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05 março 2026

Finanças pessoais: Economia de Pirro

Achei o termo Economia de Pirro para explicar algumas coisas que nós fazemos na vida financeira ou que uma empresa faz em suas decisões. Voltando ao passado, o rei Pirro de Épiro, 279 anos antes da era cristã, derrotou os romanos. Mas perdeu muitos de seus melhores guerreiros. Percebendo isso, o rei afirmou que tinha vencido a batalha, mas ficado arruinado. O termo permaneceu e tem sido usado quando saímos vitoriosos de forma aparente, mas a um custo elevado demais.


Para a vida financeira, uma economia pírrica é algo que custa demais, muito mais do que o benefício. O gasto para “economizar dinheiro” pode representar uma saída de caixa que, do contrário, não teria ocorrido. O caso típico é comprar um produto em promoção quando não temos necessidade dele. Ou então, comprar um pacote quando precisamos de somente uma unidade.

Quando resolvemos fazer parte de um clube premium, gastamos um valor para desfrutar de descontos que não iremos recuperar nas compras futuras ou, então, forçamos a fazer compras futuras para justificar o gasto premium.

O importante é que a economia de Pirro também ocorre na empresa. Uma empresa que compra uma grande quantidade de estoque, usando um caixa de que precisava e aumentando o risco de obsolescência, é uma situação típica. Uma área deseja comprar uma licença de software e o brilhante gestor da área de TI decide abrir a oportunidade para outros setores. Vários irão se candidatar, ao mesmo tempo que aumenta a complexidade da compra.

Redução no custo


Uma empresa está sendo auditada e começa a pressionar o auditor a repassar, no preço, a economia gerada pelo uso de inteligência artificial. Caso não ocorra uma redução expressiva nos honorários, a empresa pode buscar um novo auditor.

Parece uma história normal, como a que ocorreu com a Grant Thornton, que fazia a auditoria. Mas fica muito irônico quando ficamos sabendo que a empresa que estava sendo auditada e pressionando pela redução no valor do contrato é a KPMG, uma big four.

Também não deixa de ser um bom argumento para quem estiver sendo auditado pela KPMG negociar os valores contratados. A fonte da notícia é o confiável Financial Times (via aqui).

Imagem criada pelo Gemini, a partir do texto acima. 

 

04 março 2026

Erros em filmes

A newsletter de Stephen Follows junta cinema/serie com estatística. Recentemente, ele analisou 200 mil erros entre 11842 filmes. Alguns são conhecidos dos amantes por terem muitos erros, como Armageddon (1998) que é usado pela NASA para treinamento gerencial, com 168 erros em 150 minutos. Há erros de todo tipo: furos de enredo, fatos incorretos, eventos históricos incorretos, falhas de continuidade, membros da equipe aparecendo em cena, entre outros. 


Ele aponta que talvez o filme com maior número de erros seja The Martian (imagem acima) e a lista é bem grande: tamanho do Sol semelhante ao visto da Terra, objetos flutuam durante aceleração, pressão do traje e níveis de oxigênio não fecham, protocolos de descompressão são ignorados, solo tóxico por perclorato não tratado, quantidades de sementes e plantio de batatas que não correspondem à colheita mostrada, entre outros.

Talvez o mais conhecido dos erros seja de continuidade. E o texto de Follows apresenta alguns exemplos interessantes: em Pulp Fiction, buracos de bala já aparecem na parede do apartamento atrás de Jules e Vincent antes de Marvin disparar o tiro que supostamente os cria; em Harry Potter e a Pedra Filosofal, o nível da bebida no cálice de Harry muda entre cortes nas cenas do Grande Salão, apesar de ninguém tocá-lo, em The Dark Knight Rises, o capuz do Batman alterna entre danificado e intacto durante a mesma sequência de luta na rua e, o mais interessante de todos, em Pretty Woman, o croissant de Julia Roberts se transforma em uma panqueca entre planos na cena do café da manhã — e depois volta a ser croissant.

O autor do artigo não citou, e talvez não seja efetivamente um "erro", mas The Accountant é rápido demais em fazer certas tarefas contábeis. Ou eu que sou lento?   

Mercado de previsão

A ideia de mercados de previsão pode ter começado como uma pequena ferramenta de pesquisa em Iowa, na década de 1980, com volumes de negociação medidos em milhares de dólares. Após algumas décadas, o volume mensal em dólares dos mercados privados de previsão já havia alcançado milhões. Recentemente, esses mercados chegaram ao grande público. O Wall Street Journal relata que Polymarket e Kalshi agora movimentam cerca de US$ 3–4 bilhões por mês. É verdade que isso ainda é três ordens de magnitude menor do que o volume da NYSE ou da NASDAQ, de US$ 2–3 trilhões. Ainda assim, esse crescimento impressionante indica ampla aceitação.

A ideia é simples. Se um contrato paga US$ 1 caso um evento ocorra e eu acredito que o evento ocorrerá com probabilidade P, meu valor esperado ao possuir o contrato é US$ 1 × P, ou simplesmente P. Se o contrato estiver sendo negociado por menos (ou mais) do que P, posso esperar lucrar comprando (ou vendendo) o contrato. Com participantes suficientes, o preço cotado representa a melhor estimativa “do mercado” sobre a probabilidade do evento. O incentivo ao lucro dos negociadores leva o preço à expectativa do mercado.

Para os não participantes — talvez menos informados sobre como novas informações afetam a probabilidade — basta observar quanto o preço mudou para inferir o que indivíduos mais bem informados pensam sobre aquela informação. Os mercados de previsão exploram a “sabedoria das multidões”. O crescimento desses mercados é um indicativo do valor que esse tipo de informação pode ter.
 

Fonte: aqui 

Estudar é interessante?


Há muitos estudos que estimam o efeito causal de um ano adicional de educação sobre os rendimentos. A maioria utiliza mudanças administrativas na idade mínima para deixar a escola como mecanismo que permite identificar esse efeito. Neste trabalho, examinamos 79 estimativas desse tipo. Contudo, de forma notável, embora a maioria desses estudos encontre ganhos substanciais decorrentes da educação, vários estudos bem fundamentados não encontram efeito algum. O retorno médio estimado nesses estudos ainda sugere ganhos significativos de um ano extra de escolaridade: cerca de 8,2%. Entretanto, o padrão dos retornos reportados mostra evidências claras de viés de publicação: omissão de estudos em que o retorno não foi estatisticamente significativo acima de zero ou em que o retorno estimado foi negativo. Corrigindo essas omissões, o retorno causal médio de um ano adicional de escolaridade ficaria apenas na faixa de 0% a 3%.

The Returns to Education: A Meta-Study -  Gregory Clark, Christian Alexander Abildgaard Nielsen - Kyklos - First published: 06 February 2026 

Parece frustrante o resultado, mas é importante por levar em consideração o viés de publicação. Mas lembrando que há o "milagre" do crescimento exponencial. Considerando trinta anos no mercado de trabalho, isso corresponde a 56% a mais no salário. Imagem aqui

Conexões lucrativas


Fornecemos evidências inéditas sugestivas de insider trading por meio de relações ocultas, identificadas utilizando informações de mais de 100 mil perfis do Facebook e seus 35 milhões de amigos. Focando nas conexões entre gestores de fundos e executivos de empresas, demonstramos que esses vínculos escondidos estão associados a retornos anormais significativos, com média de 135 pontos-base por mês (mais de 16% de alfa anual, t-stat = 3,54) no universo de fundos mútuos e empresas de capital aberto. Essas conexões ocultas surgem como o mais forte preditor de retornos futuros das ações entre as características de rede documentadas, com poder preditivo que cresce ao longo do tempo até os dias atuais. O prêmio associado a essas conexões não decorre de seleção endógena nem de viés de familiaridade; em vez disso, os gestores demonstram habilidade específica de timing ao decidir quando manter (ou evitar) ações de empresas cujos executivos possuem vínculos ocultos com eles. O valor da informação para negociação aumenta com o grau de ocultação da relação e concentra-se especialmente em torno de eventos de divulgação de resultados e fusões e aquisições (M&A). Esse prêmio não aparece em fundos de índice, nos quais a seleção estratégica de ações e o timing de mercado são inviáveis. Nossos resultados sobre o valor dessas conexões ocultas permanecem robustos em diferentes setores, estilos de investimento, períodos de tempo e tipos de empresas.

Manuel Ammann, Alexander Cochardt, Lauren Cohen, Stephan Heller,
Hidden alpha, Journal of Financial Economics, Volume 178, 2026,
104225, ISSN 0304-405X, https://doi.org/10.1016/j.jfineco.2025.104225.
(https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0304405X25002338)

Fraude bilionária no setor de combustíveis

Uma extensa reportagem da Piauí mostra como funcionava o esquema de fraude fiscal do grupo Refit no setor de combustíveis. Na realidade, são várias formas criada pelo grupo para reduzir a carga tributária, segundo a acusação dos órgãos públicos. 


A primeira maneira é usar empresas de fachada para importar combustível. Essas empresas estavam localizadas em estados com incentivos fiscais.  A segunda forma era declara que estava sendo importado petróleo bruto, quando o combustível já estava processado para consumo. A terceira maneira era vender com preços abaixo do mercado, onde os tributos não eram repassados para o governo. Finalmente, o grupo usava fundos de investimentos e outros mecanismos para reduzir patrimônio e lavar recursos. 

O resultado disso é uma dívida tributária estimada de 25 bilhões de reais.