Talvez a grande discussão econômica do ano passado tenha sido o aumento nas tarifas de importação por parte da maior economia do mundo. No início do ano, diversos analistas indicaram os efeitos ruins para os Estados Unidos. Mas parece que nada ocorreu.
Na newsletter de Noah Smith há uma resposta para essa questão. Eis o texto:
3. Por que as tarifas não esmagaram a economia dos EUA
Muitas pessoas estão se perguntando por que a economia dos Estados Unidos tem sido tão resiliente diante das tarifas impostas por Trump. Os efeitos das tarifas são visíveis — os preços das importações estão subindo, a indústria manufatureira sofre com insumos mais caros, e isso pode estar por trás de um aumento gradual do desemprego. Ainda assim, no conjunto, apesar de os consumidores americanos se mostrarem extremamente pessimistas nas pesquisas, o crescimento permanece sólido e o nível de emprego continua elevado. O que está acontecendo? Os economistas erraram ao alertar sobre os perigos das tarifas? E, se não erraram, onde está a calamidade econômica que nos foi prometida?
Uma parte importante do quebra-cabeça é que as tarifas efetivamente cobradas são muito mais baixas do que as alíquotas oficiais anunciadas pela administração Trump (sem falar nas tarifas ainda mais altas que Trump chegou a ameaçar impor em abril). A alíquota tarifária legal, calculada com base na composição das exportações antes das tarifas, era de 27,5% em setembro, mas a alíquota efetivamente paga pelos importadores americanos era de apenas 14%.
Esse gráfico é de Gopinath e Neiman (2025), que explicam que a administração Trump utilizou um grande número de exceções e dispensas (carve-outs) para reduzir a dor econômica causada por sua própria política:
Produtos específicos — ou até empresas específicas (por exemplo, aquelas que se comprometem a construir fábricas nos Estados Unidos) — receberam isenções tarifárias. Por exemplo, diversos semicondutores obtiveram isenção das tarifas recíprocas anunciadas pelos Estados Unidos no início de abril de 2025. Como resultado, os semicondutores passaram a ter uma tarifa efetiva de apenas 9%, apesar de uma tarifa legal muito maior, de 24%. Essa mesma isenção também explica a diferença entre a tarifa legal de 28% aplicada a Taiwan e a tarifa efetiva de apenas 8%…
[Outro] fator-chave por trás dessa diferença é o cumprimento do USMCA, o acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá que substituiu o NAFTA em 2020. Se uma parcela suficiente do valor de uma remessa tiver sido adicionada dentro dessas três economias — em vez de importada de fora do bloco —, o importador pode, em geral, declarar os bens como compatíveis com o USMCA e, assim, evitar em grande medida as tarifas.
Uma tarifa de 14% não é uma alíquota extraordinariamente alta. Trata-se de um imposto muito ineficiente, pois incide sobre bens intermediários, e não sobre bens finais. Ainda assim, não é uma taxa tão elevada. Além disso, as importações não representam uma parcela tão grande da economia dos EUA — cerca de 14% em 2024. Quatorze por cento de 14% corresponde a apenas cerca de 2%.
Elevar a carga tributária da economia americana em 2 pontos percentuais, mesmo por meio de um imposto extremamente ineficiente, dificilmente seria suficiente para derrubar a economia — mesmo quando os americanos arcam com a maior parte do ônus tributário, como argumentam Gopinath e Neiman. Além disso, a economia dos EUA também tem sido favorecida pelo boom dos data centers, que provavelmente está compensando uma parcela significativa da destruição de demanda provocada pelo pessimismo induzido pelas tarifas.
Dito isso, o impacto negativo das tarifas pode simplesmente demorar algum tempo para se manifestar. Via Marginal Revolution, vejo que Besten e Känzig publicaram um novo artigo que estuda o impacto macroeconômico histórico das tarifas nos Estados Unidos. Os autores analisam anúncios históricos de políticas tarifárias e alimentam esses “choques” em um modelo da economia. Trata-se de uma forma bastante imperfeita de estudar o efeito das tarifas, já que o modelo pode estar errado e os “choques” podem estar respondendo a condições econômicas de maneiras que os autores não consideram. Ainda assim, o principal resultado do exercício é que a maior parte do impacto das tarifas sobre variáveis como o PIB ocorre apenas após um ou dois anos.
Como se passaram apenas oito meses desde o “Dia da Libertação”, provavelmente voltaremos a este tema daqui a um ano.

