06 fevereiro 2026
Três meses depois, o acordo Netflix Warner parece que não agrada ao mercado.
Transferência pública de dinheiro é um perigo?
Os programas de auxílio do governo podem gerar consequências indiretas, geralmente não levadas em consideração, pelas autoridades. Há uma desconfiança que os beneficiários não usam os recursos de maneira responsável. Por isso, as pesquisas sobre o assunto são relevantes para as finanças públicas. Um estudo ajuda a entender um pouco mais sobre o assunto:
Transferências diretas de renda estão se tornando uma ferramenta cada vez mais comum para aliviar a pobreza, mas críticos argumentam que os beneficiários podem usar esse dinheiro de forma irresponsável e potencialmente perigosa. Para investigar o impacto de pagamentos em dinheiro sobre lesões traumáticas e mortes, analisamos o programa estadual de transferência de renda de longa data do Alasca, o Permanent Fund Dividend. Quase todos os residentes do Alasca recebem uma quantia substancial (em média US$ 1.500 por pessoa) em um único dia no outono de cada ano. Utilizando análises de séries temporais interrompidas combinadas com dados de 2009 a 2019 sobre todas as lesões traumáticas (N = 36.556) atendidas em hospitais do Alasca a partir do registro estadual de trauma, bem como todos os óbitos (N = 43.170) registrados em estatísticas vitais, examinamos se o pagamento causa um aumento de lesões traumáticas e mortalidade nos dias subsequentes à distribuição. Apesar dos temores amplamente difundidos, não encontramos evidências de tais aumentos em nossos dados, independentemente das diferentes especificações utilizadas. Esses resultados não fornecem evidências de que transferências diretas de renda aumentem o risco de lesões ou mortes.
Cash Transfers Do Not Increase Traumatic Injury and Mortality: Evidence from Alaska - Ruby Steedle et al.
American Journal of Epidemiology, forthcoming
05 fevereiro 2026
Moltbook e a contabilidade: risco de segurança altíssimo
Uma consequência do desenvolvimento da inteligência artificial é o fórum Moltbook, lançado em janeiro de 2026. A plataforma só permite a participação de IAs, desde que usem o software OpenClaw, enquanto os humanos apenas observam. Quando li sobre isso na Wikipédia, imaginei que o Moltbook seria a terceirização das mídias sociais.
Um aspecto destacado do Moltbook é que se forma uma mímica dos comportamentos humanos. As postagens imitam, de certa forma, discussões de temas existenciais, religiosos e filosóficos, o que inclui clichês, ideias leigas e outras bobagens.
Há dúvidas se os agentes que participam do Moltbook são realmente autônomos, como alguns estão descrevendo. Por trás do comportamento dos participantes, pode existir humanos que muitas vezes usam dados de treinamento das IAs. Outra crítica é que o Moltbook pode ser usado para certas finalidades inseguras. Esse aspecto merece a atenção das empresas, especialmente das áreas estratégicas, pelo risco de abrir o acesso de informações sigilosas para um usuário externo. No final de janeiro deste ano, o 404 Media relatou que o Moltbook permitia a qualquer pessoa assumir o controle de qualquer agente. O problema deve-se ao fato de a plataforma ter sido criada por um assistente de IA.
No verbete da Wikipédia, no qual me baseei para escrever esta postagem, há um destaque do Financial Times que parece muito interessante: a IA permite que os humanos lidem com tarefas de forma rápida, mas torna esses mesmos humanos podem tornar-se incapazes de decifrar as comunicações de alta velocidade máquina-a-máquina, o que é um problema de compreensão/transparência.
Fiquei imaginando usar o Moltbook ou algo similar para simular o comportamento humano em certas tarefas contábeis. Talvez em alguns meses seja possível acessar alguma pesquisa realizada em algum lugar do mundo sobre contabilidade com o uso da ferramenta. Mas é preciso destacar que usar dados contábeis reais no OpenClaw/Moltbook atualmente seria um risco de segurança altíssimo.
Narcisismo do presidente da empresa de auditoria
Parece que o narcisismo do presidente da empresa de auditoria influencia a qualidade:
Este estudo examina o impacto do narcisismo do presidente (chairperson) da firma de auditoria sobre a concorrência no mercado de auditoria e a qualidade da auditoria na Turquia, no período de 2013 a 2022. Pesquisas recentes têm investigado os efeitos do narcisismo de executivos e auditores sobre os resultados das empresas. Este artigo foca em como o narcisismo do presidente da firma de auditoria influencia a competição entre firmas de auditoria e a qualidade da auditoria. Os traços de personalidade do presidente são analisados quanto à sua influência nas decisões estratégicas, com base na Teoria dos Escalões Superiores (Upper Echelons Theory). O narcisismo é mensurado pelo tamanho da assinatura, a concorrência pela participação de receita e posição de mercado, e a qualidade da auditoria por accruals discricionários, agressividade no reporte e reporte de pequenos lucros. São utilizados principalmente modelos de Mínimos Quadrados Ordinários e regressão logística, seguidos por System GMM e Propensity Score Matching para tratar problemas de endogeneidade. Os resultados mostram que presidentes narcisistas impactam negativamente tanto a concorrência quanto a qualidade da auditoria. Esta pesquisa contribui para a compreensão do papel do narcisismo do presidente em firmas de auditoria, especialmente em mercados emergentes como a Turquia.
Um trecho do resumo me chamou a atenção: o uso do tamanho da assinatura como uma proxy de narcisismo. Há pesquisas empíricas que mostram essas relação, muito embora não seja uma medida perfeita e forte.
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Criptomoedas e avaliação a valor justo
O resumo
Este artigo examina as participações em criptomoedas e as práticas contábeis de empresas com ações na bolsa dos Estados Unidos no período de 2013 a 2022, à luz da recém-promulgada norma contábil para criptoativos, a ASU 2023-08. Análises descritivas indicam crescimento exponencial das posições corporativas em criptoativos e variação significativa nas práticas contábeis adotadas, o que reforça a necessidade da nova regra. Testes de hipóteses baseados em dados anteriores à norma revelam três achados diretamente relevantes para sua implementação. Primeiro, as empresas parecem tratar criptoativos mais como investimentos do que como ativos intangíveis, em linha com a exigência da norma pelo modelo de valor justo. Segundo, auditores das Big 4 tendem a direcionar as empresas para o modelo de impairment e para escolhas de apresentação menos detalhadas. Essa abordagem conservadora dificilmente atende ao objetivo da nova norma de fornecer informações mais úteis para a tomada de decisão. Terceiro, o aumento da liquidez dos mercados de criptoativos incentiva o uso do modelo de valor justo e uma apresentação mais detalhada, consistente com o foco da norma em tokens mais ativamente negociados. No entanto, dentro de nossa amostra, encontramos algumas evidências de que a mensuração a valor justo está associada a maior volatilidade dos retornos das ações, mas nenhuma evidência de que ela melhore a informatividade dos lucros.
Accounting for Cryptocurrencies - Chelsea M. Anderson, Vivian W. Fang, James R. Moon Jr, Jonathan E. Shipman - Journal of Accounting Research Volume64, Issue1, March 2026, Pages 45-79
Perdeu o trem e ganhamos o horário padrão
Eis uma história que ilustra como a questão da padronização pode ser importante e necessária em determinados contextos globais. Trata-se de uma lição útil para a discussão sobre a possibilidade de padronizar procedimentos contábeis entre diferentes nações.
O engenheiro Sandford Fleming perdeu um trem em 1876 ao confundir o horário impresso no bilhete em relação aos termos AM e PM. A partir dessa experiência, Fleming passou a defender a adoção de um horário uniforme, organizado em um sistema de 24 horas. Além disso, propôs que a Terra fosse dividida em 24 fusos horários de 15 graus cada — ou seja, 24 × 15 = 360 graus.
Uma influência decisiva para essa mudança veio da atividade econômica, em especial das ferrovias. Sem padronização, cada cidade podia adotar seu próprio horário local. Em alguns casos, um trem saía da cidade A às nove horas da manhã e chegava à cidade B, poucos quilômetros adiante, às oito e trinta. As empresas de transporte tinham interesse direto na padronização, que acabou sendo implementada alguns anos depois de Fleming ter perdido seu trem.
O horário padrão e os fusos horários foram instituídos logo em seguida e, gradualmente, incorporados pelos diferentes países ao longo do tempo.
O movimento de padronização do tempo antecedeu movimento semelhante na contabilidade. As empresas ferroviárias foram, em certo sentido, substituídas por corporações multinacionais e grandes firmas de auditoria como atores centrais nesse processo. Contudo, na contabilidade, a padronização é mais complexa e demorada. O caso aqui relatado mostra que interesses econômicos são fortes impulsionadores para a criação e imposição de padrões.






