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25 janeiro 2026

Privacidade perdida e gerenciamento de resultados


Quando uma empresa acredita que terá um resultado decepcionante, os gestores começam a adotar práticas como alterar o valor da depreciação, aumentar incentivos para vendas, reduzir investimentos em pesquisa, entre outras. Uma pesquisa mostrou que o impacto vai além da contabilidade, atingindo também a área de tecnologia da empresa.

Wen-Hsin Chang, em Privacy Lost? Consumer Digital Privacy and Earnings Benchmarks, mostrou que empresas que têm risco de não entregar o resultado esperado aumentam o rastreamento dos clientes, por parte de terceiros, em seus sites, para tentar elevar visitas e transações. Parece que isso realmente aumenta o número de visitas, mas pode prejudicar os consumidores e as próprias empresas.

Estudando dados entre 2018 e 2022 e combinando informações de diferentes fontes, Chang conclui que as empresas que mal bateram seu benchmark de resultados haviam incorporado cerca de 20% mais rastreadores do que a média de seu setor. Houve um aumento nas visitas, mas isso pode gerar problemas no futuro, pois tende a tornar a situação irritante.

Leia também aqui 

CEO do Itau não está mentindo quando diz que não distribuiu CDB do Master

Eis a manchete: 


O print foi retirado da página do Estado de São Paulo. Aqui está o endereço. Mas veja a imagem de um extrato de investimento de um cliente Itaú


 Na parte debaixo, CDB WillCFI, sendo que Will significa WillBank. Eis o que diz a Wikipedia:


 Em outras palavras, WillBank é Master. Mas acusar alguém sem conhecer os aspectos técnicos da questão pode dar processo. De curiosidade fiz a seguinte pergunta para o Chat GPT> 

Me ajude a entender a situação. O CEO do Itau diz que nunca distribuiu CDB do Master. Mas a imagem de um extrato de investimento de um correntista mostra claramente um CDB do WillBank. A Imagem da Wikipedia afirma que o Will Bank foi comprado pelo Master. O CEO do Itau está mentindo ou manipulando os fatos ou ele tem razão?

A resposta do GPT foi a seguinte:

Excelente pergunta — e a aparente contradição é real apenas à primeira vista. Tecnicamente, o CEO do Itaú não está mentindo, mas a situação envolve uma distinção jurídica e operacional que não é óbvia para o público.

Vou organizar em três camadas.


1) O que exatamente o CEO do Itaú disse

Segundo a entrevista ao Estadão:

Nunca distribuímos um CDB do Banco Master, porque ele não passou nos critérios técnicos.”

Ou seja, a afirmação é estritamente literal:
o Itaú diz que nunca colocou na prateleira um produto cujo emissor formal fosse o Banco Master.

Isso é relevante porque, em renda fixa no Brasil, o emissor legal do título é o que define:

  • risco de crédito,

  • cobertura do FGC,

  • enquadramento interno de risco,

  • e compliance regulatório.


2) O que a imagem do extrato realmente mostra

O extrato do correntista mostra:

“CDB WILL CFI CDI 117% 06/05/2026”

Pontos técnicos importantes:

  • O emissor não aparece como “Banco Master”.

  • O nome comercial do produto é Will Bank.

  • O CDB está rotulado como um título do Will Bank (ou do veículo financeiro dele).

Portanto, formalmente:

O Itaú não distribuiu um CDB do Banco Master.
Ele distribuiu um CDB do Will Bank.

Mesmo após a aquisição do Will Bank pelo Master, isso não altera automaticamente o emissor legal dos títulos já emitidos ou dos produtos ofertados sob a marca Will.


3) O que a Wikipedia adiciona (e o que ela NÃO resolve)

A Wikipedia afirma:

Em fevereiro de 2024, o Banco Master comprou o controle do Will Bank.
Em janeiro de 2026, o BC decretou liquidação extrajudicial do Will Bank devido à crise do Master.

Isso mostra que:

  • Houve controle societário do Will Bank pelo Master.

  • Houve contágio financeiro da crise do Master para o Will Bank.

  • Mas não houve fusão jurídica imediata entre os dois bancos.

  • O Will Bank continuou existindo como CNPJ, licença bancária e emissor próprio.

Em termos regulatórios brasileiros, isso é crucial:

Controle societário ≠ identidade jurídica do emissor.


4) Então o CEO do Itaú está mentindo?

Não.
Ele está sendo tecnicamente preciso — e politicamente cuidadoso.

O que ele disse é verdadeiro no sentido estrito:

  • O Itaú não distribuiu títulos emitidos pelo Banco Master.

  • O Itaú distribuiu títulos emitidos pelo Will Bank, que:

    • tinha marca própria,

    • licença própria,

    • balanço próprio,

    • e emissões próprias.


5) Mas há, sim, uma zona cinzenta de comunicação

Embora a frase seja tecnicamente correta, ela omite um ponto relevante para o público leigo:

  • O Will Bank já estava sob controle do Banco Master.

  • Logo, o risco econômico real já estava ligado ao grupo Master.

  • E, de fato, a crise do Master acabou levando à liquidação do Will Bank.

Ou seja:

O Itaú não mentiu.
Mas comunicou a verdade no nível jurídico-formal, não no nível econômico-grupal.

Isso é típico em crises financeiras:
instituições usam a separação legal entre entidades do mesmo grupo como linha defensiva de reputação e compliance.


6) Conclusão objetiva

Resposta curta:

  • ❌ O CEO do Itaú não está mentindo.

  • ❌ Ele também não está manipulando fatos.

  • ✅ Ele está usando uma distinção jurídica real:

    • “Banco Master”“Will Bank” como emissores formais de CDB.

Resposta substantiva:

  • O Itaú distribuiu um CDB do Will Bank.

  • O Will Bank já era controlado pelo Master.

  • A crise do Master contaminou o Will Bank.

  • Mas, legalmente, o emissor do título não era o Banco Master.

Portanto:

A frase do CEO é tecnicamente verdadeira,
mas economicamente incompleta para quem quer entender o risco de grupo.


Se você quiser, posso também:

  • destrinchar como isso impacta FGC, responsabilidade e eventuais ações judiciais, ou

  • avaliar se houve falha de suitability do Itaú ao distribuir esse CDB dado o risco do grupo controlador.

 
 Assim, aceito a resposta do GPT e afirmo, inclusive no título, que o CEO do Itau não está mentindo.  

24 janeiro 2026

Redução do número de pessoas do Board do Iasb e Issb

Passou desapercebido do blog uma decisão interessante da Fundação IFRS: a redução de 14 para 10 os membros dos dois conselhos (Iasb e Issb). Eis trecho do texto

Conforme destacado em seu Relatório Anual de 2024, a Fundação IFRS iniciou uma revisão estratégica e abrangente de suas operações e agora está implementando elementos-chave de um programa de transformação. O objetivo do programa é garantir que a organização permaneça preparada para o futuro, após um período de sucesso significativo e rápido crescimento, e continue a cumprir sua missão de levar transparência, eficiência e accountability aos mercados de capitais em nível global.


Como parte de seu programa de transformação, a Fundação:

  • simplificou suas estruturas de gestão, linhas de reporte e racionalizou a tomada de decisões operacionais em toda a Fundação e em seus conselhos;

  • realizou uma revisão dos custos operacionais para assegurar o uso eficiente e eficaz dos recursos em toda a Fundação. Como parte desse trabalho, os Trustees aprovaram uma redução nos custos de governança e de pessoal, bem como planos para reduzir os custos de operação dos dois conselhos. A redução será alcançada por meio de maior uso da flexibilidade prevista na Constituição para determinar o tamanho apropriado dos conselhos emissores de normas. Os Trustees pretendem reduzir gradualmente cada conselho de 14 para 10 membros até o final de 2028, à medida que os mandatos dos membros forem se encerrando; [negrito do blog] 

Já tínhamos comentado anteriormente (aqui, por exemplo) sobre a situação financeira da Fundação. Nos últimos anos, a despesa cresceu muito, com a contratação de mais pessoas. Isso é uma despesa fixa, mas será que ainda existem interessados em doar para a Fundação? Vamos ver o que diz o Relatório de 2025.

Papel da informação contábil na pesquisa de fraude

Este artigo revisa a extensa literatura sobre o poder preditivo das informações contábeis para a falência. Pesquisas anteriores demonstram que as informações das demonstrações financeiras preveem falências de forma eficaz fora da amostra (out-of-sample), tanto de forma independente quanto em combinação com dados de mercado. Discuto diversos atributos da informação contábil que podem ampliar ou prejudicar sua utilidade na previsão de falências. Utilizando um conjunto de dados abrangente de falências entre 1980 e 2023, analiso como o papel da informação contábil na avaliação do risco de crédito evoluiu nas últimas quatro décadas. Minhas descobertas revelam que o poder preditivo de modelos baseados exclusivamente em informações contábeis permaneceu estável nas décadas mais recentes, ao passo que o poder preditivo das informações do mercado de capitais apresentou um aumento modesto. Notavelmente, o desempenho dos modelos contábeis e de mercado nem sempre se alinha. Em períodos de declínio na eficácia da informação de mercado, a informação contábil frequentemente permanece robusta, mitigando o impacto em modelos combinados. Por outro lado, as informações de mercado frequentemente compensam reduções no poder preditivo dos dados contábeis, ressaltando as forças complementares dessas fontes de informação.

Resumo daqui 

Correia, Maria (2025) Accounting and corporate failure: the evolving role of accounting information in bankruptcy prediction. Accounting and Business Research, 55 (5). 510 - 537. ISSN 0001-4788  


Atratividade do salário do contador na América Latina

(...) A América Latina tornou-se a escolha óbvia para muitas equipes de contabilidade dos EUA, e aqui está o porquê:

  • Educação contábil de classe mundial. As principais universidades da região, como a Universidade de Buenos Aires e a Universidade de São Paulo, possuem programas de contabilidade consolidados com padrões rigorosos. Os graduados ingressam no mercado de trabalho com bases técnicas sólidas e um conhecimento profundo das normas IFRS, o que lhes confere as habilidades necessárias para se adaptarem rapidamente às necessidades das empresas americanas.
  • Alinhamento de fuso horário. São Paulo, Bogotá e Cidade do México compartilham a maior parte — ou a totalidade — da jornada de trabalho dos EUA. Isso significa que reconciliações, revisões e aprovações podem ocorrer em tempo real, e não de um dia para o outro. 
  • Experiência com firmas globais. Muitos profissionais iniciam suas carreiras nos escritórios latino-americanos das "Big Four" (PwC, Deloitte, etc.) ou em multinacionais. Isso significa que as empresas dos EUA podem contratar contadores que já sabem operar conforme os padrões globais e americanos.
  • Eficiência de custos. Para empresas que não conseguem acompanhar a aposta de bilhões de dólares da Ernst & Young em salários, a América Latina também oferece uma resposta prática às pressões de custos. As expectativas salariais para profissionais contábeis de alto nível na região são, normalmente, de 30% a 70% menores do que nos EUA, devido às diferenças no custo de vida. 


 Fonte: aqui

23 janeiro 2026

Influência dos influenciadores

Os influenciadores possuem um grande poder, não somente nas decisões de compra, mas também aconselhando as pessoas, inclusive em questões contábeis. Uma pesquisa mostrou a importância dos influenciadores (via aqui), como no Brasil (primeiro país da imagem), mas também cresce em outros mercados, como Coréia do Sul.

Detecção de plágio


O surgimento da inteligência artificial fez com que sua aplicação passasse a ser usada, e muito, no ambiente acadêmico. Tive a experiência de receber um trabalho em que, ao final do texto, havia uma frase do tipo: “Se você deseja um detalhamento maior, posso ajudá-lo...”. Claramente, o aluno usou IA para fazer o trabalho. Em outro, surgiram cinco citações cujo texto original não consegui localizar, indicando também que o trabalho deve ter sido feito pela ferramenta.

Mas, em outros casos, tive sérias dúvidas sobre a autoria, embora não pudesse comprovar, com certeza, o problema ético. Muitas vezes recebo e-mails em que tipicamente foi usada a IA para a redação. Isso é, de fato, um problema.

Na contabilidade, tivemos um caso na Austrália em que uma empresa de auditoria, contratada pelo governo para realizar um trabalho, usou — comprovadamente — IA. Teve que devolver o dinheiro recebido pelo serviço contratado. E os exemplos prosseguem.

Mas há uma consequência interessante desse mundo moderno. Assim como existe inteligência artificial para fazer trabalhos acadêmicos, os softwares de plágio começaram a vender soluções para detectar o uso de IA. Recentemente, minha universidade disponibilizou uma dessas ferramentas, o Turnitin, com essa função.

O grande problema é que as ferramentas de detecção não funcionam como anunciam. Por desconfiar disso, resolvi não pedir mais trabalhos científicos na disciplina de graduação. Além de dar muito trabalho ler duas vezes a peça, não tinha segurança sobre como o aluno havia avançado nisso.

E, infelizmente, algumas instituições estão levando essas ferramentas a sério e até punindo alunos. Há o caso de uma universidade da Austrália que usou o Turnitin para detectar o uso de IA. Seis mil estudantes foram acusados, e muitos deles não fizeram nada de errado. As empresas de software advertem para que os resultados sejam usados com cautela, mas essa universidade não o fez. Depois disso, a universidade resolveu desligar a ferramenta.