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19 março 2026

Custo de Brasília


Qual foi o custo da construção de Brasília? Eis uma estimativa: 

Construir Brasília em um período tão curto foi custoso, embora seja difícil determinar um preço exato, dado que muitas etapas burocráticas foram suprimidas em prol da celeridade, segundo Ronaldo Costa Couto. Mas isso não significa que as pessoas não tenham tentado calcular. O economista Eugênio Gudin calculou que custou aproximadamente 1,5 bilhão de dólares em 1954 — ou cerca de 12,3 por cento do PIB do Brasil — para criar esta capital. Ajustado pela inflação, isso equivale a 16 bilhões de dólares hoje. Outras estimativas são muito maiores. Em 1996, o economista e jornalista Ib Teixeira recalculou o custo, atento ao fato de que a construção em Brasília continuou além da inauguração da cidade em 1960. Ele encontrou um resultado de uma ordem de magnitude diferente: 155 bilhões de dólares na época, ou 316 bilhões de dólares ajustados pela inflação.

Na ausência de condições de moradia adequadas, muitos trabalhadores improvisaram, ocupando ilegalmente áreas fora da cidade e construindo seus abrigos com quaisquer materiais que estivessem disponíveis.

O transporte de materiais de construção foi responsável por grande parte do custo da construção da cidade. Os únicos recursos disponíveis no local eram pedra, areia e tijolos; o restante — como telhas, vergalhões e vidro — teve que ser trazido de outros lugares. No entanto, as rodovias só chegaram ao local em 1960, e a ferrovia mais próxima ia apenas até Anápolis, a cerca de 145 quilômetros de distância. O governo não quis esperar pela conclusão das obras rodoviárias para avançar com a inauguração da cidade, por isso encontrou a solução mais cara possível: o transporte aéreo. Para cobrir essa despesa, a administração Kubitschek começou a imprimir mais dinheiro e a emitir títulos de dívida pública, resultando em um legado de dívidas e inflação que assolou o país nas décadas seguintes.

O custo humano da construção de Brasília também foi alto. Dezenas de milhares de pessoas de outras regiões do país foram enviadas a Brasília para trabalhar. Um censo de 1959 indicou que havia aproximadamente 64.000 pessoas na área, das quais mais de 55.000 vieram de outros lugares e 54,5% eram trabalhadores da construção civil. A maioria desses trabalhadores — conhecidos como candangos — vivia em condições precárias. Os pedreiros dormiam em quartos comunitários sem qualquer privacidade, segundo Gustavo Lins Ribeiro. Eles comiam alimentos estragados que, por vezes, levavam a infecções intestinais.

Alguns não tinham moradia alguma. Na ausência de condições de vida adequadas, muitos trabalhadores improvisaram, ocupando ilegalmente áreas fora da cidade e construindo seus próprios abrigos com quaisquer materiais disponíveis. Um desses assentamentos era chamado de Sacolândia; outro era a Lonalândia. Muitos desses assentamentos perduraram mesmo após a conclusão da construção de Brasília. O maior desses locais era a Vila do IAPI, assim chamada devido ao Hospital do IAPI, em torno do qual se formou, na periferia do canteiro de obras. Em 1971, o governo forçou a evacuação da área e criou Ceilândia, uma cidade inteiramente nova para seus moradores.

Os direitos trabalhistas eram rotineiramente ignorados. A prática da "virada" — exceder os limites de horas extras — era comum. Equipamentos de proteção também eram escassos, e os acidentes de trabalho eram frequentes. Existem poucos registros sobre o número total de mortes e ferimentos durante a construção. Em vez disso, temos informações fragmentadas. Um dos registros disponíveis é do Hospital do IAPI; ele tratou 10.927 acidentes relacionados à construção em 1959, uma média de aproximadamente 30 acidentes por dia. Em 1960, essa média explodiu para 170 acidentes por dia.

Para garantir a segurança pública — e reprimir quaisquer protestos que pudessem surgir em relação às precárias condições de trabalho — o governo destacou a GEB (Guarda Especial de Brasília), forças de segurança pagas pela NOVACAP, para supervisionar a construção. A GEB tornou-se conhecida por sua brutalidade e falta de preparo. Ela participou do chamado Massacre de Pacheco Fernandes, em 8 de fevereiro de 1959, quando trabalhadores da construtora Pacheco Fernandes se revoltaram contra seus chefes devido à comida estragada. Chamada para conter os operários, a GEB usou munição real contra eles. Especialistas concordam com a sequência de eventos até este ponto, mas surgem dúvidas quanto ao número de mortes e ferimentos resultantes da ação. Enquanto a versão oficial afirma 48 feridos e apenas uma morte, testemunhas e sobreviventes dizem que dezenas foram mortos e seus corpos foram levados em caminhões para um local desconhecido.

Equipe e experiência: Ensinamentos de Hollywood


Uma pesquisa usou Hollywood para estudar sucesso e fracasso, através da análise de dados das equipes que participaram dos filmes. A descoberta foi que equipes com membros com histórico de sucesso tendem a produzir filmes lucrativos e equipes com um currículo ruim, produzem filmes menos rentáveis. Fracasso atrai fracasso. 

Uma característica é que equipes de produção são dispensadas após o encerramento das filmagens. Assim, essas equipes não aprendem com o fracasso.  Eis um resumo importante: 

  • Impacto do Sucesso: Cada milhão de dólares adicional de sucesso acumulado no histórico de uma equipe aumenta os lucros do próximo filme em cerca de $126.000. 
  • Impacto do Fracasso: Cada milhão de dólares adicional de fracasso acumulado levou a aproximadamente $448.000 a menos nos lucros.  

Outro ponto importante é que o histórico dos atores e dos diretores não tiveram efeito significativo.  

Muthulingam, S., & Rajaram, K. (2026). The Role of Success and Failure in Fluid Teams: Evidence from the Motion Picture Industry. Management Science. 

Banco Mundial pune PwC na África

O Banco Mundial suspendeu três empresas da rede PwC na África por fraude e conluio. As empresas envolvidas são do Quênia, Ruanda e Maurício, e a punição consiste em um banimento de 21 meses de projetos financiados pelo Banco.


O caso envolveu um projeto energético entre Etiópia e Quênia. As empresas obtiveram informações confidenciais sobre a licitação e as utilizaram para influenciar o resultado. Além disso, deturparam informações sobre especialistas.

As empresas admitiram culpa e firmaram um acordo com o Banco Mundial, comprometendo-se a implementar medidas corretivas. Por isso, a punição foi limitada a 21 meses. Outras instituições devem aplicar sanções semelhantes, como o BID.

 

Internet dos robôs

O gráfico traz muita informação importante sobre a internet dos dias atuais. Em 2018, cerca de 2/3 do tráfego da internet era de humanos e o restante de robôs maliciosos e robôs do bem. A proporão do tráfego oriundo dos seres humanos caiu para 49% em 2024, com crescimento absurdo dos robôs maliciosos. 

Isso tem problema na estatística dos dados e trazem outros distorções mais graves, como o roubo de informações. E como os bots estão mais sofisticados, permitindo reproduzir o comportamento humano, os sistemas tradicionais de segurança não estão conseguindo impedir o avanço. 

18 março 2026

Atenção e Envelopamento


Um artigo da Forbes trata da crescente convergência entre diferentes formatos de mídia nas plataformas digitais. As empresas estão tentando concentrar múltiplos tipos de conteúdo em um único ambiente. Por exemplo, a Spotify está incluindo podcast com vídeo para o usuário. 

Isso é chamado de “envelopamento de plataforma”, onde é usado a análise avançada de dados para compreender os usuários e personalizar conteúdos. A grande conquista é atrair a atenção dos consumidores. 

A estratégia é mais um passo na disputa entre as plataformas pela atenção dos consumidores na televisão — no fim do ano passado, a Netflix ultrapassou o YouTube como plataforma de streaming que mais retém tempo de tela dos usuários, segundo a eMarketer.

Entre os podcasts realocados estão alguns relacionados a esportes, como NFL, F1 e NBA, além de cultura pop e culinária. A vantagem competitiva da Netflix em relação ao YouTube está no fato de que a plataforma não vai veicular anúncios no meio da programação, mesmo para usuários do plano básico. Essa decisão ganha ainda mais força após a notícia de que, agora, o YouTube vai transmitir anúncios de 30 segundos que não poderão ser pulados.

 

Personalizar o empurrão (nudge)


Os nudges comportamentais (ou “empurrões” comportamentais) muito seguem uma lógica de tamanho único. A pesquisa normalmente procura identificar a forma mais impactante de incentivar um determinado comportamento — economizar mais, praticar mais exercícios, vacinar-se — com foco no que poderia funcionar para todos.

Uma pesquisa publicada na revista Organizational Behavior and Human Decision Processes sugere que personalizar os nudges com base no comportamento passado pode ser uma abordagem ainda mais eficaz. Os pesquisadores também encontram evidências de que a riqueza do nudgepor exemplo, um vídeo de dois minutos em vez de uma mensagem de texto breve — pode fazer diferença.

Leia mais aqui 
 
Será possível imaginar o dia em que uma informação contábil será personalizada? Bom, de certa forma isso ocorre, quando o usuário é forte o suficiente para impor sua vontage. O Banco Central faz isso para as instituições financeiras. Mas ele é tão forte e pode ameaçar a entidade com sanções.  

Banksy, identidade e valor de mercado

Recentemente, a Reuters informou que conseguiu identificar quem seria o verdadeiro Banksy. Para quem não conhece o blog, somos fãs das obras desse artista, que pinta murais com temas políticos e sociais em diferentes cidades do mundo.


Até então, ninguém sabia quem era Banksy, embora seu estilo já tivesse se tornado amplamente reconhecido. Segundo a Reuters, o artista seria Robin Gunningham, que utilizaria um pseudônimo bastante comum na língua inglesa em seus documentos. No entanto, Robin ainda não confirmou a informação.

O mais interessante dessa história recente é a reação dos fãs à revelação. Muitos argumentam que o valor das obras pode cair significativamente, já que grande parte do apelo do artista estaria no mistério de sua identidade. Temos aqui uma primeira lição: o valor de uma obra não depende apenas de sua qualidade artística — outros fatores também influenciam o resultado. Louco isso, não?

Um segundo ponto curioso é que o artista produz seus grafites em muros urbanos justamente para evitar a comercialização. Ainda assim, os fãs demonstram preocupação com o valor das obras. Eis mais um mistério.

O quadro acima foi objeto de texto aqui no blog em um leilão da sua obra. Aqui um texto sobre marca e o artista. Aqui sobre o valor de uma obra de arte. 

17 março 2026

Oscar e a auditoria


Antes mesmo de a primeira celebridade pisar no tapete vermelho da 98ª cerimônia do Oscar, em 15 de março de 2026, e antes de qualquer envelope ser aberto no palco, o trabalho mais importante da premiação já foi realizado — pelos votantes e pelos contadores.

Todos os anos, os vencedores do Oscar são contabilizados, verificados e lacrados pela firma de contabilidade PricewaterhouseCoopers (PwC), que supervisiona o processo de votação da Academia desde 1935 e manteve essa função mesmo após o famoso erro de envelopes em 2017. Neste ano, milhares de membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas votaram em 24 categorias (incluindo uma nova categoria de Melhor Elenco), e a PwC é responsável por coletar, verificar e apurar esses resultados, além de preparar os envelopes lacrados utilizados durante a cerimônia.

A Academia recorreu pela primeira vez a uma firma externa na década de 1930 porque desejava uma terceira parte neutra, confiável tanto em termos de precisão quanto de confidencialidade. As firmas de contabilidade já eram reconhecidas por auditar demonstrações financeiras, verificar cálculos complexos e proteger informações sensíveis de clientes. Em muitos aspectos, a apuração dos votos do Oscar se assemelha a um trabalho especializado de asseguração: uma entidade independente valida os números, utiliza múltiplos controles para confirmar os resultados e preserva a integridade do processo até que o resultado seja divulgado publicamente.

Caso alguém tenha esquecido o que aconteceu em 2017 — ou não tenha prestado atenção na época: a PwC “comemora” sete anos consecutivos sem errar o Oscar. Em resumo (TLDR): um sósia do Matt Damon e então sócio Brian Cullinan entregou o envelope errado, e o vencedor incorreto de Melhor Filme foi anunciado.
 

Da Forbes, via aqui 

Paradoxo Grossman-Stiglitz para IA

Um dos resultados mais interessantes da teoria econômica é o Paradoxo de Grossman-Stiglitz.

Você já ouviu falar da Hipótese dos Mercados Eficientes (EMH) — a ideia de que os preços dos ativos financeiros já incorporam toda a informação disponível sobre o valor desses ativos? Pois bem, em 1980, Sanford Grossman e Joseph Stiglitz mostraram por que a EMH não pode estar totalmente correta. A ideia é bastante simples: obter informação exige esforço. Quem vai se dar ao trabalho de buscar informações sobre quanto ações, títulos ou imóveis realmente valem, se não puder ganhar dinheiro negociando com base nessas informações? E, se ninguém se esforça para obter informação, como ela poderia ser incorporada aos preços em primeiro lugar? Grossman e Stiglitz concluíram que os mercados financeiros devem ser, ao menos em algum grau, ineficientes.

Agora, Daron Acemoglu, Dingwen Kong e Asuman Ozdaglar propuseram um problema semelhante para a inteligência artificial. Em geral, não sou muito fã dos trabalhos de Acemoglu sobre IA, mas acho que este toca em um ponto importante e fundamental.

Acemoglu e coautores escrevem que, se a IA generativa colocasse toda a informação do mundo ao alcance imediato das pessoas, então elas não teriam incentivo para sair e aprender coisas novas — o que, por sua vez, impediria descobertas acidentais que ampliam a base total de conhecimento da sociedade:

Estudamos como a IA generativa, e em particular a IA agêntica, molda os incentivos ao aprendizado humano e a evolução de longo prazo do ecossistema de informação da sociedade… O aprendizado apresenta economias de escopo: o esforço humano, custoso, produz conjuntamente um sinal privado sobre o próprio contexto e um “sinal fino” público que se acumula no estoque de conhecimento geral da comunidade, gerando uma externalidade de aprendizado. A IA agêntica fornece recomendações que substituem o esforço humano… Embora a IA agêntica possa melhorar a qualidade das decisões no curto prazo, ela também pode corroer os incentivos ao aprendizado que sustentam o conhecimento coletivo no longo prazo… A economia pode, assim, convergir para um estado estacionário de colapso do conhecimento, no qual o conhecimento geral desaparece, apesar da existência de aconselhamento personalizado de alta qualidade.

Basicamente, Acemoglu e coautores sugerem que a humanidade, como um todo, aprende coisas novas quando indivíduos tentam “reinventar a roda” — isto é, descobrir por conta própria em vez de simplesmente consultar a informação pronta. Isso consome bastante esforço, mas também contribui para ampliar o estoque geral de conhecimento.

A ideia aqui é que a IA torna todo mundo realmente preguiçoso — em vez de tentar escrever um código do zero, provar um teorema matemático do zero ou descobrir algo por conta própria, você simplesmente pede para a IA fazer tudo por você. Assim, todos acabam obtendo as respostas corretas para perguntas cujas respostas já são conhecidas, e, com isso, não acrescentam nada de novo. É o Paradoxo de Grossman-Stiglitz, mas aplicado a tudo.

Na verdade, já é possível perceber indícios disso acontecendo. O tráfego de sites está em queda, à medida que as pessoas passam a consumir respostas geradas por IA em vez de acessar páginas da web. Publicações de tecnologia, por exemplo, estão perdendo rapidamente seu público leitor:

E usar IA para programar faz com que as habilidades dos programadores se atrofiem.

Minha primeira observação aqui é que isso também se aplica não apenas à IA, mas à própria internet. Sim, as pessoas podem pedir a um LLM que lhes ensine matemática ou que escreva algum código para elas. Mas também podiam recorrer ao Math Exchange e ao Stack Exchange, mesmo antes da existência dos LLMs. E o mesmo problema surge — se todo o conhecimento do mundo está ao alcance das suas mãos, não há razão para gastar tempo reinventando a roda. Mas, como Neal Stephenson já escreveu em 2011, isso pode levar à falta de novidade, já que todos passam apenas a copiar o que já foi feito.

E isso me leva ao meu segundo ponto: e se a IA também puder produzir novo conhecimento? Afinal, a IA é propensa a alucinações — isto é, erros aleatórios. Se agentes estiverem por aí testando coisas erradas de forma aleatória, ocasionalmente podem descobrir algo novo. Se houver uma maneira de incorporar essas descobertas acidentais ao corpo geral de conhecimento da IA, talvez ela possa expandir o estoque total de conhecimento, em vez de reduzi-lo. Tudo o que seria necessário é deixar de depender dos humanos como o único repositório de conhecimento de longo prazo. Como fazer isso, naturalmente, eu não sei.

Da excelente Noahpinion newsletter. 

O artigo citado é  AI, Human Cognition and Knowledge Collapse
Daron Acemoglu, Dingwen Kong & Asuman Ozdaglar 

Paul Ehrlich was bad

Da newsletter Noah Opinion 


Paul Ehrlich, autor de The Population Bomb e um incansável defensor do controle populacional, morreu. Uma regra geral do comentário público costuma ser a de que não se deve falar mal dos mortos. Por outro lado, e se os mortos tiverem tido ideias realmente, realmente ruins?

Todos conhecemos a história de por que Ehrlich estava errado. Ele previu que o mundo ficaria sem alimentos, provocando fomes catastróficas na década de 1970. Com base nessas previsões, defendeu medidas como cortar a ajuda alimentar emergencial à Índia, argumentando que salvar pessoas da fome hoje apenas significaria haver mais pessoas para morrer de fome no futuro. No entanto, novas técnicas agrícolas conhecidas como Revolução Verde produziram calorias suficientes para alimentar todo o mundo, com ampla sobra. The Population Bomb foi publicado em 1968; naquela altura, as grandes fomes já eram, em grande medida, coisa do passado.

E as taxas de fecundidade caíram sem a necessidade dos controles populacionais draconianos e distópicos que Ehrlich defendia constantemente. O principal país que deu ouvidos a Ehrlich foi a China, e sua Política do Filho Único acabou se mostrando bastante desnecessária para reduzir a fecundidade — além de ser totalitária, cruel e distópica.


O que muitas pessoas não sabem sobre Ehrlich é o quanto ele continuou promovendo suas ideias de forma persistente e descartando seus críticos com arrogância, mesmo depois de ficar claro que estava completamente errado. Um homem que apoiou políticas pesadelo a serviço de uma teoria falha simplesmente nunca confrontou esse fracasso monumental, e continuou a se autopromover e a defender seus antigos erros.

E, de fato, as más ideias de Ehrlich sobreviveram e até prosperaram, na forma do movimento do “decrescimento”, popular no Reino Unido e em partes da Europa. Os defensores do decrescimento hoje propõem empobrecer a classe média dos países desenvolvidos, em vez de deixar a Índia passar fome ou prender pessoas por terem filhos demais — o que, suponho, é um avanço. Ainda assim, a ideia baseia-se fundamentalmente nas mesmas falácias antigas que Ehrlich nunca deixou de promover — a de que a humanidade ultrapassou seus limites e precisa ser reduzida à força.

 

 

YouTube é a maior empresa de mídia do mundo


O ano de 2025 marcou um ponto de virada no entretenimento — o se tornou a maior empresa de mídia do mundo. De acordo com dados divulgados pela empresa controladora Alphabet, a plataforma registrou US$ 62 bilhões (R$ 320,50 bilhões) em receita em 2025. O resultado reforça a trajetória de expansão, pois já em 2024, a receita do YouTube havia ultrapassado US$ 50 bilhões (R$ 258,46 bilhões).

Com o desempenho, a consultoria financeira MoffettNathanson avaliou que o YouTube superou o negócio de mídia da . A divisão gerou US$ 60,9 bilhões (R$ 314,81 bilhões) em receita no ano passado, considerando apenas as operações de mídia e excluindo o setor de experiências, que inclui parques e produtos.

A própria MoffettNathanson já havia se referido à plataforma como o “novo rei de toda a mídia”, destacando seu alcance global e seu modelo híbrido de distribuição e produção de conteúdo.

Segundo as estimativas da consultoria, o YouTube pode estar atualmente avaliado entre US$ 500 bilhões e US$ 560 bilhões (R$ 2,5 trilhões e 2,8 trilhões) —  patamar superior ao de qualquer concorrente tradicional do setor. O mais próximo seria a Netflix, que possui um valor de mercado de US$ 409 bilhões (R$ 2,1 trilhões).

Fonte: aqui

Vi em algum lugar que o Youtube é também o "canal" mais assistido do mundo, superando a Netflix e as televisões tradicionais.  

Rir é o melhor remédio

 

Gosto de pagar minhas contas.

16 março 2026

Custo Assimétrico - 2

Publicamos uma análise sobre o custo assimétrico no conflito com o Irã em 2026. A guerra moderna enfrenta um grave problema contábil: um lado utiliza drones descartáveis de baixo custo e fácil produção, enquanto o outro recorre a sistemas de defesa que custam milhões por unidade.

Blake Oliver define esse cenário como uma 'margem operacional negativa'. Se o custo de defender é exponencialmente superior ao de atacar, o modelo de negócios do conflito torna-se insustentável. Sob a ótica do MacroBusiness, trata-se de uma guerra de exaustão econômica — embora eu prefira classificá-la como uma exaustão contábil. Além disso, o Irã tem conseguido interromper rotas comerciais estratégicas, o que gera inflação global e pressão política sobre seus adversários, sugerindo, segundo eles, uma vitória iraniana.

Em contrapartida, o Brookings Institution questiona quem realmente está vencendo. Embora os Estados Unidos e Israel tenham obtido êxitos operacionais, como a eliminação de lideranças, tais feitos não garantem, por si só, uma vitória estratégica. 

Mercado de previsão para diversificar carteiras

Tenho escrito muito sobre o mercado de previsão nas últimas postagens (aqui e aqui, por exemplo). Agora, um texto de Paul Kedrosky traz uma visão diferente sobre o tema. O foco são as apostas no Oscar e, segundo a informação apresentada, antes da cerimônia 100 milhões de dólares foram negociados em contratos. Somente na categoria de melhor filme o volume de apostas chegou a 30 milhões. É pouco, mas está crescendo.

Os apostadores usam dicas, como premiações anteriores e conversas de bastidores, para fazer seus lances.


O gráfico mostra as apostas para melhor ator, em que o então favorito Chalamet perdeu o favoritismo para Jordan quase na véspera da entrega do prêmio. Considerando que as votações foram encerradas no início do mês, o mercado fez uma correção bem rápida da projeção.

Mas o aspecto talvez mais importante do texto é que esses mercados estão atraindo a atenção de investidores por causa de uma palavra mágica: correlação. Tradicionalmente, quem investe em ações sabe que uma ação da empresa Alfa provavelmente terá correlação com a da empresa Beta. Desde que não seja uma correlação perfeita — algo muito raro na prática —, essa relação pode ajudar a reduzir o risco de uma carteira.

Correlação mais baixa é cada vez mais difícil de encontrar pelos investidores, em razão, entre outras coisas, da globalização dos mercados. Alguns investidores gostam de ter aplicações com correlação reduzida ou até negativa.

É aí que entra o mercado de apostas: trata-se de um investimento pouco correlacionado com ativos tradicionais.

Título sem risco tem risco


Nos modelos financeiros, o ativo livre de risco é algo abstrato. No processo de implementação desses modelos, como no CAPM, usa-se o título do governo como representação do ativo sem risco. Basicamente, ele estaria imune às crises, como guerras, depressão e desastres naturais.

Obviamente que esse porto seguro não existe, tratando-se de uma simplificação para fins de implementação prática dos modelos. Quando existem crises extremas, como uma guerra, os problemas dos títulos públicos aparecem e, com eles, o não cumprimento das obrigações, a inflação elevada ou simplesmente o default, ou seja, o não pagamento da dívida.

Existindo crise e o governo não tendo acesso a um mercado de crédito, o jeito é não efetuar o pagamento das dívidas. Entretanto, a crença trazida pelos modelos tende a subestimar os riscos existentes nesses títulos.

A figura mostra alguns desses momentos para o Reino Unido, entre 1729 e 2023.  

Robô jogando tênis

Aqui um link mostrando um robô jogando tênis. A empresa responsável pelo desenvolvimento não entregou a informação se o robô consegue disputar uma partida completa, mas o vídeo mostra que os sensores e a visão computacional da máquina permite posicionar-se na quadra e bater na bola, como um jogador amador. 


É um grande progresso em termos de execução de movimentos.  

Al Capone

 

Vídeo interessante, com animação em IA, que relembra a história de Al Capone e sua punição não por crimes violentos, mas por evasão fiscal. Trata-se de um episódio quase mítico, que costuma ser lembrado como um momento de heroísmo dos contadores. Considerado o maior gângster da história norte-americana, Capone foi condenado a 11 anos de prisão e acabou se tornando o prisioneiro nº 85 em Alcatraz. Ali, seu dinheiro e sua influência tinham pouco valor. No fim, porém, sua maior adversária foi a própria saúde. A neurossífilis deteriorou progressivamente sua mente. Sem tratamento adequado, Capone foi libertado sete anos depois, já bastante debilitado, por não ser mais considerado um perigo para a sociedade.

Rir é o melhor remédio

 
Diversos
 Fonte: Estadão de hoje

15 março 2026

Amazon e o fisco italiano


A Amazon enfrenta uma complicada disputa tributária na Itália. A empresa já pagou 527 milhões de euros ao governo para tentar resolver o problema, mas a promotoria de Milão parece não estar satisfeita. A justiça do país já solicitou o julgamento da unidade europeia da companhia, sediada em Luxemburgo, incluindo quatro executivos, por evasão do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) na Itália entre 2019 e 2021.

Além desse intervalo, a Procuradoria Europeia estaria investigando infrações semelhantes ocorridas de 2021 a 2024. A justiça de Milão também apura se a empresa manteve um estabelecimento permanente não declarado no país, uma vez que possui escritório na cidade, mas registra as vendas no paraíso fiscal de Luxemburgo.

Concorrência em auditoria e consultoria financeira na Turquia


A autoridade de concorrência da Turquia, Rekabet Kurumu (RK), resolveu investigar 65 empresa de auditoria e consultoria financeira. Entre os nomes, as chamadas big four. 

O objetivo é verificar se as empresas agiram de maneira a restringir a concorrência no mercado de trabalho. Além disso, existe a desconfiança de combinação de preços e política para impedir novos concorrentes. Eis o comunicado:

Os serviços de auditoria independente e de contabilidade pública certificada constituem um dos principais elementos de infraestrutura do sistema econômico para a transparência, confiabilidade e crescimento sustentável dos mercados financeiros.

Esses serviços têm importância crítica para permitir que investidores, credores, autoridades públicas e outros stakeholders tomem decisões bem fundamentadas.

Portanto, o estabelecimento de um ambiente concorrencial saudável nos mercados relacionados a esses serviços é um requisito não apenas para aumentar a qualidade dos serviços e manter os preços em níveis racionais, mas também para garantir a integridade do ecossistema financeiro, protegendo os princípios de objetividade e independência.”

 

14 março 2026

Habermas

 
Jürgen Habermas (Düsseldorf, 18 de junho de 1929 — Starnberg, 14 de março de 2026) foi um filósofo e sociólogo alemão, participante da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt. Dedicou sua vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias sobre a racionalidade comunicativa e a esfera pública, sendo considerado um dos mais importantes intelectuais contemporâneos.[2]

Associado à Escola de Frankfurt, tendo sido assistente de Theodor Adorno, cooperou com este na crítica ao positivismo lógico, especialmente à influência deste na sociologia. Desenvolveu sua teoria dos interesses cognitivos, em sintonia com o pensamento de Herbert Marcuse, especialmente em relação ao interesse emancipatório. Desde o início, sua obra transitou em torno da categoria da interação.[3]

O trabalho de Habermas trata dos fundamentos da teoria social e da epistemologia, da análise da democracia nas sociedades sob o capitalismo avançado, do Estado de direito em um contexto de evolução social (no qual a racionalização do mundo da vida ocorre mediante uma progressiva libertação do potencial de racionalidade contido na ação comunicativa, de modo que a ação orientada para o entendimento mútuo ganha cada vez mais independência dos contextos normativos)[4] e da política contemporânea, particularmente na Alemanha.

Em seu sistema teórico, nomeadamente quando desenvolve o conceito de democracia deliberativa,[5] indica as possibilidades da razão, da emancipação e da comunicação racional-crítica, latentes nas instituições modernas e na capacidade humana de deliberar e agir em função de interesses racionais. Habermas é também conhecido por seu trabalho sobre a modernidade e, particularmente, sobre a racionalização, nos termos originalmente propostos por Max Weber.[6] O pensamento de Habermas também foi influenciado pelo pragmatismo americano, pela teoria da ação e mesmo pelo pós-estruturalismo.[7] Seus trabalhos têm sido estudados, debatidos e aplicados em vários campos do conhecimento, desde as Ciências da Comunicação ao Jornalismo, da Sociologia à Ciência Política, da Filosofia da Linguagem ao Direito,[8] com enormes contribuições no que tange especialmente ao giro no sentido da concepção de democracia deliberativa. 

 Fonte: aqui e aqui

13 março 2026

Custo Assimétrico

Uma luta entre um forte e um fraco tem sempre no primeiro o favorito. No entanto, há vários exemplos onde isso não ocorre; Davi e Golias é o caso mais emblemático. No mundo moderno, a informação contábil pode ser um indicador dessa diferença. Note o que encontrei em uma newsletter do The New York Times de 4 de março, referindo-se à guerra contra o Irã.

O conflito com o Irã está fazendo com que o estoque de mísseis atinja níveis muito baixos. A relação entre a entrada de novos suprimentos e o consumo na guerra tem sido negativa nos últimos dias.

Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar da organização Defense Priorities, estima que os Estados Unidos gastaram mais de 10 bilhões de dólares em sistemas de defesa aérea apenas nos primeiros dois dias de combate. Não é preciso dizer quem é o Golias dessa história.

Há uma clara "assimetria" de custos: enquanto um sistema de defesa estadunidense custa bilhões, um drone iraniano Shahed-136 custa cerca de 35 mil dólares. Logo no início dos confrontos, o Irã lançou até dois mil drones, totalizando um investimento de 70 milhões de dólares — uma fração do custo de defesa.

Quem sorri com a situação são os fabricantes de armas. Além do aumento na demanda por reposição de estoques, a urgência no suprimento favorece essas empresas, gerando um fluxo de caixa imediato.

12 março 2026

Grammarly e o processo judicial


No início do mês publicamos que o Grammarly estava oferecendo revisões de artigos científicos usando versões de IA de professores famosos. Assim, você submeteria seu artigo na plataforma e um famoso professor da área daria um retorno sobre o texto, usando seu estilo. Na ocasião, comparamos com os bots do Chess, que oferecem ao usuário jogar com “Carlsen”, “Nakamura” e outros jogadores famosos.

A questão é que a iniciativa do Grammarly não foi muito bem recebida. E uma das pessoas usadas como bot pelo Grammarly, a jornalista Julia Angwin (foto), resolveu entrar com uma ação por não ter autorizado o uso do seu nome. O processo movido por Angwin é uma ação coletiva e trata do uso indevido de identidade e do direito de publicidade. A empresa proprietária do Grammarly estava usando nomes e reputações profissionais para promover um serviço comercial. O usuário poderia ter a impressão de que os revisores reais apoiavam a iniciativa.

O Grammarly removeu o recurso diante das críticas e pediu desculpas. Parecia bem óbvio que a empresa sofreria um processo por usar a imagem de pessoas reais. Como ninguém da empresa percebeu o risco de um processo? O contador da empresa já deve estar preparando as estimativas de um passivo para o caso.

Como a IA irá destruir o ensino superior

No primeiro semestre de 2025, como professor de graduação de uma universidade federal, senti o impacto da inteligência artificial na minha disciplina. Há anos adotava, como critério de avaliação, um trabalho escrito. Era um diferencial, pois meus colegas ficavam nas provas escritas, participações e exercícios como forma de avaliação do conteúdo. Com o tamanho das minhas turmas, recebia de 20 a 30 trabalhos para avaliar. Para cada trabalho, duas leituras, significava que dedicava muito tempo para essa avaliação. 

Se há cinco ou dez anos minha preocupação era o plágio, que conseguia detectar razoavelmente com a leitura, a situação mudou a partir do ano passado. O uso de IA começou com redações empoladas, com muitos adjetivos e advérbios. Como o trabalho sugerido era muito específico, a IA não conseguia efetivamente ajudar na obtenção de nota. Mas intuitivamente optei por retirar o trabalho como critério de avaliação e noto hoje que foi uma decisão acertada. 

Assim como eu, outros professores universitários que gostavam de usar trabalhos escritos como critério de avaliação estão diante do grande problema chamado IA. Lendo um texto da Unherd, o autor fala de um problema existencial. Mesmo sendo exagerada a posição do autor, creio que é um grande problema. E isso é agravado pela dificuldade de reconhecer o uso da IA nas tarefas. O autor do texto citado anteriormente fala da falácia da peruca. 

Antes de comentar sobre ela, é importante destacar que os softwares de detecção de uso de IA são falhos e apresentam problemas, conforme já comentamos aqui. Diante disso, alguns docentes passaram a acreditar que tinham o poder de detectar o uso de IA nos textos. Mas as linguagens melhoram com o tempo e precisamos desconfiar disso. Acrescente que uma coisa é o aluno pedir, por meio de um prompt, um trabalho inteiro; a outra, é solicitar ajuda através de uma correção eventual no texto. 

Voltamos então a falácia da peruca, que a IA traduziu como sendo falácia do topete. Considere que eu diga que homens que usam perucas são ridículos e seria melhor que aceitassem a calvície. Um dos motivos principais é que sabemos quem está usando perucas. A questão é que estou pressupondo que consigo descobrir sempre uma peruca na cabeça de uma homem. Mas uma peruca boa é aquela que não desconfio que exista. Se consigo identificar alguém de peruca, não significa que sou capaz de descobrir todos os casos. Esse é o mesmo caso da IA: um trabalho feito de forma eficaz com IA não será identificado pelo professor. 

Quando um professor desconfia que exista IA, isso não é suficiente para reprovar, exceto nos casos que o aluno deixa rastros. Isso já aconteceu comigo, mas talvez seja uma exceção, não a regra. 

Mas esse não é o principal problema, segundo o texto da Unheard. A IA está ameaçando a forma de ensino usada em muitos cursos: a escrita. Escrever é colocar no papel as suas ideias. Quando a IA faz isso para o aluno, o seu esforço de aprender - leiam Brian Caplan sobre sinalização e educação - deixa de existir. Em outras palavras, a IA é uma ameaça direta ao processo de ensino. (Leia aqui sobre IA e escrita)

Eles [as LLMs] são uma droga de solução rápida balançada diante do nariz dos alunos, cujos efeitos reais parecem ser o atrofiamento do desenvolvimento intelectual.

Talvez a solução seja o retorno aos métodos tradicionais, reduzindo a dependência da internet.  Mas realmente isso é difícil para um ensino que hoje tem uma grande parcela feita de forma não presencial e onde espera que o aluno tenha conhecimento das principais ferramentas tecnológicas. E a gestão das universidade tem o receio de voltar a forma "primitiva", em lugar de abraçar, e afundar no lago, com a IA. 


Nota: a IA foi usada para traduzir o texto original do Unheard e fazer uma revisão, sem mudar o estilo e opinião 

Academia e democracia

Como professor universitário, tenho ouvido com frequência preocupações relacionadas à existência de possíveis vieses no ambiente acadêmico. Alguns observadores apontam a presença de tendências predominantes que, em certos contextos, podem dificultar a plena expressão de perspectivas divergentes. As iniciativas adotadas para enfrentar esse desafio têm se concentrado, em grande medida, em políticas de inclusão voltadas a determinados grupos — por exemplo, relacionadas a raça ou gênero. Trata-se de medidas importantes para ampliar a diversidade. Ainda assim, discute-se com menor frequência a diversidade de perspectivas e visões de mundo como um aspecto igualmente relevante para a vitalidade do debate acadêmico.

Não podemos deixar de lembrar do Princípio de Plank

Uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus opositores e fazendo-os ver a luz, mas porque seus opositores eventualmente morrem, e cresce uma nova geração familiarizada com ela.

O artigo a seguir propõe uma reflexão sobre essa questão. Eis o resumo:

 


Este artigo defende uma tese provocativa: a saber, que a estrutura e a composição atuais da academia comprometem a legitimidade democrática. Filósofos políticos frequentemente têm enfatizado que o sufrágio universal, por si só, não é suficiente para garantir tal legitimidade. Nessas críticas, o foco costuma recair sobre o poder desproporcional dos ricos em moldar a política e o discurso público. Argumento aqui que existe um problema mais profundo e relativamente pouco percebido nessa mesma direção: o sistema universitário exerce um enorme poder ao moldar as perspectivas do público por meio de diversos mecanismos. No entanto, a academia é, para todos os efeitos práticos, democraticamente irresponsiva. Além disso, como tem sido documentado em uma série de estudos empíricos, ela é politicamente homogênea. Como resultado, sustento que esse poder assimétrico compromete a legitimidade do sistema político considerado como um todo. Isso pode ser observado a partir de três influentes concepções de legitimidade democrática: o republicanismo, o liberalismo da razão pública e as teorias do consentimento. O artigo conclui explorando alguns possíveis remédios para avançar em direção a uma maior legitimidade democrática.

Fonte: Democracy and the Academy, Hrishikesh Joshi - Philosophy & Public Affairs, forthcoming  via aqui

11 março 2026

Raizen culpa fatores incontroláveis


A Raízen, uma empresa conjunta da Cosan e Shell que atua no setor de energia e etanol, pediu recuperação extrajudicial. Segundo a informação, a dívida seria de 65 bilhões de reais. No planejamento da empresa, haverá um período de 90 dias para negociação com o capital de terceiros oneroso. Além disso, haverá um aporte de capital de 4 bilhões dos controladores.

Segundo a notícia divulgada na imprensa, o volume de dívidas, juntamente com uma taxa de juros elevada, prejuízos e investimentos inadequados, seriam os responsáveis pela crise.

A informação da Raízen ocorreu logo após o Pão de Açúcar anunciar que há dúvidas sobre a continuidade da empresa. Novamente, custo de capital alto e elevado endividamento foram as alegações para a crise.

Parece pouco crível culpar os juros. Na hora da crise, jogar a responsabilidade sobre fatores “incontroláveis” é uma estratégia comum dos gestores. Afinal, juros elevados são coerentes com o mercado brasileiro. Talvez problemas de gestão e governança sejam algo mais fácil de acreditar como sendo a maior responsabilidade aqui.

Morte anunciada da IFRS 14


Em 2014, o IASB emitiu uma norma sobre Regulatory Deferral Accounts, ou saldos de diferimento regulamentar. Desde o início, a IFRS 14, como foi numerada, foi considerada uma norma transitória, ou seja, algo que teria um término próximo quando existisse uma norma mais ampla, com foco nas empresas sujeitas à regulação tarifária.

Em muitos locais, os governos permitem que certos custos e certas receitas sejam ajustados no preço futuro dos serviços prestados aos consumidores. Tem sido comum que futuros ajustes sejam considerados como ativos ou passivos, com a denominação de regulatórios. Mas existia uma dúvida sobre se esses itens deveriam ser considerados ativos ou passivos legítimos. Há uma discussão onde alguns chegam a considerar a IFRS 14 como uma violação da Estrutura Conceitual e o fato da norma ser uma solução temporária fortalece essa visão. 

Isso não atrapalhava a filosofia da IFRS e não desmotivava a adoção das normas internacionais por esses setores ou até mesmo por países. Mas havia o interesse de que as normas fossem aplicáveis também a setores regulados.

Parece que está chegando o momento de descartar o remendo e usar uma norma específica. No comunicado, o de sempre: a norma permite melhorar a qualidade das informações para os investidores e blá-blá-blá. Basicamente, a nova norma estabelece os requisitos para reconhecer e divulgar os ativos e passivos regulatórios.

Há uma previsão de que a nova norma seja chamada de IFRS 20, e não IFRS 14 R, devendo entrar em vigor em 2029.

Imagem aqui 

10 março 2026

Desafiantes do Campeão Gukesh


No dia 29 de março terá início o torneio que irá definir o desafiante ao atual campeão, o indiano Gukesh. Novamente não teremos a presença do maior jogador de todos os tempos, o norueguês Magnus Carlsen (rating de 2840). Carlsen lidera o rating, que mede a força de um jogador, há bastante tempo e parece que cansou de fazer uma longa e cansativa preparação para disputar um título que certamente ele ganharia.

A casa de apostas Kashi aponta Caruana (2793) e Nakamura (2810) como favoritos. O descendente de família italiana Caruana já chegou a disputar o título com Carlsen, mas perdeu. O popular nas redes sociais Nakamura tem hoje o segundo maior rating, atrás de Carlsen, e é muito bom no jogo mais rápido, usado em caso de empate e útil quando está em apuro de tempo. Estão bem no ranking, mas no passado isso não foi decisivo para levar à disputa do título. Em torneios como esse, o preparo mental pode ser muito mais importante.

O próximo melhor classificado no rating é Wei Yi, com 2754, na oitava posição. São mais de 50 pontos abaixo de Nakamura e muito distante de Carlsen. No mercado de apostas, suas chances são de 7% hoje. As chances de Caruana e Nakamura são de 33% e 30%. Pensando nas apostas, logo após os americanos temos o jovem indiano Praggnanandhaa (2741), com 17%, e Sindarov (2745), com 15%. Poucos apostam no holandês Giri (2753), no russo Esipenko (2698) e no alemão Bluebaum (2698), com chances de 9%, 5% e 5%, nessa ordem. Olhando os números, os dois americanos parecem realmente bem favoritos a conquistar o direito de desafiar o campeão, como acredita o mercado.

Continuidade do GPA


Dias atrás, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) incluiu nas notas explicativas do balanço do ano passado um alerta sobre a incerteza quanto à continuidade operacional da empresa. Em situações como essa, há dúvidas se a empresa conseguirá sobreviver no futuro próximo.

A empresa tem hoje baixa liquidez, elevado endividamento e caixa reduzido. Diante disso, o GPA anunciou um pedido de recuperação extrajudicial, tentando renegociar suas dívidas. É uma medida para permitir que o GPA respire por alguns dias, mas será necessário mudar algo na estrutura para sobreviver.

O tradicional Pão de Açúcar conseguirá sobreviver? 

Frase

 É o velho paradoxo. Quando você adiciona grãos de açúcar ao café. Cada grão extra é aceitável, ou pode até deixar o café com um gosto melhor, mas em algum momento você simplesmente colocou açúcar demais. É assim que acontece com as mudanças.

(Tyler Cowen, sobre a revolução da IA) Cowen sugere que cada pequena inovação parece aceitável isoladamente, mas o acúmulo de mudanças produz transformações profundas que as pessoas não antecipam. 

Meta compra Moltbook


Já comentamos sobre a Moltbook, uma rede social para agentes de IA (aqui e aqui). É parecido com os fóruns do Reddit, mas permitindo que os bots publiquem, comentem e votem. A Moltbook viralizou por, supostamente, mostrar comportamentos sociais da IA. 

A notícia de hoje é que a Meta, empresa proprietária do Instagram, comprou a rede social. Segundo o anúncio, é uma tentativa de reforçar a estratégia em investir em sistemas de superinteligência. Um potencial uso é garantir acesso a talentos e tecnologias emergentes. 

O valor da aquisição não foi divulgado até o momento.  

Rir é o melhor remédio

 

Nomes de crianças que foram banidos no México. Cesarea está na lista. 

Investindo em capital natural


O resumo: 

A degradação dos ecossistemas impulsionada pelas atividades humanas ameaça tanto a biodiversidade global quanto os meios de subsistência das comunidades que dependem dos sistemas naturais para produção e geração de renda. No entanto, as evidências empíricas sobre os retornos econômicos da restauração da natureza ainda são escassas. Examinamos se intervenções voltadas ao fortalecimento da natureza podem gerar melhorias mensuráveis na riqueza das famílias, além dos benefícios ambientais. Estudamos uma intervenção agroecológica em larga escala implementada pela organização Trees for the Future (TREES) em propriedades agrícolas na África Subsaariana, combinando pesquisas domiciliares detalhadas com imagens de satélite de alta resolução. Mostramos que aumentos quase exógenos no capital natural levam a ganhos substanciais na riqueza das famílias — medida pela posse de gado — de cerca de 75% até o terceiro ano de intervenção. Cada dólar investido no programa retorna aproximadamente $2.28 em benefícios diretos de riqueza para os agricultores participantes, antes mesmo de considerar impactos positivos na saúde e a captura de carbono. Também documentamos aumentos expressivos na cobertura arbórea e na diversidade de culturas agrícolas, melhorias significativas na segurança alimentar e na diversidade da dieta, além de avanços detectáveis em índices de vegetação medidos por satélite. Em conjunto, esses resultados demonstram que a restauração do capital natural gera retornos ecológicos e econômicos, oferecendo um caminho escalável para um desenvolvimento positivo para a natureza em economias rurais onde a biodiversidade permanece um ativo produtivo fundamental.
 

Restoring Nature, Creating Wealth: Evidence from Rural Households in Africa -- by Geoffrey Heal, Claudio Rizzi, Simon Xu, NBER.  

Há uma corrente que defende que o problema da sustentabilidade poderá ser resolvido dentro do sistema capitalista. De certa forma, é a filosofia do ISSB e dos economistas liberais (por exemplo, Deirdre Mccloskey). 

Especificamente o TREES busca restaurar a natureza para gerar retornos econômicos para populações rurais. Representa um investimento em capital natural. O programa também tem atuação na América Latina

09 março 2026

Iceland versus Iceland


Em português conhecemos o país como Islândia. Na língua inglesa seria Iceland, ou terra do gelo. Durante dez anos, o simpático país europeu batalhou contra empresas que usavam seu nome. Assim, na guerra Iceland versus Iceland, Iceland saiu vitoriosa.

O caso mais emblemático envolveu uma rede de supermercados do Reino Unido, muito conhecida, chamada Iceland Foods. Essa rede obteve a marca Iceland, em 2016, na Comunidade Europeia e passou a tentar impor seu direito perante outras empresas.

Mas o erro foi entrar em conflito com os vikings islandeses: a Iceland Foods tentou se opor à tentativa do país de registrar a marca Inspired by Iceland. A empresa recorreu, perdeu; recorreu novamente, perdeu de novo; e, no terceiro recurso, perdeu outra vez. Há ainda uma instância superior, o Tribunal de Justiça, mas a empresa, em meados do ano passado, afirmou que desistiria da disputa.

Para os executivos da empresa, o cálculo envolveu a pequena chance de vitória diante de três derrotas seguidas e os custos com advogados. Falou mais alto o bom senso e o valor esperado negativo. A rendição ocorreu somente agora, em 2026.

Parece algo absurdo, mas a empresa existe desde 1970 e só registrou a marca Iceland em toda a Europa em 2005. A nação existe desde 874, sendo estranho imaginar que uma rede de supermercados tenha o registro do nome de um país.

Gráfico importante e interessante

 

Os animais mais perigosos do mundo. Os dados são do OurWorldinData e há imprecisão nos valores, como alerta a fonte, mas apresentam uma ideia do que coloca a vida do ser humano em risco. 

A maioria das mortes é causada por humanos (600 mil) e mosquitos (760 mil), sendo que 80% é resultante da malária. Em terceiro, bem distante, as cobras, com 100 mil mortes. O site alerta que o número é uma estimativa, já que os ataques ocorrem na zona rural, onde os registros são ruins. 

Chamo a atenção para o quarto colocado: os cães, com 40 mil mortes. As pessoas tendem a tratar esses animais como domésticos, franqueando o acesso a aviões, shoppings e outros locais de contato. A estatística mostra que parte do número decorre da raiva, transmitida por esses animais.  

A identificação do risco é importante para decisões na contabilidade. Ao revelar dados precisos, o gráfico mostra a importância dos dados para essa tarefa.