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01 setembro 2025

Frustração com a seção de métodos dos artigos científicos


Lendo Gelman sobre os problemas da seção de Métodos em artigos científicos. Ele apontam algumas razões:

  1. Os estudantes estão acostumados a ler livros-texto e outros materiais escritos em termos gerais. É natural que imitem esse estilo quando começam a escrever para publicação.
  2. O objetivo final da escrita científica é ampliar o entendimento coletivo, mas o objetivo imediato é a aceitação (pelos editores da revista, pela banca da tese, pelo chefe ou por quem decide se o relatório avança). E, por várias razões, não parece que essa aceitação exija — ou sequer seja facilitada por — uma descrição completa e clara do que realmente foi feito.
  3. Muitas vezes os resultados empíricos não estão à altura da narrativa que se deseja contar. Uma forma de fechar essa lacuna é mentir sobre o que foi feito ou fazer afirmações sem boas evidências. Outra é caracterizar o estudo de modo tão vago que seus resultados não possam ser claramente interpretados. Acho que isso pode ocorrer sem que os autores percebam, como naquele artigo que afirmava que os participantes “mantiveram a mesma dieta e nível de atividade física”, mesmo quando os dados autorrelatados mostravam um grande aumento na percepção de exercícios. 

Acrescento outra coisa: falhamos em ensinar como escrever esta parte. Damos ênfase a classificação da pesquisa - qual o sentido?, a indicar a base de dados - sem detalhar as escolhas que fizemos, entre outras razões. Há bons manuais de métodos, mas talvez nossa escolha não seja a mais adequada. 

Imagem aqui 

Atendimento remoto e qualidade do serviço


Será que a prestação de serviço por telefone é pior que a prestação de serviço presencial? Um estudo na área de medicina mostra que não; na verdade, é melhor.  

O resumo: 

 O uso da telemedicina tem aumentado. Embora a telemedicina tenha ampliado o acesso aos cuidados de saúde, pouco se sabe sobre como o meio altera a tomada de decisão médica dos profissionais. Para avaliar como a telemedicina difere do atendimento presencial, comparamos a qualidade e o custo de consultas presenciais em clínicas e de consultas virtuais por telefone para condições comuns em Ruanda. Para controlar a seleção de pacientes, conduzimos um estudo de auditoria com 2.532 visitas de pacientes padronizados, em que indivíduos representando pacientes reais apresentaram casos padronizados de malária e infecção respiratória superior (IRS). Constatamos que a qualidade do atendimento virtual é superior à do presencial para IRS e igualmente boa para malária. Profissionais de telemedicina também fizeram mais perguntas sobre sintomas e histórico médico e prescreveram mais medicamentos opcionais para manejo dos sintomas do que os profissionais presenciais. Além disso, verificamos que a telemedicina é mais eficiente: consultas virtuais foram mais rápidas, tiveram menor tempo de espera, resultaram em menos medicamentos e exames desnecessários e custaram menos para os pacientes. Controlando um conjunto abrangente de características dos profissionais, mostramos que a seleção dos provedores não parece explicar os resultados. Em vez disso, a melhor comunicação entre profissional e paciente por telefone surge como mecanismo-chave. Os profissionais relatam ser mais fácil tratar, obter informações e se relacionar com pacientes por telefone. Também relatam sentir menos pressão social durante as consultas telefônicas. Em consonância com evidências de pesquisas, constatamos que os profissionais prescrevem antibióticos desnecessários quando solicitados por pacientes presencialmente, mas não por telefone.

É interessante que o estudo foi feito em um país subdesenvolvido, com prestação de serviço para pessoas em situação de fragilidade. E tudo leva a crer que há um grande ganho para sociedade como um todo: melhor qualidade do serviço, menor receita desnecessária, etc.  

Será também válido para serviço de um profissional como o contador? 

Bolsa e Guerra


Empresas envolvidas em guerra e acusações de genocídio seriam punidas pelo mercado? A lógica parece indicar que sim. Mas eis o trecho final de um texto onde isto não ocorre:

Desde outubro de 2023, a rentabilidade de investir em empresas israelenses tem sido muito superior à de investir em outras regiões geográficas, duplicando ou quase triplicando o retorno de outros índices de ações. Entre outubro de 2023 e agosto de 2025, o TA35 se revalorizou em média 31% ao ano, um crescimento muito maior do que o dos índices dos Estados Unidos (18%), Europa (16%), Japão (18%) ou Reino Unido (12%).

Nesse sentido, a evolução do índice Tel Aviv 35 foi marcada por dois pontos de inflexão. Embora nos primeiros dias após o atentado de 7 de outubro de 2023 a bolsa israelense tenha apresentado retornos negativos, essa tendência rapidamente mudou no fim de outubro, após o início da invasão em larga escala de Gaza pelo exército israelense. O segundo ponto de inflexão, que acelerou o crescimento do índice, ocorreu no último trimestre de 2024. Durante esse ano ficou evidente que Israel dominava o conflito na região. Naquele verão, Israel havia matado os líderes do Hamas — Mohammed Deif, em 13 de julho, e Ismail Haniyeh, em 31 de julho —, assim como o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, em 28 de setembro. Nos dias 17 e 18 de setembro, dezenas de busca-pessoas e rádios walkie-talkie explodiram, matando supostos militantes palestinos. Além disso, os ataques do Irã a Israel nessas datas, com mísseis balísticos, foram repelidos sem causar danos significativos. Para alguns analistas, essas ações representaram uma virada geopolítica na região, indicando que Israel voltava a dominar sua segurança e restaurando a confiança dos investidores no país.
 

31 agosto 2025

Má conduta científica


Um artigo da Enago aponta os 10 tipos mais comuns de má conduta científica: 

  1. Desvio de ideias (Misappropriation of Ideas) – apropriar-se indevidamente de conceitos ou planos não divulgados, sem dar crédito.

  2. Plágio – uso de palavras, resultados ou métodos de outrem sem citação apropriada.

  3. Autoplágio (Self‑plagiarism) – republicação de conteúdo próprio sem a devida referência à fonte original.

  4. Impropriedade na autoria (Impropriety of Authorship) – atribuir autoria a quem não contribuiu substantivamente, ou omitir colaboradores relevantes.

  5. Não conformidade com normas regulamentares (Failure to Comply with Regulatory Requirements) – desconsiderar exigências legais ou de ética.

  6. Fabricação de dados (Fabrication) – inventar resultados ou dados inexistentes.

  7. Falsificação de dados (Falsification) – manipular ou omitir dados de forma a distorcer resultados.

  8. Falha em apoiar pesquisas de validação (Failure to Support Validating Research) – negar acesso ou não contribuir para a replicação oficial.

  9. Resistência a tentativas de validação (Failure to Respond to Unsuccessful Validation Attempts) – ignorar críticas ou falhas encontradas por terceiros.

  10. Comportamento inadequado diante de suspeita de má conduta (Inappropriate Behavior in Connection to Suspected Misconduct) – encobrir, retaliar ou desviar-se dos procedimentos diante de indícios de má conduta.

Educação sem internet

O que seria da educação atual sem a internet? Uma possível resposta está no experimento natural de Green Bank

De muitas maneiras, Green Bank foi um experimento não intencional em pedagogia. Enquanto o restante do país se apressava em levar tecnologia para as salas de aula, Green Bank permaneceu preso em 1999. Sem Wi-Fi, os 200 alunos da escola não podiam usar Chromebooks ou livros digitais, nem realizar pesquisas online. Os professores não conseguiam acessar programas de educação individualizada ou utilizar o Google Docs para reuniões de equipe. Até tarefas rotineiras, como as provas padronizadas exigidas pelo estado, tornaram-se desafiadoras, com os alunos revezando-se em um pequeno laboratório de informática cabeado para fazer os exames.

“A capacidade de individualizar o aprendizado com um iPad ou laptop — isso é basicamente impossível”, disse a professora Darla Huddle, que já lecionou na Pensilvânia. A escola utiliza o currículo Eureka Math, que também possui uma ampla plataforma digital com vídeos interativos e instrução personalizada, mas esses recursos adicionais não estão disponíveis nas salas de Green Bank.

“Sem o componente online do nosso currículo funcionando plenamente, isso prejudica bastante a nossa instrução”, afirmou a professora Sarah Brown, que já trabalhou em escolas na Carolina do Norte. “Parece muito antiquado porque a tecnologia que usamos está muito ultrapassada.”

Ao longo dos anos, surgiram propostas para que a escola tivesse Wi-Fi sem interferir no observatório. Uma ideia era instalar LiFi, que emite Wi-Fi de curto alcance por meio de lâmpadas, mas a tecnologia era instável e cara. Outra proposta era erguer um enorme monte de terra atrás da escola para impedir que o sinal se propagasse até os telescópios, mas isso destruiria os campos de futebol.

Enquanto essas discussões se arrastavam, os alunos ficaram ainda mais atrasados em matemática e leitura, com Green Bank registrando consistentemente as menores notas da região. “Nossas crianças não são diferentes das demais do condado”, disse a diretora Melissa Jordan. “A única diferença, na minha opinião, é a falta de acesso a tecnologias envolventes.”


 

Contextualizando, é uma pequena comunidade onde fica um famoso observatório com um radiotelescópio (foto). Em razão dos equipamentos, a área tem restrição ao uso de eletrônicos, que podem interferir nas observações astronômicas. 

Rir é o melhor remédio

A Ilha Volvo (Volvo Island) está localizada perto da fronteira do Canadá. Veja a localização pelo Google Maps:

A curiosidade é que a "ilha" não tem habitante e somente um automóvel, um Volvo:


 

Regulação, divulgação e clima

Reguladores em todo o mundo passaram a exigir que empresas de investimento forneçam informações sobre aplicações em combustíveis fósseis a partes interessadas externas. Neste artigo, examinamos se tais divulgações impactam os portfólios de investimento e/ou as políticas de investimento das empresas que as realizam. Utilizando como base um mandato de divulgação da Califórnia de 2016, que exigia que algumas seguradoras norte-americanas revelassem seus investimentos em combustíveis fósseis em um site público, constatamos que as seguradoras que divulgaram reduziram esses investimentos em aproximadamente 20% em relação às que não divulgaram. Apesar desse resultado médio, observamos variações significativas nas mudanças dos portfólios de investimento. Identificamos que seguradoras pressionadas por partes interessadas externas, incluindo acionistas públicos e ativistas ambientais, têm maior probabilidade de se desfazer dos ativos. Em contraste, o fortalecimento do poder regulatório californiano não se mostrou relacionado ao desinvestimento. Mesmo após a reversão do mandato de divulgação, verificamos que as seguradoras que divulgaram não retornaram às suas posições anteriores em combustíveis fósseis, sugerindo que o impacto gerou uma mudança de comportamento de investimento de longo prazo.

Isto é muito interessante, pois mostra que forçar a divulgação tem impacto sobre a ação das empresas. É lógico que a amostra está restrita à Califórnia, mas é um estado rico, que dita tendências. 

O artigo é do Journal of  Accounting and Economics