor brasileiro de tecnologia, não se manteve alheia às discussões e buscou estimular o engajamento cidadão de seus profissionais, instigando a todos, através da campanha #VOTOCONSCIENTE, quanto ao seu papel neste processo de construção de uma sociedade melhor.

Finalment, a BK Brasil também usou as eleições para suas campanhas:

Entre os destaques estão a campanha “Whopper em Branco”, realizada durante as eleições presidenciais, e a campanha do “Saiba a Diferença”, que mostrou a diferença entre preconceito e opinião.

Contabilidade e Eleições: Demonstrações de 2018 - Parte 1


  • Apresentamos várias postagens sobre como as empresas comentaram sobre as eleições de 2018 nas suas demonstrações contábeis
  • Nesta postagem, destacamos que a maioria sequer mencionou este fato

As demonstrações contábeis devem procurar relatar o que ocorreu com uma determinada empresa. Entre as informações prestadas existem possibilidades da gestão informar como o ambiente externo afetou o desempenho e algumas das decisões tomadas.

Usando os dados de algumas demonstrações com exercício findo em 31/12/2018, o blog fez uma seleção de trechos onde alguns dos fatos que ocorreram no ano foram considerados por parte das empresas.

Vamos começar com as eleições presidenciais. Este é um assunto delicado, já que as empresas tendem a evitar tomar partido de uma determinada corrente. Mesmo assim, algumas empresas dedicaram algumas linhas ao assunto. Em alguns casos a palavra foi citada, mas associada a eleição do Conselho de Administração ou outro assunto interno. Deixamos de lado isto, assim quando aparece um termo associado a “escolha”.

É importante salientar que as empresas citadas estão de parabéns. Ignorar um fato político tão relevante é uma atitude ruim. Ser genérico, falando em “incertezas” também não ajuda, já que sempre teremos incertezas no cenário econômico e político. Esta foi a atitude da maioria das grandes empresas brasileiras que divulgaram balanço: esconder o fato “eleição” como se não tivesse existido. E corresponde também a uma das principais conclusões que chegamos ao olhar as demonstrações contábeis.

Um caso curioso. O Santander Capitalização (assim como a Evidence Previdência) não falou das eleições no Brasil. Mas falou das eleições na Argentina. Aparentemente este fato é mais relevante que as nossas eleições. Veja o trecho:

Contudo, o Banco pondera que o ambiente internacional ainda deverá ser fonte de preocupação, com novos eventos importantes já programados e com potencial de adicionar nervosismo aos mercados, tais como a conclusão do processo de saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) e a eleição presidencial na Argentina. Nesse contexto, o Santander acredita na possibilidade de que o ambiente internacional acabe se sobrepondo levemente ao quadro doméstico e provoque elevação branda do risco-país. 

26 março 2019

Meritocracia e Política


  • Apesar da maioria dos regimes políticos serem meritocráticos, as conexões familiares ainda são relevantes na política
  • 12% dos líderes mundiais possuem laços de sangue ou de casamento com um político relevante
  • A meritocracia não é o único critério no sucesso político

As dinastias ainda existem no mundo. Farida Jalalzai e Meg Rincker, professoras de ciência política nos Estados Unidos, usaram mais de mil políticos em todo o mundo e concluíram que 12% dos líderes mundiais tiveram origem em uma família de políticos. Isto inclui laços de sangue ou casamento. Entre os exemplos, George Bush, Justin Trudeau, Cristina Kirchner, entre outros.

O poder é, por natureza, herdado nas monarquias. Mas mesmo nas democracias - onde os cidadãos podem escolher seus líderes em eleições livres e justas - pertencer a uma família política é uma vantagem significativa. Ele dá aos candidatos o reconhecimento do nome, alguma experiência política e melhor acesso a aliados e recursos ao concorrer ao cargo.

Ao todo, 11 dos 88 líderes latino-americanos que ocuparam cargos de 2000 a 2017 estavam relacionados a outros presidentes. Jorge Luís Batlle, do Uruguai, tinha três parentes diferentes que ocupavam a presidência antes dele.

Como a política é dominada por homens, a presença de algumas mulheres é interessante. Dos nomes estudados, 66 eram mulheres.

As mulheres que atingem o mais alto cargo são muito mais propensas a pertencer a famílias políticas do que seus colegas do sexo masculino.

Dezenove das 66 mulheres executivas da nossa amostra tinham conexões familiares com a política - 29%. Cem dos 963 homens que estudamos - pouco mais de 10% - tinham laços familiares.

Isso sugere que os laços familiares são particularmente importantes para as mulheres entrarem na política.

Em nossa análise, o endosso de um poderoso parente do sexo masculino - ele próprio, de preferência, um ex-presidente ou primeiro-ministro - ajuda significativamente as mulheres a estabelecer sua credibilidade junto aos eleitores e membros de política interna.

A principal conclusão:

Este estudo certamente questiona a noção de que a política é apenas uma meritocracia.

Mas considere isto: 71% de todos os líderes mundiais femininos em nosso estudo alcançaram o mais alto cargo sem nenhuma conexão familiar com a política. Isso inclui a croata Kolinda Grabar-Kitarovic [foto] , que é filha de açougueiros. Ela é a primeira mulher a governar a Croácia

10 fevereiro 2019

Ladainha de candidato

Pesquisando o arquivo da revista O Cruzeiro, encontrei este trecho:

Ladainha de candidato

Cirillo Rodrigues, candidato a vice-prefeito de Itajubá, Minas, fêz distribuir a seguinte ladainha eleitoral:
Cirillo, itajubense, ruralista, homem honesto, filho obediente, espôso modêlo, pai exemplar, bom chefe de família, religioso, caridoso, consciencioso, trabalhador, enérgico, justo, pacifista sem vícios sem mancha, protetor dos fracos, defensor dos pobres, esperança dos trabalhadores, amigo dos operários, amparo dos órfãos e viúvas, respeitador das leis, sentinela dos bens públicos, inimigo da falsidade, entendido de lavoura, entendido de comércio, entendido de contabilidade pública, entendido de executivo, entendido de legislativo, conhecedor dos problemas da cidade, trabalhou, lutou, venceu - eleito vice-prefeito.
Com tanta virtude e saber, o Sr. Cirillo Rodrigues não é um candidato. É um instituição.

(O Cruzeiro, 27 de out de 1962, ed. 3, p. 66, O Impossível Acontece, J.C.C.)
Leia de novo e veja quantas qualidades do Cirillo você tem. 

20 novembro 2018

Reduzindo imposto com a Depreciação

Em outubro deste ano, o jornal New York Times publicou o resultado de uma investigação sobre os negócios de Jared Kushner, o marido da filha do presidente Donald Trump. O resultado foi que Kushner (foto com Trump) pagou poucos impostos entre 2009 a 2016. Achei bastante curioso o seguinte trecho destacado no Business Insider:

They found that he and his family's New York real-estate firm used a common tax deduction known as depreciation, which is designed to protect property owners from an asset's gradual decline in value.


Para um contador, a depreciação parece algo tão natural e normal. Espanta ver uma investigação jornalística chamar a atenção para seu uso para fins de dedução do imposto de renda. Mas pensando em termos históricos, o uso da depreciação não é tão antigo assim.

(É bem verdade que o texto destaca que o uso da depreciação é permitido por lei)

22 agosto 2018

Plágio

Olhando uma listagem de candidatos a deputado distrital, uma pessoa comentou: "conheço este candidato; é aluno da UnB e cola nas provas". O comportamento como este diz muito do candidato. Recentemente comentamos sobre um político espanhol que parece ter obtido o diploma sem ter frequentado as aulas.

Uma notícia parecida, no governo da República Checa:

Dois ministros do gabinete (...) deixaram seus postos por plagiar trabalhos acadêmicos nos tempos de universidade. Ministra da Justiça por poucas semanas, Tatana Mala, de 36 anos, pediu demissão no início de julho ante as evidências de que suas duas monografias de bacharelado – ela é graduada em direito e em engenharia agrícola – continham trechos copiados de outros trabalhos sem dar o crédito. Um software de detecção de plágio constatou que pelo menos 5% da monografia defendida por Mala em 2011 na Universidade Pan-europeia, em Bratislava, Eslováquia, fora reproduzido de um trabalho apresentado cinco anos antes na Universidade Masaryk, na cidade de Brno, na República Checa – o texto repetia até erros ortográficos do original. Trechos de um livro de referência em direito também foram plagiados. O mesmo problema foi observado na monografia que a ministra apresentou em 2005 na Universidade Mendell, em Brno, sobre influência de condições microclimáticas na reprodução de coelhos. Ela copiou pelo menos 11 páginas de um trabalho sobre o tema apresentado por outro estudante dois anos antes.

Em meados de julho, foi a vez de Petr Krcal, de 53 anos, titular da pasta do Trabalho e dos Assuntos Sociais. Ele renunciou logo quando se divulgou que três quartos de seu trabalho de conclusão de bacharelado em pedagogia social, defendido em 2007 na Universidade Tomas Bata, na cidade checa de Zlin, foram copiados de outros textos. Com formação secundária em eletrotécnica, Krcal resolveu fazer graduação aos 40 anos de idade, quando já tinha uma carreira política. “Trabalhei duro na minha monografia, mas admito que há irregularidades nela”, disse Krcal, ao anunciar sua demissão. (...)


Imagem, daqui

16 junho 2018

Análise de sentimento

Polyana Silva destaca pesquisa sobre o sentimento referente a greve dos caminhoneiros. A professora destaca:

Não se trata de nutrir carinho ou repulsa sobre o evento em questão. É uma técnica de análise de dados não estruturados que possui como objetivo identificar opiniões opostas (positivas, negativas e neutras).


Uma análise deste tipo foi apresenta pela revista Época. E revela o que ocorreu no país nos últimos anos. Em 2013 o gráfico representativo do debate político era o seguinte:


Observe a diferença entre o primeiro e o último gráfico. Em março de 2016 as posições políticas estavam polarizadas, muito mais que em 2013.

Política em família

Na coluna de divulgação científica de Fernando Reinach no Estadão uma pesquisa muito interessante:

É obvio que discussões políticas estragam reuniões familiares. O interessante é como um grupo de cientistas descobriu que, após a eleição de Trump, os jantares de Thanksgiving (O Dia de Ação de Graças americano), nas famílias em que existe discordância política, foram 38 minutos mais curtos que a média. Em 2016, na média, esses longos jantares duraram 4 horas e 28 minutos.


Mais interessante ainda foi a metodologia usada pelos autores:

Para determinar o efeito das discussões políticas sobre a duração do jantar, em 2016 os cientistas usaram duas fontes de dados. A primeira é um banco de dados que contém a posição exata (determinada pelo GPS) de 10 milhões de telefones celulares a cada minuto durante o mês de novembro de 2016. Esse banco de dados existe porque cada telefone celular, ao se comunicar com as torres do sistema de telecomunicação, envia sua posição exata. No total foram analisados 21 bilhões de posições enviadas por 10 milhões de telefones durante novembro.

Continuando:

Analisando esses dados os cientistas puderam determinar o local em que esses 10 milhões de telefones “moram”, pois esse é o lugar onde passaram a maior parte das noites nas semanas anteriores ao Thanksgiving. Além disso, puderam identificar para onde se deslocaram na noite do jantar, pois eles enviaram às respectivas torres suas localizações precisas.

Mais que isso, é possível saber quanto tempo ficaram juntos durante o jantar, determinando o horário que eles chegaram à casa em Chicago e o horário que saíram. Dessa maneira os cientistas conseguiram determinar a residência de 6.390.634 pessoas e onde essas pessoas passaram o jantar de Thanksgiving. (...)

O segundo banco de dados que os cientistas usaram foi o resultado da votação de 8 de novembro de 2016, semanas antes do jantar de Thanksgiving, que elegeu Donald Trump. Esse banco de dados não contém o nome das pessoas que votaram, mas o número de votos que cada candidato recebeu em cada uma das 172.098 regiões eleitorais (precincts) em que os EUA são divididos. Cruzando esses dois bancos de dados os cientistas puderam determinar a probabilidade de como votou cada um dos 10 milhões de donos de telefones celulares analisados. Isso porque se uma pessoa mora em um distrito eleitoral onde Trump teve 95% dos votos essa pessoa muito provavelmente votou nele.

Com base nesses dados é possível identificar a provável ideologia de cada participante nos jantares de Thanks giving e, em um passo seguinte, identificar os jantares em que todos os participantes votaram no mesmo partido (Democrata ou Republicano) e os jantares em que participaram pessoas que haviam votado, semanas antes, em diferentes candidatos. Após identificar jantares em que todos eram muito provavelmente do mesmo partido e jantares em que as pessoas provavelmente eram de partidos diferentes, os cientistas determinaram quanto tempo duraram esses jantares.

E aí veio a conclusão: os jantares em que havia pessoas de diferentes partidos foram 38 minutos mais curtos que a média (que foi de 257 minutos). Mas os cientistas foram adiante identificando os distritos eleitorais que foram mais bombardeados por anúncios políticos antes da eleição. Quando pessoas desses distritos se encontraram semanas depois da eleição, os jantares foram ainda mais curtos.

15 junho 2018

Polêmica ou não

Um texto publicada há mais de uma mês. Mas não resisti em fazer alguns pequenos comentários, pois está recheado de pérolas.

Depois de dois anos de prejuízos bilionários, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) teve um surpreendente lucro de R$ 667 milhões em 2017, anunciou ontem o ministro Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações).

A virada nos números foi divulgada por Kassab, em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, como sinal de recuperação da saúde financeira da estatal. Para ele, esse resultado mostra que os Correios são viáveis como empresa pública (1) e tira da pauta uma eventual privatização (2). “Não se fala mais nisso”, afirmou o ministro, dando como superada (3) a grave crise enfrentada pela ECT nos últimos anos. Houve prejuízo de R$ 2,1 bilhões em 2015 e de R$ 1,5 bilhão em 2016. (4)

De acordo com Kassab, o balanço dos Correios foi aprovado na véspera pelo conselho fiscal e será remetido hoje para análise do conselho de administração (5).

Apesar da comemoração do ministro, a reviravolta foi vista com cautela. Até outubro, a estatal registrava déficit em torno de R$ 2 bilhões (6). Segundo pessoas ligadas à ECT, não houve inversão da tendência e esse rombo cresceu ainda mais no último bimestre do ano. O que houve foi uma mudança das premissas atuariais no registro conhecido como “benefício pósemprego”, com uma redução de gastos meramente contábil (7), sem refletir qualquer equilíbrio entre receitas e despesas. (8)

Em março, uma decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST) restringiu o alcance da Postal Saúde, empresa criada pelos Correios em 2014 para gerir diretamente o convênio médico de seus 140 mil empregados e aposentados. (9)

O plano, que representava 90% do déficit anual da empresa, incluía outras 250 mil pessoas como cônjuges, pais e filhos.

A principal mudança avalizada pelo TST é a introdução da cobrança de mensalidade para titulares e dependentes. Pais e mães também serão excluídos a partir de julho de 2019. Com todas essas alterações, foi possível reduzir em aproximadamente R$ 3 bilhões o provisionamento futuro e os reflexos foram trazidos para valor presente. (10)

A operação contábil foi duramente criticada pelo representante dos trabalhadores no conselho de administração, Marcos César Silva, que prometeu votar pela rejeição ao balanço. Ele chamou o resultado de “forjado” e enfatizou que o lucro não decorre da “competência de políticos indevidamente colocados na direção da empresa”. “Votarei contra a aprovação das contas.” “A empresa tem a obrigação de explicar muito bem como um déficit que chegava em novembro a mais de R$ 2 bilhões virou um lucro de mais de R$ 600 milhões ao final do exercício”, completou. (11)

O próprio presidente interino dos Correios, Carlos Fortner, admitiu ter ficado surpreso com o lucro quando recebeu a notícia na semana passada. “Que mágica você fez?”, disse ter perguntado à equipe responsável pela contabilidade (12). Ele defendeu, porém, a legitimidade do cálculo e ressaltou: “Houve auditoria externa (13) e fomos crivados por questionamentos”.

A deputada Maria do Rosário (PTRS), uma das coordenadoras da Frente Parlamentar em Defesa dos Correios, ficou insatisfeita com as explicações. Ela discorda da análise de Kassab de que a privatização da companhia postal saiu do radar. “Não saiu e estamos atentos ao movimento. Já é uma prática comum resolver as contas do ponto de vista contábil (14) para apresentar ao mercado uma situação favorável à venda da empresa”, afirmou.

Um requerimento já foi protocolado na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara para aprofundar as discussões sobre o resultado da ECT no ano passado. Maria do Rosário criticou também o indicativo de fechamento de mais de 500 agências próprias dos Correios, em localidades onde há sobreposição com agências franqueadas, por entender que a estatal deixa de faturar em pontos melhores.


(RITTNER, Daniel. Virada súbita no balanço dos correios cria polêmica. Valor, 10 de maio de 2018, B6, via aqui). Figura, aqui

(1) o lucro, por si só, não é suficiente para afirmar que uma empresa é viável.
(2) existe aqui uma lógica estranha. Só pode ser empresa pública se for viável, caso contrário, privatize. Na realidade, o resultado contábil não deveria ser a razão final desta decisão, mas a política de governo ou, em alguns casos, a constituição.
(3) novamente, o resultado de um ano não é suficiente para chegar a esta conclusão.
(4) observe que o prejuízo acumulado em três anos é de 3 bilhões. E a crise acabou, segundo o ministro.
(5) ou seja, o ministro divulgou os resultados antes da empresa dar conhecimento ao Conselho de Administração. E já considerou como uma crise superada, mesmo não tendo a aprovação do Conselho de Administração. Aqui, uma postagem sobre este assunto. Observe que o texto é bastante feliz em usar “análise” e não “aprovação”.
(6) Deve estar falando do déficit acumulado até esta data.
(7) se mudaram somente as “premissas atuariais” é muito estranho falar em “gastos meramente contábeis”. E faz sentido falar em “gastos meramente contábeis”?
(8) Na verdade, o reporter quer dizer que na parte operacional a empresa continua com problemas, onde as despesas são superiores as receitas. O que fez o resultado ser positivo foi uma alteração nas premissas atuariais que afetou o resultado da empresa.
(9) Aqui a razão da mudança. Tendo por base a decisão, a contabilidade da empresa parece que fez o correto, ao contrário do que induz a reportagem. Parece que ocorreu uma manipulação, mas existindo uma mudança como esta, a mesma deve ser reconhecida no resultado.
(10) Veja que faz sentido a decisão da contabilidade.
(11) A leitura das demonstrações e as explicações parecem coerentes. Bastava entender contabilidade. A posição do representante parece mais política que técnica.
(12) A fama da contabilidade e do contador ... Mas ele defendeu os números, pois são favoráveis.
(13) A auditoria externa fez ressalvas, inclusive de continuidade da empresa. Isto não está comentado na reportagem, provavelmente pelo fato do balanço não ser de conhecimento público na data de publicação do texto.
(14) O que ela falou mesmo? “resolver as contas do ponto de vista contábil” seria “manipular”? O contador da ECT deveria entrar com um processo de difamação contra a deputada.

P.S. Os números não permitem comemoração

27 março 2018

Os Políticos não são Burros

Alguns modelos econômicos sugerem que as pessoas que decidem pela política geralmente são menos competentes e, por este motivo, fazem esta escolha. Assim, em lugar de usar seus neurônios para uma atividade acadêmica ou criar uma empresa e ser um empresário de sucesso, o político resolve fazer uma atividade desprezada pelos mais aptos da sociedade. Também há uma idéia de que os políticos não traduzem uma representação da sociedade.

Usando uma grande quantidade de informações, cinco pesquisadores concluíram que “os políticos não são burros”. Além disto, a democracia representaria uma “meritocracia inclusiva”, já que os políticos realmente representam a população. Talvez a conclusão mais surpreendente seja que em média os políticos são mais inteligentes e melhores que a população que eles representam. Em uma família, em um processo de triagem, o filho ou a filha mais inteligente terá mais possibilidade de ser político (a).

Isto realmente é surpreendente, já que geralmente acreditamos que os políticos são incompetentes e pouco representativos. Segundo a análise realizada por Dal Bó, Finan, Folke, Persson e Rickne, pesquisadores da Universidade da Califórnia, de Estocolmo e de Uppsala, na pesquisa intitulada “Who becomes a Politician”, o processo de triagem dos partidos, a competência individual e uma representação social são características do sistema democrático:

Uma implicação ampla desses fatos é que é possível para a democracia gerar liderança competente e socialmente representativa.

Apesar da pesquisa ter sido realizada na Suécia, com os dados locais, baseado na experiência brasileira e sendo imparcial, podemos realmente dizer que os políticos não são burros.

Fonte: Dal Bó, E., Finan, F., Folke, O., Persson, T., & Rickne, J. (2017). Who Becomes a Politician?. The Quarterly Journal of Economics, 132(4), 1877-1914. (Foto, Cynthia Nixon, atriz, que decidiu ser candidata a governadora)

Leia também aqui

20 março 2018

Facebook e sua parceira

Uma parceria entre a empresa Facebook e a companhia britânica de pesquisa Cambridge Analytica (CA) resultou em uma das maiores crises empresariais do ano. A CA está ligada a companha de Trump de 2016 e obteve dados de usuários do Facebook sem autorização.

Através de um aplicativo, alguns usuários do Facebook eram convidados a responder perguntas sobre seu “perfil digital”. Aceitando participar, o usuário não somente permitia o acesso da CA aos dados pessoais, mas também dos “amigos” do usuário. Com isto, uma pesquisa com 300 mil pessoas resultou na coleta de dados de 50 milhões de contas.

O fato resultou em críticas sobre como a empresa usa os dados dos usuários, na violação de privacidade das pessoas, entre outras questões. As consequências para a empresa foi uma perda de valor de mercado de mais de 60 bilhões de dólares, convite do parlamento britânico e europeu para que seu principal executivo explique o que ocorreu, possível mandato de busca, além de não cumprir um acordo de 2011 sobre consentimento de informação do usuário. Este último caso pode gerar uma multa de 40 mil dólares/dia/usuário.

Aqui uma comparação interessante entre a Equifax e o Facebook: a primeira empresa foi hackeada e roubada; a segunda, forneceu os dados como parte do seu modelo de negócio, mesmo aqueles dados “excluídos” pelo usuário. Mas será que o usuário se importa com isso?

Já a Cambridge Analytica está sendo acusada não somente de usar dados sem permissão como também intimidação política, suborno e chantagem. Um repórter descobriu que a empresa chegou a enviar “meninas” para um candidato. Segundo o Valor, o consultor brasileiro André Torretta fechou um acordo com a CA para trazer a empresa para o Brasil.

(Fonte do Cartoon aqui)