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02 outubro 2025

As finanças da ABL

A revista piauí publicou um interessante texto sobre as finanças da prestigiosa Academia Brasileira de Letras (ABL). A instituição, fundada por Machado de Assis, enfrenta problemas financeiros que não são recentes.


Entre 2017 e 2021, o então presidente Marco Lucchesi (foto) precisou lidar com um desequilíbrio clássico: as despesas superavam as receitas, muitas delas de caráter fixo. Mesmo sendo uma entidade sem fins lucrativos, a situação era insustentável no longo prazo. Sua solução foi cortar custos: extinguiu a verba de representação, reduziu passagens aéreas para acadêmicos que moravam fora do Rio e promoveu outras medidas impopulares, mas necessárias. A pandemia agravou o cenário ao reduzir a receita de aluguéis do prédio comercial da ABL. Ainda assim, ao final de sua gestão, a entidade alcançou o equilíbrio financeiro.

Em dezembro de 2021, Merval Pereira assumiu a presidência. Embora tenha flexibilizado algumas restrições, manteve a austeridade. Os jetons voltaram a ser reajustados, mas abaixo da inflação, e o plano de saúde foi rebaixado de nível. Ao mesmo tempo, buscou novas fontes de receita: captou recursos para o Dicionário da Língua Portuguesa, avaliou a venda de imóveis e manteve atenção ao patrimônio da entidade, como o Solar da Baronesa, um bem tombado que gera altos custos de manutenção. A venda de ativos, nesse contexto, representa uma forma de reduzir despesas não ligadas à função principal da academia.

Bolha da IA e consequências contábeis


Estamos vivendo a era da inteligência artificial. Nesse sentido, as empresas correm para financiar projetos relacionados à criação de seus próprios modelos ou à aquisição de modelos já existentes. Parece uma corrida do ouro — ou melhor, uma corrida para a IA — em que quem se atrasar será derrotado pelo rival que conseguir implantar as melhores soluções primeiro.

Nas empresas, muitos dos gastos estão sendo ativados, já que representam investimentos com potencial de gerar riqueza no futuro. Do lado do investidor, há uma busca incessante pelos futuros vencedores. Decorrente desse cenário, o mercado acionário tem valorizado substancialmente as empresas que aparentam estar liderando essa corrida.

Surge agora a preocupação de que o mercado possa estar supervalorizado (vide aqui). Seria uma repetição da crise das pontocom, no final dos anos 1990, que trouxe como consequência os escândalos da Enron e da WorldCom? Essa crise também resultou em um dos maiores prejuízos da história moderna: o da AOL Time Warner, decorrente do reconhecimento de uma baixa contábil.

Os índices de valorização do mercado parecem confirmar essa impressão, e algumas vozes isoladas também têm alertado para isso. Jerome Powell (foto) afirmou que as ações estão com preços elevados. Mas não há consenso; na verdade, a valorização sugere que o otimismo tem prevalecido sobre o pessimismo. O Bank of America sugere uma nova normalidade: os múltiplos atuais devem se manter nesses patamares, já que a realidade mudou. Outros defendem que as empresas atuais geram fluxo de caixa, ao contrário das companhias da crise das pontocom.

De qualquer forma, uma eventual crise terá consequências para a contabilidade: haverá redução nos valores dos ativos, provável aumento das provisões, diminuição dos lucros e, dependendo da intensidade, do patrimônio líquido. Para o profissional, o desafio será reavaliar o valor dos ativos por meio de testes de recuperabilidade, responder rapidamente ao mercado por meio de fatos relevantes, lidar com acusações sobre a qualidade do trabalho, entre outros aspectos. É preciso estar preparado para a possibilidade de que isso ocorra em um futuro próximo.

01 outubro 2025

Agentic AI e o emprego


Um relatório da Allianz alerta para a tecnologia Agentic AI , que são sistemas de inteligência artificial capazes de tomar decisão de maneira autonoma ou executar tarefas de complexidade, sem intervenção humana. Seria a próxima etapa, posterior a Generative AI. 


Segundo o relatório, a nova tecnologia teria potencial de gerar ganhos globais de 2,6 a 4,4 trilhões de dólares nos próximos 2 a 5 anos, impulsionados por produtividade e inovação. O grande problema é o desemprego: estima-se que até 60% dos empregos em economias avançadas e 40% globalmente possam ser automatizados ou profundamente impactados. Haveria uma relação em que cada 1% de investimento em IA traria uma redução de emprego de 0,29%. Assim, a Agentic AI pode gerar mais substituição de empregos que ondas tecnológicas anteriores. 

30 setembro 2025

Custo oculto do iFood

Pedir comida pelo iFood é uma grande comodidade dos dias atuais. Junto com o desenvolvimento da entrega rápida de comida, cresceu o número de entregadores circulando com motocicletas. Uma consequência disso: mortes


O gráfico mostra um crescimento nos acidentes fatais de motocicletas, entre 2018 e 2024. Em alguns lugares, é a causa de morte mais comum entre os jovens. E isso tem impacto sobre a saúde pública, a segurança viária e os gastos públicos. 

Enquanto o crime é destaque e traz impacto político, os acidentes de trânsito não recebem muita atenção pública. 

Vídeos de investimento no TikTok são enganosos ou imprecisos

Do Business Insider:


Um estudo recente mostrou que 70% dos vídeos de investimentos no TikTok são enganosos ou imprecisos. O levantamento analisou conteúdos populares em hashtags como #FinTok e #StockTok, avaliando critérios como precisão, transparência de riscos, simplificação excessiva e valor educacional. A maioria dos criadores não tem formação em finanças, e muitos vídeos parecem focados em engajamento e receita, não em aconselhamento sério. O estudo alerta que jovens investidores, que usam cada vez mais o TikTok como fonte, devem ter cautela e verificar as credenciais de quem produz esse conteúdo.

Enciclopedia de Musk

O controverso e rico Elon Musk anunciou que estaria criando a Grokipedia, como uma alternativa à Wikipedia. A disposição de colocar recursos em uma enciclopéida decorre de sua crença que a Wikipédia não é neutra, estando sujeita a manipulações ideológicas, com tendência ao pensamento de esquerda. Nesse sentido, a nova enciclopedia seria neutra e verificável. 


Não foram divulgados detalhes, como critérios de curadoria e governança editorial. Mas parece que a nova enciclopédia será alimentada por uma IA, o chatbot Grok. Além do fato do novo projeto ser controlado por uma empresa privada,  o uso do Grok pode ser um problema. 


Viés na rede de relacionamentos acadêmica

Um estudo (via aqui) investigou vieses na formação de redes acadêmicas entre economistas no Twitter (ou X). Os autores criaram 80 perfis fictícios de estudantes de doutorado em economia, variando aleatoriamente gênero (nomes e fotos indicativas), raça (negro ou branco) e vinculação institucional (universidades de prestígio ou menos reconhecidas). Esses perfis seguiram cerca de 6.920 usuários da comunidade #EconTwitter entre maio e agosto de 2022, e o experimento mediu quantos daqueles usuários “retribuíram” o follow.


Os resultados revelaram disparidades substanciais: perfis de estudantes negros de universidades menos prestigiadas obtiveram a menor taxa de retorno de follow, enquanto mulheres brancas de universidades topo de ranking tiveram a maior taxa — a diferença entre os extremos foi de quase 10 pontos percentuais. Em média, perfis brancos obtiveram “follow-backs” 12 % mais frequentemente que perfis negros; perfis de instituições prestigiadas tiveram vantagem de 21 % sobre instituições mais modestas; e perfis femininos receberam 25 % mais retorno que perfis masculinos.

Esses achados sugerem que, mesmo em plataformas online frequentemente consideradas “democráticas”, há mecanismos de discriminação implícita que influenciam quem é aceito nas redes profissionais acadêmicas. Além disso, o estudo contribui para explicar fatores que perpetuam a falta de diversidade na economia, mostrando como redes sociais digitais podem reproduzir desigualdades já existentes.