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02 novembro 2021

Maldição do Conhecimento



De um artigo de Tim Harford, a maldição do conhecimento ou a dificuldade que uma pessoa bem informada tem em "apreciar", completamente, a ignorância de outras pessoas. Tim descreve sua experiência em ler as instruções de um exame de Covid, que talvez estivesse clara para quem escreveu, mas era bem confusa para ele. 

Tim comenta de um experimento famoso feito por Elizabeth Newton. Ela dividiu os participantes em dois grupos e pediu que um dele fizesse o som de uma música famosa, como Raindrops Keep Falling on my Head. A outra pessoa tinha que adivinhar a música. Para quem fazia o som, parecia muito fácil a tarefa. Apostavam que o acerto seria de 50%. Mas para quem escutava, tentando adivinhar, era bem difícil. Quem estava fazendo o ruído, podiam "ouvir" a música na cabeça, enquanto faziam o barulho. Eles não pensavam na música sem "ouvir" a letra. 

Isto não é novo, obviamente. Mas em um mundo com tanta informação, a chance de ocorrer aumenta substancialmente. Pense nas vezes que você tentou seguir as instruções de um produto e não conseguiu. Eis aí um exemplo desta maldição. 

Foto: cena clássica do filme Butch Cassidy and Sundance Kid

15 outubro 2021

Tecnologia e Moralidade


Um texto da Vox questiona se a tecnologia está fazendo com que as pessoas percam um pouco da sua moralidade. Apesar de achar o texto com algumas inferências sem apoio, não deixa de ser uma boa reflexão. Alguns trecho a seguir:

Múltiplo estudos sugeriram que a tecnologia digital está diminuindo nossa atenção e nos deixando mais distraídos. E se também estiver nos tornando menos empáticos, menos propensos a ações éticas? E se estiver degradando nossa capacidade de atenção moral - a capacidade de perceber as características moralmente salientes de uma determinada situação, para que possamos responder adequadamente? (...)

Os designers do Vale do Silício estudaram um conjunto inteiro de “tecnologia persuasiva" truques e os usaram em tudo, desde as compras com um clique da Amazon até o Feed de Notícias do Facebook e o algoritmo de recomendação de vídeo do YouTube. Às vezes, o objetivo da tecnologia persuasiva é fazer com que gastemos dinheiro, como na Amazon. Mas muitas vezes é apenas para nos manter olhando, rolando e clicando em uma plataforma pelo maior tempo possível. Isso ocorre porque a plataforma ganha dinheiro não vendendo algo para nós, mas vendendo-nos - ou seja, nossa atenção - para os anunciantes.(...)

Em 2010, psicólogos da Universidade de Michigan analisaram os resultados de 72 estudos sobre os níveis de empatia dos estudantes universitários americanos realizados ao longo de três décadas. Eles descoberto algo surpreendente: houve uma queda de mais de 40% na empatia entre os estudantes. A maior parte desse declínio ocorreu depois de 2000 - a década em que o Facebook, Twitter e YouTube decolaram - levando à hipótese de que a tecnologia digital era a principal culpada.(...)

Mianmar oferece um exemplo trágico. Alguns anos atrás, os usuários do Facebook usaram a plataforma para incitar a violência contra os Rohingya, um grupo minoritário majoritariamente muçulmano no país de maioria budista. Os memes, mensagens e "notícias" que o Facebook permitiu publicar e compartilhar em sua plataforma difamaram os Rohingya, classificando-os como imigrantes ilegais que prejudicaram os budistas locais. Graças ao algoritmo do Facebook, essas postagens emocionantes foram compartilhadas inúmeras vezes, direcionando a atenção dos usuários para uma visão cada vez mais estreita e sombria dos Rohingya. A plataforma, por sua própria admissão, não fez o suficiente para redirecionar a atenção dos usuários para fontes que colocariam essa visualização em questão. A empatia diminuiu; o ódio cresceu.

Em 2017, milhares de Rohingya foram mortos, centenas de aldeias foram queimadas no chão e centenas de milhares foram forçadas a fugir. Era as Nações Unidas disse, “um exemplo de livro didático de limpeza étnica." (...)

foto: aqui

14 outubro 2021

Plágio na dança


Em 1909, um dançarino indiano chamado Mohammed Ismail tentou processar a dançarina branca Ruth St. Denis, alegando que ele era o criador de uma das  danças "orientais" de Denis. Em 1926, a cantora de blues afro-americano Alberta Hunter alegou que ela possuía os direitos autorais da dança popular black bottom, uma dança social afro-americana.

Hunter executou o fundo preto diante de uma audiência branca em 1925. Um ano depois, a dança apareceu na revista de George White "Escândalos, ", que acendeu a mania de dança Black Bottom. (...)

Não foi até 1976 que a proteção de direitos autorais foi atualizado para incluir especificamente trabalhos coreográficos. (...)

Em 2011, De Keersmaeker alegou que Beyoncé, em seu videoclipe “Countdown", plagiou as danças de De Keersmaeker de duas obras diferentes -" Rosas danst Rosas "e" Achterland "- sem lhe dar crédito.

Ambos os artistas fizeram declarações públicas reconhecendo o que aconteceu. Parece que, embora uma quantidade substancial do movimento de De Keermaeker tenha sido transposta para "Countdown", ela também foi transformada - de um cenário de vanguarda de elite branca para um cenário de cultura pop negra. (...)

A proteção de direitos autorais foi criada principalmente para promover o progresso (1). O pensamento dizia que, se autores e artistas tivessem controle de seu trabalho, criariam um trabalho mais original, ganhariam a vida com ele e continuariam criando.

Mas o incentivo ao progresso também pode existir fora da proteção de direitos autorais. Foi isso que a dançarina que se tornou advogada Jessica Goudreault argumentou em um artigo de 2018 para a Cardozo Law Review.

Ela escreve que, para alguns estilos de dança, "o campo nunca pode evoluir sem a oportunidade de copiar", o que "sustenta e incentiva a inovação."

Eu argumentaria que isso se aplica às danças no TikTok. Sem a capacidade dos usuários de imitar livremente as danças, esses movimentos não se tornariam virais. Os criadores das danças não teriam seu momento ao sol - por mais breve que seja nas mídias sociais - e outros criadores poderiam ser menos inspirados a inovar se não tivessem os exemplos daqueles que vieram antes deles. (...)

O código aberto, um movimento social dos programadores de computador, é sustentado por critérios de licenciamento que garantem a integridade da autoria, entre outros princípios. O licenciamento de código aberto pode resolver o problema das pessoas corretas que recebem crédito por seus trabalhos. 

Fonte: aqui . Foto: Andre Hunter

(1) isto é bem controverso. Há setores onde o plágio é amplamente aceito. Em outros, não. O setor de moda, por exemplo, é extremamente criativo e funciona sem o direito autoral. Pacioli copiou parte do trabalho de Fibonacci no livro Summa. 

19 fevereiro 2021

Informator: uma parábola da era da informação


Quando Bob Fischer surgiu no mundo do xadrez, derrotando Donaldo Byrne, com 13 anos, naquela que é considerada a partida do século, o seu talento era inegável, mas enfrentava uma barreira: como melhorar seu nível. Nestes casos, as pessoas costumam estudar, mas a literatura de xadrez em língua inglesa, nos anos cinquenta do século XX, era restrita. Para contornar a situação, Fischer começou a estudar russo para conseguir entender os livros de xadrez publicados na antiga URSS. 

Na época da guerra fria, os principais jogadores de xadrez do mundo eram soviéticos ou dos países europeus sob a influência russa. Como eles jogavam bastante entre si, o desenvolvimento de um jogador de xadrez era obtido através de muito estudo e muita prática. Já os adversários ocidentais de Fischer estavam mais dispersos e não tinham a mesma qualidade. E Fischer não tinha acesso ao conhecimento soviético do xadrez e das partidas que eram jogadas do outro lado do muro de Berlim. 

A situação enfrentada por Fischer começa a mudar em 1966, quando foi publicado o primeiro número do Chess Informator. Uma criação de fortes jogadores iugoslavos, o Informator era publicado duas vezes ao ano e as principais partidas que foram jogadas nos últimos meses. Para criar o Informator, os criadores tiveram que superar duas barreiras. A primeira é a reunião das partidas que eram disputadas nos torneios; a segunda, estabelecer um processo de análise que fosse possível o entendimento em qualquer língua mundial. O primeiro problema era um típico problema de captação da informação; o segundo, de comunicação da informação.

Uma partida de xadrez tradicional é anotada por cada um dos jogadores. Ao final de cada partida, a anotação deve ser entregue para os organizadores dos jogos. Esta anotação era o documento de comprovação do resultado, sendo assinada pelos jogadores. Até o surgimento do Informator, muitas súmulas com os jogos se perdiam. É bem verdade que alguns jogadores possuem uma grande capacidade de lembrar os lances de cada partida, podendo reproduzir a partida posteriormente. Mas os demais praticantes não tinham, muitas vezes, acesso a estes jogos. 

O Informator começou a recolher as partidas disputadas e a divulgá-las mundialmente. Com o tempo, os jogadores também encaminhavam as planilhas com os lances para o editores do Informator. E também os organizadores dos torneios começaram a perceber como era interessante divulgar as partidas que aconteceram. Com persistência, o Informator resolveu o primeiro problema. 

O segundo é tornar a divulgação e a análise dos jogos acessíveis para todos. Quando um jogador move o peão do rei na quarta casa, nós anotamos P4R ou “Peão na casa 4 do Rei”. Assim, eu consigo anotar todos os lances de uma partida, indicando a peça que foi movimentada e a casa de destino. Dois problemas aqui, sendo um pequeno e outro enorme. O pequeno problema é que Rei em português é “R”, mas é K em inglês (de King) e assim por diante. O Informator resolveu este problema de língua substituindo a letra de rei pela figura do rei. Com isto estava resolvido a primeira parte. Mas outro problema era a análise. Quando analisamos um lance de xadrez, indicamos se o mesmo foi bom ou ruim, se existia uma alternativa melhor ou a razão de uma alternativa óbvia não ser boa o suficiente. Como “traduzir” isto para que todos os jogadores do mundo pudessem entender? O Informator “inventou” uma forma de comunicação genial para que a análise realizada fosse entendia por todos.

Se o lance era bom, o analista indicava uma exclamação como um sinal de qualidade do lance “!”; um lance melhor receberia duas exclamações e algo genial seria premiado por três exclamações. Um lance duvidoso receberia uma interrogação (?); lances onde há uma dúvida se seria bom ou não, mas era provável de ser um bom lance, teria uma anotação “!?”; sendo duvidoso, mas se o analista achasse que talvez não fosse bom, a anotação seria “?!” (atente para a inversão do sinal). E por aí vai. 

Com isto, a análise do jogo era fácil de acompanhar para quem fazia a tradução da linguagem de sinais do Informator. A publicação chamou a atenção do mundo. Era o grande manual do que acontecia no mundo do xadrez. Fischer, enquanto se preparava para vencer Spassky na Islândia, estudava as partidas do Informator. Se no início as partidas eram analisadas pelos editores do Informator, com o tempo, os maiores jogadores começaram a querer publicar sua análise. Pense em algum grande jogador de xadrez dos últimos 70 anos? Deve ter publicado uma análise no Informator: Fischer, Botvinnik, Karpov, Kasparov, Smyslov, Tal, Petrosian e Spassky, são alguns dos nomes. Petrosian, por exemplo, analisou 509 jogos para o Informator. Mais recentemente, Krmanik, Anand, Duda, Artemiev, entre tantos, contribuíram com sua análise.

Com o tempo, o Informator passou a selecionar os melhores jogos entre aqueles publicados, apresentar uma tabela com alguns finais, informar o resultado dos principais torneios, entre outras coisas. O número de partidas publicadas foi (ainda é) significativo. Somente Korchnoi teve 1709 partidas publicadas lá. A importância do Informator para o xadrez é tamanha que Kasparov declarou: Somos filhos do Informator. 

O Informator ainda existe. Seu site encontra-se aqui www.sahovski.com. Mas o Informator ficou ultrapassado pelas rápidas análises dos algoritmos. Pela base de dados enorme existente nos dias atuais na internet. Ultrapassado, talvez; mas nunca foi irrelevante. 

P.S. Comecei a escrever esta postagem inspirada em um texto do Chessbase. Terminei misturando algumas informações do texto com minhas lembranças pessoais. Cheguei a comprar alguns exemplares do Informator. Para quem algum dia sonhou em ser um bom jogador de xadrez, reproduzir as partidas do Informator era o máximo.

P.S.2 A ascensão e queda do Informator é muito parecida com outras situações, como os jornais, a televisão aberta e outras situações. 

18 fevereiro 2021

Facebook versus Austrália


Tudo começou quando a Austrália passou uma lei obrigando o Facebook a pagar pelas notícias produzidas pelos editores de notícias do país. Ontem, quarta, o Facebook anuncia que não irá permitir mais links para artigos de notícias na Austrália. Ou seja, os usuários australianos não poderão conectar-se a nenhum artigo de notícia e os editores de notícias não terão permissão para postar no Facebook. Mais ainda, os usuários do Facebook no resto do mundo não poderão ver ou compartilhar os links relacionados com as fontes de notícias da Austrália (via aqui

Muito radical. Mas a Facebook fez a ameaça de retaliação antes da lei ser aprovada. O Google (que hospeda este blog) tinha feito um acordo para fazer pagamentos à News Corp, um agência de notícias da Austrália, em troca das notícias. A Microsoft também parece ter concordado. 

O Facebook diz que a lei penaliza a empresa: os usuários e editores tomaram livremente a decisão de postar artigos na rede social. 

O mercado australiano é reduzido, assim como as postagens de notícias no Facebook da Austrália. A questão é mais ampla: como ficaria se todos os países começassem a aprovar leis deste tipo? Discussão boa aqui.

Cartoon aqui

21 julho 2020

Economia = incentivos

Acreditamos que a lei mais relevante da economia seja oferta-procura. Mas tão (ou mais) importante é o papel do incentivo na decisão econômica. Eis um exemplo muito curioso (que parece o efeito cobra):

Em 1787, o governo britânico contratou capitães de navios para transportar prisioneiros para a Austrália. As condições da primeira viagem levaram à morte de um terço dos condenados e, além disso, ferimentos aos demais. Isso gerou críticas sociais, não apenas da população britânica incentivada pelos jornais, mas também da igreja e até do Parlamento, que estabeleceu regulamentos para o tratamento humano dos prisioneiros nessas viagens.

Todas essas críticas, a que elas levaram? Nada. Nas viagens subsequentes, a população carcerária continuou a ter resultados semelhantes aos da viagem original.

E é aí que os economistas aparecem, gerando os incentivos certos. Dessa forma, em vez de pagar ao capitão do navio por cada preso embarcado, o governo começou a pagar apenas pelos que chegassem vivos.

Adivinha o resultado? Efetivamente! A taxa de sobrevivência passou de 66% para 99%. Os incentivos fizeram mais do que críticas dos conselhos de rua, igreja e governo ...


Veja agora um trecho do editorial do Estado de S Paulo:

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ao menos quatro em cada dez diretórios de partidos não informaram à Justiça Eleitoral como gastaram o dinheiro que receberam dos cofres públicos nos últimos anos. Além de receberem recursos do Estado, que deveriam ser investidos em outras áreas, as legendas não dão satisfação de como gastam esse dinheiro. É mais um elemento a confirmar a necessidade de uma profunda e urgente reforma política.

Segundo o TSE, de um total de mais de 100 mil diretórios partidários em cidades e nos Estados, 41,5 mil diretórios (41,3% do total) não apresentaram nenhuma prestação de contas em 2017. No ano seguinte, a situação foi ainda pior. Mais da metade dos órgãos partidários (50,5 mil) não informou à Justiça Eleitoral os dados sobre seus gastos. (...)

Ponto especialmente preocupante é o atraso com que a Justiça Eleitoral julga a prestação de contas dos partidos. Por exemplo, na primeira semana de junho, o TSE julgou um processo relativo a gastos partidários de 2014. No caso, foi determinada a devolução de R$ 27 milhões aos cofres públicos. Entre outros fatores, o alto grau de fragmentação partidária – são 33 partidos – dificulta enormemente a eficiência desse controle.


Contabilidade - É fácil perceber como um problema de prestação de contas dos partidos políticos é um problema de incentivos. Como "incentivar" os partidos a fazerem a prestação de contas? O corpo técnico (e os políticos) devem ter uma boa resposta para isto.

17 fevereiro 2020

Informação que faz diferença

Quatro anos depois que o Chile adotou as medidas mais abrangentes do mundo para combater a crescente obesidade, existe um veredicto parcial sobre sua eficácia: os chilenos estão bebendo muito menos bebidas carregadas de açúcar (...)

O consumo de bebidas adoçadas com açúcar caiu quase 25% nos 18 meses depois que o Chile adotou uma série de regulamentos que incluíam restrições de publicidade a alimentos não saudáveis, etiquetas de aviso ousadas na frente da embalagem e a proibição de junk food nas escolas. Durante o mesmo período, os pesquisadores registraram um aumento de cinco por cento nas compras de água engarrafada, refrigerantes diet e sucos de frutas sem adição de açúcar.


Quando a informação faz diferença.

Fonte: aqui

22 julho 2019

Pessoas usam menos informações do que pensamos

Em um mundo onde cada vez mais temos informações em excesso, uma pesquisa mostra que usamos menos informações que imaginamos. Nadav Kleina e Ed O’Brienb, em People use less information than they think to makeup their minds, mostram isto. Eis o resumo:

A world where information is abundant promises unprecedented opportunities for information exchange. Seven studies suggestthese opportunities work better in theory than in practice: People fail to anticipate how quickly minds change, believing that they and others will evaluate more evidence before making up their minds than they and others actually do. From evaluating peers, marriage prospects, and political candidates to evaluating novel foods, goods,and services, people consume far less information than expected before deeming things good or bad. Accordingly, people acquire and share too much information in impression-formation contexts:People overvalue long-term trials, overpay for decision aids, and overwork to impress others, neglecting the speed at which conclusions will form. In today’s information age, people may intuitively believe that exchanging ever-more information will foster better-informed opinions and perspectives—but much of this informationmay be lost on minds long made up. 

Novamente, a solução encontrada pelos reguladores é dar mais informação. Mas o ser humano não consegue absorver tanta coisa ao mesmo tempo. Como resolver esta equação?

13 junho 2019

Aversão à Informação

Quando você está em um montanha russa e o medo surge, a reação instintiva é fechar os olhos. Este fechar os olhos também funciona nas nossas atividades diárias. A maioria das pessoas evitar olhar regularmente para o saldo do conta, pois “sabe” o que irá encontrar. Muitos investidores evitam acompanhar seus investimentos, com “medo” do que irá ocorrer. Evitamos ver quantas pessoas curtiram nossa postagem, para evitar o desapontamento da nossa pouco expressão.

Dois pesquisadores, um da Toulose e outro da Universidade da Califórnia, tentaram entender o mecanismo da aversão à informação. Marianne Andries (Toulouse) e Valentin Haddad usaram um modelo para mostrar que não ter a informação pode seus benefícios. Isto depende da pessoa, mas investidores com menor apetite para o risco acompanham menos seus investimentos. São os investidores avestruz, que param de olhar suas carteiras quando o mercado cai.

A análise dos dois mostra que “ser bem informado” pode não agregar valor. E estar propositalmente desinformado pode ter uma explicação “racional”.

The main features of households' attention to savings are rationalized by a model of information aversion, a preference-based fear of receiving flows of news. In line with the empirical evidence, information averse investors observe the value of their portfolios infrequently; inattention is more pronounced for more risk averse investors and in periods of low or volatile stock prices. The model also explains how changes in information frequencies affect risk-taking decisions, as observed in the field and the lab. Further, we find that receiving state-dependent alerts following sharp downturns improves welfare, suggesting a role for financial intermediaries as information managers.

15 março 2019

Tradução e Comércio Internacional


Um dos requisitos para uma transação comercial é que as partes se comuniquem. É muito difícil para um consumidor comprar um produto de uma pessoa que só se expressa em uma linguagem que ele não entende. Assim, a comunicação pode ser uma barreira para as transações comerciais.

Nos últimos anos, no entanto, surgiram diferentes tecnologias que facilitam o entendimento entre duas partes que não conhecem a língua do outro. Uma lembrança óbvia é o Translate, do Google, mas existe muitas alternativas que tornam possível que uma pessoa que só conhece o português possa se comunicar com outra que não sabe nada da língua portuguesa. Esta tecnologia é possível graças ao computador e aos softwares de inteligência artificial que estão cada vez melhores.

Obviamente que podemos esperar que a introdução desta tecnologia deve afetar a vida das pessoas e ter efeitos econômicos. Com um celular eu posso digitar “Eu quero um copo de cerveja” para um dono de um bar na França, que não sabe português, e ele compreender. Assim, o software permitiu a realização desta transação.

Uma pesquisa divulgada no ano passado mostrou que realmente isto ocorre na prática e conseguiu mensurar o efeito do “translate” no comércio internacional. Usando plataformas digitais, os pesquisadores perceberam que a introdução de um sistema de “translate” aumentou significativamente o comércio. Os pesquisadores encontraram inclusive um valor: 17,5%. Eles usaram o eBay e analisaram as transações entre os Estados Unidos e países da América Latina que falavam espanhol.

Para certificar se os achados eram coerentes, os pesquisadores usaram dois testes adicionais. Um deles foi a análise da exportação dos EUA para o Brasil. O resultado persistiu nestes testes adicionais. Os autores verificaram que a presença do sistema de tradução reduzia o custo de pesquisa.

Fonte: Brynjolfsson, Erik et al. Does Machine Translation Affect International Trade? NBER Working Paper 24917, Ago 2018

12 janeiro 2019

Quanto vale a sua informação na internet?

Algumas das maiores empresa do mundo conseguem um grande valor com a utilização dos dados das pessoas que navegam pelo endereço. Assim é o Facebook e o Google, para citar duas das mais famosas empresas do mundo atual.

Entretanto, se você tentar vender os seus dados em um leilão, o valor obtido talvez seja irrisório. Um artigo recente da Wired (via aqui) encontrou que o preço a pagar seria de 0,3 centavo de um dólar. Mas atenção:

No entanto, valor médio e marginal não coincidem. Se alguém pudesse comprar um bloco inteiro de votos, o que por sua vez poderia influenciar uma eleição, o preço poderia ser muito maior.

05 janeiro 2019

Jogo de pontos dos cartões

O jogo de pontos dos cartões de crédito parece que chegou em um momento decisivo. Parece que os bancos e as administradoras de cartões de crédito descobriram que os contratos com os clientes não é vantajoso. Os clientes aprenderam a usar muito bem o sistema e geralmente gastam visando maximizar os pontos (e os benefícios) do sistema. Alguns bancos e administradoras estão repensando o sistema de recompensa dos cartões, de modo a incentivar o uso dos cartões e reduzir os bônus iniciais.

A questão é interessante e envolve o desenho contratual e os efeitos adversos. Os clientes estão usando os cartões até o momento que conseguem seus objetivos e depois de atingir a quantidade de pontos para resgatar em voos ou estadias de hotéis.

(via mais aqui).

19 novembro 2018

Informação e decisão

A relação entre quantidade de informação e qualidade da decisão é bastante controversa. E precisamos cada vez mais de pesquisas. Mas este texto do The Economist, sobre a quantidade de dados no futebol e a melhoria nas decisões dos clubes, pode ser uma interessante discussão sobre o assunto:

Os olheiros de hoje, no entanto, têm acesso a imagens e estatísticas de todas as ligas do mundo. Raffaele Poli, chefe do Observatório de Futebol do CIES, diz que o afluxo de funcionários de empresas financeiras levou a um maior interesse pelo big data. Em 2012, o Arsenal comprou a StatDNA, uma empresa de análise americana. Tanto o Bayern Munique quanto o Manchester City trabalham com a SAP, uma empresa de software que forneceu insights para os vencedores da Copa do Mundo em 2014.

O resultado, diz Poli, é um mercado cada vez mais racional.

14 outubro 2018

Boatos e Estilometria

Uma pesquisa usa a estilometria (stylometry) para rastrear os manipuladores do mercado de capitais. A estilometria é o estudo de um texto, analisando o estilo, a escolha de palavras, a pontuação e outros aspectos, para identificar um autor.

Na pesquisa, Mitts, da Universidade de Colúmbia, identificou pessoas que divulgavam boatos sobre empresas para lucrar no mercado de opções. Como estas pessoas repetiam a estratégia de desinformação, o estilo tornou-se conhecido. Foram estudados 2 mil ataques publicados no Seeking Alpha, um site de análise de investimento. Antes da publicação dos textos, alguém (o redator, o editor ou outra pessoa) comprava opções.

Com o passar do tempo, os autores que divulgavam boatos perdem credibilidade e o texto deixam de ter efeito. Mas os autores trocam de identidade para continuar com a estratégia. Neste momento, a estilometria pode ajudar a identificar a relação entre os autores.

Leia mais aqui e aqui

13 setembro 2018

Condenado por escrever avaliações falsas

Os comentários de um livro, um filme, um restaurante ou um hotel são relevantes nos dias de hoje. Esta semana a justiça italiana prendeu um fraudador de comentários on-line. Serão nove meses de prisão por operar a PromoSalento, que vendia avaliações falsas para hotéis. Além disto, o empreendedor recebeu um multa de 9,3 mil dólares.

A empresa Tripadvisor considerou uma decisão histórica, pois seria a primeira vez que alguém é preso por escrever críticas falsas. A empresa investigou inicialmente o caso, repassou para as autoridades, que efetuaram a punição.

17 agosto 2018

Tesla, Twitter e a divulgação de fato relevante

O empresário Elon Musk é conhecido pelo seu carisma e pela capacidade de fazer coisas “impossíveis”. Por este motivo, tem sido acompanhado de perto por aqueles que gostam de estudar o papel da liderança nas organizações. Musk pretende levar o homem no espaço, através da Space X (aqui, aqui e aqui, três postagens do blog sobre custos e a empresa), e que tornar o carro elétrico uma realidade, com a Tesla, uma empresa que produz pouco, mas tem um elevado valor de mercado.

No início de agosto, Musk colocou uma mensagem no Twitter dizendo que tinha planos de fechar o capital da empresa Tesla. E que estava disposto a pagar 420 dólares por ação para esta operação. O resultado disto foi que a SEC, o regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos, começou a investigar os executivos da empresa.

Um aspecto que não passou desapercebido é que o preço, de 420 tem uma imediata associação com “4/20” que, nos Estados Unidos, refere-se a consumir cannabis. Musk negou que estivesse fumando maconha quando colocou a mensagem no Twitter. Segundo ele, estava dirigindo um Tesla Model S, o que também não é permitido pelas leis de trânsito.

Antes disto, em uma conferência sobre os resultados da empresa, Musk se irritou com os analistas. Há uma grande pressão para que a empresa aumente a produção do automóvel. E está enfrentando ações trabalhistas, que inclui espionagem aos funcionários da empresa e existência de tráfico de drogas em uma unidade da empresa.

Na mensagem redigida no Twitter em 7 de agosto, Musk fala em “financiamento garantido” (imagem) para assegurar a possibilidade de fechar o capital da empresa. Dias depois, Musk detalhou um pouco mais o plano de financiamento para a empresa, no blog da Tesla. Musk deveria ter informado o regulador deste plano e com detalhes precisos, violando as regras de divulgação.

Há um depoimento, da rapper Azealia Banks bastante comprometedor. Banks foi convidada por Grimes, uma musicista e namorada de Musk, para passar alguns dias na mansão do empresário, para uma parceria musical. Banks disse que Elon começou a twittar mensagens malucas depois de uma experiência de três dias consumindo um certo produto. Incluindo a famosa mensagem.

Com respeito a avaliação, anteriormente Damodaran tinha avaliado a Tesla abaixo de 200 dólares a ação. Entretanto, Brad Cornell discordou da análise de Damodaran, mas seu resultado ainda é bem menor que os 420 dólares (ou 4/20) proposto por Musk. A análise de Cornell é bastante interessante, pois mostra como as mensagens de Musk alteraram o preço da ação da empresa. No dia 1 de agosto, a ação da empresa valia cerca de 300 dólares. Logo após o anúncio de resultados, o valor da Tesla aumentou para 8 bilhões de dólares ou 350 dólares. Após o twitter de 7 de agosto, o preço alcançou a 380 dólares. A mensagem provocou um rebuliço no mercado, provocando a interrupção da negociação. O mais importante é que Cornell usa o fluxo de caixa descontado, de maneira reversa, para mostrar que o valor de 420 dólares é inviável.

Além dos problemas com a SEC, com o Twitter e com os analistas, Musk parece estar enfrentando problemas de relacionamento com seus subordinados. Segundo a neurocientista Tania Singer, Musk estaria com o paradoxo do poder. O poder, segundo Singer, mudar o cérebro da pessoa, reduzindo a sua capacidade de espelhar emoções. A pessoa perde a capacidade de entender o que faz uma pessoa funcionar. Alguns depoimentos de ex-funcionários parece confirmar isto. O certo é que Musk está com um comportamento estranho.

21 maio 2018

Transparência e decisões

Nas decisões colegiadas geralmente partimos da suposição que quanto maior a transparência, melhor será a decisão. Isto tem sido usado pela CVM ao divulgar as decisões colegiadas, responsáveis pela punição de auditores, funcionários e empresas. Geralmente clamamos que isto também ocorra nas grandes decisões do Supremo ou nos comitês das empresas.

Uma investigação recente questiona a crença que a transparência é algo bom. E que decisões mais transparentes são melhores decisões. Dois pesquisadores, um da Universidade de Constança (Alemanha) e outro de Warwick (Reino Unido) concluíram que em decisões colegiadas, a transparência pode não ser uma boa opção. Inicialmente Fehrler e Hughes desenvolveram um modelo teórico com três níveis de transparência: sigilo, transparência moderada e transparência. A diferença entre os modelos é que no sigilo tanto o voto individual quanto a argumentação são apresentadas em segredo. É o modelo de eleição do Papa, por exemplo, onde cada eleitor deposita seu voto em uma urna, sem revelar seu motivo ou sua escolha. O modelo de transparência é o adotado pelo Supremo, onde cada ministro apresenta seus motivos e seu voto. A transparência moderada é o nível intermediário. No modelo teórico de Fehrler e Hughes, as decisões são afetadas pelo nível de informação disponibilizada. Em geral, maior transparência induz a decisões incorretas, exceto quando a manutenção do status quo é a melhor opção.

Talvez você já tenha passado por esta experiência. Você acredita que a melhor decisão é alterar o status quo, mas o parecerista faz um voto pela manutenção da situação e as pessoas começam a votar. Há uma forte indução para o status quo, muito embora esta talvez não seja a melhor decisão.

Entretanto, o modelo teórico por si só não é suficiente para confirmar a teoria dos autores. Sabendo disto, os pesquisadores fizeram um experimento de campo, onde grupo de pessoas deveriam tomar decisões com estes três níveis de transparência. O resultado obtido por Fehrler e Hughes confirmou, com algumas pequenas diferenças, a suposição do modelo: a transparência pode conduzir a decisões erradas.

FEHRLER, Sebastian; HUGHES, Niall. How transparency kills information aggregation: theory and experiment. American Economic Journal: Microeconomics, v. 10, n. 1, p. 181-209, 2018.

04 abril 2018

Regulamentação da Internet

Michael Spence - Nobel de Economia - e Fred Hu, escrevendo para o Project Syndicate, defenderam uma maior regulamentação da internet. Inicialmente eles destacam o crescente uso da internet nas relações econômicas, que permite o acesso a grandes quantidades de informações. Mas criticam a “internet aberta”, com poucas regulamentações:

Mas grandes riscos surgiram, incluindo o poder de monopólio de mega plataformas como Facebook e Google; vulnerabilidade a ataques a infraestruturas críticas, incluindo sistemas de mercado financeiro e processos eleitorais; e ameaças à privacidade e à segurança de dados e propriedade intelectual. Questões fundamentais sobre o impacto da Internet na lealdade política, coesão social, conscientização e envolvimento dos cidadãos e desenvolvimento infantil também permanecem.

Este fato leva a uma nova transição da internet, com um controle maior, que também pode trazer riscos. Os países estão respondendo de forma distinta para os desafios: a China filtra conteúdo, o ocidente procura reduzir a regulamentação, exceto em casos extremos.

Mesmo em áreas onde parece haver algum consenso - como a inaceitabilidade da desinformação ou da interferência estrangeira nos processos eleitorais - não há acordo sobre o remédio apropriado.
A falta de consenso ou cooperação poderia levar ao surgimento de fronteiras digitais nacionais, o que não só inibiria o fluxo de dados e informações, mas também prejudicaria o comércio, as cadeias de suprimento e o investimento transfronteiriço. A maioria das plataformas de tecnologia baseadas nos EUA já não pode operar na China, porque não podem ou não aceitarão as regras das autoridades sobre o acesso do estado a dados e o controle sobre o conteúdo.

A solução, segundo os autores, seria uma regulamentação mais forte e não a existente hoje, fragmentada, pesada ou inconsistente.