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03 agosto 2026

O caso de um Picasso rifado

A notícia de abril de 2026 estava guardada para uma postagem. O caso é bem interessante e pode ser usado em sala de aula ou pelos amantes da contabilidade que procuram um assunto para conversa. A notícia é a seguinte: uma fundação vinculada à pesquisa sobre Alzheimer fez uma rifa para arrecadar fundos, sorteando, entre os compradores dos bilhetes, um quadro, Cabeça de Mulher, do pintor Pablo Picasso.


O preço de cada bilhete era de 100 euros, e o quadro tinha um valor de avaliação de 1 milhão de euros. O valor arrecadado foi de 12 milhões de euros, deixando uma diferença de 11 milhões para uso da fundação. Os detalhes estão no texto de Bia Cardoso, publicado no Estado de S. Paulo em 16 de abril, ou disponível on-line aqui.

Vamos imaginar a contabilidade da fundação que promoveu a rifa, de um comprador de um bilhete e do comprador do bilhete vencedor. E considerar dois momentos distintos: antes e depois do sorteio.

Na fundação, antes do sorteio, o quadro fazia parte do ativo (1). O valor registrado poderia ser de 1 milhão de euros, mas é provável que fosse bem menor, já que poderia estar registrado pelo custo histórico. Ao longo do sorteio, a fundação teria que registrar a receita arrecadada com a rifa, tendo como contrapartida o débito em caixa. Quando do sorteio seria necessário dar baixa no quadro, retirando-o do ativo e registrando seu custo no resultado.

E quanto a um comprador do bilhete? Na sua contabilidade pessoal, haveria a possibilidade de um ganho potencial correspondente ao quadro. Aqui temos uma controvérsia teórica e normativa interessante. Fazendo uma conta simples, foram arrecadados 12 milhões de euros, e cada bilhete custava 100 euros. Foram vendidos 120 mil bilhetes, o que implica uma chance muito reduzida de ganhar o quadro. Eu entendo que, nesse caso, ao comprar o bilhete, deveria ser registrada uma saída de caixa e uma despesa; ou seja, ter o bilhete não configuraria um ativo para um comprador típico da rifa. Assim, após o sorteio, nada seria registrado, exceto pelo vencedor.

O vencedor deveria ter registrado, ao comprar o bilhete, a despesa e sua contrapartida, a saída de caixa. Mas, ao receber a notícia, o dono do bilhete passa a possuir um ativo de 1 milhão de euros. E qual seria a contrapartida? Algo na sua demonstração do resultado, que a contabilidade talvez chamasse de “ganho” ou de receita não recorrente.

(1) Rigorosamente, o quadro era da Opera Gallery, que recebeu 1 milhão do quadro. Fiz uma simplificação do caso aqui. 

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