Translate

25 agosto 2025

Salários altos no setor público desperdiça talentos e reduz produtividade (incluindo no Brasil)


A remuneração para cargos públicos é mais alta em relação ao PIB per capita quanto mais pobre é o país. Em outras palavras, os funcionários públicos são mais bem pagos em países pobres. A compensação excessiva no setor público em países de baixa e média renda distorce os mercados de trabalho em duas dimensões: filas (busca de renda para conquistar os cargos) e má alocação (talentos e impostos desviados do setor privado).

Em meus dois textos Massive Rent-Seeking in India’s Government Job Examination System e The Tragedy of India’s Government-Job Prep Towns, chamei atenção para a primeira dimensão, as perdas de busca de renda decorrentes das filas. Os jovens mais educados da Índia — justamente aqueles de que o país mais precisa na força de trabalho — muitas vezes dedicam anos de suas vidas decorando conteúdo para concursos públicos em vez de trabalharem produtivamente. Esses exames não cultivam habilidades práticas e cidades inteiras se especializaram na preparação para provas. Argumentei, usando um cálculo aproximado, que apenas as perdas decorrentes da busca de renda poderiam facilmente chegar a algo em torno de 1,4% do PIB ao ano. Mais tragicamente, um grande número de jovens educados acaba inevitavelmente desiludido. Por fim, como os salários são tão altos, o Estado não consegue ampliar o quadro de pessoal; a Índia possui todas as leis de um país rico, mas com cerca de um quinto dos servidores públicos per capita.

Dois artigos macroeconômicos quantificam a outra dimensão da perda: quem acaba em qual setor.

Em The unintended consequences of meritocratic government hiring, Geromichalos e Kospentaris (GK) analisam as consequências dos salários excessivamente altos no setor público da Grécia. Já em (MIS)Allocation Effects of an Overpaid Public Sector, Cavalcanti e Santos estudam o caso do Brasil.

Ambos os trabalhos modelam a alocação de trabalho entre os setores público e privado e destacam o custo de atrair trabalhadores de alta produtividade para os cargos governamentais.

GK resumem seus resultados para a Grécia:

Em muitos países, os funcionários públicos desfrutam de considerável estabilidade no emprego e esquemas de remuneração generosos; como resultado, muitos trabalhadores talentosos optam por atuar no setor público, privando o setor privado de empregados potencialmente produtivos. Isso, por sua vez, reduz os incentivos das empresas para criar empregos, aumenta o desemprego e reduz o PIB… [Ao calibrar o modelo para a Grécia], constatamos que uma queda de 10% nos salários do setor público resulta em um aumento de 3,8% na produtividade do setor privado, uma queda de 7,3% no desemprego e um aumento de 1,3% no PIB.

CS relatam distorções semelhantes no Brasil:

Nossos exercícios contrafactuais demonstram que o prêmio salarial público-privado pode gerar efeitos importantes de alocação e perdas significativas de produtividade. Por exemplo, uma reforma que reduzisse o prêmio salarial público-privado de seu valor de referência de 19% para 15% e que alinharia a aposentadoria dos trabalhadores do setor público à vigente no setor privado poderia aumentar a produção agregada em 11,2% no longo prazo, sem qualquer redução na oferta de infraestrutura pública.

 

Curiosamente, no modelo de GK não há desperdício com busca de renda (rent-seeking), pois assume-se que os trabalhadores conseguem prever perfeitamente os resultados dos exames e se direcionam diretamente para o setor privado ou público. No meu modelo para a Índia, em contraste, o desperdício surge justamente dos anos de preparação infrutífera para os concursos. GK também concluem que reduzir o número de cargos públicos pode aumentar a eficiência, enquanto minha visão é que, na Índia, os altos salários tornam paradoxalmente o setor público pequeno demais (limitando, em certa medida, a má alocação). CS também se concentram na questão da alocação mas, ao contrário de GK, estimam que as perdas com rent-seeking são enormes — cerca de três vezes a minha estimativa conservadora:

O custo agregado das candidaturas a cargos públicos, que denominamos custo de rent-seeking, é elevado na economia de referência… aproximadamente 3,61% do produto.

Em Índia, Grécia e Brasil, a narrativa converge: pagar em excesso os funcionários públicos distorce a educação, a busca por empregos e a dinâmica das empresas. O desperdício se manifesta em esforços socialmente improdutivos voltados a ingressar na elite do funcionalismo, enquanto o setor privado é privado de talentos de ponta, tornando-se menos produtivo e crescendo mais lentamente. Em suma, rent-seeking e má alocação, decorrentes de uma remuneração governamental excessivamente generosa, geram grandes perdas macroeconômicas. Como a compensação relativa tende a ser maior quanto mais pobre é a economia, salários elevados no setor público podem se tornar uma armadilha de desenvolvimento.

Fonte:  India, Greece, Brazil: How High Government Pay Wastes Talent and Drains Productivity - Alex Tabarrok 

Imagem: Marajá 

Mensuração dos custos climáticos torna-se mais sofisticada

Na medida em que a sociedade se interessa pelo impacto ambiental das mudanças recentes na Terra, novas tecnologias estão sendo desenvolvidas para estimar os custos climáticos. O LiDAR é uma dessas tecnologias.

Basicamente, a tecnologia — cuja sigla vem de Light Detection and Ranging — mapeia o solo com laser de alta resolução, por meio de drones e aeronaves, comparando imagens antes e depois dos eventos para identificar mudanças, mesmo que sutis, na superfície. Assim, os danos são quantificados mais rapidamente e com maior precisão do que pelas imagens de satélite.

No caso de Los Angeles, em janeiro de 2025, a tecnologia estimou a destruição de 16 mil estruturas, com perdas calculadas em 60 bilhões de dólares.

(Parabéns para o blogueiro, que não fez nenhum trocadilho do Lidar) 

Executiva mulher dura menos no cargo

Do Estado de S Paulo


(...) a pesquisa “Índice Global de Rotatividade de CEOs”, mapeamento global da consultoria especializada em lideranças Russell Reynolds com profissionais de 25 países, incluindo o Brasil. As informações do estudo, lançadas em julho, retratam a observação e a avaliação de 1.142 transições de gestores e gestoras de empresas de capital aberto nos últimos sete anos.

Segundo os dados mais recentes, no primeiro semestre de 2025, as mulheres representaram somente 9% das nomeações para CEO e contabilizaram apenas 11% entre os presidentes nomeados em todo o ano de 2024.

Os homens, uma vez nomeados, costumam permanecer na presidência por aproximadamente oito anos, enquanto as executivas permanecem por cerca de cinco anos, conforme a média observada desde 2018.

O resultado ocorre tanto quando a empresa vai bem, ou quando vai mal. Enquanto a demissão corresponde a 24% da saída dos homens, o percentual é de 32% nas mulheres.  

Eis a fonte: Ferreira, Shagaly. Gestão de mulher como CEO de empresa dura  anos a menos, 21 de agosto de 2025. Imagem aqui

Rir é o melhor remédio

Fonte: aqui
 

24 agosto 2025

História da contabilidade: balanço da Estrada de Ferro D. Pedro II

 Se um balanço de um banco parece tímido para os dias de hoje, o mesmo não se pode dizer do balanço da Estada de Ferro D. Pedro. Estamos no ano de 1860, logo no início do ano, dia 14 de Janeiro, quando é publicado no Correio Mercantil mais de uma página do relatório da empresa. Um print das duas páginas, para se ter uma noção da quantidade de informações, boa parte um descritivo das atividades:

Eu deixei marcado o trecho onde se encontra a informação do relatório do segundo semestre de 1859. Isto quinze dias depois de encerrado o semestre. Das sete colunas da primeira página, quase quatro são informações da empresa. Agora a página seguinte:

Aqui já aparece informações em quadros. Há dados físicos - carga transportada, por exemplo, e financeiros. O mais importante é a relação receita e despesa:

A apresentação é mensal e por tipo de receita e tipo de despesa. 
 

História da contabilidade: balanço do Banco do Brasil

 Eis que no dia 8 de janeiro de 1860, no Correio Mercantil, encontro publicado o balanço do Banco do Brasil:

Algumas observações: 

1. O balanço é de "dezembro de 1859". Ou seja, foi publicado oito dias depois da data de fechamento. Aqui tem um erro teórico, pois deve ser o balanço de 31 de dezembro de 1859 e não dezembro.

2. No ativo, há o caixa das filiais de São Paulo e Ouro Preto

3. Além do caixa, tem-se as barras de ouro

4. Era uma instituição bem capitalizada, com um capital que correspondia a quase 45% do ativo. 

 

História da contabilidade: Profissional não especializado

A ideia de que um profissional qualquer deve ser especializado em algo parece normal nos dias de hoje. Um contador faz a contabilidade, mas provavelmente conhece muito mais uma subarea, como auditoria ou tributos.

No passado, um trabalhador fazia de tudo um pouco. E a ausência da especialização abria mais possibilidades. Eis um anúncio que achei no Correio Mercantil de 8 de janeiro de 1860:

Cuida da saúde, inclusive homeopatia, pode gerir uma fazenda, fazer escrituração e outras coisas mais.