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05 fevereiro 2026

Narcisismo do presidente da empresa de auditoria


Parece que o narcisismo do presidente da empresa de auditoria influencia a qualidade:

Este estudo examina o impacto do narcisismo do presidente (chairperson) da firma de auditoria sobre a concorrência no mercado de auditoria e a qualidade da auditoria na Turquia, no período de 2013 a 2022. Pesquisas recentes têm investigado os efeitos do narcisismo de executivos e auditores sobre os resultados das empresas. Este artigo foca em como o narcisismo do presidente da firma de auditoria influencia a competição entre firmas de auditoria e a qualidade da auditoria. Os traços de personalidade do presidente são analisados quanto à sua influência nas decisões estratégicas, com base na Teoria dos Escalões Superiores (Upper Echelons Theory). O narcisismo é mensurado pelo tamanho da assinatura, a concorrência pela participação de receita e posição de mercado, e a qualidade da auditoria por accruals discricionários, agressividade no reporte e reporte de pequenos lucros. São utilizados principalmente modelos de Mínimos Quadrados Ordinários e regressão logística, seguidos por System GMM e Propensity Score Matching para tratar problemas de endogeneidade. Os resultados mostram que presidentes narcisistas impactam negativamente tanto a concorrência quanto a qualidade da auditoria. Esta pesquisa contribui para a compreensão do papel do narcisismo do presidente em firmas de auditoria, especialmente em mercados emergentes como a Turquia.

Um trecho do resumo me chamou a atenção: o uso do tamanho da assinatura como uma proxy de narcisismo. Há pesquisas empíricas que mostram essas relação, muito embora não seja uma medida perfeita e forte. 

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Criptomoedas e avaliação a valor justo

O resumo


Este artigo examina as participações em criptomoedas e as práticas contábeis de empresas com ações na bolsa dos Estados Unidos no período de 2013 a 2022, à luz da recém-promulgada norma contábil para criptoativos, a ASU 2023-08. Análises descritivas indicam crescimento exponencial das posições corporativas em criptoativos e variação significativa nas práticas contábeis adotadas, o que reforça a necessidade da nova regra. Testes de hipóteses baseados em dados anteriores à norma revelam três achados diretamente relevantes para sua implementação. Primeiro, as empresas parecem tratar criptoativos mais como investimentos do que como ativos intangíveis, em linha com a exigência da norma pelo modelo de valor justo. Segundo, auditores das Big 4 tendem a direcionar as empresas para o modelo de impairment e para escolhas de apresentação menos detalhadas. Essa abordagem conservadora dificilmente atende ao objetivo da nova norma de fornecer informações mais úteis para a tomada de decisão. Terceiro, o aumento da liquidez dos mercados de criptoativos incentiva o uso do modelo de valor justo e uma apresentação mais detalhada, consistente com o foco da norma em tokens mais ativamente negociados. No entanto, dentro de nossa amostra, encontramos algumas evidências de que a mensuração a valor justo está associada a maior volatilidade dos retornos das ações, mas nenhuma evidência de que ela melhore a informatividade dos lucros. 

Accounting for Cryptocurrencies - Chelsea M. Anderson, Vivian W. Fang, James R. Moon Jr, Jonathan E. Shipman - Journal of Accounting Research Volume64, Issue1, March 2026, Pages 45-79

Perdeu o trem e ganhamos o horário padrão

Eis uma história que ilustra como a questão da padronização pode ser importante e necessária em determinados contextos globais. Trata-se de uma lição útil para a discussão sobre a possibilidade de padronizar procedimentos contábeis entre diferentes nações.


O engenheiro Sandford Fleming perdeu um trem em 1876 ao confundir o horário impresso no bilhete em relação aos termos AM e PM. A partir dessa experiência, Fleming passou a defender a adoção de um horário uniforme, organizado em um sistema de 24 horas. Além disso, propôs que a Terra fosse dividida em 24 fusos horários de 15 graus cada — ou seja, 24 × 15 = 360 graus.

Uma influência decisiva para essa mudança veio da atividade econômica, em especial das ferrovias. Sem padronização, cada cidade podia adotar seu próprio horário local. Em alguns casos, um trem saía da cidade A às nove horas da manhã e chegava à cidade B, poucos quilômetros adiante, às oito e trinta. As empresas de transporte tinham interesse direto na padronização, que acabou sendo implementada alguns anos depois de Fleming ter perdido seu trem.

O horário padrão e os fusos horários foram instituídos logo em seguida e, gradualmente, incorporados pelos diferentes países ao longo do tempo.

O movimento de padronização do tempo antecedeu movimento semelhante na contabilidade. As empresas ferroviárias foram, em certo sentido, substituídas por corporações multinacionais e grandes firmas de auditoria como atores centrais nesse processo. Contudo, na contabilidade, a padronização é mais complexa e demorada. O caso aqui relatado mostra que interesses econômicos são fortes impulsionadores para a criação e imposição de padrões.

 

Rir é o melhor remédio

 

 Antes e Depois

04 fevereiro 2026

Contabilidade e agricultura


Segue a tradução: 

Em termos de sustentabilidade e competitividade, a agricultura moderna depende de informação ao longo de toda a cadeia de produção de alimentos. Pesquisas publicadas no International Journal of Agricultural Resources, Governance and Ecology analisaram como dados, inovação e colaboração moldam o desempenho das fazendas diante dos crescentes desafios das mudanças climáticas e de pressões de mercado diversas. O trabalho sugere que, sem estruturas de conhecimento, políticas e tecnologias voltadas para melhorar a resiliência, tais iniciativas tendem a ter desempenho inferior ao esperado.

Os pesquisadores mostram que a qualidade da informação é um fator decisivo que conecta decisões no nível da fazenda a resultados econômicos e ambientais mais amplos. (...) Infelizmente, muitas fazendas ainda operam sem sistemas contábeis formais ou mesmo sem registros consistentes, o que torna pouco transparente seu processo decisório. Além disso, a falta de consciência econômica detalhada pode estar limitando a capacidade de muitas propriedades de adaptar a produção às condições em mudança.

Os efeitos prejudiciais dessa lacuna de informação são agravados por fatores sociais e organizacionais no setor. Associações de agricultores, cooperativas e redes informais podem desempenhar um papel importante na troca de conhecimento, mas muitos produtores não utilizam plenamente essas redes, com diferenças de adesão relacionadas ao tamanho da fazenda, nível de escolaridade e idade. (...)

Em última análise, a digitalização, quando usada de forma sistemática — e não casual —, pode oferecer uma mudança estrutural na forma como a agricultura é gerida e ajudar a superar alguns desses problemas. Sistemas digitais podem reduzir desperdício de recursos e de esforço. Com maior eficiência no uso de recursos e decisões apoiadas por dados em um setor onde o timing é frequentemente crítico, as práticas agrícolas podem ser aprimoradas. Por fim, é necessário incorporar essa digitalização às redes agrícolas, apoiadas por liderança, políticas coerentes e pessoal treinado. 

Figurek, A., Semenova, E., Thrassou, A., Semenov, A. and Vrontis, D. (2025) ‘Innovative tools for the agricultural information system: a conceptual framework’, Int. J. Agricultural Resources, Governance and Ecology, Vol. 20, No. 6, pp.19–36. 

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A erosão do poder disciplinar e pastoral nas empresas de contabilidade

Eis o resumo:


As firmas de contabilidade tradicionalmente operaram como instituições ao mesmo tempo elitizadas e reinventivas, que oferecem uma trajetória profissional estruturada e prestigiosa e impõem um processo de socialização profundamente transformador para os auditores. No entanto, mudanças recentes no mercado de trabalho e a evolução das preferências profissionais estão desafiando esse regime de poder, com implicações significativas para as firmas e seus empregados. Com base em 31 entrevistas semiestruturadas com auditores no Canadá, nosso estudo examina como essas transformações estão remodelando as dinâmicas de poder dentro das firmas de contabilidade.  Primeiro, constatamos que as firmas estão cada vez mais tendo dificuldade em definir e produzir o auditor ideal. Em vez disso, como destacamos, observa-se a emergência do auditor “padrão” (*default auditor*), um profissional moldado mais por restrições do mercado de trabalho e por um engajamento transacional do que pelos mecanismos tradicionais de seleção e disciplina conduzidos pelas firmas.  Segundo, analisamos a erosão do poder pastoral (isto é, um poder fundamentado na orientação e no cuidado) dentro das firmas, à medida que auditores de nível júnior passam a priorizar o cuidado de si, enquanto sócios e gerentes (P&Ms) enfrentam crescentes dificuldades para estabelecer e sustentar relações pastorais com seus subordinados. Como resultado dessa erosão, P&Ms oscilam entre a autossacrifício (assumindo responsabilidades adicionais para compensar o desengajamento dos auditores) e um crescente sentimento de injustiça (a percepção de que estão dando demais e recebendo pouco em troca).  Para capturar esse impasse crescente, desenvolvemos o conceito de paralisia disciplinar e pastoral — um estado em que P&Ms não podem mais recorrer aos mecanismos tradicionais de disciplina e punição para impor normas de conduta profissional, mas também têm dificuldade em reinventar novas formas de poder pastoral. Examinamos as implicações dessa perda de controle, questionando se ela representa uma mudança temporária ou uma transformação mais permanente. Por fim, discutimos as consequências mais amplas de as firmas de contabilidade se tornarem menos parecidas com instituições normalizadoras e mais semelhantes a organizações “comuns”.

Prudência no passivo: um caso italiano

Um texto do Commercialista Telematico aborda o caso de dívidas fiscais na Itália, com ênfase na prudência e no tratamento contábil de um possível ganho. Na terra de Pacioli, o governo propôs um plano de perdão parcial de dívida fiscal, denominado rottamazione-quinquies.

A empresa que adere ao programa obtém o benefício de eliminar juros, multas e encargos, algo semelhante ao que já vimos no Brasil. A lei italiana também estabelece que o benefício será perdido caso duas parcelas não sejam pagas.

Considere uma empresa com um passivo fiscal de 100, ao qual foram acrescidos multas e juros de 40. Ao aderir ao plano de perdão da dívida, o passivo poderia ser reconhecido como sendo apenas 100. Contudo, como há risco de perda do benefício, o valor de 40 não deveria ser reconhecido imediatamente como ganho, em razão do princípio da prudência.

Contrariamente a parte della dottrina, il principio della prudenza civilistica (Art. 2423-bis c.c.) impedisce la rilevazione del provento al momento dell’adesione o nel bilancio 2025.