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15 abril 2020

Faz sentido uma empresa fazer uma doação neste momento?

O Itaú Unibanco anunciou a criação de uma iniciativa chamada Todos pelas Saúde, com uma "doação" de 1 bilhão. Segundo a instituição, o recurso "tem o objetivo de combater o novo coronavírus e seus efeitos sobre a sociedade brasileira". Nestes últimos dias, a Alpargatas anunciou a doação de sandálias para a população. Um pouco antes da páscoa, a Nestlé fez uma doação de 20% da produção de ovos de chocolates para pessoas carentes.

Isto faz sentido? Sob a ótica financeira, talvez. Observe que a administração de cada uma das entidades tomou uma decisão, sem uma consulta ao acionista. Se o trabalho da gestão é agregar valor, cabe a pergunta se este tipo de ação atinge este objetivo.

O caso da Nestlé foi anunciado bem perto da páscoa. Como neste momento o consumo de supérfluos deve ser reduzido, provavelmente parte do estoque não seria vendido. Veja o que diz o Valor (Alexandre Melo, Nestlé doa 20% dos ovos de chocolate, 13 de abril de 2020, B6)

Questionado se a doação tem relação com a venda sazonal fraca, Milo [vice-presidente da Nestlé Brasil] respondeu que as conversas com a varejista [Lojas Americanas] começaram há duas semanas [quando já se sabia da demanda].

Como os ovos são negociados com o varejo em consignação, e as vendas se mostravam fracas, na semana passada a Mondelez retirou produtos estocados na Lojas Americanas para revender a pequenos e médios varejistas. 

Sobre o caso do Itaú é importante fazer uma grande ressalva. No meu entendimento, considero que a entidade não fez uma doação. Eis o que foi dito no anúncio da entidade:

Caberá a uma equipe de sete reconhecidos especialistas a definição das ações a serem financiadas por esses recursos.



Na realidade, o Itaú reservou um valor de 1 bilhão para serem gastos em ações. Contabilmente, nenhuma entidade recebeu estes recursos, embora possa acontecer. Veja as ações que serão/poderão ser financiadas:

  • Informar: orientação da população como campanha de incentivo ao uso de máscaras;
  • Proteger: testagem populacional e para profissionais de saúde;
  • Cuidar: apoio aos gestores públicos estaduais e de grandes municípios na estruturação de gabinetes de crise; capacitação e apoio aos profissionais de saúde; uso de telemedicina; ampliação da capacidade e eficiência em estruturas hospitalares referenciadas; compra e distribuição de insumos estratégicos, além da mobilização de equipamentos e recursos humanos.
  • Retomar: colaboração para o desenvolvimento de estratégias, visando a: retorno mais seguro às atividades sociais; e programas de monitoramento da população com risco elevado.
Veja que o primeiro item pode se confundir com uma campanha institucional. Considero muito mais uma despesa operacional do que uma doação. O segundo tem uma característica maior de doação. Mas o terceiro e quarto item são amplos demais para uma análise contábil mais precisa.

Talvez a ação do Itau seja muito mais defensiva. No momento atual, uma "doação" (perdão, mas continuo achando que não é uma doação) pode inibir uma atitude política de questionar os lucros dos bancos, por exemplo. Ou aumento na alíquota do imposto.

Distribuindo dividendos

Um grande número de empresas está evitando distribuir dividendos. Mas a SLC fez algo interessante. Além de mudar a data da assembleia, a SLC decidiu:

Adicionalmente, o Conselho de Administração aprovou nesta data a distribuição antecipada dos dividendos obrigatórios ordinários anuais, com base no lucro líquido ajustado da Companhia no exercício social encerrado em 31/12/2019, consoante artigo 204 da Lei 6.404/76 e artigo 37 do Estatuto Social da Companhia, no valor total de R$73.749.774,47 (setenta e três milhões, setecentos e quarenta e nove mil, setecentos e setenta e quatro reais e quarenta e sete centavos), equivalentes nesta data ao valor de R$0,39415410 por ação. O valor por ação é estimado e poderá ser alterado em decorrência de alienações de ações em tesouraria que ocorram para atender aos Planos de remuneração baseados em ações da Companhia.


Faz sentido?

(Talvez no caso de um controlador, necessitando de $, isto pode ser interessante)

Brasil vai falir: a explosão da dívida pública de 2020 a 2030

Segundo o Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) divulgado dia 13 de abril de 2020 pela IFI, o Brasil caminha a passos largos pra uma trajetória insustentável de dívida pública. O cenário pessimista considera que o PIB vai cair 5,2% em 2020, o que está em linha com outras instituições








Por dentro do insider trading: Becker encontra Kyle

Resumo:

How do illegal insider traders act on private information? Do they internalize legal risks? We address these questions using a unique sample of illegal insider traders convicted by the Securities Exchange Commission (SEC). To shed light on the traders’ investment strategies, we analyze, theoretically and empirically, the tradeoff between the risk of information becoming public (information risk) and the risk of being subject to enforcement actions (legal risk). Consistent with Kyle (1985), insiders manage their trades’ size and timing according to prevailing liquidity conditions, fundamental and noise volatility, and the value of the private tips they receive. Behavioral variables, such as gender, age, and profession, play a lesser role. Using various shocks to legal risk, we find that insiders internalize such risk by moderating trade aggressiveness, providing empirical support to the regulators’ actions. Consistent with Becker (1968), positive shocks to legal risk also induce insiders to concentrate on fewer private signals of higher economic value. Thus, insider trading enforcement could hamper stock price informativeness.

Kacperczyk, Marcin T. and Pagnotta, Emiliano, Becker Meets Kyle: Inside Insider Trading (November 30, 2019). Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=3142006 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.3142006

Contabilidade Financeira: Por dentro do Insider Trading

Efeito Cantillon: consequências distributivas da impressão de dinheiro

What is the Cantillon Effect? - YouTubeDe acordo com Richard Cantillon, banqueiro e filósofo francês do século XVIII, quem se beneficia quando o estado imprime dinheiro é função da configuração institucional do Estado. No século 18, isso significava que, quanto mais você se aproximava do rei e dos ricos, mais se beneficiava e, quanto mais distante, mais se machucava. O mesmo acontece hoje, com as medidas de liquidez  do Banco Central dos EUA, beneficiando primeiro os fundos de hedge e as empresas de private equity.

O dinheiro, em outras palavras, não é neutro. A impressão de dinheiro tem consequências distributivas que operam através do sistema de preços, o que ficou conhecido como "Efeito Cantillon".

Rir é o melhor remédio

Curso de medicina nos dias atuais

14 abril 2020

Corte nos dividendos

O Valor Econômico fez um levantamento de 14 empresas que cortaram dividendos (e/ou juros sobre capital próprio) em razão dos problemas com o Covid-19. A movimentação aumentou com a Medida Provisória 931, que facilitou o processo: basta a decisão do Conselho de Administração, não mais a assembleia.

Em alguns casos, o dividendo realmente não será pago. Em outros, o pagamento será postergado. Há alguns casos, não inclusos na tabela, onde as empresas estão aproveitando para fazer recompra de ações. Isto pode ser um movimento perigoso, em termo políticos; se no futuro a empresa precisar de recursos (inclusive públicos), como justificar o uso passado do dinheiro para comprar suas ações?

Veja: Brandão, Raquel; Schincariol, Juliana. Corte o dividendo, o caixa sumiu. Valor, 13 de abril de 2020, p. B1 (via aqui, para assinantes).