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30 janeiro 2023

Lições do ex-executivo das Americanas.

Quando surgiram as primeiras notícias dos problemas da Americanas existia uma grande estranheza no mercado. Nos últimos dias este blog dedicou pouco tempo em comentar o assunto. Mas em uma postagem escrevemos o seguinte:

Sérgio Rial (e Andre Covre) – este talvez seja o personagem mais interessante do enredo. Vindo do Santander, onde comandou a importante instituição financeira durante anos, Rial foi contratado para  melhorar a empresa. Por sua rede de contatos e ter origem bancária, é possível que Rial já conhecesse o problema da empresa, antes de 2023. Em alguns textos, Rial aparece como alguém que “descobriu” as inconsistências com alguns dias no cargo. Mas eu desconfio seriamente se realmente foi uma descoberta ou se Rial talvez só tenha percebido a dimensão do problema quando assumiu o cargo. Durante a conferência, na qual a notícia chegou ao público, Rial usou a terminologia “inconsistência”, mas comentou que era “não material”. Mas um valor de R$20 bilhões de inconsistência, mesmo em uma empresa do porte das Americanas, é certamente material. 

O primeiro parágrafo é realmente uma especulação sobre o comportamento do executivo. É interessante lembrar que a empresa já teve, há dez anos, uma solicitação de falência. E que anos antes, um fornecedor entrou na justiça contra a empresa por uma dívida de 300 reais. Este é o histórico da empresa. 

Um texto da Exame mostra o lado de Rial. Eis alguns trechos:

A saída, segundo ele, veio do entendimento da necessidade de abrir espaço para que a empresa pudesse se reestruturar de um ponto de partida que fosse diferente. "É preciso saber o momento de se posicionar dentro de um novo contexto que se apresenta. Foi o que fiz, sem me descomprometer em ajudar no que estivesse ao meu alcance."

A descoberta dos problemas no balanço, feita após entrevistas com executivos remanescente, mudou, no entanto, as perspectivas. "Nessas conversas, informações e dúvidas foram compartilhadas e com o natural aprofundamento para entendê-las e dar-lhes direcionamentos conjuntamente com o novo CFO, Andre Covre, chegamos ao quadro do fato relevante com transparência e fidedignidade! Quaisquer especulações ou teorias distintas disso são leviandades. Eu jamais transigiria com a minha biografia."

Bom, aqui Rial indica que descobriu o tamanho do problema após assumir o cargo. E que qualquer versão diferente seria especulação ou leviandades. Bom, acho que a análise que fizemos enquadra-se parcialmente neste ponto. Mas se ele descobriu o tamanho do problema, qual o sentido de usar o termo "não material"? 


E aí temos uma continuação do texto que escrevemos:

Após o anúncio, Rial deixou a empresa e foi trabalhar na 3G. Isto é muito estranho para quem está olhando o que ocorreu nos últimos dias. Afinal, a 3G é a principal acionista da empresa e Rial foi o “responsável” por uma grande perda. 

Agora parece existir uma queda de braço entre a 3G e os bancos, de onde Rial é proveniente. Veja então a continuação do texto da Exame:

A conclusão do diagnóstico inicial levou à necessidade correção de rota, observa. Segundo Rial, o cenário desenhado e a mudança de caminho contaram com "apoio incondicional" do Conselho de Administração da companhia e dos acionistas de referência, os sócios da 3G: Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles. "Aqui, minha segunda reflexão: ser líder não é ser corajoso, mas ser responsável e ético; não é ser herói ou heroína, mas ter a resiliência para defender a verdade e fazer o que é certo", escreve Rial.

17 janeiro 2023

Americanas: contabilidade criativa



Trechos de reportagem publicada hoje no Valor, sobre a contabilidade das Americanas:

Mas o que chamou a atenção dos especialistas foi como o balanço da Americanas “escondeu” os R$ 20 bilhões, já que as dívidas bancárias, assim como os juros da transação, foram pagas às instituições financeiras. “Para mim, a principal fraude é em como eles arrumaram um jeito de pagar os juros e justificar uma saída de caixa, sem dizer que eram juros e sem que isso impactasse os resultados”, afirma André Pimentel, que atuou na reestruturação das Americanas nos anos 1990 e que hoje é sócio da consultoria Performa Partners, que tem vários clientes do setor de varejo na lista de clientes. do setor de varejo na lista de clientes.
[...]

E as hipóteses começam a surgir. A mais provável, na visão de Pimentel, é de que os próprios fornecedores arcaram com os juros que foram pagos. “A Americanas sempre foi agressiva com os fornecedores”, disse. Segundo ele, a varejista cobra de seus fornecedores uma série de taxas, como custos com logística e marketing, por exemplo, itens que diminuem o valor a receber. O custo com os juros poderia estar embutido em uma dessas cobranças, diz o especialista.




16 janeiro 2023

Americanas: a resposta está na governança?

Em uma entrevista para o Valor, Luciana Dias, ex-diretora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), afirma que até o momento não é possível apontar culpados em relação às inconsistências da Americanas, pois não se sabe é um problema de política contábil ou de controles. Ela também argumenta que é difícil falar sobre uma regulação mais rígida para impedir problemas assim, já que o Brasil está 100% adequado às normas do IFRS. A questão se volta, então, para aspectos de governança.

“Há questões de governança que não são necessariamente fraudes. Não ter controles específicos, não ter discussões nas notas explicativas é bastante intrigante do ponto de vista de governança. O fato relevante não menciona quando surgiu a desconfiança do problema, quem está solucionando. Mesmo que não tenha fraude, pode haver problemas de governança relacionados à falta de controles. É possível ter um problema de governança que não é desonestidade.”

Em uma publicação no LinkedIn, Andre Burger ressalta que a Americanas supostamente apresentava uma boa governança, com um Conselho de Administração atuante, Conselho Fiscal, Comitê de Auditoria, Código de Conduta, dentre outros, que não captaram a situação problemática das tais inconsistências contábeis.


Ainda segundo Dias, as normas contábeis dão espaço para que a entidade faça julgamentos, estabeleça políticas e explique as opções feitas nas demonstrações contábeis. As empresas com boa governança “levantam as questões mais relevantes para aquele assunto e discutem nas instâncias de governança adequadas. Isso precisa ser documentado para que as informações não se percam, e devem ser estabelecidos controles para que essas políticas sejam adequadamente implementadas.” Dias acrescenta que a resposta está neste caminho e que, no momento, é necessário descobrir onde houve falha na cadeia de governança da Americanas.

Rir é o melhor remédio

 


15 janeiro 2023

Americanas

Domingo, 15 de janeiro. O grande fato da semana na área contábil brasileira, talvez o grande fato no ano, é a questão da empresa Americanas. Após minhas diversas leituras sobre o assunto, decido fazer esta postagem tratando dos principais atores do caso. 

Recapitulando, logo após assumir o cargo de principal executivo da empresa de varejo Americanas, Sérgio Rial, em conjunto com o executivo de finanças da empresa, Andre Covre, disse que a empresa estava com algumas “inconsistências contábeis”, no valor estimado de 20 bilhões de reais. A notícia pegou muitos de surpresa e, logo após o comunicado, Rial e Covre deixaram a empresa. Este seria um breve resumo da situação. Vamos olhar agora os principais personagens da história.

Sérgio Rial (e Andre Covre) – este talvez seja o personagem mais interessante do enredo. Vindo do Santander, onde comandou a importante instituição financeira durante anos, Rial foi contratado para  melhorar a empresa. Por sua rede de contatos e ter origem bancária, é possível que Rial já conhecesse o problema da empresa, antes de 2023. Em alguns textos, Rial aparece como alguém que “descobriu” as inconsistências com alguns dias no cargo. Mas eu desconfio seriamente se realmente foi uma descoberta ou se Rial talvez só tenha percebido a dimensão do problema quando assumiu o cargo. Durante a conferência, na qual a notícia chegou ao público, Rial usou a terminologia “inconsistência”, mas comentou que era “não material”. Mas um valor de R$20 bilhões de inconsistência, mesmo em uma empresa do porte das Americanas, é certamente material. 

Após o anúncio, Rial deixou a empresa e foi trabalhar na 3G. Isto é muito estranho para quem está olhando o que ocorreu nos últimos dias. Afinal, a 3G é a principal acionista da empresa e Rial foi o “responsável” por uma grande perda. 

3G – A 3G Capital possui participações na Inbev e também na Kraft, que fez uma despesa com goodwill, em razão do teste de impairment, no valor de 15 bilhões de dólares, que resultou em uma investigação da SEC e multa do regulador. Há alguns meses a 3G, grande controladora das Americanas, fez uma mudança societária, na qual sua participação foi reduzida. Logo após o anúncio sobre as "inconsistências", a 3G divulgou um reforço de capital, que irá elevar sua participação acionária. Se a 3G perdeu com a queda das ações, o reforço de capital pode ser feito em um momento propício. Mas, novamente: qual a razão de contratar Rial para a 3G? 

Governança Corporativa da empresa – Rial assumiu o posto no lugar de Miguel Gutierrez, que foi funcionário da empresa, e seu principal executivo, durante anos. A cultura da empresa era caracterizada por uma boa remuneração para seus principais funcionários em renda variável, especialmente ações da própria entidade. Uma característica de gestão da 3G é observar o comportamento dos seus funcionários através de metas e uma forte pressão para atingir os objetivos determinados. Isto cria um ambiente propício para um esforço enorme da gestão, mas também induz a todo tipo de manipulação. Se existia inconsistência contábil, onde estava o Conselho Fiscal da empresa ou os gestores anteriores? Certamente o problema começou bem antes de 2022 e cabe investigar de que forma a cultura organizacional da empresa teve seu papel de destaque. 

Reguladores – Logo após as primeiras notícias, a Comissão de Valores Mobiliários e o Conselho Federal de Contabilidade vieram a público para responder ao assunto. A CVM já instalou processos e esperamos que isto resulte em punição, inclusive pecuniária. O CFC, sempre avesso à polêmica, saiu com um comunicado usando o termo “inconsistência”, indicando que comprou o enredo da empresa. Mas não sabemos se haverá um processo instaurado. Esperamos que o CFC não seja omisso. 


Auditor – Deixe este para o final, pois a atuação da PwC tem sido criticada de várias formas. A empresa, até esta data, não tem nenhum comunicado sobre o assunto na sua página oficial, o que é uma frustração. Logo após o anúncio, algumas pessoas fizeram um prognóstico apressado sobre a sobrevivência da empresa. O caso não irá ameaçar esta Big Four. Afinal, a PwC auditava a Petrobras e todos sabemos como aquilo deveria ser o fim do poço para uma empresa auditoria e nada ocorreu. Talvez pague um pequena multa, em relação ao seu faturamento, para o regulador e tenha seus auditores suspensos da função. Mas algo mais? Não creio. Neste momento, seria importante discutir o modelo de auditoria que adotamos no mundo capitalista. Mas isto não irá ocorrer, sendo realista. 

11 janeiro 2023

Inconsistências de 20 bilhões nas Americanas

Americanas: Presidente encontra ‘inconsistências’ de R$ 20 bi nas contas da empresa e renuncia

Por Elisa Calmon e Talita Nascimento - 11/01/2023 | 19h38

Atualização: 11/01/2023 | 20h08

Conselho de administração cria comitê independente para apurar o caso; presidente Sérgio Rial ficou cerca de dez dias no cargo, mas continuará como assessor para apoiar companhia

A Americanas informou nesta quarta-feira, 11, que o seu presidente, Sérgio Rial, e o diretor de relações com investidores, André Covre, decidiram deixar os cargos. A decisão ocorre após a empresa detectar inconsistências em lançamentos contábeis estimadas em R$ 20 bilhões. Os executivos tomaram posse há cerca de dez dias.

A companhia informou que as inconsistências foram detectadas em dados contábeis de anos anteriores, incluindo o de 2022. A área contábil identificou a existência de operações de financiamento de compras de cerca de R$ 20 bilhões. Porém, os valores não constam nas demonstrações financeiras dos fornecedores na data de 30 de setembro do ano passado.

“Neste momento, não é possível determinar todos os impactos de tais inconsistências na demonstração de resultado e no balanço patrimonial da companhia”, diz a empresa, em comunicado.

A cifra de R$ 20 bilhões e a nota da companhia dão a entender que as chamadas inconsistências foram levadas por anos. A companhia foi controlada pelo 3G Capital (do trio Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles) até 2021, quando o grupo decidiu diminuir sua participação em um rearranjo societário que visava simplificar o nó acionário da companhia. A decisão penalizou os papéis da Americanas.

Com menor influência do trio de investidores, a empresa anunciou em agosto do ano passado que Rial assumiria a companhia no primeiro dia de 2023, como sucessor de Miguel Gutierrez. O anúncio foi visto pelo mercado como inesperado, já que Rial era presidente do conselho de administração da Vibra e não tinha experiência no ramo de varejo. Ele também presidiu o Santander Brasil de 2016 a 2021.

A ação da Americanas vinha em um ritmo de alta nas últimas semanas, com uma valorização de 43,37% no último mês e de 24,35% apenas em 2023.Ameri


Investigação

O conselho de administração decidiu criar um comitê independente para apurar as circunstâncias que ocasionaram as inconsistências. “Os acionistas de referência da Americanas, presentes no quadro acionário há mais de 40 anos, informaram ao Conselho de Administração que pretendem continuar suportando a companhia, tendo o sr. Sérgio Rial como seu assessor nesse processo, prestando apoio na condução dos trabalhos”, diz ainda o documento.

O conselho de administração nomeou interinamente João Guerra para diretor-presidente e diretor de relações com investidores. O executivo atua nas áreas de tecnologia e recursos humanos da Americanas e não tem envolvimento anterior na gestão contábil ou financeira.

Fonte: aqui. Dica Vladimir Almeida. Foto: Roberto Ushisima