No livro Teoria da Contabilidade, Niyama e Silva discutem a questão das milhas aéreas. Acontece que a discussão é sob a ótica do passivo, da empresa que lança o plano de bonificação. E, sob a ótica de quem recebe as milhas, a discussão também é interessante. Mas, como geralmente não acontece nas empresas, o assunto não tem tanta relevância para a contabilidade financeira.
(Aqui um parêntese: muitas empresas exigem que seus funcionários repassem as milhas para a própria empresa, que irá usá-las no futuro. Estamos assumindo que não é essa a situação, mas que a empresa paga para seu funcionário e este coloca as milhas em sua conta pessoal. Isso também cabe discussão.)
Se, na companhia aérea, as milhas correspondem a um passivo, do lado de quem está usando o serviço — uma empresa ou uma pessoa — as milhas seriam um ativo. Mas o reconhecimento depende não somente de satisfazer a definição, mas também da mensuração. Se um passageiro ganha as milhas, mas isso não é suficiente para resgatar sob a forma de um bilhete extra, não devemos considerar como um ativo. É o caso do passageiro que viaja pouco por uma empresa e as milhas expiram com o tempo. Mas, caso exista chance de ocorrer o resgate das milhas, estas serão um ativo.
Em um mundo ideal, as milhas contabilizadas no passivo da empresa aérea deveriam ser iguais à soma das milhas existentes nos ativos das pessoas, físicas ou jurídicas. Na prática, não acontece por uma série de razões. De pronto, muitas pessoas não “reconhecem” as milhas em seus ativos, inclusive por não terem uma “contabilidade” adequada, como é o caso das pessoas físicas. Outra razão é que, para muitas empresas aéreas, o custo da milha é somente o custo variável, já que o custo fixo não depende do passageiro extra proveniente dos programas de fidelidade. Em alguns casos, a obtenção de pontos para serem trocados por milhas pode ser feita em transações fora do transporte aéreo, como é o caso do cliente que usa o cartão de crédito em uma compra em uma loja.
Para os consumidores que consomem seus recursos visando obter os bônus que darão direito à troca por milhas — e muitas vezes o fazem só por essa finalidade — as milhas podem ter um impacto negativo e não deveriam ser, rigorosamente, um ativo.
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