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16 setembro 2025

Regime contábil nos Fundos Imobiliários


Sobre a contabilidade dos Fundos Imobiliários (FIIs):  

A contabilidade dos Fundos Imobiliários (FIIs) pode adotar dois regimes distintos para o reconhecimento de receitas e despesas: o de caixa e o de competência. [A CVM publicou] em novembro de 2024, um ofício circular reforçando que a distribuição dos FIIs deve ser baseada em 95% em resultado do lucro caixa. (...)

Outro ponto importante é que o gestor precisa definir se o fundo seguirá o regime de caixa ou de competência e manter essa escolha de forma consistente. “Antes, era comum os administradores alternarem entre os regimes, dependendo do cenário. Agora não pode mais: a decisão deve ser definitiva, sempre respeitando a trava dos 95% do caixa”, destaca Corrêa. Essa regra reduz a margem para distribuições artificiais e aumenta a previsibilidade para o investidor.

Imagem aqui 

15 setembro 2025

China está salvando o mundo da mudança climática?


Noah Smith argumenta que, embora a China ainda seja a maior fonte individual de poluição, é hoje quem executa a estratégia mais eficaz para conter a crise climática: escalar maciçamente tecnologias verdes até que fiquem mais baratas do que as fósseis. Com subsídios, crédito barato, cadeias integradas e abundância de engenheiros, a China domina a produção global de painéis solares, turbinas eólicas e mais de 70% dos carros elétricos. 

Esse volume aciona leis de escala (gráfico 2), derruba custos e já começa a substituir o carvão na geração elétrica e no aquecimento industrial, levando as emissões chinesas a um platô e leve queda recente (gráfico 1). Ao exportar painéis e automóveis elétricos baratos, o país permite que nações em desenvolvimento, incluindo o Brasil, cresçam pulando a etapa fóssil — não por moral, mas por economia. 

É interessante lembrar que o segundo posto do ISSB, entidade criada para regular as normas contábeis relacionadas à sustentabilidade, é ocupado por um chinês.  Mas o país ainda é reticente em usar as IFRSs. 

OpenAI e sua crise existencial

 


A OpenAI, responsável pelo ChatGPT, está procurando resolver o que o NY Times chamou de crise existencial. Isso inclui redefinir sua parceria com a Microsoft e ajustar sua forma de atuação. Hoje, a OpenAI é uma entidade sem fins lucrativos, e a solução passa pela mudança desse status. Vários financiamentos, inclusive alguns já contratados, dependem dessa mudança — que também permitiria, no futuro, a abertura de capital.

Quanto à parceria com a Microsoft, as mudanças negociadas alterariam a cláusula do acordo original que tratava do acesso da empresa à tecnologia mais avançada caso a startup atingisse a chamada inteligência geral artificial — uma IA tão capaz quanto o cérebro humano, seja lá o que isso seja. Pelo desenho discutido, a Microsoft ficaria com cerca de 30% da nova OpenAI, enquanto a organização sem fins lucrativos que hoje a controla teria algo acima de 20%.

Para a Microsoft, o acordo pode ajudar a manter a empresa na liderança do desenvolvimento de IA. Há dúvidas se os reguladores aceitarão a conversão e existe, naturalmente, a pressão dos concorrentes.

A OpenAI precisa resolver o problema, pois os custos de IA são enormes. A própria empresa projetou um desembolso de caixa de 115 bilhões de dólares até 2029, o que inclui computação em nuvem e processadores.

Do ponto de vista contábil, essa mudança de natureza jurídica conecta-se ao que Niyama e Silva destacam no capítulo 1 de Teoria Contábil: a forma de estruturação de uma entidade — inclusive se pertence ao segundo ou ao terceiro setor — afeta como ela mensura e evidencia seu desempenho. Uma entidade do terceiro setor privilegia métricas de missão; já uma companhia com fins lucrativos passa a enfatizar geração de resultado, retorno ao investidor e divulgações alinhadas a essa finalidade.

Confiabilidade facial e auditores independentes

Eis trecho do resumo: 


Utilizando  um  algoritmo  de machine  learning para detecção facial, a pesquisa identifica a confiabilidade facial por meio de 68 pontos de referência facial, com foco na aparência, gênero e expressão. Características-chave como sobrancelhas, formato do rosto, queixo e buço foram analisadas em 700 imagens. Doze imagens representando os quartis mais altos e mais baixos de confiabilidade foram selecionadas manualmente para uso em cenários baseados em questionários aplicados a 101 auditores independentes.

Resultados:Os  principais  resultados,  obtidos  a  partir  de  análise  de  regressão  pelo modelo Probit,   sugerem   que   os   auditores   tendem   a   considerar parcialmente   a confiabilidade  facial  dos  executivos  na  precificação  de honorários,  especificamente  o gênero facial e a expressão facial. Quando a aparência facial foi analisada, verificou-se que não há associação com os valores dos honorários de auditoria, já que não apresentou significância estatística.

Relação entre IPSAS e Investimento Estrangeiro Direto

Objetivo: Esta pesquisa investigou a relação entre a adoção das Normas Internacionais de Contabilidade do Setor Público (IPSAS) e os fluxos de Investimento Estrangeiro Direto (IED). 
Método: Foi analisado um painel de dados, composto por 352 observações de 32 países que concentram cerca de 80% do IED global, utilizando o método do Método Generalizado dos Momentos (GMM-Sys).
Originalidade/Relevância: Com base em evidências empíricas, os resultados sublinham que a adoção das IPSAS não parece ser uma estratégia significativa para aumentar a credibilidade junto dos investidores internacionais e atrair IED. Esta conclusão faz avançar o debate acadêmico sobre os benefícios, críticas e consequências da adoção das IPSAS.
Resultados: Os resultados das cinco estimativas GMM-Sys mostraram que a adoção das IPSAS não levou a um aumento significativo nos influxos de IED dos países da amostra.
Contribuições Teóricas/Metodológicas: Do ponto de vista acadêmico, esta pesquisa acrescenta evidências sobre os efeitos das IPSAS nas economias e também levanta discussões sobre a suposição em estudos anteriores que presumem benefícios da
adoção das IPSAS na forma de aumento do investimento estrangeiro.
Contribuições Sociais/para a Gestão: Para os gerentes públicos e formuladores de políticas públicas, essa conclusão sugere que a adoção das IPSAS dentro de uma estratégia de reforma governamental destinada a obter recursos externos deve ser
considerada com cautela, de modo que outros fatores institucionais parecem, neste momento, ser mais eficazes.

Begnini, D. L., Azevedo, F. G. P., Portulhak, H., Barros, C. M. E. (2025). A (Não) relação das IPSAS com o Investimento Estrangeiro Direto. Revista Contabilidade, Gestão e Governança, 28 (esp), 240-273

Rastreabilidade do impacto climático

O impacto da mudança climática tem sido atribuído aos produtores de combustíveis fósseis. À medida que novos dados e novas técnicas se desenvolvem, as informações ficam mais precisas, embora continuem apontando para os mesmos responsáveis. Entre 2000 e 2023, um quarto das ondas de calor registradas pode ser associado a empresas de energia e a outros grandes emissores de carbono. Eis um gráfico esclarecedor:

Para as empresas que estão no gráfico, isso pode ser uma má notícia: conseguir traçar uma onda de calor a uma empresa específica pode ajudar nos processos judiciais. Ou seja, tratem de aumentar as provisões

14 setembro 2025

Escravos no século XIX


Em agosto de 1833, os britânicos aprovaram uma legislação que aboliu a escravidão no Império Britânico, colocando mais de 800 mil africanos escravizados no caminho da liberdade. Para viabilizar isso, o governo britânico pagou uma soma enorme — £20 milhões, ou cerca de 5% do PIB da época — para compensar/subornar os proprietários de escravos a aceitarem o acordo. Em termos ajustados pela inflação, isso corresponde a cerca de £2,5 bilhões hoje (2025), mas, em proporção ao PIB, os britânicos gastaram o equivalente a cerca de $170 bilhões para libertar os escravizados — uma despesa muito elevada.

De fato, a despesa foi tão grande que o dinheiro foi tomado emprestado e os pagamentos finais dessa dívida só foram feitos em 2015. (...) Claro, em um mundo ideal, a compensação teria sido paga aos escravizados, não aos proprietários de escravos. Todo homem tem propriedade sobre a própria pessoa, e foram os escravizados que tiveram sua propriedade roubada. Em um mundo ideal, porém, a escravidão jamais teria acontecido. Assim, a questão enfrentada pelos abolicionistas britânicos não é o que acontece em um mundo ideal, mas como sair de onde estávamos para chegar a um mundo melhor. Compensar os proprietários de escravos foi a única forma prática e pacífica de alcançar um mundo melhor. 

O grande impacto ocorreu quando o Brasil, o maior mercado remanescente de trabalho escravizado (em meados do século XIX, quase 80% das viagens transatlânticas de escravos navegavam sob bandeiras brasileira ou portuguesa), promulgou sua lei contra o tráfico de escravos em 1850. A campanha britânica, porém, também influenciou o lado da demanda: a aprovação do Aberdeen Act, em 1845, permitiu à Royal Navy apreender navios negreiros brasileiros, o que pressionou o Brasil e ajudou a impulsionar a lei de 1850. (fonte: aqui)

No Brasil, o governo compensou os "proprietários" de escravos também como uma forma de obtenção de um apoio pacífico desse grupo.