06 fevereiro 2026
05 fevereiro 2026
Moltbook e a contabilidade: risco de segurança altíssimo
Uma consequência do desenvolvimento da inteligência artificial é o fórum Moltbook, lançado em janeiro de 2026. A plataforma só permite a participação de IAs, desde que usem o software OpenClaw, enquanto os humanos apenas observam. Quando li sobre isso na Wikipédia, imaginei que o Moltbook seria a terceirização das mídias sociais.
Um aspecto destacado do Moltbook é que se forma uma mímica dos comportamentos humanos. As postagens imitam, de certa forma, discussões de temas existenciais, religiosos e filosóficos, o que inclui clichês, ideias leigas e outras bobagens.
Há dúvidas se os agentes que participam do Moltbook são realmente autônomos, como alguns estão descrevendo. Por trás do comportamento dos participantes, pode existir humanos que muitas vezes usam dados de treinamento das IAs. Outra crítica é que o Moltbook pode ser usado para certas finalidades inseguras. Esse aspecto merece a atenção das empresas, especialmente das áreas estratégicas, pelo risco de abrir o acesso de informações sigilosas para um usuário externo. No final de janeiro deste ano, o 404 Media relatou que o Moltbook permitia a qualquer pessoa assumir o controle de qualquer agente. O problema deve-se ao fato de a plataforma ter sido criada por um assistente de IA.
No verbete da Wikipédia, no qual me baseei para escrever esta postagem, há um destaque do Financial Times que parece muito interessante: a IA permite que os humanos lidem com tarefas de forma rápida, mas torna esses mesmos humanos podem tornar-se incapazes de decifrar as comunicações de alta velocidade máquina-a-máquina, o que é um problema de compreensão/transparência.
Fiquei imaginando usar o Moltbook ou algo similar para simular o comportamento humano em certas tarefas contábeis. Talvez em alguns meses seja possível acessar alguma pesquisa realizada em algum lugar do mundo sobre contabilidade com o uso da ferramenta. Mas é preciso destacar que usar dados contábeis reais no OpenClaw/Moltbook atualmente seria um risco de segurança altíssimo.
Narcisismo do presidente da empresa de auditoria
Parece que o narcisismo do presidente da empresa de auditoria influencia a qualidade:
Este estudo examina o impacto do narcisismo do presidente (chairperson) da firma de auditoria sobre a concorrência no mercado de auditoria e a qualidade da auditoria na Turquia, no período de 2013 a 2022. Pesquisas recentes têm investigado os efeitos do narcisismo de executivos e auditores sobre os resultados das empresas. Este artigo foca em como o narcisismo do presidente da firma de auditoria influencia a competição entre firmas de auditoria e a qualidade da auditoria. Os traços de personalidade do presidente são analisados quanto à sua influência nas decisões estratégicas, com base na Teoria dos Escalões Superiores (Upper Echelons Theory). O narcisismo é mensurado pelo tamanho da assinatura, a concorrência pela participação de receita e posição de mercado, e a qualidade da auditoria por accruals discricionários, agressividade no reporte e reporte de pequenos lucros. São utilizados principalmente modelos de Mínimos Quadrados Ordinários e regressão logística, seguidos por System GMM e Propensity Score Matching para tratar problemas de endogeneidade. Os resultados mostram que presidentes narcisistas impactam negativamente tanto a concorrência quanto a qualidade da auditoria. Esta pesquisa contribui para a compreensão do papel do narcisismo do presidente em firmas de auditoria, especialmente em mercados emergentes como a Turquia.
Um trecho do resumo me chamou a atenção: o uso do tamanho da assinatura como uma proxy de narcisismo. Há pesquisas empíricas que mostram essas relação, muito embora não seja uma medida perfeita e forte.
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Criptomoedas e avaliação a valor justo
O resumo
Este artigo examina as participações em criptomoedas e as práticas contábeis de empresas com ações na bolsa dos Estados Unidos no período de 2013 a 2022, à luz da recém-promulgada norma contábil para criptoativos, a ASU 2023-08. Análises descritivas indicam crescimento exponencial das posições corporativas em criptoativos e variação significativa nas práticas contábeis adotadas, o que reforça a necessidade da nova regra. Testes de hipóteses baseados em dados anteriores à norma revelam três achados diretamente relevantes para sua implementação. Primeiro, as empresas parecem tratar criptoativos mais como investimentos do que como ativos intangíveis, em linha com a exigência da norma pelo modelo de valor justo. Segundo, auditores das Big 4 tendem a direcionar as empresas para o modelo de impairment e para escolhas de apresentação menos detalhadas. Essa abordagem conservadora dificilmente atende ao objetivo da nova norma de fornecer informações mais úteis para a tomada de decisão. Terceiro, o aumento da liquidez dos mercados de criptoativos incentiva o uso do modelo de valor justo e uma apresentação mais detalhada, consistente com o foco da norma em tokens mais ativamente negociados. No entanto, dentro de nossa amostra, encontramos algumas evidências de que a mensuração a valor justo está associada a maior volatilidade dos retornos das ações, mas nenhuma evidência de que ela melhore a informatividade dos lucros.
Accounting for Cryptocurrencies - Chelsea M. Anderson, Vivian W. Fang, James R. Moon Jr, Jonathan E. Shipman - Journal of Accounting Research Volume64, Issue1, March 2026, Pages 45-79
Perdeu o trem e ganhamos o horário padrão
Eis uma história que ilustra como a questão da padronização pode ser importante e necessária em determinados contextos globais. Trata-se de uma lição útil para a discussão sobre a possibilidade de padronizar procedimentos contábeis entre diferentes nações.
O engenheiro Sandford Fleming perdeu um trem em 1876 ao confundir o horário impresso no bilhete em relação aos termos AM e PM. A partir dessa experiência, Fleming passou a defender a adoção de um horário uniforme, organizado em um sistema de 24 horas. Além disso, propôs que a Terra fosse dividida em 24 fusos horários de 15 graus cada — ou seja, 24 × 15 = 360 graus.
Uma influência decisiva para essa mudança veio da atividade econômica, em especial das ferrovias. Sem padronização, cada cidade podia adotar seu próprio horário local. Em alguns casos, um trem saía da cidade A às nove horas da manhã e chegava à cidade B, poucos quilômetros adiante, às oito e trinta. As empresas de transporte tinham interesse direto na padronização, que acabou sendo implementada alguns anos depois de Fleming ter perdido seu trem.
O horário padrão e os fusos horários foram instituídos logo em seguida e, gradualmente, incorporados pelos diferentes países ao longo do tempo.
O movimento de padronização do tempo antecedeu movimento semelhante na contabilidade. As empresas ferroviárias foram, em certo sentido, substituídas por corporações multinacionais e grandes firmas de auditoria como atores centrais nesse processo. Contudo, na contabilidade, a padronização é mais complexa e demorada. O caso aqui relatado mostra que interesses econômicos são fortes impulsionadores para a criação e imposição de padrões.
04 fevereiro 2026
Contabilidade e agricultura
Segue a tradução:
Em termos de sustentabilidade e competitividade, a agricultura moderna depende de informação ao longo de toda a cadeia de produção de alimentos. Pesquisas publicadas no International Journal of Agricultural Resources, Governance and Ecology analisaram como dados, inovação e colaboração moldam o desempenho das fazendas diante dos crescentes desafios das mudanças climáticas e de pressões de mercado diversas. O trabalho sugere que, sem estruturas de conhecimento, políticas e tecnologias voltadas para melhorar a resiliência, tais iniciativas tendem a ter desempenho inferior ao esperado.
Os pesquisadores mostram que a qualidade da informação é um fator decisivo que conecta decisões no nível da fazenda a resultados econômicos e ambientais mais amplos. (...) Infelizmente, muitas fazendas ainda operam sem sistemas contábeis formais ou mesmo sem registros consistentes, o que torna pouco transparente seu processo decisório. Além disso, a falta de consciência econômica detalhada pode estar limitando a capacidade de muitas propriedades de adaptar a produção às condições em mudança.
Os efeitos prejudiciais dessa lacuna de informação são agravados por fatores sociais e organizacionais no setor. Associações de agricultores, cooperativas e redes informais podem desempenhar um papel importante na troca de conhecimento, mas muitos produtores não utilizam plenamente essas redes, com diferenças de adesão relacionadas ao tamanho da fazenda, nível de escolaridade e idade. (...)
Em última análise, a digitalização, quando usada de forma sistemática — e não casual —, pode oferecer uma mudança estrutural na forma como a agricultura é gerida e ajudar a superar alguns desses problemas. Sistemas digitais podem reduzir desperdício de recursos e de esforço. Com maior eficiência no uso de recursos e decisões apoiadas por dados em um setor onde o timing é frequentemente crítico, as práticas agrícolas podem ser aprimoradas. Por fim, é necessário incorporar essa digitalização às redes agrícolas, apoiadas por liderança, políticas coerentes e pessoal treinado.
Figurek, A., Semenova, E., Thrassou, A., Semenov, A. and Vrontis, D. (2025) ‘Innovative tools for the agricultural information system: a conceptual framework’, Int. J. Agricultural Resources, Governance and Ecology, Vol. 20, No. 6, pp.19–36.
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