Translate

30 junho 2026

Osso de Ishango


Do blog de Pedro Demo:

Trata-se do Osso de Ishango, de 18 mil aC, que hoje está no Real Instituto Belga de Ciências Naturais, em Bruxelas. Foi descoberto em 1950, no lago Eduardo, na fronteira da atual República Democrática do Congo, perto de um século após os colonos europeus se maravilharem com as possibilidades comerciais do até então inexplorado rio Congo. Atravessando a África central, o rio foi e ainda é a espinha dorsal da região, usado há milênios como uma via comercial muito privilegiada. Trata-se de um fêmur de babuíno com uma série de traços entalhados. Não há consenso entre os arqueólogos em relação à finalidade do artefato, mas especula-se que cada traço indique um montante devido por alguém a outra pessoa e que, juntos, sejam o registro de uma transação ou um conjunto de créditos e débitos. Os entalhes poderiam ser registro de que as transações foram pagas, ou liquidadas, ou pendentes (Joseph, 1991). Se o Osso de Ishango foi mesmo uma talha numérica comercial, os traços representam também o primeiro exemplo conhecido de valor, que é um conceito sofisticado. Atribuir valor é exercício de pensamento abstrato, até porque o que M [de McWilliams (2025), no livro Dinheiro] valoriza e o preço que ele está disposto a pagar por algo podem ser bem diferentes daquilo que outrem valoriza e de quanto está disposto a pagar pelo mesmo item. Parece claro que estamos falando de hipóteses de trabalho científicas - estamos supondo que o osso foi entalhado como contabilidade (a pagar, a receber), mas não temos certeza disso. Em si, o entalhe pode ter outros significados ou nenhum, por ter sido, digamos, um passatempo eventual de alguém que entalhou. 

Cabe, então, se perguntar: teriam nossos antepassados africanos buscado resolver a situação desenvolvendo forma preliminar de comércio para a qual precisavam de contabilidade? Se a própria história da humanidade começa na África, não surpreenderia que a história do dinheiro também principie por lá. Para além de meras conjeturas, o que sabemos é que os africanos estavam contando (poderiam estar só entalhando!)... O Osso de Ishango é ferramenta de registro muito antiga, e, se os ancestrais estavam contando para fazer transações, é provável que a moeda-base fossem pessoas. A escravidão foi o pecado original do dinheiro (M:32). No registro tradicional da espécie, ela foi nômade, sedentária, depois nômade de novo, antes de se fixar, por volta de 5 mil aC em comunidades pequenas que se organizariam prevalentemente em torno do dinheiro. Mas a teoria do Osso de Ishango, de um comércio primitivo, insinua que os ancestrais pensaram em dinheiro muito antes disso. As pessoas que entalharam o Osso eram caçadores-coletores no limiar de um novo mundo. No centro de sua sociedade, na Idade da Pedra, estava a tecnologia temida por Zeus: o fogo. 

Não é possível afirmar que seja o primeiro exemplar de uma transação comercial. Há controvérsias quanto a datação do osso. Mas é incrível imaginar que se tenha algo bem mais antigo que as tabuletas da região do oriente médio. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário