27 agosto 2025
Banalidade de um documento incriminador
A notícia da semana passada, mas o assunto é interessante:
O Estadão (via Agência Estado) revela que uma carta manuscrita, apreendida na casa do auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto durante a Operação Ícaro, passou a ser tratada como confissão de um esquema de propinas que teria movimentado mais de R$ 1 bilhão para agilizar ressarcimentos de ICMS-ST. Datado de 3 de março, o documento tem três páginas escritas a caneta vermelha, descreve “novas liberações de imposto” e busca “orientação espiritual”, com o auditor dizendo ser “muito perigoso” continuar, o que, para o MP, corrobora a autoria e a consciência do crime. A peça fundamenta o pedido de conversão da prisão de Artur para preventiva.
Às vezes, o que parece trivial — um bilhete, uma planilha, um e-mail automático, uma nota fiscal — vira peça-chave porque conecta pontos dispersos. Quando peritos e promotores cotejam esse item com metadados (datas, IP, geolocalização), agendas, mensagens e fluxos financeiros, ele deixa de ser “banal” e passa a amarrar o enredo: mostra quem falou com quem, quando, sobre o quê e com que efeito (ex.: liberação de pagamento logo após uma reunião). Essa triangulação transforma um indício isolado em evidência robusta de nexo causal e dolo.
Robôs para a população idosa da Coréia
A Rest of World relata que a Coreia do Sul distribui robôs de companhia Hyodol — bonecos com chatbot baseado em ChatGPT e sensores — para idosos que vivem sozinhos, a fim de reduzir solidão e apoiar cuidadores sobrecarregados. No distrito de Guro, 412 unidades foram entregues desde 2019; no país, são mais de 12.000. Os robôs lembram medicação e refeições, detectam falta de movimento e enviam alertas; registros de voz são analisados por IA da Microsoft para sinalizar humor e riscos. Cuidadores dizem que os Hyodols funcionam como “olhos e ouvidos” entre visitas, embora aumentem tarefas de manutenção e levantem dilemas de privacidade. O programa recebeu investimento inicial de 200 milhões de won; cada robô custa 1,6 milhão de won (~$1.150). A escassez de cuidadores (déficit de 190 mil em 2023, projetado para 1,55 milhão até 2032) e pressões orçamentárias explicam a adoção. A empresa prepara expansão global (piloto em Nova York em 2023; meta nos EUA em 2026).
A Coreia tem uma população cada vez mais envelhecida, onde o salário é alto para pagar. É uma solução tecnológica que também pode reduzir os gastos públicos.
Uso de IA ou manipulação
Eis o fato:
Will Smith, ator e rapper e sua equipe usaram IA para “turbinar” um vídeo de um minuto do tour Based on a True Story publicado no YouTube e no Instagram. Nas cenas de plateia, fãs aparecem com rostos distorcidos, mãos “derretidas” e cartazes improváveis — como um agradecendo à faixa “You Can Make It” por ajudar alguém a “sobreviver ao câncer” e outro com texto embaralhado (“From West Philly to West Swiggy”). A matéria compara o clipe a registros “reais” da turnê, que mostrariam público modesto, e cita o relato de um espectador em Frankfurt dizendo que o local estava meio vazio. O vídeo não traz rótulos de conteúdo gerado por IA, apesar das políticas do YouTube e da Meta exigirem sinalização. A equipe de Smith não respondeu até o fechamento.
Isto se parece com manipulação contábil. Ambas distorcem a percepção de desempenho para influenciar decisões de terceiros — no vídeo, inflar engajamento; na contabilidade, suavizar resultados ou riscos. A diferença substantiva está no arcabouço: manipulação contábil afeta demonstrações reguladas e auditáveis, com consequências legais; já a manipulação de imagens recai sobretudo em normas de publicidade/plataformas e sanções reputacionais.
Pesquisa em relato integrado
Eis o resumo:
O objetivo deste trabalho é apresentar tópicos de pesquisa, para futuros estudos, voltados à experiência brasileira de uso do relato integrado (RI) na administração pública federal e aos possíveis impactos da obrigatoriedade de apresentação do documento, uma vez que o RI foi instituído de forma obrigatória no Brasil, em 2018. Trata-se de ensaio teórico, realizado com base em bibliografia aprofundada e em documentos legais e institucionais relacionados ao tema, com propósito descritivo, por meio de abordagem qualitativa. Os resultados demonstram haver possibilidade de discussão quanto ao uso do RI e aos respectivos reflexos no setor público federal brasileiro, a partir de cinco eixos analíticos seguintes: i) influências externas à organização; ii) aspectos institucionais; iii) pensamento integrado; iv) críticas ao RI; e v) obrigatoriedade do RI e críticas a tal regulamentação. Considerando a relevância do uso do RI no contexto brasileiro, a pesquisa contribui para melhor compreensão do uso da abordagem no setor público federal e para avanço de pesquisas relacionadas ao tema
A referência é a seguinte: Revista do TCU, Brasília, v. 155, n. 1, p. 300-326, jan./jun. 2025. DOI: https://doi.org/10.69518/RTCU.155.300-326
26 agosto 2025
Rir é o melhor remédio
Austrália propõe certificação para auditorias de baixo risco
Do Financial Review, eis que interessante:
A Comissão de Produtividade quer que o governo apoie a proposta da CPA Australia para introduzir uma categoria de auditores registrados de empresas (Registered Company Auditors – RCAs) voltada a auditorias de baixo risco.
A sugestão, apresentada no relatório recente Building a skilled and adaptable workforce da comissão, faz parte de um conjunto de recomendações para reformar as regras de ingresso em profissões reguladas, que, segundo o documento, muitas vezes são inconsistentes, desnecessárias e onerosas.
Atualmente, a ASIC exige que os RCAs concluam:
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pelo menos três anos de formação em contabilidade;
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pelo menos dois anos de formação em direito;
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um curso específico em auditoria;
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além de comprovar experiência prática em competências de auditoria nos últimos três a cinco anos.
A CPA argumentou, em sua submissão à comissão, que essas exigências são excessivamente restritivas e “projetadas para auditorias grandes, complexas e de alto risco, como as de companhias abertas ou multinacionais”. Segundo a entidade, embora tais requisitos sejam adequados nesses casos, também existem obrigações legais para que RCAs executem auditorias de baixo risco, onde o nível atual de exigência encarece desnecessariamente o processo.
Não surpreende que, nos últimos 20 anos, o número de RCAs tenha caído de mais de 7.000 para cerca de 3.200, enquanto a demanda aumentou.
Como alternativa, a CPA sugeriu adotar o modelo de licenciamento em dois níveis utilizado na Nova Zelândia. Nesse regime, auditores que comprovem de 300 a 500 dias de experiência prática supervisionada em auditoria nos últimos cinco anos podem realizar atividades de asseguração de menor risco.
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