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19 fevereiro 2026

Reforma tributária e pesquisa contábil


Objetivo: Destacar os elementos centrais da Reforma Tributária (Lei Complementar n.º 214, de 2025), indicar caminhos para pesquisas em contabilidade e tributação, e mostrar como as mudanças no sistema tributário brasileiro podem orientar agendas acadêmicas.

Método: O estudo baseia-se em uma retrospectiva das pesquisas contábil-tributárias brasileiras e internacionais, entre 1925 e 2025, com base em dados da Web of Science, por meio do mapeamento de 5.592 artigos globais e 88 nacionais relacionados à tax avoidance, tax evasion e tax aggressiveness. O estudo utilizou o software VOSviewer para gerar mapas de densidade, clusters temáticos e redes de coautoria.

Resultados: Os achados mostram crescimento expressivo das pesquisas sobre tributação no mundo após 2000, e, no Brasil, após a convergência das normas contábeis às normas internacionais. Persistem limitações metodológicas, foco expressivo em companhias abertas e pouca presença internacional. A Reforma Tributária cria um ambiente favorável à expansão de temas como formação de preços, impactos setoriais, governança, sistemas de informação, tributação internacional e custos de conformidade.

Contribuições: Propõe-se uma agenda de pesquisa alinhada às transformações tributárias e às necessidades da contabilidade e da prática profissional, fortalecendo a construção do conhecimento e o papel da academia no diálogo com mercado e sociedade.

Fonte: aqui 

KPMG pegou funcionários usando IA para colar

Do Financial Review newsletter de ontem: 

Um sócio da KPMG Austrália literalmente pagará o preço após usar IA durante um curso de treinamento sobre a tecnologia.

O sócio, auditor registrado de empresas, concluiu um treinamento interno de IA [1] em julho. Após baixar um manual de referência recomendado, ele violou a política da firma ao enviar o documento para uma ferramenta de IA a fim de responder a uma questão de prova.

A firma multará o sócio em mais de $10 000, e o CA ANZ [2] agora está investigando a conduta.

O caso é um entre 28 ocorridos na firma desde julho [3], sendo os demais envolvendo funcionários de nível médio e júnior flagrados usando IA para colar.


A KPMG já tem histórico quando se trata de sócios e funcionários recorrerem a atalhos para trapacear em exames internos.

Em 2021, mais de 1100 sócios e funcionários da KPMG Austrália “estiveram envolvidos em compartilhamento impróprio de respostas ao realizar testes de treinamento”, nos quais receberam ou compartilharam respostas entre “pelo menos 2016 e o início de 2020”, segundo o US Public Company Accounting Oversight Board.

A firma prometeu reformas em resposta.

Em dezembro, a Rear Window [4] revelou que alguns funcionários de primeiro ano haviam usado IA para conluio em treinamentos internos.

A sanção contra o sócio pode parecer dura para alguns, dado que enviar documentos é prática comum no uso de IA. Mas parece que a firma tem um problema persistente de integridade.

A KPMG divulgará casos de cola relacionados à IA em seus resultados anuais ainda este ano. No entanto, a divulgação adicional pode não resolver o problema cultural mais profundo.

[1] Ironia aqui, não? Treinamento sobre IA e o aluno funcionário usou IA para responder. 

[2] Chartered Accountants Australia and New Zealand — o principal órgão profissional de contadores da Austrália e da Nova Zelândia. 

[3] Seria interessante saber o número de funcionários que fizeram o treinamento.  

[4] Um órgão investigativo da imprensa da Austrália 

18 fevereiro 2026

Milhas aéreas como um ativo


No livro Teoria da Contabilidade, Niyama e Silva discutem a questão das milhas aéreas. Acontece que a discussão é sob a ótica do passivo, da empresa que lança o plano de bonificação. E, sob a ótica de quem recebe as milhas, a discussão também é interessante. Mas, como geralmente não acontece nas empresas, o assunto não tem tanta relevância para a contabilidade financeira.

(Aqui um parêntese: muitas empresas exigem que seus funcionários repassem as milhas para a própria empresa, que irá usá-las no futuro. Estamos assumindo que não é essa a situação, mas que a empresa paga para seu funcionário e este coloca as milhas em sua conta pessoal. Isso também cabe discussão.)

Se, na companhia aérea, as milhas correspondem a um passivo, do lado de quem está usando o serviço — uma empresa ou uma pessoa — as milhas seriam um ativo. Mas o reconhecimento depende não somente de satisfazer a definição, mas também da mensuração. Se um passageiro ganha as milhas, mas isso não é suficiente para resgatar sob a forma de um bilhete extra, não devemos considerar como um ativo. É o caso do passageiro que viaja pouco por uma empresa e as milhas expiram com o tempo. Mas, caso exista chance de ocorrer o resgate das milhas, estas serão um ativo.

Em um mundo ideal, as milhas contabilizadas no passivo da empresa aérea deveriam ser iguais à soma das milhas existentes nos ativos das pessoas, físicas ou jurídicas. Na prática, não acontece por uma série de razões. De pronto, muitas pessoas não “reconhecem” as milhas em seus ativos, inclusive por não terem uma “contabilidade” adequada, como é o caso das pessoas físicas. Outra razão é que, para muitas empresas aéreas, o custo da milha é somente o custo variável, já que o custo fixo não depende do passageiro extra proveniente dos programas de fidelidade. Em alguns casos, a obtenção de pontos para serem trocados por milhas pode ser feita em transações fora do transporte aéreo, como é o caso do cliente que usa o cartão de crédito em uma compra em uma loja.

Para os consumidores que consomem seus recursos visando obter os bônus que darão direito à troca por milhas — e muitas vezes o fazem só por essa finalidade — as milhas podem ter um impacto negativo e não deveriam ser, rigorosamente, um ativo.

Foto aqui 

Orgulho de um país

Olha que interessante. Uma pesquisa perguntou a mais de 30 mil pessoas em 25 nações o que faz se sentir orgulhoso do país. Cada respondente explicou seus motivos, como pessoas, diversidade, governo, economia, cultura, estilo de vida e outras coisas mais.

Entre os países, o Brasil e 25% afirmaram ser um país acolhedor, o que significa um clima social positivo. Fatores naturais, como paisagem e geografia, abrangeram 17% das respostas, o que inclui a falta de desastres naturais. Mas um de cinco mencionaram algo negativo na sua resposta. 

Você pode consultar no link as respostas dos outros países.  

Rir é o melhor remédio


 Grande Maurício. Fechado para Balanço. 

17 fevereiro 2026

Cartel no Cafe nos anos 30


Investigamos como um cartel de commodities é criado ao estudar as negociações entre Colômbia e Brasil para estabilizar o mercado internacional de café na década de 1930. Mostramos como diferenças entre os atores envolvidos na indústria dentro dos países negociadores — em termos de propriedade da terra e do tipo de café produzido — impediram acordos iniciais de cartelização. A cartelização só foi alcançada quando quatro fatores convergiram: capacidade financeira e de infraestrutura para armazenar a produção excedente, conhecimento aprofundado da indústria por parte dos negociadores, pleno apoio governamental e presença de um terceiro agente fiscalizador. Combinamos uma abordagem inovadora de teoria dos jogos com fontes arquivísticas anteriormente inexploradas.

Link aqui 

Robles-Baez C, Medina LF, Bucheli M. The Political Economy of Commodity Cartel Formation: The Case of Coffee, 1930–1940. The Journal of Economic History. 2025;85(4):1066-1100. doi:10.1017/S0022050725100831
 

Resistência à IA e repugnância

 


De alimentos geneticamente modificados a veículos autônomos, a sociedade frequentemente resiste a tecnologias que, de outro modo, seriam benéficas. A resistência pode surgir de preocupações baseadas no desempenho, que diminuem à medida que a tecnologia melhora, ou de objeções baseadas em princípios, que persistem independentemente da capacidade. Utilizando uma pesquisa em larga escala nos Estados Unidos, com cotas compatíveis à demografia do censo e avaliando 940 ocupações (N = 23.570 avaliações de ocupações), distinguimos essas fontes no contexto da inteligência artificial (IA). Apesar da ansiedade cultural sobre a substituição de trabalhadores humanos pela IA, constatamos que os americanos demonstram surpreendente disposição em ceder a maioria das ocupações às máquinas. Dadas as capacidades atuais da IA, o público já apoia a automação de 30% das ocupações. Quando a IA é descrita como superando humanos a um custo menor, o apoio à automação quase dobra, chegando a 58% das ocupações. Ainda assim, um subconjunto restrito (12%) — incluindo cuidado, terapia e liderança espiritual — permanece categoricamente fora de cogitação, pois tal automação é vista como moralmente repugnante. Essa mudança revela que, para a maioria das ocupações, a resistência à IA está enraizada em preocupações de desempenho que desaparecem conforme suas capacidades melhoram, e não em objeções de princípio sobre quais trabalhos devem permanecer humanos. As ocupações que enfrentam resistência pública ao uso de IA tendem a oferecer salários mais altos e empregar desproporcionalmente trabalhadores brancos e mulheres. Assim, a resistência pública à IA corre o risco de reforçar desigualdades econômicas e raciais, ao mesmo tempo em que mitiga parcialmente desigualdades de gênero. Esses achados esclarecem a “economia moral do trabalho”, na qual a sociedade protege certos papéis não por limitações técnicas, mas por crenças duradouras sobre dignidade, cuidado e significado. Ao distinguir objeções baseadas em desempenho daquelas baseadas em princípios, fornecemos um arcabouço para antecipar e lidar com a resistência à adoção de tecnologias em diferentes domínios.

O artigo foi publicado na HBR, mas pode ser também lido aqui . Não há uma citação específica ao contador, mas a pesquisa trabalhou com tarefas próximas a nossa profissão