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22 maio 2026

Rios da Babilônia


De Pedro Demo, no seu blog:

Houve a necessidade de registros contábeis: quem devia quanto e a quem. Era preciso anotar, para acompanhar "o carrossel de dívidas" (M:45). Aumentou também a necessidade de fluência em cálculos básicos - quem não soubesse somar/diminuir, multiplicar/dividir não iria negociar. No início, contava-se com os dedos, o que explica razoavelmente a estruturação de 5 e 10 como numerais básicos. Culturas antigas contavam usando os dedos das mãos e dos pés, tendo o 20 como base. Em francês há um resquício disso: 80 são quatre-vingts (quatro vintes), enquanto falantes de português chamam de "oitenta", oito dezenas. Certas tribos que andaram pela França muito antes de César teriam usado a base 20. Apesar de tantas invasões posteriores e novas culturais se sobrepondo, os franceses ainda guardam a base 20. Os sumérios desenvolveram como base o 60. Foi uma inovação tecnológica, pois o dinheiro e o comércio exigiam um número que fosse divisível por uma enorme variedade de números menores (e 60 é divisível por 40, 20, 15, 12, 6, 5, 4, 3 e 2). Para eles, 60 era número mágico. Hoje, sobraram os 60 segundos do relógio. Então, o bazar da negociação queria pragmatismo, não elegância: não entendendo os cálculos básicos numa sociedade monetizada, os riscos de ser enganado disparavam. Dinheiro foçou a pensar em números. Circulando dívidas, surgiram inovações financeiras. Na Mesopotâmia, se alguém devesse algo a outrem e este devesse a mim, eu poderia sair da jogada e o contrato ser refeito entre o meu credor e a outra pessoa (meu devedor). Desde 3 mil aC já existia uma espécie de nota promissória, quase como o cheque, criação do século 20. 

Os modelos de fluxo de caixa são antigos, pois relatórios financeiros foram necessários há muito tempo atrás. O grau de sofisticação financeira dos sumérios era já impressionante. Arqueólogos acharam uma tabuleta com inscrições da cidade de Drehem, de 2,1 mil aC (Goetzmann, 2016:37-40), que seria a primeira planilha achada no mundo. Linhas e colunas sugerem um "fantástico software financeiro primitivo" (M:47). A tabuleta projeta e prevê para o investimento em um negócio de criação de gado. Contém pressupostos sobre nascimento e morte de animais, associados a projeções de fertilidade, produtos alimentícios e outros insumos, levando a um modelo específico de lucros e perdas à taxa de juros vigente (Goetzmann, 2018:cap.2). Tal estrutura, com proporções e fórmulas, facultava aos investidores inserir diferentes cenários e obter um número como resultado. A tabuleta de Drehem é "modelo" plurianual para negócio pecuário, com projeções de crescimento baseadas na produção de leite. Como planejamento financeiro e análise de tabelas contáveis, não está muito distante dos planos de negócios que startups usam para levantar capital. A civilização suméria inventou a escrita, a contabilidade, um sistema jurídico complexo e uma arquitetura financeira sofisticada, tudo ancorado na taxa de juros. 

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