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21 fevereiro 2026

Língua e conteúdo

Para pensar 

Das cerca de 7.000 línguas globais, apenas algumas prosperam digitalmente, sendo que meras 10 línguas representam 82% de todo o conteúdo da internet. Essa enorme disparidade de recursos é o principal desafio para a moderação de conteúdo em idiomas que não o inglês. Antes do surgimento dos grandes modelos de linguagem (LLMs), ferramentas de moderação e revisores humanos já enfrentavam dificuldades, muitas vezes falhando em capturar a complexidade linguística da transliteração, da alternância de códigos (code-switching) e do sofisticado algospeak, comum em conteúdos não ingleses.

A ascensão dos LLMs apresenta um paradoxo. Embora esses sistemas sejam frequentemente celebrados como independentes de idioma, pesquisas mostram que são construídos sobre uma base que favorece fortemente o inglês e alguns outros idiomas dominantes, criando uma espécie de câmara de eco tipológica. Isso gera um ciclo de “os pobres ficam mais pobres” no espaço digital. Idiomas com muitos recursos recebem as melhores ferramentas de moderação, os chatbots mais precisos, os filtros mais seguros e dominam rankings de desempenho. Enquanto isso, comunidades que falam línguas de “baixo recurso” ficam com ferramentas que não entendem suas gírias, nuances culturais ou riscos de segurança.


O tom do texto é pessimista. Mas eu vejo algo bastante positivo, pois os modelos LLMs permite um acesso rápido ao que está ocorrendo no mundo. Eu consigo ler um jornal italiano, por exemplo, sem precisar saber italiano. E um estrangeiro pode ler o que escrevemos por aqui, sem necessitar de anos para aprender o português. Esse ponto não pode ser esquecido.

Mas a crítica pode ser pertinente em algumas situações. Já tive a experiência de solicitar algo para IA e claramente sua resposta passou, primeiro, pelo inglês. Ocorre com frequência quando peço ajuda em aspectos tecnológicos, como resolver problemas no Linux. Há também aspectos culturais e novamente citando um exemplo que tive, em um determinado momento o GPT respondeu uma pergunta minha e usou o sinal de ok, que na nossa cultura tem outro significado.  

Macaco de 1,3 milhão que virou 12 mil


Lembram das NFTs? Isso apareceu logo após o início da pandemia e trata-se da sigla para tokens não fungíveis. Se o leitor acha estranho, é porque realmente foi estranho. Seriam “ativos” baseados em blockchain, sob a forma de imagens de avatares ridículos, vendidos para celebridades e outras pessoas sem noção. O Bored Ape Yacht Club, da Yuga Labs, chegou a ter uma cópia vendida para a celebridade Justin Bieber por 1,3 milhão de dólares.

Quatro anos depois, o macaco comprado por Bieber vale algo em torno de 12 mil dólares — um enorme prejuízo. No auge da febre das NFTs, a brincadeira chegou a ser considerada um valor mobiliário sem registro e foi investigada pela SEC, a reguladora do mercado de capitais dos Estados Unidos.

Em 2026 temos que as NFTs não são valores mobiliários e talvez nem sejam ativos. A empresa Yuga Labs tenta sobreviver, com planos de abrir um espaço físico em Miami.

O proprietário de um NFT pode registrar no balanço? Uma estrutura de governança de uma empresa séria não deveria deixar. Apesar de existir um valor de mercado, é improvável que haja uma nova febre para comprar esses itens, ficando mais como uma curiosidade do que algo que possa ajudar uma empresa a gerar riqueza no futuro. Talvez até satisfaça a definição de ativo, possa ter uma mensuração possível, mas é um atestado de burrice da gestão da empresa.

 

20 fevereiro 2026

Saltadores de esqui, genitais e incentivos


A leitura número um do comportamento humano é que as pessoas reagem aos incentivos. E podemos ver isso nas competições esportivas. 

Agora estamos vendo os Jogos Olímpicos de Inverno, na Itália, que mostrou uma "trapaça" no curling ou uma discutível nota na patinação artística, dada por um juiz, favorecendo competidor de seu país. Mas achei muito mais curioso a prática de saltadores de esqui, que estariam injetando ácido hialurônico nos seus genitais, para melhorar o desempenho. 

O jornal alemão Bild, via aqui, trouxe essa informação e também a explicação: a injeção traz uma vantagem aerodinâmica, pois aumenta o tamanho do pênis, ampliando a área do traje. Isso traria maior sustentação ao saltador. Parece brincadeira, mas a agência que cuida do doping, a WADA, resolveu investigar. 

Não seria a primeira vez que o aumento da área do traje foi usado em competições: no ano passado, a equipe da Noruega estava adicionando uma costura na região da virilha para aumentar a área do traje. O efeito seria o mesmo, melhorando a aerodinâmica do traje.  

Há um estudo científico que mostra que esse aumento tem realmente impacto sobre o desempenho: cada aumento de dois centímetros na circunferência do traje, aumenta a sustentação em 4% ou 60 centímetros adicionais em um salto.  

Se você achava que somente os gestores de uma empresa eram movidos a base de incentivos, mude de ideia. Muitas empresas remuneram seus funcionários com base em medidas contábeis. Por mais regulada que seja a medida, isso provoca gerenciamento de resultado. Os atletas olímpicos também sabem disso.  

19 fevereiro 2026

Rir é o melhor remédio

 

Alguns cientistas sociais: economista, psicologista, arqueólogo, antropologista e geógrafo.  E alguns cientistas antissociais: astrônomo introvertido, solitário matemático, biólogo reclusivo, químico misantrópico. 

O contador estaria em qual coluna?  

Impairment em Veículos Elétricos


 As montadoras registraram $65 bilhões em baixas contábeis globalmente, à medida que as empresas foram forçadas a reformular seus investimentos em veículos elétricos (EVs), pressionadas por uma mudança na política climática dos EUA e por um entusiasmo superestimado com a transição verde.

Desde que os EUA eliminaram o crédito tributário federal de $7 500 em setembro, fabricantes de automóveis e de baterias vêm recuando: cancelando projetos, reduzindo investimentos e retomando planos de produzir mais veículos tradicionais movidos a gasolina. Não se trata, porém, de uma retirada uniforme; as vendas de carros totalmente elétricos superaram as de veículos exclusivamente a gasolina na União Europeia pela primeira vez em dezembro, mas as gigantes europeias ainda estão bastante afetadas pela queda da demanda nos EUA: a Stellantis, que antes acreditava que os EVs representariam metade de suas vendas nos EUA até 2030, sofreu um impacto de $26 bilhões após cancelar vários modelos totalmente elétricos e reativar seu motor de 5,7 litros para o mercado americano. Líderes do setor agora esperam que os EVs representem apenas 5% do mercado de veículos novos dos EUA nos próximos anos.

Fonte: semafor 

Reforma tributária e pesquisa contábil


Objetivo: Destacar os elementos centrais da Reforma Tributária (Lei Complementar n.º 214, de 2025), indicar caminhos para pesquisas em contabilidade e tributação, e mostrar como as mudanças no sistema tributário brasileiro podem orientar agendas acadêmicas.

Método: O estudo baseia-se em uma retrospectiva das pesquisas contábil-tributárias brasileiras e internacionais, entre 1925 e 2025, com base em dados da Web of Science, por meio do mapeamento de 5.592 artigos globais e 88 nacionais relacionados à tax avoidance, tax evasion e tax aggressiveness. O estudo utilizou o software VOSviewer para gerar mapas de densidade, clusters temáticos e redes de coautoria.

Resultados: Os achados mostram crescimento expressivo das pesquisas sobre tributação no mundo após 2000, e, no Brasil, após a convergência das normas contábeis às normas internacionais. Persistem limitações metodológicas, foco expressivo em companhias abertas e pouca presença internacional. A Reforma Tributária cria um ambiente favorável à expansão de temas como formação de preços, impactos setoriais, governança, sistemas de informação, tributação internacional e custos de conformidade.

Contribuições: Propõe-se uma agenda de pesquisa alinhada às transformações tributárias e às necessidades da contabilidade e da prática profissional, fortalecendo a construção do conhecimento e o papel da academia no diálogo com mercado e sociedade.

Fonte: aqui 

KPMG pegou funcionários usando IA para colar

Do Financial Review newsletter de ontem: 

Um sócio da KPMG Austrália literalmente pagará o preço após usar IA durante um curso de treinamento sobre a tecnologia.

O sócio, auditor registrado de empresas, concluiu um treinamento interno de IA [1] em julho. Após baixar um manual de referência recomendado, ele violou a política da firma ao enviar o documento para uma ferramenta de IA a fim de responder a uma questão de prova.

A firma multará o sócio em mais de $10 000, e o CA ANZ [2] agora está investigando a conduta.

O caso é um entre 28 ocorridos na firma desde julho [3], sendo os demais envolvendo funcionários de nível médio e júnior flagrados usando IA para colar.


A KPMG já tem histórico quando se trata de sócios e funcionários recorrerem a atalhos para trapacear em exames internos.

Em 2021, mais de 1100 sócios e funcionários da KPMG Austrália “estiveram envolvidos em compartilhamento impróprio de respostas ao realizar testes de treinamento”, nos quais receberam ou compartilharam respostas entre “pelo menos 2016 e o início de 2020”, segundo o US Public Company Accounting Oversight Board.

A firma prometeu reformas em resposta.

Em dezembro, a Rear Window [4] revelou que alguns funcionários de primeiro ano haviam usado IA para conluio em treinamentos internos.

A sanção contra o sócio pode parecer dura para alguns, dado que enviar documentos é prática comum no uso de IA. Mas parece que a firma tem um problema persistente de integridade.

A KPMG divulgará casos de cola relacionados à IA em seus resultados anuais ainda este ano. No entanto, a divulgação adicional pode não resolver o problema cultural mais profundo.

[1] Ironia aqui, não? Treinamento sobre IA e o aluno funcionário usou IA para responder. 

[2] Chartered Accountants Australia and New Zealand — o principal órgão profissional de contadores da Austrália e da Nova Zelândia. 

[3] Seria interessante saber o número de funcionários que fizeram o treinamento.  

[4] Um órgão investigativo da imprensa da Austrália