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02 janeiro 2026

Muita publicação é bom ou ruim?


Eis uma história comum na ciência atual: 

Durante muitos anos, o prestigiado periódico Philosophy & Public Affairs publicou cerca de 14 artigos revisados por pares por ano. Assim, sua pequena equipe voluntária, formada por acadêmicos renomados, ficou chocada ao descobrir que sua editora, a Wiley, estava exigindo um aumento significativo na produção, chegando, em determinado momento, a demandar 35 novos artigos em apenas 60 dias.

Em vez de comprometer o processo de revisão por pares e acelerar a publicação de trabalhos de baixa qualidade, a então editora-chefe Anna Stilz, da Universidade da Califórnia em Berkeley, liderou uma revolta que culminou na renúncia coletiva de toda a equipe editorial e do conselho da revista.

“A Wiley me disse que, se eu não publicasse mais, não teria um periódico por muito tempo. Essas conversas foram muito hostis”, afirmou Stilz, ao explicar as renúncias em massa. “Eu queria oferecer aos leitores trabalhos de alta qualidade. Nós éramos seletivos.”

O artigo sustenta que esse fenômeno representa uma ameaça à qualidade da pesquisa científica. Não sei se concordo integralmente, pois o crescimento do número de artigos publicados anualmente decorre não apenas dos incentivos à publicação, mas também da maior facilidade do processo, em função dos instrumentos de que dispomos hoje. Sem um computador, realizar uma regressão era um verdadeiro martírio; com ele, a regressão pode ser feita em poucos segundos. É evidente que, em um contexto de economia da atenção, muitas pesquisas acabarão recebendo pouquíssimas citações. Mas isso é necessariamente algo ruim?

O problema central parece residir em práticas como a atuação de periódicos predatórios ou o fatiamento de pesquisas (salami slicing), e não propriamente no aumento do volume de produção científica.

Transferência em dinheiro e transferência em espécie


Eis o resumo de uma pesquisa importante para as políticas públicas: 

Estimamos e comparamos os impactos de transferências em dinheiro e transferências em espécie sobre o consumo de bens de tentação na mesma população e exploramos as implicações normativas desses efeitos. Utilizamos duas décadas de dados da Carolina do Sul sobre benefícios em dinheiro do Supplemental Security Income (SSI) e benefícios em espécie do Supplemental Nutrition Assistance Program (SNAP), vinculados a dados detalhados sobre o uso de serviços de saúde por adultos. Nossa estratégia empírica examina mudanças nos resultados nos dias imediatamente posteriores ao pagamento mensal programado de cada transferência. As visitas a prontos socorros por uso de drogas e álcool aumentam entre 20% e 30% após o recebimento do SSI, mas não reagem ao recebimento do SNAP. O preenchimento de prescrições médicas para novas enfermidades também aumenta após o recebimento do SSI, mas não responde ao SNAP. Motivados por esses resultados de não fungibilidade, desenvolvemos um modelo de um planejador social paternalista que escolhe a combinação entre transferências em dinheiro e SNAP em um programa de transferências com orçamento fixo, quando os consumidores apresentam problemas de autocontrole e podem recorrer à contabilidade mental. Mostramos que a participação ótima do SNAP é estritamente positiva e fracamente crescente à medida que o autocontrole piora. Além disso, na presença de heterogeneidade em autocontrole e contabilidade mental, o planejador pode optar por utilizar o SNAP mesmo quando dispõe de um imposto pigouviano uniforme sobre o bem de tentação. 

Isso é interessante, pois tinha a sensação que transferência em dinheiro promovia flexibilidade na decisão do gasto, sendo mais interessante para fins de políticas públicas. O debate recente do uso do dinheiro do bolsa família poderia incorporar a questão, tomando o devido cuidado de lembrar que benefícios em espécie tem problemas de desvio, corrupção e superfaturamento.  

Expedientes práticos

O resumo: 


O International Accounting Standards Board (IASB) introduziu opções contábeis simplificadas, denominadas “expedientes práticos” (practical expedients), nas Normas Internacionais de Relato Financeiro (IFRS). Esses expedientes permitem que os preparadores se desviem dos princípios das IFRS ao contabilizar determinados eventos econômicos. Documentamos a ocorrência dessas simplificações contábeis nas normas IFRS, bem como a extensão de sua aplicação e divulgação por grandes empresas europeias listadas entre 2018 e 2022. Nossos resultados indicam que as empresas aplicaram e divulgaram os expedientes práticos de forma relativamente consistente ao longo do tempo, embora exista variação substancial entre e dentro de países e setores. Encontramos evidências sistemáticas limitadas de perda de informação decorrente do uso desses expedientes. No entanto, empresas que divulgam explicitamente a não aplicação dos expedientes tendem a apresentar menor relevância informacional do lucro líquido reportado. Evidências de entrevistas indicam que os expedientes práticos facilitam o processo de elaboração das normas IFRS, na medida em que oferecem simplificações que reduzem os custos dos preparadores. Ainda assim, há tensões quanto à possível redução dos benefícios para os usuários (comparabilidade prejudicada, menor compreensibilidade e maior dependência de julgamentos de materialidade). Também há preocupações de que, embora os expedientes práticos tenham apresentado até agora uma relação custo–benefício favorável, uma aplicação mais ampla dessas regras possa desafiar a primazia de um processo normativo baseado em princípios.

 Imagem gerada pelo Gemini

Contabilidade dos Incas do Monte Sierpe


Eis o resumo:

Estendendo-se por 1,5 km e consistindo em aproximadamente 5200 buracos precisamente alinhados, Monte Sierpe, no sul do Peru, é uma construção notável que provavelmente data, no mínimo, do Período Intermediário Tardio (1000–1400 d.C.) e que continuou a ser utilizada pelos incas (1400–1532 d.C.). No entanto, sua função permanece incerta. Neste estudo, os autores apresentam novas análises de imagens de drones e amostras de sedimentos que revelam padrões numéricos em sua disposição, possíveis paralelos com os registros incas em cordões com nós (quipus) e a presença de cultivos agrícolas e plantas silvestres. Em conjunto, esses elementos levam os autores a argumentar que Monte Sierpe funcionava como um sistema indígena local de contabilidade e troca. 

Indigenous accounting and exchange at Monte Sierpe (‘Band of Holes’) in the Pisco Valley, Peru - Jacob Bongers et al. Antiquity, via aqui

A imagem é daqui 

01 janeiro 2026

Laços fracos de amizade


Um texto da Forbes explica que “laços fracos” — conexões menos íntimas, como conhecidos distantes — podem ser mais valiosos para sua carreira do que amizades próximas, porque circulam em ambientes diferentes, trazendo novas oportunidades e informações que o seu círculo íntimo não oferece. Estudos clássicos e recentes mostram que a maioria das pessoas encontra vagas de emprego e oportunidades profissionais por meio desses conhecidos, e que laços moderadamente fracos tendem a gerar mais mobilidade de carreira do que relações fortes. Além disso, esses vínculos ampliam sua perspectiva e aumentam a sensação de pertencimento, complementando o suporte emocional dos laços próximos com acesso a redes e ideias diversas. 

A ideia é de Mark Granovetter (foto), um sociólogo recentemente aposentado, que chamou de A Força dos Laços Fracos

Rir é o melhor remédio

 

Fonte: aqui

Mais um caso com um pesquisa


Durante 25 anos, um estudo científico afirmava que o Roundup, um herbicida da Monsanto, não apresentava consequências adversas para os seres humanos. Agora, a pesquisa foi retirada do periódico Regulatory Toxicology and Pharmacology. A retirada de um artigo é uma notícia que indica a existência de problemas relevantes na pesquisa e que ela não pode mais ser citada como referência válida para fins científicos.

No caso específico, há indícios de que parte do texto tenha sido escrita pela própria Monsanto, fabricante do herbicida. E-mails internos da empresa revelaram essa prática, considerada eticamente inadequada. O problema é que agências reguladoras utilizaram o estudo como base para suas políticas e aprovaram o uso do produto. A retirada do artigo não implica, automaticamente, a proibição do herbicida, mas enfraquece seu respaldo científico. Mas pode ter consequências em termos de uma medida futura contra a empresa, como a retirada do produto do mercado ou uma potencial punição.