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10 agosto 2025

História da contabilidade: Amanuense

Para acompanhar a evolução deste e de outros termos, vamos investigar como três dicionários históricos os registraram. O primeiro é o Moraes, em sua edição de 1789. A versão que utilizei possui dois tomos: o primeiro com quase 800 páginas (da letra A à letra K) e o segundo com mais de 500 páginas, totalizando cerca de 1.300 páginas. Essa edição tem o título Diccionario da Lingua Portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado e accrescentado por Antonio de Moraes Silva, natural do Rio de Janeiro. Na capa, constam ainda os dizeres: “na officina de Simão Thaddeo Ferreira”.


O segundo dicionário é o Caldas Aulete, intitulado Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza, de 1881. Com pouco mais de mil páginas, a obra é bastante conhecida do público. O terceiro é o Novo Diccionario da Língua Portuguesa, de 1913, 10ª edição, o maior deles e talvez o menos conhecido, com 2.100 páginas.

Em resumo: o Diccionario da Lingua Portugueza, de Antonio de Moraes Silva, publicado originalmente em 1789, é considerado o primeiro grande dicionário da língua no Brasil e em Portugal, trazendo definições detalhadas e etimologias. O Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza, de Caldas Aulete, lançado em 1881, inovou ao incorporar vocabulário técnico e estrangeirismos. Já o Novo Diccionario da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, publicado em 1913, destacou-se por seu caráter normativo e pela atualização ortográfica, tornando-se referência no início do século XX.

Entre os vários termos associados à profissão e à contabilidade, provavelmente o “amanuense” seja o menos conhecido. Moraes (Tomo I, p. 71) é lacônico e o define como “o que escreve o que o outro dita; escrevente”. Caldas Aulete (p. 77) segue a mesma linha, mas acrescenta: escrevente, copista. Empregado que ocupa o grau inferior no quadro de uma secretaria e é ordinariamente encarregado de copiar e registrar papéis. Já Figueiredo (p. 101) define amanuense como: “Escrevente. Secretário. Copista. Empregado de repartição pública, encarregado geralmente de fazer cópias e registar diplomas e correspondência oficial.”

Eis o que Machado de Assis escreveu:

A reputação de vadio, preguiçoso, relaxado, foi o primeiro fruto desse método de vida; o segundo foi não andar para diante. Havia já oito anos que era amanuense; alguns chamavam-lhe o marca-passo. Acrescente-se que, além de falhar muitas vezes, saía cedo da repartição ou com licença ou sem ela, às escondidas.

O caso Barreto — Texto Fonte: Relíquias de Casa Velha, Machado de Assis, Rio de Janeiro: Edições W. M. Jackson, 1938. Publicado originalmente em A Estação, 15 de março de 1892.

Ou seja, tratava-se de uma função com pouco prestígio social.

 
Referências

Aulete, F. J. C. (1881). Diccionario contemporaneo da lingua portugueza. Lisboa: Imprensa Nacional.

Figueiredo, C. de. (1913). Novo diccionario da língua portugueza (10ª ed.). Lisboa: Livraria Editora.

Moraes Silva, A. de. (1789). Diccionario da lingua portugueza (2ª ed.). Lisboa: Typographia Lacerdina.

(Para fins da postagem, adaptei a ortografia da época, para facilitar ao leitor o entendimento)

Pesquisa Histórica sobre Contabilidade: Vantagens, Desafios e Armadilhas


Fazer pesquisa histórica sobre contabilidade é, ao mesmo tempo, um desafio e uma fonte inesgotável de descobertas. É preciso fazer escolhas.

Mas temos hoje uma enorme quantidade de dados disponíveis em bibliotecas digitais. Embora eu consulte várias fontes, gosto muito da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro — um acervo riquíssimo que já venho explorando há mais de uma década em postagens no blog.

Dentro desse universo, geralmente priorizo jornais. Para ter uma ideia do volume: ao buscar a palavra “contabilidade” na Hemeroteca, filtrando o período de 1850 a 1859, entre as 453 fontes disponíveis (número válido na data desta postagem), surgiram mais de 3.000 resultados. Ler, analisar e contextualizar tudo isso é uma tarefa monumental — e aqui usei apenas um termo de busca.

A maior vantagem de trabalhar com esse tipo de acervo é a comodidade. É possível pesquisar sem sair da frente do computador, evitando o manuseio de papéis antigos e frágeis. Isso agiliza muito o trabalho. Mas há mais: como destacam Beach & Hanlon (2022), jornais digitalizados abrem novas portas para a pesquisa histórica:

  • Mais ferramentas e perguntas – Bancos de dados amplos e acessíveis incentivam novas linhas de investigação.

  • Busca eficiente – O que antes levava dias ou semanas com microfilmes e documentos físicos hoje pode ser feito em minutos.

  • Acesso a tópicos pouco explorados – Como estatísticas governamentais e temas marginais.

  • Criação de variáveis de resultado – É possível reconstruir o desempenho histórico de empresas ou mercados, como o da Bolsa do Rio de Janeiro no final do século XIX.

  • Complemento a outros dados – Por exemplo, medir o mercado de trabalho contábil a partir de anúncios classificados.

Naturalmente, nem tudo são flores. Entre as limitações:

  • Amostra incompleta – Muito se perdeu com o tempo. O que restou é apenas parte do que foi escrito, e a escrita é só uma fração da comunicação histórica.

  • Seleção enviesada – Títulos mais estabelecidos são priorizados; jornais menores ou “ilegais” podem estar ausentes.

  • Características históricas – Estrutura de notícias, ausência de imagens, censura e autorização governamental.

  • Acessibilidade no passado – Alto custo e baixo índice de alfabetização limitavam o público.

  • Conteúdo repetido – Pequenos jornais copiavam textos de periódicos maiores.

  • Faltam grandes títulos – Como O Estado de S. Paulo, fora do acervo por manter arquivo próprio.

  • Qualidade do OCR – O Reconhecimento Óptico de Caracteres converte texto impresso em formato pesquisável, mas erros são comuns. Buscas por “balanço” podem ignorar “balanco” (sem cedilha) e ortografias antigas como “activo”. Em casos extremos, o sistema simplesmente não reconhece o texto.

Por fim, é preciso lembrar: toda fonte carrega subjetividade. Jornais de qualquer período podem ser influenciados por governos, interesses econômicos e pela visão de mundo de seus proprietários e redatores.

Referência: 

Beach, B., & Hanlon, W. W. (2022). Historical newspaper data: A researcher’s guide and toolkit. NBER Working Paper No. 30135. https://doi.org/10.3386/w30135

Image: Wikipedia, verbete History

09 agosto 2025

Perdemos Gileno Fernandes Marcelino


Recebi, esta noite, a notícia da partida do nosso Gileno. Conheci-o quando entrei na UnB, no meu concurso para professor do quadro; ele também havia sido aprovado, mas para o curso de Administração. Depois, nos reencontramos em uma dobradinha eleitoral: ele como candidato a diretor, eu como vice.

No cargo, criou a FACE — um sonho de unir os departamentos de Economia, Administração e Contabilidade. Foi seu primeiro diretor. Natural de Mossoró, ex-diretor da Enap, chegou a secretario-executivo do Dasp e, quando no lugar do titular, assinou a criação do décimo-terceiro salário para o funcionário público, e especialista em planejamento. Chegou a concorrer em uma tumultuada eleição para reitor pro tempore, ficando em segundo lugar em um pleito já previamente articulado.

Logo depois, aposentou-se. Mas continuou colaborando com o programa Multi e, mais tarde, com a pós-graduação em Contabilidade. Era perspicaz, sobretudo em seus trocadilhos.

Era uma pessoa gentil e, quando o assunto era contabilidade, não faltava seu trocadilho: “quanta habilidade”.

 

08 agosto 2025

Crença nos outros

 O resumo:

Nós estudamos como as pessoas acreditam que os outros atualizam suas crenças ao se depararem com novas evidências. Constatamos que, quando duas pessoas compartilham a mesma crença prévia, uma acredita que novas evidências não podem deslocar sistematicamente as crenças da outra em qualquer direção (propriedade de martingale). Quando as duas têm crenças prévias diferentes, as pessoas tendem a achar que qualquer informação aproxima os valores esperados das crenças posteriores dos outros de sua própria crença prévia, mas esse ajuste é menos sensível à qualidade da informação do que a teoria prevê. Identificamos a principal causa dessa insensibilidade e discutimos as implicações de nossas conclusões para jogos estratégicos com informação assimétrica, para o desenho de informações e, de forma mais ampla, para a compreensão da polarização social. 

PwC e IA

Segundo o Business Insider, a PwC está reformulando seu programa de treinamento para contadores recém-formados, preparando-os para atuar como gestores logo nos primeiros anos de carreira, enquanto a IA assume tarefas rotineiras como entrada de dados, auditoria básica e checagens de conformidade. 

Segundo Jenn Kosar, líder de AI Assurance da PwC, dentro de três anos os iniciantes tornar-se-ão revisores e supervisores das operações automatizadas — funções tradicionalmente ocupadas por gestores. A nova formação enfatiza habilidades fundamentais de auditoria, pensamento crítico, negociação e ceticismo profissional, que antes só eram abordadas mais adiante na carreira. A PwC também lançou um serviço chamado “assurance for AI” para garantir o uso ético e confiável da IA por seus clientes 

Regra da Vovó


O conceito da Regra da Vovó (Grandma’s Rule) é bastante útil para incentivar as pessoas e é amplamente aplicado no dia a dia. A lógica é simples: primeiro coma a salada, depois o doce. Ou seja, realize primeiro algo desagradável e deixe a recompensa para depois.

Tecnicamente, trata-se do Princípio de Premack, formulado pelo psicólogo David Premack. Segundo ele, comportamentos mais prováveis (ou preferidos) podem servir como reforço para comportamentos menos prováveis. Na contabilidade, por exemplo, se responder e-mails for uma tarefa desagradável, pode-se priorizá-la e, em seguida, passar para a análise de uma legislação — que funcionará como recompensa pela execução da tarefa inicial.

Para que o método funcione, é essencial que a “sobremesa” seja realmente mais desejada do que a “salada”. Quando essa preferência existe, os estudos de Premack indicam que uma atividade agradável pode, de fato, servir como incentivo para realizar uma tarefa menos atrativa.

Grandes nomes da história mundial da contabilidade: Degrange - Correções

Recebi um e-mail do pesquisador histórico Miguel Gonçalves, do ISCAC-Coimbra Business School. Ele faz uma série de correções sobre a vida de Edmond Degrange, conforme postagem aqui. Na postagem original, comentei da dificuldade de obtenção de informação sobre o autor francês (imagem abaixo)


Eis o e-mail:

Edmond Degrange, francês, natural de Bordéus,  morreu em 17 outubro de 1818 e nasceu em 1763. 

A 1.ª edição de 'LA TENUE DES LIVRES RENDUE FACILE' é de 1795 e não se consegue encontrar. A 2.ª edição é de 1798 e vinha assinada por Degrange (esta edição existe numa biblioteca de Bordéus). A 3.ª edição é de 1800 e vinha assinada por 'Un ancient négociant', apenas. Esta 3.º edição também não se consegue encontrar. Houve 30 edições, até 1920, desta obra.

Em 1798, na 2.º edição, ele adianta que era professor na Escola de Comércio de Bordéus. Casou em 1788. Era republicano, maçon e participou na Revolução Francesa de 1789. 

O seu filho, com o mesmo nome, nasceu em 1797. Faleceu em 1888

Em 1811 acusa, no Jornal de Comércio, o autor Rodrigues, também de Bordéus. Acusa-o de plágio, mas Rodrigues defende-se bem e manda o caso para o Conselho de Estado, dizendo que como falavam os dois da mesma época, da mesma matéria e com os mesmos termos, seria difícil não se repetirem. 

Estas informações foram retiradas de um capítulo do livro 'Les grands auteurs en comptabilité', editado por Bernard Colasse. O autor do capítulo sobre Edmond Degrange (pai) é Marc Nikitin.

Eis as correções.