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25 março 2026

Uma contabilidade existencial: (Re)centralizando a natureza


Eis o trecho final

Com o perdão de Heidegger: a essência da contabilidade para a natureza não é um relatório (account). Ou, pelo menos, uma pré-condição para recentralizar a natureza na pesquisa contábil é revelar a relação entre a consciência humana e a natureza na qual tais relatórios emergem. Ao rastrear a marginalização da natureza até as condições sob as quais ela é ocultada ou revelada, Marcuse e Heidegger oferecem diagnósticos pessimistas das patologias da era moderna, mas também, de forma mais otimista, destacam o potencial inimitável dos seres humanos de habitar o mundo de uma nova maneira.

A abordagem existencial que proponho busca recentralizar a natureza no pensamento acadêmico contábil, articulando ideais tanto críticos quanto construtivos. O principal argumento crítico afirma que a contabilidade é, ao mesmo tempo, mais e menos cúmplice da degradação ambiental do que sugere a literatura fundamental anterior. Como tecnologia moderna par excellence, a contabilidade é cúmplice de modos de ser no mundo que inscrevem lógicas humanas ou, mais sutilmente, prejudicam a atenção aos processos naturais. Ao mesmo tempo, essa perspectiva existencial implica que os modos tecnológicos de ser no mundo são mais profundos do que as práticas contábeis; portanto, reformar apenas as práticas contábeis é insuficiente para enfrentar as crises ecológicas contemporâneas.

De forma mais construtiva, proponho um papel essencial para a pesquisa em contabilidade crítica: lutar por espaço para que outros modos de ser no mundo surjam, circunscrevendo as lógicas contábeis. Adaptando a terminologia de Hines (1991), esta abordagem existencial "recusa-se a falar" da natureza apenas na linguagem contábil, para que outras vozes possam ser ouvidas.

 

Queda do Sora

Entre os produtos correlatos fornecidos pela OpenAI, o Sora deveria ser um modelo para gerar clipes de vídeos curtos com base em prompts. Ele também poderia ser usado para estender vídeos curtos existentes. A OpenAI começou a fornecer exemplos de produtos gerados pelo Sora ainda em fevereiro de 2024. No entanto, ontem, a OpenAI — empresa criadora do ChatGPT — anunciou que o aplicativo e a API do Sora seriam desligados.

Para evitar o uso inadequado do Sora, havia uma marca-d'água para prevenir o uso indevido, mas, uma semana após o lançamento da versão 2 do modelo, já existiam programas de terceiros disponíveis para remover essa proteção. Esse não foi o maior dos problemas. Vários vídeos gerados apresentaram personagens protegidos por direitos autorais; um deles, por exemplo, utilizava o estilo do Studio Ghibli, famoso pelo filme Princesa Mononoke. Algumas personalidades falecidas, como Robin Williams, também foram alvo de vídeos falsos (deepfakes).


Diante da tecnologia inicialmente entregue pela OpenAI, a Walt Disney firmou uma associação com a empresa para permitir a criação de vídeos curtos com mais de 200 personagens históricos da marca. Existia a esperança de uma nova era no cinema, movida pela IA, com custos de produção reduzidos. A Disney tinha a pretensão de se tornar uma grande cliente da OpenAI. O anúncio de ontem, contudo, é um sinal de que o Sora ainda está distante de entregar um produto razoável. Naturalmente, os investimentos realizados serão baixados como prejuízo no resultado das demonstrações contábeis das empresas envolvidas.

Imagem criada pelo Gemini, a partir do texto acima.  

IA como investimento


A IA como uma estratégia de investimento financeiro deve levar em consideração não somente a precisão do algoritmo, mas o impacto sobre a eficiência e lucro da organização. Aqui um texto que trata da mensuração do valor da IA e a seguir um trecho: 

Embora a eficiência seja uma fonte importante de valor da IA, ela é apenas parte do cenário. Muitos sistemas de IA bem-sucedidos não substituem primariamente o trabalho humano [...] Em vez disso, eles atualizam fluxos de trabalho existentes, amplificam as capacidades humanas ou possibilitam oportunidades de negócios inteiramente novas. 

24 março 2026

Especialista e previsão

 O resumo

O apoio público a intervenções políticas depende das crenças dos cidadãos sobre os seus efeitos prováveis. Examinamos como os indivíduos formam tais crenças ao estudar suas previsões de resultados experimentais em um cenário relevante para políticas públicas, e por que suas previsões diferem dos referenciais dos especialistas. Obtivemos previsões de 127 economistas profissionais e de uma amostra representativa de 6.200 famílias alemãs sobre um experimento comportamental de larga escala em política educacional (N=3.133). Os não especialistas preveem tanto os resultados médios quanto os efeitos do tratamento com muito menos precisão do que os especialistas. A precisão das previsões melhora com priors calibrados, esforço autorrelatado e o uso de raciocínio estruturado, mas permanece bem abaixo dos níveis dos especialistas. Demonstramos que características de design escaláveis — incluindo o fornecimento de âncoras numéricas bem calibradas e incentivos monetários para aumentar o esforço — melhoram as previsões dos não especialistas, com efeitos de magnitude comparável ao ensino superior ou ao raciocínio estruturado. Nossas descobertas têm implicações importantes para reduzir a 'lacuna de expertise' no discurso público. 

Imagem: Verbete Prediction, Wikipedia

Plágio, ciência ruim e a recusa em reconhecer o problema: o caso da Management Science


Alguns meses atrás, publicamos um post: 'Este artigo na Management Science foi citado mais de 6.000 vezes. Executivos de Wall Street, altos funcionários do governo e até um ex-vice-presidente dos EUA já o referenciaram. Ele possui falhas fatais, e a comunidade acadêmica se recusa a fazer algo a respeito', que tratava de um artigo fatalmente falho, porém muito influente, na Management Science.

O artigo em questão afirmava ter descoberto que 'empresas de alta sustentabilidade superam significativamente suas contrapartes no longo prazo, tanto em termos de mercado de ações quanto de desempenho contábil'. Eu conjecturo que uma das razões para o grande sucesso do artigo foi o fato de ele promover uma mensagem reconfortante que seria popular em todo o espectro político: para a esquerda, é uma evidência a favor da sustentabilidade ambiental e social; para a direita, é um exemplo do sucesso do livre mercado, sugerindo que, se você se preocupa com a sustentabilidade, pode obtê-la sem regulamentação governamental; e, para o centro, é uma mensagem de que o sistema funciona. Ele se encaixa perfeitamente na ideologia presunçosa de base das escolas de negócios de que as empresas prosperam ao fazer o bem.

Discussão de Gelman sobre a dificuldade de inibir casos de plágio. O artigo em questão já foi citado quase 7 mil vezes, segundo o Scholar, e teve uma influência muito expressiva. 

Infelizmente, o método descrito no artigo não é o método que os autores realmente utilizaram. Os autores finalmente reconheceram isso em setembro de 2025, após dois anos de pressão. No entanto, eles se recusaram a enviar uma errata.

Entrei em contato com o periódico, Management Science, mas as políticas deles permitem apenas que os autores solicitem correções. Eles me permitiram enviar um comentário para revisão, já que julgaram que os autores não estavam respondendo, mas isso deve passar por um longo processo de análise.

Também entrei em contato com Escritórios de Integridade em Pesquisa, pois acredito que isso constitua uma violação contínua: os autores estão se recusando conscientemente a corrigir um erro admitido em seu estudo.

  • London Business School (Ioannou) alega que não há violação porque ele não realizou a análise. (Para mim, isso parece irrelevante para a questão de corrigir um erro de relato).

  • Harvard Business School (empregadora de Serafeim) recusou-se a divulgar a existência ou o resultado de qualquer revisão interna.

  • Oxford (onde Eccles está afiliado atualmente) alega que Harvard é responsável pelas ações de Eccles, já que a pesquisa ocorreu quando ele estava na HBS.

  • Entrei em contato com o UK RIO, mas eles dizem que não têm poder de atuação.

     O texto prossegue com citações para Dan Ariely e Freakonomics. E outros. Uma boa leitura

Relatório do FSB


Enquanto aguardamos o relatório anual da Fundação IFRS, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) divulgou o seu de 2025. No texto, o destaque para os trabalhos em promover a resiliência do sistema financeiro global em situação de aumento da dívida soberana, presença da volatilidade dos criptoativos e na presença da intermediação financeira não bancária. 

Noruega muda sua maneira de fazer normas

O jeito viking de fazer normas

A organização norueguesa responsável pela definição de normas, Norsk RegnskapsStiftelse (NRS), lançou uma consulta pública sobre uma proposta de nova estratégia para a elaboração de normas contábeis na instituição. O contexto dessa consulta é o fato de que a NRS foi, pela primeira vez, incluída no orçamento nacional, recebendo uma subvenção de quatro milhões de coroas norueguesas para fortalecer seu trabalho em normas nacionais de contabilidade e escrituração.

Este recurso permite que a NRS retome, de forma mais ativa, o trabalho de normatização. Em 2015, o Ministério das Finanças da Noruega publicou uma minuta de uma nova Lei de Contabilidade e sugeriu a substituição das atuais normas norueguesas por requisitos baseados no IFRS para PMEs. No entanto, em 2017, o governo recuou desse plano ambicioso e, desde então, foram feitas apenas as atualizações mínimas necessárias. Diversas normas existentes precisam urgentemente de atualização, e certas áreas carecem totalmente de regulamentação, incluindo reconhecimento de receita, ativos imobilizados e a distinção entre capital próprio e dívida.

A nova estratégia sugerida agora não foca no IFRS para PMEs, mas sim na busca por possíveis soluções para questões contábeis dentro das IFRS completas. A consulta sugere os três pilares a seguir para a atualização das normas existentes e o desenvolvimento de novos padrões de relatórios financeiros:

  • Garantir a conformidade com os marcos legais e as práticas norueguesas;

  • Avaliar soluções internacionais reconhecidas (IFRS);

  • Equilibrar a necessidade de relatórios financeiros de alta qualidade com os custos de conformidade.

A NRS planeja começar com tarefas que exijam recursos moderados (normas finais com necessidade limitada de atualização), ao mesmo tempo em que lançará pelo menos um novo projeto em 2026.

Imagem: Wikipedia