31 março 2026
Fundação IFRS e doações brasileiras
Fundação IFRS: Salários em questão
A gestão de uma entidade sem fins lucrativos que dita as regras do capitalismo global exige um equilíbrio delicado entre austeridade e a necessidade de atrair talentos de primeira linha. Nas demonstrações financeiras de 2025, um ponto que merece ser considerado é o custo da cúpula diretiva em um momento de cortes operacionais.
Em 2025, a remuneração dos líderes da Fundação permaneceu em patamares elevados. O Chair do IASB (Andreas Barckow) e o Chair do ISSB (Emmanuel Faber) receberam, cada um, aproximadamente £610.500 anuais. Somando-se a eles os Vice-Chairs (cerca de £523.500 cada) e os membros dos Boards em tempo integral (£485.400), o gasto total com da direção atingiu £12,3 milhões. É bom lembrar que a receita foi de 51 milhões.
Para o mercado de executivos de alto padrão em Londres ou Nova York, esses valores podem parecer competitivos. Entretanto, para uma fundação que sobrevive de doações e que reduziu seu quadro de funcionários de 369 para 321 pessoas em um ano para transformar um déficit em superávit, esses salários representam uma parcela rígida e significativa dos custos totais de remuneração.
A escolha de sedes reflete diretamente na pressão salarial. Ao manter sua base principal em Londres, uma das cidades mais caras do mundo, a Fundação IFRS se obriga a pagar salários inflacionados pelo custo de vida local. O contraste com o seu equivalente americano, o FASB, é notável: sediado em Norwalk, Connecticut, o órgão dos EUA opera em uma cidade menor, com custos operacionais e de vida inferiores aos de um centro financeiro global.
Além do custo fixo em Londres, o ISSB trouxe uma nova complexidade financeira: o compromisso de manter escritórios em locais como Frankfurt, Montreal, Pequim e Tóquio. Embora essa presença global seja politicamente necessária, ela cria uma estrutura cara.
O relatório confirma que a Fundação pretende manter a disciplina de custos, e há discussões sobre a otimização do tamanho dos Boards para o futuro, visando maior agilidade. Contudo, enquanto a cúpula mantiver salários de padrão corporativo e uma estrutura geográfica tão ampla, o desafio será provar aos doadores que cada libra investida está indo para a produção técnica, e não apenas para sustentar uma máquina administrativa pesada.
Fundação IFRS: Fit mesmo?
A publicação das demonstrações financeiras de 2025 da Fundação IFRS traz, à primeira vista, números que inspiram confiança. O superávit de £1,5 milhão e a robusta posição de caixa de £43,6 milhões parece indicar uma instituição financeiramente saudável. Mais do que isso: o relatório foi produzido sob o pressuposto da continuidade operacional (going concern), endossado sem ressalvas pelo parecer dos auditores independentes. O tom da gestão é de otimismo, celebrando as conquistas.
Contudo, o otimismo de curto prazo não deve ocultar os desafios de médio e longo prazo. Recentemente, autoridades reguladoras nos EUA insinuaram que a questão financeira da Fundação — e especificamente do seu braço de sustentabilidade, o ISSB — exige atenção.
É preciso contextualizar aqui: o ISSB nasceu sob um modelo de seed funding (financiamento semente), garantido por doadores e jurisdições para os primeiros anos de operação. Esse financiamento está chegando ao fim. Embora o relatório destaque a conquista de novas promessas, sendo "prudente", como gosta de escrever a Fundação, podemos afirmar que isso não garante o futuro do projeto ISSB.
O ISSB precisa provar que pode ser sustentável quanto o IASB. Até agora, o conselho oriundo da COP entregou duas normas principais (IFRS S1 e S2). Embora o relatório aponte trabalhos em andamento, a produção normativa — que gera receita por meio de licenciamento de dados e publicações — ainda é tímida se comparada ao IASB.
A "vibe" da sustentabilidade, que impulsionou o mercado há poucos anos, enfrenta hoje resistência. Isso expõe uma vulnerabilidade que sempre esteve presente no orçamento da Fundação: a alta concentração de doadores. Enquanto a Europa continua sendo o aliado de peso, parceiros como China e Japão mantêm uma amizade cordial, porém cautelosa, e os EUA preservam uma distância respeitosa que impede uma adesão financeira em larga escala. Os outros países, como o Brasil, são, sem qualquer pudor, "caronas" do esforço realizado pela Fundação.
Há o problema da rigidez das despesas. Apesar dos cortes recentes que reduziram o quadro para 321 funcionários, a Fundação quase dobrou de tamanho nos últimos anos para acomodar a nova estrutura e em diferentes lugares. Grande parte dessas despesas é fixa, composta por salários de alto nível da cúpula e especialistas técnicos.
Sem um novo aliado de peso ou uma adesão global massiva que transforme o ISSB em uma máquina de receita recorrente, a Fundação IFRS terá que equilibrar uma estrutura de custos pesada com um financiamento que ainda depende da boa vontade de poucos. A continuidade imediata está garantida; a sustentabilidade do modelo, no entanto, permanece em questão.
Fundação IFRS e os números de 2025
A Fundação IFRS publicou hoje suas demonstrações financeiras referentes ao exercício de 2025, revelando um cenário de recuperação e ajustes estratégicos. Vamos para os números contábeis nessa postagem. O relatório anual, intitulado "Fit for the Future" (Preparada para o Futuro), mostra como a instituição lidou para tentar garantir a viabilidade de seus dois conselhos emissores de normas: o IASB e o ISSB.
O balanço apresenta que a Fundação registrou um superávit de £1,5 milhão, recuperando-se do déficit de £1,7 milhão do ano anterior. A receita total cresceu para £51,3 milhões, impulsionada por um aumento nas contribuições jurisdicionais e receitas de publicações.
Um dos pontos mais sólidos da Fundação é a posição de liquidez. A geração de caixa operacional foi positiva, permitindo que a Fundação encerrasse o ano com £43,6 milhões em caixa e equivalentes (versus £35,5 milhões do exercício anterior). Além disso, a estrutura de capital permanece conservadora, operando com recursos próprios.
O relatório traz um ponto interessante, ao contemplar números separados do Iasb e do Issb. O Iasb é o pilar de estabilidade, com receitas consolidadas provenientes de contribuições voluntárias de longo prazo e licenciamento de dados. O conselho de sustentabilidade ainda vive uma fase de transição, apesar de ter alguns números mais significativos que seu irmão mais velho.
30 março 2026
Contador de Epstein não viu nada de impróprio
O depoimento de Richard Kahn, antigo contabilista e gestor de confiança de Jeffrey Epstein, revela a complexa estrutura financeira que sustentava as atividades do falecido financista. Kahn, que atuou como co-executor do espólio, afirmou em tribunal nunca ter presenciado qualquer atividade imprópria ou ilegal durante os anos em que geriu as contas e as empresas de Epstein.
É bom lembrar que o criminoso Epstein deixou, no seu testamento, parte do dinheiro para Kahn.
IFRS 16, IA e Iasb
Eis o texto do excelente Iasplus
Este relato detalha uma iniciativa pioneira do IASB (International Accounting Standards Board): o uso de Inteligência Artificial (IA) para analisar as práticas de divulgação contábil de 753 empresas sobre arrendamentos (IFRS 16) em 2024.
O resumo destaca os seguintes pontos:
Metodologia e Abordagem
A equipe técnica treinou a IA para examinar as demonstrações financeiras consolidadas, incluindo a tradução automática para o inglês de relatórios publicados em outros idiomas. O objetivo foi medir a prevalência de certas informações e avaliar a qualidade das divulgações dos arrendatários.
Design e Validação
Houve uma fase piloto com 50 entidades para refinar os prompts (comandos). A equipe realizou verificação manual de uma amostra dos resultados e exigiu que a IA fornecesse referências diretas (excertos e números de páginas) para garantir a rastreabilidade dos dados.
Limitações Identificadas
O IASB foi transparente sobre os desafios da ferramenta:
Formatação e Terminologia: A IA é sensível a variações de estilo e termos sinônimos, o que pode gerar falsos negativos ou positivos.
Confiabilidade: Perguntas "fechadas" (Sim/Não) mostraram-se muito mais eficazes do que análises abertas.
Margem de Erro: Devido ao volume de dados, não foi possível validar 100% das respostas, portanto os resultados são indicativos, não determinativos.
Conclusão
Apesar das limitações, a IA permitiu processar uma quantidade massiva de dados em tempo recorde, fornecendo insights valiosos que seriam inviáveis através de uma revisão puramente humana.
Parabéns pela divulgação do método. Nem sempre uma organização possui uma evidência clara que está usando a IA para fazer o trabalho mais eficiente. Mas creio que no relatório divulgado poderia ter um link para os arquivos com os resultados. O público externo poderia verificar cada caso e ajudar na qualidade do trabalho.
Novas minutas GRI
A Global Reporting Initiative (GRI) publicou minutas de exposição (exposure drafts - EDs) para as normas GRI com o objetivo de fortalecer o relato e a gestão da poluição. As EDs estão abertas para comentários até 8 de junho de 2026.
As seguintes minutas de exposição foram publicadas:
ED Poluição do Ar: Nesta minuta, a GRI propõe uma nova norma sobre poluição do ar que, em comparação com as normas existentes, inclui requisitos de divulgação mais amplos e profundos sobre:
A gestão dos impactos da poluição do ar;
Metas de redução de emissões de poluentes atmosféricos e o progresso em direção a essas metas;
A extensão das emissões de poluentes atmosféricos; e
Incidentes relacionados a emissões de poluentes atmosféricos.
ED Poluição do Solo: Nesta minuta, a GRI propõe uma nova norma sobre poluição do solo que inclui divulgações sobre a gestão dos impactos da poluição do solo, a extensão dos poluentes liberados no solo e incidentes relacionados à poluição do solo.
ED Incidentes Críticos: Nesta minuta, a GRI propõe uma nova norma sobre incidentes críticos que, em comparação com as normas atuais, amplia o escopo de "vazamentos significativos" para todos os incidentes críticos e traz novas divulgações sobre:
Informações sobre prevenção, preparação e resposta a incidentes críticos, bem como os planos estabelecidos;
Incidentes críticos registrados; e
O tipo e a quantidade de vazamentos, incluindo o material derramado.
Para aqueles que acham que sustentabilidade começar e termina no ISSB. Fonte: Iasplus



