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28 março 2026

Reino Unido e novas normas


Quando ocorreu o Brexit, a saída dos britânicos da Comunidade Europeia, o fato provocou um dilema sobre a adoção de normas internacionais: antes, a decisão da Comunidade era adotada imediatamente; agora, tornou-se necessário adotar um procedimento para que isso ocorresse.

E, logo depois, alguns escândalos contábeis, como Carillion, pioraram a situação. O tema chegou ao Legislativo e iniciou-se um caminho longo para mudar o processo de regulação contábil. Isso contemplava, inclusive, a possibilidade de quebrar o oligopólio das empresas de auditoria.

As promessas de mudanças ficaram em banho-maria e parece que nada irá acontecer de novo nos próximos anos. Enquanto isso, a estrutura antiga continua a trabalhar. A entidade-chave no processo, o Financial Reporting Council, acabou de alterar normas contábeis, numeradas como FRS 102 e 105, com mudanças para um futuro próximo.

As normas estão baseadas nas normas internacionais, divulgadas pelo International Accounting Standards Board, assim como ocorre em outros países. As mudanças irão contemplar o reconhecimento de receita, os arrendamentos, o valor justo e outros tópicos — todos assuntos tratados recentemente pelo normatizador, que, por coincidência, tem sede administrativa em Londres.

Inspirado aqui 

26 março 2026

Condenação da Meta e Youtube em caso de vício em mídia social

Em um julgamento que ocorreu na Califórnia, um júri deliberou que a Meta e o Google prejudicaram a saúde de uma jovem com produtos viciantes que, como consequência, trouxeram problemas de saúde mental. O julgamento começou em fevereiro e apenas a deliberação levou uma semana. As empresas deverão pagar 3 milhões de dólares, sendo 70% desse valor de responsabilidade da Meta.


Uma das acusações recai sobre o recurso de rolagem infinita e as recomendações algorítmicas, que teriam causado ansiedade e depressão. Este é apenas um dos casos de processos existentes na justiça dos Estados Unidos. Antes do julgamento, o TikTok e o Snap chegaram a um acordo com a parte demandante.

Segundo um texto do Estadão, o argumento central é que o design das plataformas de mídias sociais pode ser considerado um "produto defeituoso", de responsabilidade das empresas. O texto destaca que, embora haja semelhanças com os processos judiciais contra as empresas de cigarro no passado, isso não significa que a decisão dos jurados representará uma mudança imediata no entendimento da justiça sobre o assunto. Em outras palavras: talvez seja cedo para considerar que qualquer pessoa que acione a justiça pedindo indenização vá vencer.

Lembro aqui que existe hoje um mecanismo na justiça federal dos Estados Unidos que "protege" as empresas de grandes falhas, "perdoando-as" através de acordos. Esse tipo de mecanismo pode ser usado, mais adiante, para blindar as grandes corporações tecnológicas. Trata-se do DPA — sigla para Deferred Prosecution Agreement (Acordo de Persecução Diferida ou Acordo de Acusação Diferida).

Em termos contábeis, eu diria que ainda é muito cedo para lançar provisões reconhecendo perdas futuras nesses processos judiciais, uma vez que o caminho na justiça é longo e, nem sempre, justo.

03 março 2026

Um novo Rembrandt


Pesquisadores do Rijksmuseum identificaram uma pintura como sendo obra de Rembrandt van Rijn. A análise do painel de madeira, do estilo, das alterações feitas nos detalhes enquanto a obra ainda estava sendo pintada, da assinatura aplicada com a tinta ainda fresca e da elevada qualidade geral confirmam que se trata de uma obra autógrafa do próprio Rembrandt, realizada quando ele tinha 27 anos e havia acabado de se mudar para Amsterdã.

Visão de Zacarias no Templo (1633) é uma representação sombria do relato no Evangelho de Lucas em que o sumo sacerdote Zacarias descobre que sua esposa idosa e “estéril”, Isabel, dará à luz um filho — o futuro João Batista. O anjo anunciador, Gabriel, não aparece visivelmente na pintura. Ele é representado apenas como um brilho de luz no canto superior direito do painel — uma abordagem inovadora para a época, quando anjos eram geralmente retratados como figuras humanas com asas.

Zacarias é retratado no momento em que realiza seus deveres no templo — lendo as Escrituras diante de um turíbulo fumegante com incenso em chamas — sendo claramente pego de surpresa pelo anúncio. Sua expressão transmite espanto e incredulidade, atitude que desempenha papel central no restante da narrativa: Gabriel o torna mudo por sua descrença, e ele permanece sem falar durante a concepção e os nove meses de gestação, recuperando a voz apenas depois de escrever que concorda com Isabel em dar ao recém-nascido o nome de João.

Um rótulo na parte posterior do painel, datado de 1898, registra que a obra foi exibida em setembro e outubro daquele ano como um autêntico Rembrandt. Décadas depois, em 1960, especialistas em Rembrandt rejeitaram a atribuição, e a pintura caiu na obscuridade. Foi adquirida por um colecionador particular em 1961, e nenhum estudioso teve permissão para examiná-la até dois anos atrás, quando o atual proprietário entrou em contato com o Rijksmuseum.

Pela primeira vez em 65 anos, Visão de Zacarias no Templo passou por um exame rigoroso — desta vez com tecnologia moderna de imageamento e, sobretudo, com um conhecimento muito mais aprofundado sobre as técnicas e materiais de Rembrandt, graças à Operation Night Watch, o ambicioso projeto de pesquisa e conservação do museu.

Esse estudo de dois anos revelou que todas as tintas utilizadas na obra também aparecem em outras pinturas de Rembrandt van Rijn do mesmo período. A técnica pictórica e a construção das camadas de tinta são igualmente comparáveis a outros trabalhos iniciais do artista. Varreduras Macro-XRF e inspeção visual identificaram ainda alterações na composição que reforçam a autenticidade da obra. A pesquisa sobre a assinatura indica que ela é original, e a análise dendrocronológica do painel de madeira confirma que a data de 1633 inscrita na pintura está correta.

A obra agora está cedida ao Rijksmuseum em empréstimo de longo prazo e será exibida ao público a partir de 4 de março.

Fonte aqui. Há várias questões contábeis aqui. Para proprietário, um ativo, de baixo valor, repentinamente é valorizado. Nada agora de custo histórico, mas um valor justo, se é que existe, seria uma opção. 

23 fevereiro 2026

Uma grande surpresa em um tanque velho de guerra


A notícia é de 2017, mas voltou a circular como algo novo (aqui e aqui). Mas é um caso contábil interessante e desafiador.

Um britânico comprou no eBay um tanque de guerra do Iraque. Ao abrir o compartimento de combustível, ele encontrou cinco barras de ouro escondidas, com o valor estimado de 2 milhões de libras. O ouro foi entregue às autoridades britânicas para investigação. 

As barras de ouro correspondem a um ativo oculto. Ao comprar o tanque, o britânico comprou todo seu conteúdo, mas fica a dúvida se isso inclui o ouro.  Se o ouro for considerado do comprador, é um ganho, por ser algo inesperado. O custo de aquisição do tanque, que corresponde ao valor histórico, distancia do valor real. Há aqui uma discussão interessante entre preço histórico e preço justo. 

05 fevereiro 2026

Criptomoedas e avaliação a valor justo

O resumo


Este artigo examina as participações em criptomoedas e as práticas contábeis de empresas com ações na bolsa dos Estados Unidos no período de 2013 a 2022, à luz da recém-promulgada norma contábil para criptoativos, a ASU 2023-08. Análises descritivas indicam crescimento exponencial das posições corporativas em criptoativos e variação significativa nas práticas contábeis adotadas, o que reforça a necessidade da nova regra. Testes de hipóteses baseados em dados anteriores à norma revelam três achados diretamente relevantes para sua implementação. Primeiro, as empresas parecem tratar criptoativos mais como investimentos do que como ativos intangíveis, em linha com a exigência da norma pelo modelo de valor justo. Segundo, auditores das Big 4 tendem a direcionar as empresas para o modelo de impairment e para escolhas de apresentação menos detalhadas. Essa abordagem conservadora dificilmente atende ao objetivo da nova norma de fornecer informações mais úteis para a tomada de decisão. Terceiro, o aumento da liquidez dos mercados de criptoativos incentiva o uso do modelo de valor justo e uma apresentação mais detalhada, consistente com o foco da norma em tokens mais ativamente negociados. No entanto, dentro de nossa amostra, encontramos algumas evidências de que a mensuração a valor justo está associada a maior volatilidade dos retornos das ações, mas nenhuma evidência de que ela melhore a informatividade dos lucros. 

Accounting for Cryptocurrencies - Chelsea M. Anderson, Vivian W. Fang, James R. Moon Jr, Jonathan E. Shipman - Journal of Accounting Research Volume64, Issue1, March 2026, Pages 45-79

02 fevereiro 2026

Fusões e Aquisições no Brasil

 Eis o resumo: 


Este artigo tem como objetivo evidenciar as práticas de valuation no mercado de fusões e aquisições em um país de mercado emergente, como é o Brasil. Como lacuna, há a ausência de uma análise das especificidades da prática de valuation em um mercado emergente sem restrições a um nicho específico de atuação ou a uma associação profissional, além da ampliação do escopo do questionário. Os resultados deste artigo trazem percepções importantes sobre a prática de valuation no mercado brasileiro de fusões e aquisições. O estudo é relevante para avaliadores, acionistas e diretores de empresas que adotam como estratégia o crescimento inorgânico, bem como para o fisco, pois o goodwill é dedutível fiscalmente em caso de incorporação pela adquirente. Um questionário estruturado com respostas pré-definidas foi aplicado a profissionais envolvidos em valuations, e foram realizadas análises de distribuição e de correspondência. Os resultados indicam que não há uma prática comum entre os avaliadores, havendo maior similaridade entre os profissionais de empresas de assessoria financeira e consultoria. Sugere-se que as transações podem ocorrer a preços superiores ao valor justo da empresa adquirida, especialmente por parte dos investidores estratégicos. Cerca de 15% dos avaliadores sinalizam estar sujeitos à influência do efeito manada. A maioria dos avaliadores considera prêmios adicionais à base conceitual do Capital Asset Pricing Model, sustentados majoritariamente por conhecimento privado do avaliador. Contudo, parece que os investidores estratégicos não os consideram, tendo uma maior preocupação com a representatividade do período perpétuo. Há espaço para discutir os vieses cognitivos e outros fatores que podem influenciar a definição do preço em uma fusão e aquisição, bem como os erros conceituais e metodológicos que podem ocorrer no processo de avaliação.

O artigo pode ser baixado aqui . Imagem criada pelo GPT a partir do resumo. 

18 dezembro 2025

IFRS e ISSB


Eis a tradução do excelente IASPlus 

Após as reuniões do IASB e do ISSB realizadas neste mês, analisámos o plano de trabalho disponível no site da IFRS Foundation para verificar quais mudanças resultaram dessas reuniões e de outros desenvolvimentos ocorridos desde a última revisão do plano, em 26 de novembro de 2025.

A seguir, apresentamos uma análise de todas as alterações feitas no plano de trabalho desde a nossa última análise, em 26 de novembro de 2025.

Projetos de elaboração de normas (Standard-setting projects):

  • Biodiversidade, ecossistemas e serviços ecossistêmicos: este projeto foi elevado à agenda de elaboração de normas do ISSB, tendo como próximo passo esperado a publicação de um exposure draft (prevista para o 2º semestre de 2026).

  • Atividades com tarifas reguladas: a norma final agora é esperada para o 2º trimestre de 2026 (anteriormente, 1º semestre de 2026).

  • Contabilidade de mitigação de riscos (anteriormente Dynamic risk management): um exposure draft foi publicado em 3 de dezembro de 2025; o próximo passo esperado é a discussão dos comentários recebidos (prevista para o 2º semestre de 2026).

Projetos de manutenção (Maintenance projects):

  • Alterações nas divulgações sobre emissões de gases de efeito estufa: este projeto foi removido do plano de trabalho, uma vez que as alterações finais foram emitidas em 11 de dezembro de 2025.

  • Alterações à opção de valor justo: o IASB discutiu a direção do projeto e decidiu que o próximo passo esperado será a publicação de um exposure draft (prevista para fevereiro de 2026).

  • Incertezas relacionadas ao clima e outras incertezas nas demonstrações financeiras: este projeto foi removido do plano de trabalho após a publicação de exemplos ilustrativos finais em 28 de novembro de 2025.

  • Provisões — melhorias pontuais: uma decisão sobre a direção do projeto agora é esperada no 1º trimestre de 2026 (anteriormente, dezembro de 2025).

Projetos de pesquisa (Research projects):

  • Revisão pós-implementação dos requisitos de contabilidade de hedge do IFRS 9: trata-se de um projeto recentemente iniciado pelo IASB; um pedido de informações (request for information) é esperado para o 2º semestre de 2026.

  • Demonstração dos fluxos de caixa e temas relacionados: uma decisão sobre a direção do projeto agora é esperada em janeiro de 2026 (anteriormente, 1º trimestre de 2026).

O exposto acima constitui uma comparação fiel do plano de trabalho do IASB e do ISSB em 26 de novembro de 2025 e 17 de dezembro de 2025. Para acessar o plano de trabalho atualizado a qualquer momento, clique aqui.

Imagem aqui 

21 outubro 2025

O Nobel de Economia foi justo?

O controverso Nobel do ano passado parece que tem companhia. Isso se depender do ponto de vista do estatístico Gelman. Analisando os dados do artigo de 2005, denominado Competition and Innovation: An Inverted-U Relationship, de dois dos autores que recentemente receberam o Nobel em Economia de 2025, a conclusão não é boa. 


O texto original afirma existir uma relação entre concorrência de mercado e inovação, onde deveria ter um U invertido entre intensidade competitiva e inovação, sugerindo que até certo ponto a concorrência estimula a inovação.

Há várias questões metodológicas, como o uso de regressão de Poisson sobre dados que não são estritamente contagens. Na pesquisa original há 354 observações de 17 setores, entre 1973 e 1994. 

Eis o texto final de Gelman: 

Vendo por esse lado, toda a minha análise estatística com as transformações, as curvas quadráticas e a função de articulação foi uma perda de tempo, já que estou apenas fazendo uma análise sofisticada de dados ruins (ou, pelo menos, irrelevantes). Mas… resumir a informação estatística ainda tem valor em si. Minha análise levou apenas algumas horas, uma fração do tempo que os autores devem ter gasto preparando, analisando e interpretando seus dados. Acho importante, ao fazer análise estatística, dar o nosso melhor, neste caso levando em conta todas essas fontes de variação e incerteza.

Ou, colocando de outra forma, sim, teria sido aceitável descartar completamente os resultados publicados, dado os problemas com os dados. Mas alguns desses problemas só se tornaram aparentes depois que fiz aqueles gráficos mostrando as séries temporais de cada setor. Nesse ponto, todo o ajuste pode até ter sido uma perda de tempo — mas só pensei em fazer os gráficos porque estava tentando entender a adequação que parecia estranha.

20 setembro 2025

Consensus: Valor justo ou custo histórico?

 A postagem do conservadorismo mostrou que essa qualidade da informação, que é negada pelos reguladores indiretamente, tem um apoio na pesquisa acadêmica. Agora questionei se o valor justo é preferido ao custo histórico. Novamente, os reguladores estão forçando a adoção do valor justo e a pergunta é no sentido se a opção é adequada. Eis o resultado:

Um resultado muito dividido, que impede uma generalização, o que questiona a preferência pelo valor justo. Eis o resumo das pesquisas:

Valor Justo: Vantagens e Limitações

  • A contabilidade a valor justo é geralmente considerada superior para refletir as condições atuais de mercado, fornecendo informação mais relevante e tempestiva aos usuários das demonstrações financeiras. Ela aumenta a transparência e a comparabilidade e ajuda as partes interessadas a avaliar o valor presente de ativos e passivos.

  • O valor justo é especialmente valioso quando existem preços de mercado confiáveis, como para instrumentos financeiros com negociação ativa, aumentando a relevância para o valor dos números reportados.

  • Contudo, o valor justo pode introduzir volatilidade e subjetividade, particularmente para ativos ilíquidos ou únicos sem preços de mercado disponíveis, levando a erros de estimativa e menor confiabilidade. Durante crises financeiras, o valor justo pode amplificar oscilações de mercado e o risco sistêmico.

Custo Histórico: Vantagens e Limitações

  • A contabilidade ao custo histórico oferece estabilidade, objetividade e verificabilidade, pois registra ativos e passivos pelos valores originais de transação. Isso reduz o risco de manipulação e fornece uma base consistente para comparações de longo prazo.

  • Entretanto, o custo histórico pode tornar-se menos relevante ao longo do tempo, deixando de refletir as realidades econômicas atuais, especialmente em períodos de inflação ou rápidas mudanças de mercado.

Abordagens Híbridas e Contextuais

  • Muitos estudos e normas recomendam uma abordagem mista/híbrida, usando valor justo onde for confiável e custo histórico onde os mercados são ilíquidos ou as estimativas altamente subjetivas.

  • As evidências empíricas mostram que empresas e reguladores frequentemente combinam ambos os métodos para equilibrar relevância e confiabilidade, com a escolha dependendo do tipo de ativo, das condições de mercado e dos objetivos de reporte.

16 setembro 2025

Contabilidade para Criptomoedas


O resumo:

Este artigo investiga as participações em criptomoedas e as práticas contábeis de empresas públicas nos Estados Unidos entre 2013 e 2022, no contexto da recente norma de contabilidade para criptoativos, a ASU 2023-08. As análises descritivas indicam um crescimento exponencial nas participações corporativas em criptoativos e uma variação significativa nas práticas contábeis adotadas, ressaltando a necessidade da norma. Testes de hipóteses com dados anteriores à regra revelam três achados diretamente relevantes. Primeiro, as empresas tendem a tratar os criptoativos mais como investimentos do que como ativos intangíveis, em linha com a exigência do modelo de valor justo. Segundo, as auditorias das Big Four direcionam as empresas ao modelo de impairment e a escolhas de apresentação menos detalhadas. Essa abordagem conservadora dificilmente atende ao objetivo da nova norma de fornecer informações mais úteis à decisão. Terceiro, a maior liquidez dos mercados de criptoativos incentiva o uso do modelo de valor justo e uma apresentação mais detalhada, coerente com o foco da norma em tokens mais ativamente negociados. Contudo, na amostra analisada, há indícios de que o reporte a valor justo aumenta a volatilidade do retorno das ações e não há evidência de que melhore a relevância das informações sobre lucros. 

Grifo do blog.  Imagem aqui

19 agosto 2025

Testando a Teoria Contábil através da Inteligência Artificial


Do blog Marginal Revolution uma proposta de Tetlock para testar teorias sociais. Eis um resumo: 

Philip Tetlock, renomado cientista social, aponta uma nova abordagem para testar grandes teorias políticas e econômicas — tradicionalmente difíceis de validar devido às condições ceteris paribus raramente observáveis no mundo real. Em vez de depender de experiências complexas e demorada, ele sugere o uso de modelos de linguagem (LLMs). A proposta envolve instruir a IA a reconstruir as perspectivas de diferentes correntes de pensamento, como o neorrealismo de Mearsheimer dos anos 1990, e testar se a IA pode reproduzir os pressupostos, hipóteses e previsões condicionais dessas escolas. O processo inclui três etapas: (1) validar se os LLMs conseguem passar por um “teste de Turing ideológico”; (2) avaliar sua capacidade de raciocinar para frente e gerar previsões de 2025 a 2050; e (3) pedir que sintetizem os melhores pressupostos e previsões das diferentes escolas, criando um observador ideal capaz de superar cada corrente de forma isolada. Essa estratégia pode acelerar a validação teórica e representar um salto em direção à inteligência super-humana em análise social. 

Fiquei imaginando se isto poderia ser aplicável na contabilidade. Minha impressão era um grande Sim, já que é uma ciência social. Optei por perguntar a própria inteligência artificial se ela era capaz de fazer isso. Lógico que respondeu com um sim. 

Veja a resposta: 

Sim, seria possível aplicar esse tipo de abordagem da Tetlock também na contabilidade, especialmente para testar e comparar grandes teorias contábeis ou pressupostos normativos e positivos.

Como funcionaria

  • Passo 1 – Reconstrução das escolas contábeis
    Um modelo de linguagem poderia ser instruído a “pensar” como diferentes escolas de pensamento em contabilidade (ex.: teoria da entidade, teoria do comando, teoria da propriedade, abordagem normativa versus positiva). Ele teria que reproduzir seus conceitos, princípios e justificativas para decisões específicas.

  • Passo 2 – Teste prospectivo
    A IA poderia ser desafiada a aplicar essas teorias a cenários futuros — por exemplo, como reconhecer passivos climáticos em 2035, como mensurar ativos digitais ou como lidar com moedas digitais dos bancos centrais. Assim, poderíamos comparar como cada teoria geraria diferentes registros contábeis ou divulgações.

  • Passo 3 – Síntese entre correntes
    A etapa final seria pedir que a IA sintetize os melhores elementos de cada escola, construindo uma “contabilidade observador ideal”, capaz de oferecer soluções mais equilibradas para dilemas contemporâneos (como sustentabilidade, valor justo ou relatórios integrados).

Benefício

Esse processo poderia ajudar a identificar lacunas nas normas atuais, explorar impactos de novas práticas e até subsidiar debates em órgãos reguladores como IASB e CPC.

Uma situação proposta seria a seguinte: Crie um exemplo sobre: se tivessemos um crise ambiental, faria sentido reconhecer o Escopo 3 das empresas? A resposta que obtive:

Ótima provocação 👌 Vamos montar um exemplo aplicado, inspirado no método de Tetlock, mas dentro da contabilidade.


Cenário

Em 2030, uma crise ambiental global provoca protestos e pressões de investidores. O debate é: empresas deveriam reconhecer contabilmente o Escopo 3 (emissões indiretas da cadeia de valor)?


📌 Escola Normativa (Princípios da Utilidade e Relevância)

  • Defende que a contabilidade deve informar usuários externos com a máxima transparência.

  • Argumenta que, como o Escopo 3 representa a maior parte da pegada de carbono de várias empresas, não reconhecer seria omitir informação relevante.

  • Proposta: criar passivos ambientais provisionados com base em modelos de precificação de carbono para toda a cadeia.


📌 Escola Positiva (Watts & Zimmerman)

  • Foca em como as empresas realmente se comportam, não no que “deveriam” fazer.

  • Diria que empresas só reconheceriam o Escopo 3 se houvesse pressão regulatória ou incentivos econômicos claros (ex.: imposto sobre carbono transferido aos fornecedores).

  • Conclusão: na prática, as companhias tenderiam a divulgar em notas explicativas em vez de reconhecer no balanço.


📌 Escola Crítica/Sociológica

  • Enfatiza que a contabilidade é também um instrumento de poder e legitimação.

  • Reconhecer o Escopo 3 seria um avanço, mas também redistribui responsabilidades: quem decide como medir as emissões da cadeia? A empresa ou o regulador?

  • Conclusão: poderia haver risco de greenwashing contábil, já que métricas imprecisas podem ser usadas para mostrar compromissos sem efetiva responsabilização.


Síntese

Uma “contabilidade do observador ideal” poderia combinar:

  • A relevância normativa (Escopo 3 é crucial para transparência),

  • O realismo positivo (reconhecimento só se vinculado a políticas de precificação do carbono),

  • E a crítica sociológica (necessidade de mecanismos de auditoria e governança para evitar manipulação).

👉 Resultado: seria plausível reconhecer Escopo 3 como passivo contingente, vinculado a cenários regulatórios e preços de carbono, enquanto se fortalece a divulgação obrigatória padronizada.

Imagem: aqui 

16 agosto 2025

Normas de Mensuração do setor público

A International Public Sector Accounting Standards Board (IPSASB), que emite normas internacionais de contabilidade para o setor público, aprovou em junho de 2025 as Emendas às Normas IPSAS Resultantes da Aplicação da IPSAS 46, Mensuração (vide aqui também). Estas alterações entrarão em vigor em 2028.

O principal objetivo deste projeto foi introduzir a abordagem de valor operacional atual como uma base de mensuração nas normas. Esta nova abordagem terá um impacto na IPSAS 12, Inventários, onde o método será agora utilizado tanto na mensuração inicial de inventários adquiridos em transações sem contraprestação, quanto na mensuração subsequente para inventários mantidos pela sua capacidade operacional. 


Outra alteração crucial ocorre na IPSAS 21, Desvalorização de Ativos Não Geradores de Caixa. A definição de "valor recuperável do serviço" foi atualizada para o mais alto entre o valor justo menos custos de venda e o valor operacional atual. Isso alinhando a IPSAS 21 com os princípios de mensuração da IPSAS 46.

Além disso, as emendas adicionam uma definição de estimativa contabil na IPSAS 3, consistente com a terminologia da IPSAS 46. E a terminologia das divulgações de mensuração de valor atual em diversas normas IPSAS foi aprimorada.

29 junho 2025

Sobre as regras de contabilidade de cripto do Bacen

A proposta de regulamentação, anunciada na terça, 24, pela autoridade monetária, trata da definição de critérios de reconhecimento e mensuração, assim como do tratamento contábil, de ativos virtuais emitidos ou sob custódia. O documento também aborda temas como as exigências de notas explicativas sobre variações do valor.

A Resolução que será criada a partir da CP 122/2025 servirá para saber o valor realizável dos criptoativos detidos. “A Resolução proposta segue tendência internacional de regulamentação de práticas contábeis para registro de criptoativos e tem pontos que demandam atenção, como a alta volatilidade que a constante avaliação a valor justo causará nos resultados contábeis”, aponta [o advogado Guilherme Peloso] Araujo.

Apesar de tratar da regra de contabilidade, o texto não mencionou nenhum especialista não jurídico da área. 

17 junho 2025

Valor justo para atletas? A Deloitte promete entregar a informação

Eis a notícia 


Uma grande decisão judicial da NCAA com os estudantes-atletas envolve um mecanismo para limitar os contratos de nome, imagem e semelhança (NIL) ao “valor de mercado justo”, algo que pode ser difícil de mensurar, mesmo para a maior empresa de contabilidade do mundo. O modelo da Deloitte irá estimar uma faixa aceitável para cada contrato, em vez de um valor específico. Ainda assim, será necessário traçar limites — possivelmente em zonas cinzentas — para determinar quais contratos de NIL configuram pagamento por desempenho (pay-for-play). “Eu acho que esse é um objetivo louvável. Não acho que seja viável”, afirmou o advogado especializado em propriedade intelectual e esportes Mike Ingersoll, do escritório Womble Bond Dickinson.

A fonte original é a Bloomberg. 

16 maio 2025

O desafio de mensurar um objeto histórico


Eis o texto original:

Uma rara cópia original da Magna Carta de 1300 foi identificada nos arquivos da Faculdade de Direito de Harvard. Comprada em 1946 por apenas 27,50 dólares (equivalente a cerca de 477 dólares atualmente), ela foi arquivada incorretamente por décadas e durante muito tempo foi considerada apenas uma réplica. Agora, confirma-se que o pergaminho de pele de carneiro é um dos apenas sete exemplares originais ainda existentes, emitidos pelo rei Eduardo I naquele ano.

Historiadores britânicos descobriram sua importância após encontrarem uma imagem digital em alta resolução na internet. Em seguida, usaram luz ultravioleta e imagem espectral para comparar os textos físicos e verificar sua autenticidade. Eles acreditam que o documento foi enviado originalmente para o distrito parlamentar de Appleby-in-Westmorland, na Inglaterra, e mais tarde adquirido por livreiros de Londres de um herói de guerra da Força Aérea Real, antes de ser vendido para Harvard.

Assinada pela primeira vez em 1215 pelo rei João, a Magna Carta estabeleceu o princípio de que ninguém — nem mesmo um monarca — está acima da lei. A versão de 1300, conhecida como Confirmação das Cartas, reafirmou esses direitos e ajudou a lançar as bases do direito constitucional, incluindo a Constituição dos Estados Unidos.

(Da newsletter 1440). Imagem aqui

Veja a dificuldade de mensuração de um ativo histórico. Em sua origem, o custo histórico de 27,50 dólares poderia hoje equivaler a apenas 477 dólares, se corrigido monetariamente — cerca de 17 vezes o valor original. No entanto, o que o torna um objeto historicamente valioso são suas características. O fato de ter sido considerado uma réplica levou o documento a ser tratado, durante décadas, como um ativo de baixo valor. A descoberta de que o documento não apenas era original, mas também raro, tornou o processo de mensuração de seu valor muito mais complexo.

Do ponto de vista contábil, esse caso evidencia os limites do custo histórico como base de mensuração. Afinal, o exemplo mostra como a contabilidade tradicional pode não refletir a relevância histórica, cultural ou de mercado de um ativo. Mesmo o valor justo pode ser difícil de determinar em situações de raridade extrema e ausência de transações comparáveis. Isso levanta discussões sobre a utilidade das informações contábeis nesse tipo de contexto.


26 março 2025

Estranho argumento

 Lendo notícias passadas encontrei isso:

“Temos uma nova administração compatível com criptografia e Bitcoin, com discussões em andamento para uma reserva em bitcoin dos EUA, e também regras do FASB Financial Accounting Standards Board que agora permitem que as empresas mantenham Bitcoin em seus balanços sem penalidade”, disse James Lavish, sócio-gerente do Bitcoin Opportunity Fund, observou. “Isso legitima ainda mais o Bitcoin como um ativo corporativo.”

De acordo com os padrões contábeis implementados pelo FASB, as entidades devem mensurar ativos criptográficos a valor justo a cada período de relatório. A nova regra começou a valer em 15 de dezembro. As alterações também exigem que uma entidade forneça divulgações sobre participações significativas, restrições contratuais de venda e alterações durante o período de relatório.


 

Utilizar o custo histórico — uma regra antiga — foi considerado uma penalidade. O motivo é que, quando o Bitcoin está se valorizando, esse aumento não aparece nos resultados da empresa. Da mesma forma, uma eventual perda também não é registrada quando há desvalorização. Além disso, Lavish considera que a forma de mensuração tem o poder de legitimar algo como um ativo. No entanto, acredito que essa legitimação está presente no reconhecimento do item em si, e não no montante registrado como ativo.

16 março 2025

Ativos Digitais e sua influência sobre a contabilidade

Accountancy Age (tradução resumido do GPT):

Os ativos digitais, como criptomoedas (Bitcoin, Ethereum), ativos tokenizados e finanças descentralizadas (DeFi), estão transformando as bases financeiras das empresas globais. Essa evolução pressiona estruturas contábeis, sistemas regulatórios e práticas de auditoria tradicionais, exigindo uma reavaliação de métodos estabelecidos há décadas.

Desafios aos Padrões Contábeis

As criptomoedas introduzem desafios aos frameworks contábeis existentes. Pelo IFRS, são classificadas como ativos intangíveis, exigindo testes de imparidade periódicos; já pelo US GAAP, podem ser categorizadas como inventário, dependendo do modelo de negócios da entidade. Essa inconsistência global complica os relatórios financeiros de multinacionais, destacando a necessidade urgente de padronização. Além disso, a volatilidade das criptomoedas, como o Bitcoin, que variou de US$68.789 em 2021 a US$16.537 em 2022, exige reavaliações constantes do valor justo, desafiando métodos tradicionais e introduzindo riscos significativos aos demonstrativos financeiros.

Impacto na Auditoria e Relatórios

A tecnologia blockchain, base dos ativos digitais, oferece um registro imutável e transparente de transações, permitindo auditorias em tempo real e reduzindo riscos de fraude. Estima-se que o blockchain possa reduzir custos de auditoria em até 50% ao automatizar processos de verificação e diminuir a dependência de verificações manuais. Setores com cadeias de suprimentos complexas, como farmacêutico e alimentício, já utilizam blockchain para maior transparência, o que, na contabilidade, se traduz em uma abordagem simplificada para verificar propriedade e reconciliar transações.


Complexidade Regulamentar

A rápida adoção de ativos digitais criou um cenário regulatório fragmentado. Enquanto alguns países adotam abordagens progressistas, outros impõem restrições rigorosas, resultando em um mosaico de regulamentações que desafia empresas e profissionais contábeis a navegar por requisitos variados e, às vezes, conflitantes.

07 março 2025

Valor justo de uma estátua do Oscar


Desde 1951, todas as estatuetas do Oscar são entregues com uma condição: se o vencedor quiser vendê-la, deve primeiro oferecê-la de volta à Academia por US$1. Atualmente, existe um mercado paralelo para os "cavaleiros dourados". Alguns compradores são cinéfilos anônimos, mas outros são as próprias estrelas: Steven Spielberg comprou estatuetas do Oscar e as doou de volta à Academia. (1440 Daily Digest, 2 de março)

 Algumas discussões contábeis interessantes aqui: qual o valor justo do Oscar?; existiria realmente um valor justo, já que não há uma transação "justa" entre as partes?; é possível considerar o mercado paralelo, mesmo sendo "ilegal"?.

01 março 2025

Valor justo no governo

O Governmental Accounting Standards Board (GASB) publicou um relatório de revisão pós-implementação sobre a Pronunciamento nº 72, que trata da mensuração e aplicação do valor justo. O relatório concluiu que a norma atingiu seus objetivos principais:​ a) atendeu ao propósito declarado, resolvendo questões de avaliação do ponto de vista de relatórios financeiros.; b) Os custos e benefícios associados estão alinhados com as expectativas iniciais; c) O conselho seguiu adequadamente seu processo de definição de normas.​

Além disso, a aplicação do pronunciamento fornece aos usuários informações úteis para a tomada de decisões, como mensurações de valor justo utilizadas na análise de informações financeiras governamentais e divulgações relacionadas ao valor justo. A norma agora está apta a passar por procedimentos de revisão pós-implementação mais extensos, culminando em um relatório final.


30 dezembro 2024

As postagens mais lidas em 2024

2024 foi um ano repleto de conteúdos interessantes e altamente acessados no nosso blog. Aqui estão as postagens que mais se destacaram:

  1. Por que falamos 'Estou em débito com...'

  2. Deseconomias de aglomeração

  3. Frases sobre dados e ciência de dados

  4. Endividamento oneroso

  5. Chamada Universal CNPq 2024 - Detalhes

  6. Valor justo e ativos biológicos

  7. A importância da reclassificação do balanço

  8. Esportes mais caros do mundo

  9. Materialidade em auditoria

  10. Letras mais usadas na língua portuguesa

Esses rankings mostram o interesse variado dos leitores, que vão desde temas clássicos de contabilidade até novidades tecnológicas e curiosidades diversas. Relembre outras postagens mais lidas: aqui.