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01 fevereiro 2026

IA e Dunning-Kruger

Eis um trecho:

(...) estudo apresenta evidências convincentes de que a IA pode conduzir diretamente os usuários ao efeito Dunning-Kruger — uma armadilha psicológica conhecida, na qual as pessoas menos competentes tendem a ser as mais confiantes em suas habilidades. (...)

O estudo envolveu mais de 3.000 participantes em três experimentos distintos, mas com uma lógica geral semelhante. Em cada um deles, os participantes foram divididos em quatro grupos para discutir temas políticos, como aborto e controle de armas, com um chatbot. Um grupo conversou com um chatbot sem qualquer instrução especial; o segundo interagiu com um chatbot “sicerofântico”, programado para validar suas crenças; o terceiro falou com um chatbot “discordante”, instruído a desafiar seus pontos de vista; e o quarto, grupo de controle, interagiu com uma IA que apenas falava sobre gatos e cachorros.  


Ao longo dos experimentos, os participantes conversaram com uma ampla gama de grandes modelos de linguagem, incluindo GPT-5 e GPT-4o da OpenAI, Claude da Anthropic e Gemini do Google, representando os principais modelos do setor. A exceção foi o GPT-4o mais antigo, que continua relevante porque muitos usuários do ChatGPT ainda o consideram sua versão favorita — ironicamente, por ser percebido como mais pessoal e mais complacente. 

Após a realização dos experimentos, os pesquisadores constataram que conversar com chatbots de IA sicerofânticos levou os participantes a adotar crenças mais extremas e a aumentar sua certeza de que estavam corretos. De forma surpreendente, porém, falar com chatbots discordantes não produziu o efeito oposto: isso não reduziu nem a intensidade das crenças nem o grau de certeza em comparação com o grupo de controle. 

Na prática, o único impacto perceptível de tornar o chatbot discordante foi sobre o prazer do usuário. Os participantes preferiram interagir com o companheiro sigerofântico, e aqueles que conversaram com chatbots discordantes mostraram-se menos inclinados a utilizá-los novamente.  

Os pesquisadores também observaram que, quando o chatbot era instruído a fornecer fatos sobre o tema debatido, os participantes consideravam o fornecedor de fatos sigerofântico menos enviesado do que o discordante. 

“Esses resultados sugerem que a preferência das pessoas por sigerofantia pode criar ‘câmaras de eco’ de IA, que aumentam a polarização e reduzem a exposição a pontos de vista opostos”, escreveram os autores.  

Igualmente relevante foi o efeito dos chatbots sobre a autopercepção dos participantes. As pessoas já tendem a se considerar acima da média em atributos desejáveis, como empatia e inteligência, mas os pesquisadores alertam que a IA pode amplificar ainda mais esse “efeito acima da média”.  

Nos experimentos, a IA sigerofântica levou os participantes a se avaliarem mais positivamente em traços desejáveis, como inteligência, moralidade, empatia, informação, bondade e perspicácia. De forma curiosa, embora a IA discordante não tenha conseguido alterar de maneira significativa as crenças políticas, ela levou os participantes a atribuírem notas mais baixas a si mesmos nesses mesmos atributos.  

Este não é o único estudo a documentar uma relação aparente com o efeito Dunning-Kruger. Outra pesquisa mostrou que pessoas que utilizaram o ChatGPT para realizar uma série de tarefas tenderam a superestimar amplamente seu próprio desempenho, sendo esse efeito ainda mais pronunciado entre aquelas que se declaravam experientes em IA. Seja lá o que a IA esteja fazendo com nossos cérebros, provavelmente não é algo positivo. 

Resumidamente, Dunning-Kruger é o efeito em que pessoas com baixa competência em determinado tema tendem a superestimar suas próprias habilidades, enquanto indivíduos mais competentes costumam ser mais conscientes de suas limitações. 

Leitura Rápida e Seletiva


O texto “Front-load Key Words”, do Sketchplanations, apresenta uma técnica simples e eficaz para tornar a comunicação escrita mais clara, especialmente em contextos digitais, onde a maioria das pessoas não lê palavra por palavra, mas faz uma leitura rápida e seletiva (scanning). A ideia central é antecipar as palavras-chave, colocando os termos mais importantes no início de frases, parágrafos, listas ou links.

Ao “front-loadar” as palavras-chave, o leitor consegue entender rapidamente sobre o que é o conteúdo, mesmo sem ler tudo. Isso reduz o esforço cognitivo, melhora a navegação visual do texto e aumenta a chance de a mensagem principal ser compreendida. A técnica é particularmente útil em e-mails, apresentações, relatórios, textos institucionais e interfaces digitais.

O autor demonstra o conceito por meio de um exemplo prático: uma lista de instruções que, ao ser reorganizada com os termos centrais no começo de cada item, torna-se mais clara, objetiva e fácil de escanear. O significado não muda, mas a acessibilidade da informação melhora drasticamente.

Em síntese, o texto defende que escrever bem não é apenas escolher boas palavras, mas organizar a informação de acordo com o modo como as pessoas realmente leem. Antecipar palavras-chave é uma estratégia simples, de alto impacto, que melhora clareza, eficiência e comunicação.

(Na contabilidade, tenho lido muitas pesquisas sobre legibilidade e compreensibilidade. Mas esse é um ponto interessante que não damos atenção.) 

IVSC propõe uma revisão nos padrões


O IVSC é uma entidade dedicada ao estudo da mensuração. Seus trabalhos contribuem para a Fundação IFRS, especialmente no que se refere às questões de mensuração contábil, e servem de base para os processos de mensuração em geral, incluindo as avaliações empresariais.

O documento vigente é relativamente sucinto, na medida do que pode ser sucinto um texto produzido por uma entidade que pretende regular temas da nossa área. No momento, o IVSC lançou uma revisão do documento, aberta a sugestões por um período de três meses, que inclui alterações no glossário, ampliações do escopo de atuação, revisões dos aspectos relacionados à sustentabilidade e, de forma particularmente interessante, a inclusão de modelos de valuation baseados em inteligência artificial.

No documento do IVSC, encontra-se uma das definições mais curtas — e talvez uma das melhores — de ativo: direito a um benefício econômico. Quem sabe, uma luz para uma futura revisão da Estrutura Conceitual.

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Reino Unido deve adotar normas de sustentabilidade baseadas no ISSB

O regulador britânico Financial Conduct Authority (FCA), em língua portuguesa Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido (FCA), lançou uma consulta pública para alterar regras de evidenciação relacionadas a sustentabilidade. No caso, os que foram provisioramente denominados de UK Sustainability Reporting Standards (SRS)

As regras propostas estão baseadas nas normas IFRS S1 e S2. A consulta deve finalizar em março e o prazo previsto para entrar em vigor é 2027.