Como
toda IA de aprendizado profundo, ele vasculha a base disponível
(aqui, textos “raspados” de fontes on-line) em busca de
correlações e padrões. Se você pedir um soneto de amor, é
provável que apareçam mais palavras como “para sempre”,
“coração” e “abraço” do que “chave de fenda” (a menos
que você peça um soneto sobre uma chave de fenda — e sim, admito
que acabei de fazer isso; o resultado não foi bonito). O algoritmo
não tem noção de que “amor” e “abraço” são
semanticamente relacionados. O impressionante no ChatGPT é como ele
consegue não apenas suavizar a sintaxe nessas associações de
palavras, mas também criar contexto. Acho improvável que “Você é
o parafuso que me mantém firme” já tenha aparecido em um soneto
escrito por um humano (e por boas razões) — mas ainda assim me
impressiona que se possa entender aonde ele quer chegar. (O ChatGPT
também faz trocadilhos, embora eu assuma a culpa por esse.) (...)
Se o
ChatGPT produz uma redação escolar crível, é porque estamos
propondo aos alunos uma tarefa equivalente: entregar fatos geralmente
aceitos, com alguma aparência de coerência. A redação estudantil
já tende a ser formulaica a um grau quase algorítmico, codificada
em siglas: PEE(L) — Ponto-Evidência-Explicação-(Ligação), ou
PEEA(C) — Ponto-Evidência-Análise-(Contexto). Não só se diz aos
alunos exatamente o que colocar e onde, como eles correm o risco de
perder pontos se se afastarem do modelo. A educação atual
recompensa a capacidade de argumentar por linhas previsíveis. Há
alguma lógica nisso, assim como estudantes de arte vão a galerias
para copiar grandes obras, aprendendo as habilidades sem a exigência
pesada e irreal de ter que ser original.
Mas é só isso que queremos? Rowsell diz que é difícil para
professores ou educadores encarar a questão, já que as engrenagens
dos sistemas educacionais costumam continuar girando simplesmente
porque “sempre fizemos assim”. Um mergulho no ensino da
caligrafia cursiva, por exemplo, revela que não há justificativa
clara além da tradição. Mas talvez agora seja a hora certa de
fazer essa pergunta difícil.
(...) E,
assim como calculadoras eletrônicas liberaram tempo e espaço mental
antes monopolizados por aprender logaritmos para multiplicações
complexas, grandes modelos de linguagem podem libertar alunos de ter
que dominar minúcias de ortografia, sintaxe e pontuação, para que
possam focar nas tarefas de construir um bom argumento ou desenvolver
ritmo e variedade nas frases.
A
ausência de imaginação, estilo e flair torna, por sua
vez, os grandes modelos de linguagem nenhuma ameaça aos
ficcionistas: “É a dimensão estética da escrita que é realmente
difícil para uma IA emular”, diz Rowsell. Mas é justamente isso
que pode torná-los uma nova ferramenta importante.
Por exemplo, suspeito que ajudaria os alunos a ver o que faz uma
história ou um ensaio ganhar vida se eles tivessem que melhorar a
produção chocha do ChatGPT. Talvez, de modo semelhante ao que
alguns músicos fazem usando IA geradora de música como fonte de
abundante matéria-prima, grandes modelos de linguagem possam
fornecer germes de ideias que escritores podem peneirar, selecionar e
lapidar.
Aqui, como em outros lugares, a IA nos serve de espelho, revelando
em suas limitações o que não pode ser automatizado nem
algoritmizado — em outras palavras, aquilo que constitui o núcleo
da humanidade.