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22 outubro 2025

Liberdade de expressão e IA no mundo

Eis o resumo:

A inteligência artificial (IA) generativa transformou a forma como as pessoas acessam informações e produzem conteúdo, levando-nos a questionar se os atuais marcos regulatórios ainda são adequados. Menos de três anos após o lançamento do ChatGPT, centenas de milhões de usuários já dependem de modelos da OpenAI e de outras empresas para aprender, se entreter e trabalhar. Em meio a tensões políticas e reações públicas, surgiram debates acalorados sobre que tipos de conteúdo gerado por IA devem ser considerados aceitáveis. A capacidade da IA generativa tanto de ampliar quanto de restringir a expressão a torna central para o futuro das sociedades democráticas.

Isso levanta questões urgentes: as leis nacionais e as práticas corporativas que regulam a IA protegem a liberdade de expressão ou a limitam? Nosso relatório — “Isso Viola Minhas Políticas”: Leis de IA, Chatbots e o Futuro da Expressão — aborda essa questão ao avaliar legislações e políticas públicas em seis jurisdições (Estados Unidos, União Europeia, China, Índia, Brasil e República da Coreia) e as práticas corporativas de oito grandes empresas de IA (Alibaba, Anthropic, DeepSeek, Google, Meta, Mistral AI, OpenAI e xAI). Em conjunto, esses sistemas públicos e privados de governança definem as condições sob as quais a IA generativa molda a liberdade de expressão e o acesso à informação em escala global.

Este relatório representa um passo em direção a repensar como a governança da IA influencia a liberdade de expressão, tomando como referência o direito internacional dos direitos humanos. Em vez de aceitar regras vagas ou sistemas opacos como inevitáveis, legisladores e desenvolvedores podem adotar padrões claros de necessidade, proporcionalidade e transparência. Dessa forma, tanto a legislação quanto as práticas corporativas podem contribuir para que a IA generativa proteja o pluralismo e a autonomia dos usuários, ao mesmo tempo em que reforça as bases democráticas da liberdade de expressão e do acesso à informação.


 Eis o relato do Brasil:

O Brasil ficou em terceiro lugar, com um desempenho robusto. O arcabouço jurídico e institucional do país é marcado por fortes proteções constitucionais à liberdade de expressão, embora casos recentes revelem uma tendência a uma regulação mais intervencionista em resposta a danos online (reais ou percebidos). As perspectivas futuras dependem em grande parte de um novo projeto de lei sobre IA atualmente em discussão. Embora o projeto incorpore a liberdade de expressão e o pluralismo como princípios orientadores, também tem sido criticado por suas definições vagas e pelos potenciais efeitos inibidores sobre a liberdade de expressão. 

Rir é o melhor remédio


 Do Estado de S. Paulo de outubro de 2025. 

21 outubro 2025

O Nobel de Economia foi justo?

O controverso Nobel do ano passado parece que tem companhia. Isso se depender do ponto de vista do estatístico Gelman. Analisando os dados do artigo de 2005, denominado Competition and Innovation: An Inverted-U Relationship, de dois dos autores que recentemente receberam o Nobel em Economia de 2025, a conclusão não é boa. 


O texto original afirma existir uma relação entre concorrência de mercado e inovação, onde deveria ter um U invertido entre intensidade competitiva e inovação, sugerindo que até certo ponto a concorrência estimula a inovação.

Há várias questões metodológicas, como o uso de regressão de Poisson sobre dados que não são estritamente contagens. Na pesquisa original há 354 observações de 17 setores, entre 1973 e 1994. 

Eis o texto final de Gelman: 

Vendo por esse lado, toda a minha análise estatística com as transformações, as curvas quadráticas e a função de articulação foi uma perda de tempo, já que estou apenas fazendo uma análise sofisticada de dados ruins (ou, pelo menos, irrelevantes). Mas… resumir a informação estatística ainda tem valor em si. Minha análise levou apenas algumas horas, uma fração do tempo que os autores devem ter gasto preparando, analisando e interpretando seus dados. Acho importante, ao fazer análise estatística, dar o nosso melhor, neste caso levando em conta todas essas fontes de variação e incerteza.

Ou, colocando de outra forma, sim, teria sido aceitável descartar completamente os resultados publicados, dado os problemas com os dados. Mas alguns desses problemas só se tornaram aparentes depois que fiz aqueles gráficos mostrando as séries temporais de cada setor. Nesse ponto, todo o ajuste pode até ter sido uma perda de tempo — mas só pensei em fazer os gráficos porque estava tentando entender a adequação que parecia estranha.

IA afetando o mercado de trabalho: cartas de apresentação

Como a IA está influenciando o mercado de trabalho, mas não da forma como você está pensando:

Nós estudamos como a inteligência artificial generativa afeta o sinal transmitido no mercado de trabalho, analisando a introdução de uma ferramenta de redação de cartas de apresentação com IA na plataforma Freelancer.com. Nossos dados acompanham tanto o acesso à ferramenta quanto o uso em nível de candidatura. As estimativas de diferença-em-diferenças mostram que o acesso à ferramenta de IA aumentou o alinhamento textual entre cartas de apresentação e anúncios de vagas — o que chamamos de personalização da carta de apresentação — e elevou as chances de retorno das empresas. Trabalhadores com habilidades de escrita mais fracas antes da IA apresentaram maiores melhorias nas cartas, indicando que a IA funciona como substituto das próprias competências desses trabalhadores. Embora apenas uma minoria das candidaturas tenha usado a ferramenta, a correlação geral entre personalização da carta e retornos caiu em 51%, o que implica que as cartas de apresentação se tornaram sinais menos informativos da habilidade do trabalhador na era da IA. Os empregadores, por sua vez, passaram a se apoiar em sinais alternativos, como avaliações anteriores dos trabalhadores, que se tornaram mais preditivas para a contratação. Por fim, dentro do grupo tratado, observou-se que maior tempo gasto editando os rascunhos produzidos pela IA esteve associado a um maior sucesso em contratações. 

50 Cent ou melhor 109 Cent

Curtis James Jackson III é mais conhecido pelo nome artístico de 50 Cent. É um rapper, compositor, ator, diretor e empresário. O seu álbum Get Rich or Die Tryin' vendeu 13 milhões de cópias no mundo. Conforme a Wikipedia, o nome faz referência a um assaltante do Brooklyn, também conhecido como "50 Cent". O músico escolheu o nome "porque ele diz tudo que eu quero dizer. Eu sou o mesmo tipo de pessoa que 50 Cent foi." 

Mas achei interessante o gráfico abaixo, mostrando a evolução de 50 Cent ao longo do tempo:


O ano de 1995 foi quando ele escolheu seu nome artístico. Se em 1995 ele valia 50 Cent, agora, em 2025, ele vale 109 Cent, se fosse corrigido pela inflação. Ou, de outra maneira, aquele 50 Cent de 1995 teria um poder de compra hoje de 23 centavos. 

Uma nova rota da China para Europa

Há uma relação entre essa postagem e a anterior, sobre o Canal de Suez. Mas na anterior, falamos sobre o impacto da redução do trânsito de navios pelo Canal sobre as finanças públicas do governo do Egito. A principal razão é a questão da segurança dos navios.

Em busca de alternativas, a China está inaugurando uma nova rota marítima, usando o Ártico. Isso permite reduzir o tempo de viagem de um navio de carga, de 30 dias para 18 dias. E traz o ganho da segurança da rota, que não há guerras nem piratas. 

O trajeto é realizado pela empresa Haijie Shipping, partindo de Ningbo-Zhoushan, cruzando o Estreito de Bering, seguindo a costa norte da Rússia até portos como Hamburgo, Roterdã e Gdansk.

A seguir um mapa simplificado da nova rota (de preto) e a anterior (de vermelho):


 

Quando Segurança Vira Receita: O Caso do Canal de Suez


Eis aqui um exemplo de como o gasto em segurança pode ter efeitos diretos sobre as finanças públicas — e estamos falando especificamente das receitas. Normalmente associamos esse tipo de gasto apenas à despesa, uma saída de caixa que reduz os recursos disponíveis para outras atividades. Entretanto, a segurança pública pode também se revelar uma importante fonte de receita.

O Canal de Suez foi criado para encurtar a rota comercial entre países, servindo como um atalho para navios que iam da Europa para a Ásia e vice-versa. Sua construção foi épica e trouxe enormes benefícios ao comércio mundial. A alternativa disponível até hoje é contornar o continente africano, o que implica uma viagem mais longa e custosa.

Cada navio que cruza o canal paga uma taxa pelo seu uso. Essa cobrança se tornou uma relevante fonte de recursos — no passado para a empresa responsável pela obra e, nas últimas décadas, para o governo do Egito. Contudo, tensões regionais recentes aumentaram os riscos de utilizar o canal. A guerra em Gaza e os problemas no Golfo de Adem, incluindo ataques de piratas e terroristas, reduziram substancialmente a quantidade de navios que o atravessam. Segundo autoridades egípcias, antes, em média, 72 navios de grande porte passavam pelo canal diariamente; hoje esse número caiu para cerca de um terço, entre 25 e 30.

A menor movimentação implica queda na arrecadação das taxas de passagem, afetando diretamente as receitas do governo egípcio. Estima-se que as perdas tenham alcançado nove bilhões de dólares em apenas um ano devido à insegurança no Mar Vermelho. É claro que o aumento de custos também atinge o consumidor final dos produtos transportados, mas, para este, há alternativas possíveis. Já para o governo do Egito, a redução do tráfego no canal representa uma perda praticamente insubstituível.